2015-05-15

9 da manhã

 
às nove da manhã estou atrás
do balcão de madeira mais
propriamente um tipo raro
de castanho muito mais
escuro do que aquilo
a que o senhor está
habituado e vai
começar o meu
último dia de
cinquenta
anos de
casa

o patrão vendeu a loja aos chineses

deixei o carro num lugar de ninguém
como é costume desde que eles
instalaram os parquímetros
mas não pintaram o
rectângulo final
tomei café no
vitorino que
eu já venho
comido de
casa

vendo
tabaco e harmónicas
o patrão usa um casaco
de lã de inverno ou de verão
e tem um cofre negro no escritório
mas leva sempre o apuro embrulhado para
casa

vendo
bem já ninguém
compra tabaco em lojas
rigorosas com coisas relevantes
penduradas nas paredes e expositores
do melhor vidro e poesia nos guarda-pós que
o patrão substitui meticulosamente todos os dias
por outros novos mais cuidados do que os fatos que
ele guarda no armário para se mudar antes de regressar a
casa

vendo
bem já ninguém
quer harmónicas,
já ninguém quer harmónicas na
rua
já ninguém quer harmónicas em
casa

estou com a lagrimita quando
o patrão fecha a casa pela
última vez amanhã
as trancas vão ser mudadas, o balcão,
o imenso e majestoso balcão,
vai ser desmantelado
e a vitrina forrada
a mandarim
ficou um acordeão
esquecido no alto
do armário
maior
ai meu deus, senhor caius,
disse eu a olhar por mim
abaixo, não tirei
o guarda-pó
é para si, antónio,
deixe estar

cortámos pela travessa da rua chã, como sempre

quer boleia?
não, senhor caius,
deixe estar
ele entrou na 4L
a carreira chegou logo e
ainda virou à esquerda para o tabuleiro de cima
da ponte dom luís, ainda passou para gaia
ainda se cruzou com tróleis
 
lá em baixo, no cais da estiva,
a ribeira descoseu os vultos
dos caixotes
e todos gritaram alto vai-te foder e todos
riram abraçados e entraram
nas tascas e nas
casas
nos varadins estreitos as mulheres preencheram
a falha do estendal com camisas brancas
puseram a mão na ilharga e umas
também se riram e outras
choraram

ai o tacho ao lume

ao longe a arrábida soprava
a noite para a foz e
a afurada ouvia
o amanhã
às nove da manhã
se me forem ver
procurem devagar
e com cuidado o meu
lugar em casa

voltarei eternamente
sou de cá tenho
harmónica
não tenho 
mais nada 
o acordeão ficou
esquecido no alto
do armário
maior



PG.M 2015
fonte da foto

8 da manhã


às oito da manhã sobre o rosto
a lâmina e dentro dela a
espuma e na figura o
medo e no jorro
o tempo
e um minuto
depois o sulco e nem
segundos depois o
sangue e na vizinha
toca nirvana

come as you are

e eu vou


PG-M 2015
fonte da foto - de Getty Imagens, Kurt Cobain

2015-05-10

Atlântico campeão nacional de voleibol

 E aí está. Há três anos campeão da 3ª, há dois campeão da 2ª, há poucas horas o nosso Atlântico da Madalena sagrou-se campeão nacional da 1ª divisão. Só com portugueses. Num jogo épico, em que esteve a ganhar por 2-0 e teve oito match points no terceiro set, permitindo a redução do outro grande finalista, o Castêlo da Maia, com um 35-33 (!!!) - grande jogo do Castêlo - e depois de se deixar empatar a 2, o Atlântico venceu a negra por 15-13, levando o pavilhão do Castêlo (repleto de gaienses) ao rubro. 
Parabéns também ao Benfica, que venceu nos Açores e inaugurou um novo título máximo, campeão de elite. É uma página histórica para Gaia. Ficam abaixo, em vídeo, os momentos finais do jogo do título.

2015-05-09

letra kitsch para música insigne por escrever que pode vir a ter como título nunca me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

 Deixa-me um cartaz na estação de são bento a dizer que ainda me amas e procura o meu corpo entre os trapos e os cartões e as garrafas que o carro do lixo recolheu às quatro da manhã do vidrão,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me andar pelos cantos da cidade com o resto da verdade e fome e sede e saudade perdido nas veredas do progresso e na delícia gratuita do índice médio de sucesso e felicidade e qualquer modo social de agressão,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me encontrar o teu olhar no reflexo de uma loja quando eu estiver diluído no granito que dá consistência às moradas dos que vivem por cima dentro das portas sem fome e deixa-te ficar a analisar os itens que consideras adequados para aquisição no próximo pretexto ou ocasião,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me um abraço dos nossos filhos na soleira onde eu dormir quando eu já não puder vir por ter sido removido de ambulância paras as macas dos corredores do santo antónio em urgência humanitária e diz-lhes que há muitos poemas que explicam o fracasso do pai no projecto da nação,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me um sinal de memória no foyer do crematório do cemitério do prado do repouso ou entre os altares abandonados dos outros mortos decentes dos jardins do além e canta baixinho aquela nossa canção remendada a cuspe com os restos que tens no coração e no meridiano de todos os amores que vivemos à vista de um instante de paixão mas

nunca, nunca, nunca

me deixes morrer de tristeza nas noites de verão 


cantada por PG-M (2015)

2015-05-04

as mãos


olha as mãos distintas da mãe
segurando a travessa a caminho
da mesa
olha a tristeza

subindo pelos fumos do jantar
olha as minhas próprias mãos roçando a toalha de linho
junto ao joelho da prima e olha para ti depois de tudo
fraco para evitar que da revoada ou da bruma
volte a descer o desgosto
o pai tinha uma mãos bonitas que nas costas e nas falanges
tinham pelinhos curtos que à morte foram brancos
e ainda cingimos quentes porque nós,

já velhos, esperámos no quarto o fim
como em meninos a alvorada

um de cada lado do pai de mão dada pela alameda dos plátanos
que no verão era a infinita lonjura
da ventura
e na primavera o trilho infausto dos amores
no outono as folhas de pontas caídas
no inverno as próprias mãos do pai
mais do que os casacos e os chapéus
e os galhos suplicantes
até nos encostarmos à cerca de cimento caiada a branco
da estação
e quando os comboios passavam
o pai nos puxar para ele e as mãos
nos guardarem


perpetuamente


como matéria negra onde
explodem supernovas
e bailam trajes de luzes
pelas eras

terás mornas as mãos dos que amaste
entre as tuas e os laços dos dedos

atados para sempre
olha as mãos dela apertando os livros
ao peito e a travessia

contigo, olha as mãos
a velar o sorriso, olha
a estrela polar na galáxia
proximal e as mãos enfim
entre as tuas ou em concha
sob os frutos
olha as mãos dele sem saber onde ficar
na vertigem do cruzamento
com ela, olha as mãos

nas algibeiras, olha
a estrela polar na galáxia
proximal e os nós
sobre os teus no curso
dos afluentes

olha as mãos dos bebés a dar-te
virtude
olha as mãos das crianças a dar-te
guarida
olha as mãos dos amigos e
os braços que em partes
da vida são inteiros

amparos

olha a piedade
das mãos dos maestros
em todos os aplausos
que abriste
olha as mãos dos médicos
a erguerem tabiques

entre os medos

olha as mãos dos professores
no giz que alumia
o quadro negro
olha as mãos que pungem

as teclas e erguem as forcas
dos números, de como é devassa
a hierarquia
olha as mãos no gatilho
das pistolas com os canos apontados
às bocas
olha as mãos nos microfones
dos que falam sem voz
de como é deus

o nada

olha as mãos dos músicos a pedir
esmola

olhas as mãos dos escritores
na ocultação exacta
do inútil
olhas as mãos dos pintores
no cosmos do traço
exordial
olha as mãos dos escultores
na evidência da
amputação


olha as mãos que formaram violinos
do arame farpado e descansam
com perdão e lágrimas
nos dedos
desfeitos os punhos que combatem a memória olha as mãos
sinaleiras sobre as mãos sinaleiras


olha outra vez a piedade
das mãos sobre o teu rosto
olha as mãos dos padeiros sobre a fome


olha as mãos de tribunos sobre o

brio, olha a espada nas mãos
de magistrados e padres
nas mãos de profetas
olha filósofos em silêncio e mãos
no ar e o riso troante
nos campos finitos e no mar
olha as mãos dos pescadores
olha as mãos dos poetas a chorar
olha as mãos de polícias

a abjugar e a arder
como as mãos de bombeiros
olha as mãos dos carpinteiros na

saciedade e as de troia
em todos, todos!, os cavalos
olha as mãos dos sapateiros
nos caminhos por fazer
olha as mãos na água por beber
olha as mãos na terra por comer
olha as mãos da avó
a pelar as castanhas cozidas
e as mãos do avô nas malgas
de vinho e nas conchas
de sopa

olha os abraços à porta das aldeias
olha a piedade do vento

nas mãos da turba e a solidão
das mãos do mundo inteiro
nas mais longas auroras e agora
olha as mãos da mãe a ceder ao inverno, lassas
da forma que deram aos colos, doridas
da leveza que ofereceram às
almas
e aos solos
olha as mãos do pai
como galhos suplicantes
o pai na alameda dos plátanos de chapéu e
casaco, por fim



PG-M 2015
fonte da foto

2015-05-01

notas sobre a grande audiência, ídolos, whiplash e rosselini


O lado bom da grande audiência. Sou lentíssimo a arrumar a cozinha, gosto de intercalar a tarefa com a televisão, porque há dias em que só a vejo a esta hora. Vejo o sempre excelente jornal do Pedro Mourinho, salto a meio do Marcelo e depois, de costas e entre pratos, se os suportar, os programas que se seguem em ambos os canais. Curioso o que hoje me fez mudar de canal, já depois do palhaço Raminhos. A dose de lamechice da Cristina e do júri no pós-dança da Cuca foi tão exagerada e artificial, que eu, telespectador burro, como eles pensam, percebi logo que alguma coisa se passava no outro canal. Estreia do Ídolos, pois. Tenho de agradecer a este programa o serviço que prestou a uma canção que eu amava sozinho desde 2008, quando alguém se candidatou com ela ao Ídolos de 2012 e fez dela um sucesso nacional. Apesar de o sucesso de uma música ter tendência afastar alguns melómanos, o "Anda comigo ver os aviões" é uma bela letra kitsch e, para mim, a mais bonita canção que se escreveu nos anos 00. Mérito do agora mediático Miguel Araújo, um letrista e músico genial, que já tem municiado, por exemplo, o Zambujo (que também a cantou). Portanto, o Ídolos faz esse serviço público. Nesta fase de castings nortenhos (o nosso sotaque é o mais bonito do mundo), farto-me de chorar a ver aquilo. A brutalidade "whiplash" já vai incorporada em alguns concorrentes, e isso é bom. É evidente que por lá passam bons músicos, mas também é evidente, e outra discussão, que muitos dos que lá vão querem um sonho rápido, não propriamente trabalho, - mas não se pode censurar isso a pessoas tão jovens. O Abrunhosa nunca passaria, o Camané nem pensar, o Bob Dylan seria gozado, o Leonard Cohen mandado embora de fininho, a Madonna era corrida com insultos, só para citar alguns. Na volta do comando, vi dançar na 4 um casal de jovens com trissomia 21, ela tinha um sorriso tão bonito que comovia. Voltei a chorar. Fico sempre sem chão com o afecto sem filtros. Achamos que é muito cool, muito in, socializar à estalada, e estas pessoas, com que também me cruzo por razões profissionais, fazem-nos sentir ridículos com o amor incondicional por todos, mesmo pelos que conhecem mal. E estou de coração cheio tendo engrossado as audiências, que sou capaz de abandonar para vos vir contar isto e, agora, ler. À tarde vi Roma, cidade aberta, do Rosselini (bendito ciclo) e voltei a chorar - a cena não podia ser mais simples, mas o óculo do Rosselini sabe muito: o padrasto aconchega o enteado, um menino de uns seis anitos, que ele não sabia ter sido cúmplice, nessa noite, com o grupo de crianças de que fazia parte lá no prédio, e cujo líder era o Romoletto, de um atentado com uma bomba artesanal aos nazis que ocupavam Roma, e pede-lhe para contar o que se passa, o menino diz que não pode, que é segredo, o padrasto conforma-se, se é segredo, guarda-o, e, como amanhã o padrasto se casa com a mãe (Ana Maganani), o menino pergunta:

- A partir de amanhã posso chamar-te pai?
 - Se quiseres.
 - Sim, quero.
 E diz o menino:
 - Te voglio tanto, tanto, bene.
 E abraça-o, sob a macro de Rosselini.

  Não há nada de transcendente em nada disto, nem eu estou particularmente fragilizado, mas a vida - não necessariamente a felicidade ou a tristeza - é assim mesmo. E isto faz-me pensar. O que é magnânimo, afinal? A nota densa, complexa, do Whiplash, do Ulysses ou da Recherche ou os aviões do Mendes na voz transparente de um miúdo ou o abraço do pequeno enteado no desarmante preto e branco do Rosselini? Eu acho que é tudo, se não se limitar a passar, como a garota de Ipanema, ou mesmo ela, se regressar a nós. Boa noite e boa semana. 

PG-M 2015
fonte da foto


Euronews



Euronews: não sei se foi por isso que o Guterres escolheu este canal para dizer que não é candidato a candidato, mas aproveito para dizer que o canal é para mim, há muito, um modelo de qualidade, e na última hora fiz um apanhado para poder dizer que ouvi, sempre interessado e com um razoável nível de profundidade e rigor, notícias sobre política, religião, economia, tecnologia e desporto, e em cada área informativa nem sempre domina o óbvio. O desporto é disso exemplo. Aliás, não houve futebol nesta hora, mas esgrima e pólo aquático, entre outros, sem perda de interesse. Já sei que não percebo nada disto, mas, como espectador, sei o que é a mediocridade. Estar sempre a repetir os mesmos temas e falar cem vezes de cada um não é qualidade. Muitas vezes espanto-me como deixam de dar notícias que até são vendáveis como bons momentos televisivo. Claro que isto acontece porque, na lobística que serve de funil, às vezes de forma evidente, às vezes de forma indolor, tal não é admitido. É preciso dar minutos ao mais visto e se for mesmo mais visto é repetir e repetir e repetir. A Euronews, aliás como eu já percebi também com o El País, chega a dar-me notícias sobre Portugal de forma mais esclarecedora e com mais qualidade e objectividade do que qualquer tasco de notícias da pátria. Era isto.

PG-M 2015
fonte da foto

Esse abraço foi surpreendente

 Título:
Vimos é de vir e de ver, vir no cortejo, ver o céu impossível, assim, ah sim

Corpo:
Ensina-me. O silêncio é baixinho? Conheces? Já viste onde trabalha? Não é na secção quatro da repartição sete da rua chã? Não é o único do jardim interior que usa casaca lisa sem condecorações? Ensina-me. Ensina-me a escrevê-lo. Abro parêntesis. Espaço. Fecho parêntesis. Já está. Oh, então canta-me qualquer coisa, estou tão cansado, não quero falar mais. Vimos no cortejo dos carros pretos e o céu tão claro que é impossível. A tua canção são gemidos em duas oitavas, não percebo nada, mesmo nada, mas continua, a música é mesmo assim, porque me haveria de emocionar o teu volapuque? A verdade é que emociona. Então sorrimos. Não preciso que me ensines isto. Já sei ler. Sei ler, ainda que os sorrisos sejam textos raros. Há poucos nas nossas idas e voltas e idas e voltas e idas e voltas. Com efeito, aparece um por semana, e aparece sempre assim, à sexta-feira. Ah, sim, peço perdão, adeus, bom fim-de-semana. Esse abraço foi surpreendente. Ensina-me. Tens cinco minutos?

PG-M 2015 
fotografia do Porto (Pasteleira)

voltou

voltou.
voltou esta coisa que me regista numa faixa acima ou abaixo da vida e do mundo que escorre regular, peço o dobro dos cafés e bebo-os e pago-os feliz, imagino que por fora os meus olhos sejam uma espécie de vidro com espirais, não é loucura, isto não é loucura, é um labirinto sem paredes, um parque aquático seco no meu corpo tubular e as pessoas a fluir por dentro aos gritos e às gargalhadas e eu vejo em cada esgar o sentimento enciclopédico de todos os imperadores e de quem os serviu e de quem nunca os serviria, como diria o Fernando, uma criança a ler as horas desde o gato, um menino a render-se a uma máquina fotográfica, um velho a nascer, já vos deixo em paz, mas a verdade é que já nada mais me serve, serve-me isto e isto não é sempre assim
.

PG-M 2015

Selfie


É curioso como olho para este lugar, cada vez mais, como um lugar vago, com a cara da solidão, apesar de tanta gente, como se visse desfilar uma multidão parda e silenciosa e conseguisse ouvir algumas conversas de circunstância - queríamos que fosse aquele permanente almoço barulhento entre amigos, em que tudo o que dói fica suspenso - ou o jantar alaranjado com fumos de forno e um tinto denso em que nos levantamos para ir buscar um copo e ouvimos uma gargalhada a puxar outras e o ar corpulento, como o vinho, e não pode ser sempre assim, vimos por aqui bem intencionados para que alguma coisa nos mova, ou apenas para deixar imagens maiores do que nós e assim completar a ilusão do nosso tamanho, preocupa-me, preocupa-me não valer a quem ainda não aprendeu que a vida tem de ser um esforço permanente de levar o sangue ao ponto de ebulição, mesmo em plena tristeza, podes estar sereno perante uma paisagem arrebatadora, em silêncio, e profundamente triste, como aqui, de olhar vazio para o ecrã azul e branco, mas o sangue tem de passar espesso e em alta tensão, sempre, não é um programa de saúde, não é sequer um abraço, há momentos tão desventurados que queremos é que nos deixem, que não nos toquem, que não nos falem, vai a multidão parda e tu podes agarrar num braço, sair dela, sentares-te a tomar um café e uma conversa de disparates levantar a película aderente dos nossos dias e sem querer estamos a consumi-los, a comê-los como deve ser, e até o trabalho, um bom dia de tensão, pode salvar-nos da incomensurável tristeza, aflição, ansiedade, medo de falhar, estamos aqui no centro de um multidão parda e podemos, sem demagogia ou lamechice, dar o grito de várias formas, e a infinita dolência, como a infinita alienação, são duas gémeas a percorrer os corredores do hotel e o melhor que tiramos daí são vários Jack Nicholsons que espreitam a todas as portas sem querer, realmente, saber. Se formos capazes de manter o sangue em ebulição, pousar o telemóvel, desligar o pc, abrir a boca e ouvir, fazer barulho e calar, nada do que é bom é contínuo, nada do que é mau é contínuo. Está gente fosforescente a sair da multidão parda e a encher as margens, há um rumorejo que cresce, já ninguém promete cafés ou jantares, já ninguém adia para depois da morte, já todos seguiram o bom exemplo dos velórios e funerais, onde homenageamos o outro, não a nós, onde cuidamos dos que os cuidaram, não de nós, onde não nos fotografamos, onde descobrimos um tempo impossível, em vez de nos ocuparmos a afastar todos para longe, e agora eles, os fosforescentes, falam, eles falam todos uns com os outros. Que raiva, dizem. Olha, dizem. Ouve, dizem. Caramba. Caramba.

PG-M 2015

Ana de Amsterdam e Thomas Bernhard

 Outro dia, em plena leitura cúmplice, ia escrever "como é bonita Ana de Amsterdam".
E depois de Thomas Bernhard senti-me enganado.

Aqui por casa todos se riam quando eu dizia que nunca tinha lido ninguém tão inconveviente, bruto e insensível para a sensibilidade média das cidades e do mundo como o Thomas, e no entanto algo de luminoso sai de cada linha, a textura das frases é fresca e redentora, e não é exactamente o que vi dito dele na imprensa, com os graus superlativos e comparativos do costume, como se o tempo já tivesse acabado ("Herberto cortou o século XX em dois", vejam bem, e nem sequer foi incluído nos quinze anos que adentrou o XXI). Do Bernhard há passagens perfeitamente loucas, que foram apenas o exercício desse direito, de ser louco. Ana tem um timbre quente, às vezes fervente, mesmo quando diz que está triste. Se Thomas tivesse dito mal do Porto como, por exemplo, de Salzburgo, eu ia sorrir e aproveitar a oportunidade para evoluir. Mas Thomas está morto e esse diálogo faz-se de outra forma - quando vivo, poucos entre os visados aproveitaram a oportunidade para evoluir, pelo contrário, cerraram as fileiras da mediocridade. Já Ana está viva, bem viva, e é desconcertante e estimulante. É um teste de hipocrisia que se podia comprar nas farmácias como os testes de gravidez. E uma verdadeira páscoa. 

PG-M 2015

O adeus do mestre, mesmo que não seja


As asas do vento, do mestre Myazaki, que ele próprio anuncia como a sua última obra, não é bem um filme, ou não é apenas um filme, é um momento. Realmente vê-se o mestre a dizer adeus a toda a hora, em cada traço, na música que escolheu, pelo génio de Hisaishi, na forma como os próprios sons das máquinas são humanos (não é a primeira vez, mas é a mais intensa). Também não é o melhor filme dele, porque não é um filme, é um comovente e longo adeus. Até acho que ele vai fazer mais, mas já será o começo de outra coisa qualquer. Podiam é ter demorado menos de dois anos a estrear. É impossível não ficar comovido com esta inscrição do adeus na pele. Ao menos a alegria de o irmão de armas, Isao Takahata, o tal autor do melhor filme de sempre (mesmo entre os não animados: O Túmulo dos Pirilampos), ter um novo poema à porta dos nossos cinemas: depois da Mononoke, a princesa Kaguya.

PG-M 2015

o poeta a dar à pata para um verão interior



O poeta a dar à pata para um verão interior. Estranha hoje a sensação de pedalar, realmente pedalar, na hora do almoço, a ouvir o próprio Herberto a dizer os seus poemas. Creio que já posso falar de Herberto. Quando o povo o fez seu, à morte, quando o descobriu mesmo fingindo sempre tê-lo conhecido (não há logro moderno mais belo do que esse), e encheu os murais de colagens, os pequenos-animais-donos de um Herberto inventado, exclusivo e marginal, correram, desvairados, furibundos, os quatro cantos da própria jaula, e alguns escolheram um silêncio sujo. Eu só quero dar testemunho de coisa incrível que hoje me aconteceu, ouvindo-o. Normalmente o que ouço em exercício físico é para me distrair do sofrimento muscular e respiratório, e o efeito é desligar uma certa auto-consciência, ou seja, foco-me mais no que ouço e menos no que faço ou vejo. Mas hoje, com os poemas de Herberto ditos pelo próprio, tudo o que me rodeava ficou mais nítido, as cores e as sombras mais carregadas, e mesmo na paragem, quando tiro os fones e recebo a imagem da ponte Dom Luís e da largueza daquela curva do Douro, ali em Gaia, junto ao estaleiro dos rabelos, de frente, e me sinto privilegiado por ser daqui, tudo foi diferente, as palavras cósmicas do Herberto ligaram-me a carne e a respiração ao detalhe do mundo. Eu chamo-lhe lucidez, mas nunca o esperei da poesia desta forma. Físico, como um beijo líquido com as línguas a evoluir até à incandescência ou um abraço de braços e pernas de dois corpos nus, o meu e o do mundo inteiro

PG-M 2015

2015-04-30

A saudade é um objecto (uma posse)

 Há fotografias que ganham um valor incalculável.

Faz um ano que tomámos este pequeno-almoço e, no final do dia, na charmosa noite brasileira, o grupo português subiu ao palco do Teatro da Urca e foi implicado num caso de paixão transcontinental. Oito mil quilómetros que ficam em nada.

Esta fotografia não podia ser tirada este ano, porque perdemos ambos.

O Sr Alípio, director do Hotel, era um português radicado neste paraíso mineiro há décadas e desfrutou, intensamente, de cada minuto dos seus portugueses. O Luís foi o verdadeiro anfitrião, porque já tinha ido no ano anterior. Este ano temos lá o José Luís Peixoto. Há momentos bons da vida. Esta semana foi um deles, perfeito, indelével. Não me canso de o dizer, mas hoje tinha de o recordar. Fora do enquadramento, mas presentes, o Gonçalo Carreira, o Joel Neto, o Eric Frattini e o Miguel Roza. Portugal ficou bonito na fotografia brasileira. Saudades de todos, que se curam, menos as destes dois.

Curiosamente, as saudades não são bem um sentimento, são um objecto. Uma posse. Não se sentem, têm-se. E por isso se levam a tudo e a todos. Tomem lá as minhas.

A actriz Livia D'Angelo fez quinze anos nesse dia. Hoje faz dezasseis. É ela que observa a Caroline a dizer a Tabacaria. Retenho esse silêncio sublime da Lívia.



PG-M 2015
Ps: o momento único, espontâneo, da Tabacaria da Carol e da Lívia pode ser visto aqui

O "Happy", vídeo que passou novamente este ano no festival, recordando o nosso grupo, vê-se aqui

2015-04-17

Castellana


tienes las líneas tan lúcidas
que en la galería de la calle mayor
siempre te exhibes en matices de

blanco

pero el deseo es un golpe negro

te escribiré con la lengua seca
para que tus nalgas brillen
en saliva esencial

alcanzaré solo un beso tímido
entre tapas,
castellana

y al final,
desde la calle mayor,
la multitud oirá solamente
la perdición

siii     nooo
siii     nooo

que es el léxico universal
del asentimiento de los cuerpos
y de la cesión

de las almas


PG-M 2015
Foto de Nagore Aramaburu, que por acaso é basca. Fonte aqui

2015-04-15

Francoatiradores


Primeira parte: o fenómeno Ana Catarina. Ana Catarina já abateu a tiro dois escritores. Fui um deles, hoje mesmo. Fiquei fã. Nuno Camarneiro chamou-lhe francoatiradora. Confere. Questiona sem pudor, dialoga, mas não tem perguntas porque tem convicções, fortíssimas convicções. Mas vamos por partes.

Segunda parte:
Cremos que as descrições da luz estão todas feitas. Mas eu ainda não descrevi isto:
vejo-os assim. Um olhar, talvez metade de um olhar, e quase toda a cara é luz, não quero saber o que vestem.

Mas vamos por partes. Terceira parte:
Eles pensam que eu vou à escola pelo meu texto, pelo meu livro, mas nós, eu e os meus livros, que são deles, somos apenas os pretextos. É tudo sobre eles. Eu quero que seja sempre tudo sobre eles. Tem de haver uma sedução singular da literatura aos jovens leitores, e creio que a forma de o fazer ainda não foi devidamente pensada. Até a frio poderíamos dizer que eles, sendo leitores agora, são o corpo do leitor informado e criterioso do futuro, ou seja, não vale a pena apressá-los, apenas deixar as sementes, seduzi-los. Eu sei a marca que a mera imagem de Saramago, a dez metros de mim, deixou nos meus vinte anos, na altura em que o mundo nos ensinava a não gostar dele. A outra, em Penafiel, a pouco mais de seis meses da sua morte, foi outra coisa, foi um corolário de qualquer coisa e eu já tinha crescido.

E é como lhes digo: se a obra só pode ser avaliada, devidamente avaliada, muitos anos depois da morte do escritor, apesar da miríade de prémios (quantos prémios nóbeis estão ignotos e sem leitores?), o que estamos nós, escritores, a fazer aqui, agora? A esconder-nos dos leitores? A viver num olimpo de cortiça longe de tudo? A fingir de mortos, decidindo a nossa própria relevância? Não. Não eu. Eu sou apenas corpo e vou até aos corpos que me esperam. Estes, ainda ontem deitados ao mundo, são um olhar, talvez metade de um olhar, e quase toda a cara é luz, não quero saber o que vestem.

E eu tenho uma consciência aguda, quando escrevo sobre os magníficos que se destacam em cada sessão, que são muitos mais os que ficam na sombra, às vezes leitores de uma vida, alguns já com maturidade para decidir que não se querem desiludir e que o autor, para eles, não é uma pessoa física, inteligível. É por isso que hoje eu e um grupo de professoras concluímos que o "pathos", o intenso pathos dos 9ºs anos de escolaridade, acontece porque eles ainda estão no colo dos pais, ainda não erguem barreiras ou distâncias e todo o arrebatamento, todo o fascínio, é permitido. Mas não é hoje, ainda, que  vou escrever sobre essa espantosa experiência de ter passado sete horas numa escola porque os alunos me quiseram lá, como aconteceu em Vilar de Andorinho - embora tenha recentemente publicado no meu facebook a fotografia da Andreia, uma rapariga agarrada ao meu primeiro livro, "A manhã do mundo", enquanto assiste à sessão, e que está nessa franja dos que ficam na sombra e, provavelmente, nunca nos aparecerão à frente, mas serão grandes leitores.

Esta longa introdução serve apenas para disfarçar os magníficos da sessão de hoje, 15 de Abril de 2015, no Olival, e que vou nomear. Mas insisto: voltarei para falar dos que ficaram na sombra, se algum dia comunicarem.

Quarta parte, que volta à primeira:
O fenómeno Ana Catarina.
A Ana Catarina não é apenas uma rapariga que quer provocar desconforto no interlocutor. É profundamente inteligente, está sempre com um sorriso - parcialmente cáustico, parcialmente franco. Não sei se tem boas ou más notas, sei que tem o barro dos grandes. O actual sistema de ensino não permite, propriamente, perceber este tipo de excelência. É burro e burocrático. A Ana Catarina, essa, é uma força da natureza. Questionou todo o seu mainstream social, mas é muito curioso: exaltou, provavelmente sem se aperceber, um filme como o Titanic, que foi o mainstream social da geração anterior. Mas fê-lo com tal conhecimento que me vai obrigar a rever o filme: muito por causa da Kate Winslet. E da Ana Catarina, claro.

Havia uma menina que sabia cantar uma música da Nena. Caramba. E, apesar de eu lhe ter dito que nenhum verdadeiro fã da Nena Kerner gostava do 99 redbaloons - pedi-lhe  pelo menos a versão em alemão -, caramba. É bom, caramba.

O fenómeno Cristiana Dias. Pequenina, doce, e no entanto a fazer-me lembrar tanto o que eu era da idade dela. Eu, que era doce, mas nunca fui pequenino. Atravessada pela paixão da música, clarinete, ficou hoje com duas incumbências suplementares. Um livro e o filme, porque a comparei à Setsuko do Túmulo dos Pirilampos. Perguntei-lhe, no fim, se achava que era discreta, se se diluía na multidão. Disse-me que, se não fosse chamada a intervir, sim, diluía. Eu disse-lhe que não. Que uma pessoa como ela se destacará sempre na multidão. Fico para o segundo acto.

O Pedro fez uma pergunta, foi o único, o corajoso, mas eu obriguei-o a começar assim: "Pedro, tu, que tens um nome fabuloso, nós, que temos um nome fabuloso...". E perguntou sobre a Manhã do Mundo.

A Cristiana Ferreira, ainda que suavemente questionada por aqueles risinhos naturais de colegas, fez-me sentir que o que dela descrevi foi um tiro certeiro. Que ela é mesmo assim, que a adivinhei, mesmo que seja impossível decalcar completamente uma personalidade que se está apenas a projectar. Mas o sorriso dela, no final, era de "closure" (calem-se lá os puristas, não há tradução para o tom original de "closure", é uma bela palavra inglesa).

E a Mariana Moura, e o João Oliveira, e a Inês Peixoto.
E a abertura com a Sara Moreira, sem sono, presente, alerta, fantástica.

E finalmente o Edward Norton. O Edward Norton estava na Diogo de Macedo. Se ele me fizer a gentileza, um dia ainda juntarei foto a provar isso. Entretanto, dá pelo nome de Paulo Tavares e lê muito bem, mesmo apanhado de surpresa. Leu o texto "Abigail, abigail, abigail", de uma sessão anterior na Diogo de Macedo.

Voltarei. Sempre. Pela Luz.


PG-M 2015
Foto de Ana Catarina

2015-04-09

Três da tarde


tenho os dedos sobre a mesa de mogno
e já são três da tarde
e sob os dedos saudade

 
eu não devia estar aqui 


na tua nudez
tenho a boca sobre o vidro  
e atrás do vidro a
pele

 
e eu não devia estar aqui

 
uma lâmina
uma língua
às três da tarde
com o queixo no granito
da igreja
onde só eu
volto invisível 
e às três da tarde

sumo
do resto
das horas
com os dedos sobre a mesa de mogno



PG-M 2015
fonte da foto

Uma da tarde


À uma da tarde vais comer

ou és comido por ela
fincas o braço no balcão,
se fores aldeia,

e comentas o futebol,

fincas a alma no bruá
cinzento do bistrot,
se fores cidade,

e comentas o futebol



PG-M
fonte da foto

2015-04-08

sempre foste a mais bela da rua


Sempre foste a mais bela da rua
mas antes do medo, meu amor,
eu exaltava o teu cabelo
e as minhas mãos nele
agora não tens cabelo e

usas na cabeça um lenço com motivos indistintos

tens chorado ao espelho
preferes que não te toque
achas-te feia e fechas as
portas

já não há pretextos, meu amor,
ainda que os teus olhos tenham
uma tristeza comprida dentro 
e ela escorra nas paredes e
faça ruído na escuridão 

já não há pretextos 
e está tudo igual,
excepto a beleza

que antes tinha detalhe
e o volume dos cabelos 
e o engano da textura
e a ilusão do perfume
e agora é apenas

absoluta



PG-M
fonte da foto

Beat


eles ficaram surdos aos sons pequenos
das coisas grandes e no fim do mundo


dentro dos barcos à deriva nos mares 

os meninos choravam com os fones nos
ouvidos a escutar a gravação do próprio


mar


PG-M 2015
fonte da foto

5 da manhã

 
quando chego à cama pelas cinco

não gosto que estejas virada para norte


deito-me fetal na margem sul
bebo televisão por uma palha
e quando o vasto leite da inconsciência
se entorna pelo quarto
a paz de dentro quer unir-se à paz de fora
e a massa do silêncio da rua chega
ao fundo dos pés que esfregamos
entre os dias
um de nós procura o comando e o fim
deste dia e a distância do outro


persigo com a mão esquerda qualquer forma


tua, abrando
as pálpebras
os lábios não
hei-de deitar-me de costas como um cadáver
de bruços como os vivos pelas praias
sobre o meu lado direito como a mãe
me punha no berço
sobre o meu lado esquerdo quando tu


cravas as unhas na manhã
e digo
tem calma, meu amor, tem calma,
dorme o último troço
da treva


esta noite foi belíssima
mas mentira
era o que faltava
contar num poema
a geografia da noite

que somos nós no esplendor
do que nunca dirão
de nós, portanto


das 5 da manhã em diante

a substância parda e absoluta
do amor



PG-M 2015
fonte da foto

Seis da tarde

 
ela conta os frutos
enche o cesto
faz os doces do outono
faz os golpes
das castanhas
abre o peito
estala a luz
e às seis

(às seis da tarde em ponto)

ama



PG-M 2015
fonte da foto

2015-04-07

7 da tarde

Finge comigo a regressão
ao analógico
toma a mão esquerda
dos teus filhos se
dextros
ou direita se canhotos
cobre-lhe os dedos
com os teus

e escrevam cartas
e escrevam cartas

escrevam cartas
à madonna angelicata
toma-o todos os dias pelas sete
da tarde
e dança 


compra selos nos correios e envelopes
na venda
não lhe expliques Petrarca
diz só finge
comigo a regressão
enquadra-lhe o gesto na precisão 
das entrefaixas e quando
a agulha romper o vinil
 

mostra-lhe a primeira de todas
as cartas de amor



PG-M 2015
fonte da foto

2015-03-30

Rocha

Rocha. Pedra. Pedro.
Pedro. Sou eu que escrevo.
Rocha. És tu que estás escrito.

Vamos a isto?

"Veja só o lusco-fusco, eu reparo,
 é o fim do mundo, e o que sei
 é que não sinto mais medo."

Não é Herberto, é Silva, é o refrão da música "2012", era o que tu ouvias perto do fim, com esperança, como se estivesses no colo dela.

Eu tenho dentro de mim o colo da mãe, no qual viveste.
Eu tenho dentro de mim o colo da mana, no qual viveste
Eu tenho dentro de mim o colo da Rute, no qual viveste.

Ela estava sentada no sofá, tu deitavas-te no colo, estava morno, e pensavas, fechando os olhos, de sorriso leve, vejam só o lusco-fusco, eu reparo, é o fim do mundo e eu sei

é que não sinto mais medo.

Foi assim que morreste, sereno, no colo de um dos teus amores, a tua irmã Ana. Quinta, 26 de Março de 2015, mesmo a começar o dia. Na véspera tinhas animado as tropas. "Pessoal, sinto-me bem, quero ver ânimo nesta casa!". A Rute tinha-te enviado uma mensagem de amor pouco antes da uma da manhã, já 26. Foi a primeira que leste quando acordaste,  escreveste assim:

6:04h: "Que mulher, meu deus, que mulher."

E enviaste.

Assim, sem pontos de exclamação, o amor puro.

A Rute recebeu.

Levantaste-te, foste à casa de banho, sentiste uma ligeira falta de ar e regressaste à sala. A tua irmã sentou-se no sofá, tu deitaste a cabeça no colo dela, está morno, pensaste, fechando os olhos, de sorriso leve, vejam só o lusco-fusco, reparaste, é o fim do mundo e tu sabias

que não sentias mais medo.

Penso no colo do teu pai de outra forma, a imagem que me passa como se fosse minha, que eu queria que fosse minha, do dia em que te visitei em Viana, na casa em que foste menino, na casa em que te recolheste doente, na casa em que morreste, o pai a passar da sala para a cozinha e a apertar-te o ombro porque não quer perde-te nem um minuto, a vida em frente, o pai a passar da cozinha para a sala e a apertar-te o ombro porque também não quer perder-te nesse minuto, a vida em frente.

Na capela, a velar-te, estava com a mesma força e o mesmo silêncio e a mesma ternura e foi por isso que lhe dei um beijo, como se estivesse a beijar o meu próprio pai.

A nossa amizade tinha estes silêncios, muitos silêncios e nós sabíamos que isso era bom, e nesse dia da visita teve ainda mais. Tu sabias que eu estava lá porque estavas doente, agora posso dizê-lo: muito doente. E se nós te fizéssemos a vontade e não falássemos desse detalhe, se soubéssemos esperar, no meio das piadas acabavas por encaixar a  banalidade da doença como mais um item da lista de compras. Fora da lista estava a Rute. Nesse dia falaste-me da Rute e disseste uma coisa sem eu te ter perguntado antes:

Podes escrever tudo.

A Rute era íntima, não costumavas falar dela, ainda que eu tivesse estado no princípio.

Tiveste de morrer para eu perceber o que me querias dizer, e que na altura me pareceu uma simpatia, uma confiança, porque nem eu, nem tu, nem ninguém, concebia a tua morte.
A Rute teve de dizer a mesma frase, a mesmíssima frase, sem saber que tu ma tinhas dito da mesma forma,

Podes escrever tudo. 

para eu perceber que a minha repugância em escrever uma linha, uma só linha que fosse, sobre ti, à morte, era uma mistura de egoísmo e culpa que não te honrava. O coro de despedida de tantos amigos foi tão bonito. Mas, nas máquinas debulhadoras e aplanadoras de mundo, ninguém falou verdadeiramente de ti. Nos jornais, tirando o Sérgio, que sabia mais sobre ti do que a agência Lusa e todos os que citaram o comunicado da tua editora e pouco mais, não tiveste propriamente um epitáfio, e nas televisões foste essencialmente uma nota no rodapé vermelho que despeja as "outras" notícias, um rodapé como os dos índices bolsistas, algumas redacções ponderaram se deviam retirar um minuto aos mil que dedicaram a uma lista de quatro pessoas que se destinava a um algoritmo de censura nas repartições fiscais para falar do primeiro escritor português a entrar no top 10 do new york times ou na tua visita ao talk show do Jô Soares, o cartão visita que criaste com habilidade e mérito e que terias gostado de ver, mas as redacções decidiram em sentido contrário: Rocha não tem dignidade de notícia de pivô ou reportagem. Mais um minuto de lista vip, mais um minuto da investigação do co-piloto da germanwings e um especial do Herberto que o Herberto não quis.

Na minha cabeça passaram mil páginas sobre ti.
Eu sabia que hoje de manhã tinha de me sentar com urgência, nem uma linha mais sem primeiro te escrever tudo, e no entanto hoje o tempo trouxe-me paz, pensei desistir e ficar outra vez em silêncio, o sol passava como dedos entre os carros sobre a ponte da arrábida e as minhas mãos agora tremem sobre o teclado. Nunca me aconteceu isto.

Deixa-me começar por te dizer em que medida somos amigos.
Não é por termos ido juntos ao Brasil. E nem sequer somos companheiros de editora. Não é por termos sido companheiros de protesto onde muitos nos conheceram juntos: o protesto contra a ignomínia do cancelamento da Feira do Livro da Apel no Porto, essa poesia da primeira semana onde tudo foi feito de peito aberto e quase sem imprensa, onde me ensinaste que havia mundo para lá das recensões e dos pasquins "oficiais", onde me mostraste como é que os leitores se expõem e te sentem corpo a corpo.
Já que estamos vivos ou acabamos de morrer, mesmo agora, sejamos contemporâneos dos nosso contemporâneos.
Todos têm o direito de te celebrar, celebrando-se a si próprios. Não és mais especial do que quem fica, nem nunca o quiseste ser, por ter ido. Mas, ao contrário do Herberto, o nosso Herberto, não o do coro, mas o do tremoço e das minis na esplanada da Arcádia, a tua obra és tu. Menor ou maior, não importa. És tu.

Temos umas pontas por atar: devias ter tirado a fotografia colectiva dentro da loja Havaianas, no Brasil, mesmo amuado. Olha-me este. Devias ter ficado mais um pouco para ir comigo a Fornos de Algodres dar um abraço à Isabel, que também sabe destas ausências a que agora nos obrigas, e àqueles heróis todos, mas não te preocupes: eu levo-te, quando, finalmente, for.

A medida da nossa amizade, com efeito, é segredo.
Mas ao estipulá-la aqui é importante escrever que não há nada de especial nela, e é isso que ela tem de bom. Não há uma hierarquia na amizade ou no amor - se não são amizade ou amor, são outra coisa, e muitas vezes digna, seja respeito ou simpatia ou até antipatia -, e é importante explicar isto aos tantos que estranham a dor que sentem na tua perda, que perguntam a si próprios porque é que lhes dói tanto, que até sentem que não têm direito a estar tão tristes, que é ridículo não pensarem noutras coisas. E eu faço questão de aqui incluir os amigos de uma só hora ou os amigos que deixaram de o ser, por culpa deles ou até por culpa tua. Tu eras um tipo forte, mas, como todos os homens, primordialmente frágil. Rias-te quando eu te quebrava ao meio com estratégias de bondade. Uma delas era imaginar sempre os fdps no berço, filhos de alguém, pais de alguém. Como nós próprios, quando nos portamos mal, eu e tu. As mais das vezes o mal é um mal pequeno. Outra coisa que nos aproximou foram as nossas diferenças: no primeiro minuto em que nos sentámos olhos nos olhos, o primeiro minuto da nossa amizade, eu repeti a pergunta que te tinha feito anos atrás: "onde está o raio dos documentos secretos do Último Papa?"; Tu respondeste com um sorriso e disseste "Dá-me o benefício da dúvida." No olhar eu li o resto. E disse que dava. A partir daí, sabes a condição que punha sempre: eu não troco favores, se te fizer alguma coisa é de coração, se o fizeres por mim não te ficarei a dever nada. A partir desse dia, pensei no tamanho que tinhas, como conseguiste dar uma lição de marketing e estragégia de vendas de livros a todas as editoras portuguesas, como chegaste quase sozinho ao tal top do NY Times sem vender a alma, quando muitos a teriam vendido para o mesmo efeito. Fiquei eu e quem era minimamente humilde e inteligente - lembro-me do espanto do Joel, que é minimamente inteligente - a observar-te a trabalhar, como te comportavas dentro das livrarias perante os leitores e os livreiros, como te comportavas fora das livrarias perante os leitores, os livreiros e os amigos. A tua resiliência num tempo em que ninguém, no chamado "meio literário" queria realmente saber de ti.

Mas nada disso é a medida da nossa amizade, apenas do respeito, e já volto ao Herberto, que nós lanchávamos e tratávamos de dessacralizar, gostávamos da bicicleta nos poemas quase perfeitos,  e mesmo nos perfeitos, dele, e que até esteve na nossa ideia quando me falaste a primeira vez de uma Academia Literária,  porque sabíamos que ele nunca aceitaria integrar uma, a mesma de que me falaste na sequência da mobização de escritores de corpo e alma no protesto do Porto, não dos idiotas que só se respeitam a si próprios e pensam que os seus únicos pares estão mortos ou muito velhos, e me disseste assim: "O primeiro nome é o Herberto, mas esse nunca aceitará." E, embora fosse óbvio, para ti e para mim, o meu respeito por ti aumentou nesse dia, quando o disseste com palavras: "Obviamente estamos excluídos de uma tal Academia, estaremos sempre, temos muito que trabalhar e nunca o poderemos fazer com o escopo de entrar numa elite". E ainda disseste, gentil: "Quer dizer, eu estou." E eras um paciente e exigente leitor dos manuscritos dos teus pares e de alguns leitores que queriam ser pares. Tinhas essa qualidade de não magoar, de dar coragem a todos, algo que eu e tantos não possuem. Aceitavas todos os convites para apresentar livros, bons ou maus. Isso pode não ser uma virtude literária - ainda discutimos como eu seria "Whiplash" e tu não, nunca, pode não ser uma virtude literária, mas é, certamente, uma virtude humana.

Lembro-me de como tomaste conta da minha amiga Pilar num São João, quando eu tive de rumar a outras paragens, como a integraste e fizeste amiga.

Foste um bom aluno e tinhas sempre notas altas nas redacções, mas nada disso é a medida da nossa amizade: é esse segredo que passo a revelar:

Conheceste-a num Março
Foi também um Março que agora te misturou na eternidade, no começo desta primavera, tinhas acabado de festejar com ela mais um aniversário.
Sublevaste-te numa entrevista que ela te fez na Rádio Nova. Causa: o teu olhar doce, adjectivo que ela mesma me ensinou e que a estroinice heterossexual nunca me deixou apreciar devidamente: tiveste de os fechar para eu andar, avidamente, à procura dos olhos doces em todas as nossas fotografias.
Pouco depois conheceu-me ela. Houve um princípio de amizade.
Pouco depois conheceste-me tu - cara a cara, porque já tínhamos trocado muitas linhas por outros meios. Houve um sólido princípio de amizade.
Eu andava perdido a pontapear intelectualmente tudo o que via à frente, por causa do cancelamento da feira da Apel no Porto, e tu convidas-me a participar noutra sublevação, também romântica, dos escritores contra a falta de jeito do município e da Apel: havíamos de afixar poemas e prosas dos nossos pares de todo o país nas árvores da praça da liberdade.
Ficou selado o nosso compromisso de honra, mas eu pedi-te para não aparecer na imprensa, tarefa que achei mais adequada a ti, ao Miguel Miranda e ao Manuel Jorge Marmelo.
Então fiz-me substituir por ti numa tentativa de mediar os últimos esforços com contactos que a Rute tinha na autarquia. E lá foste tu, em vez de mim, falar com ela.
Nesse dia, posso eu jurar, apareceu claro para ambos que seria para sempre.
Desde esse momento, eu fui um navio. Fui um fiel de balança mais ou menos em segredo. Lembro-me do antes e do depois. De pensar, no antes: como é que um escritor best-seller como tu, com todo o charme que isso traz, não me fala de amores definitivos? E de dizer, no depois: é ela, Luís, não procures mais. E o segredo, o tronco desta amizade, foi receber-te frágil, coisa que não és, a cada declive do terreno, por ela, por ambos, pelas circunstâncias. Ser a mim que me ligavas ou escrevias quando estavas em sobressalto num mapa que era novo para ti - o amor que está há mil anos dentro de nós. Estavas há mil anos dentro dela. Ela estava há mil anos dentro de ti. É disso que me orgulho, mais nada. Agora estou a escrever-te a última carta que te escreverei duas mesas atrás do lugar onde nunca mais houve desespero, só amor, e tu mo disseste.

E depois foste olímpico. Querias afastar todos os que pudessem sofrer e a quem fosse mais difícil esquecer, depois de partires. Mas ela combateu-te e ficou, então serenamente, dando-te o espaço de regresso. E o mais íntimo que está dentro da frase "Podes escrever tudo" talvez seja o fruto do vosso amor, que foi planeado com ardor e sem desventura, mas não chegou a ser feito. Posso dizer-te que o plano encerra a totalidade do filho que desejaste, que ambos desejaram, e não diminui o teu sorriso à morte.

À Rute colavas um texto meu, de que gostavas muito, sobre a explicação das mulheres que apagam as outras e a história do gordo e do pequenito (o pequenito podias ser tu), e aquele vestido preto que lhe ficava perfeito:

"Quando ela trazia o vestido preto e as pernas dela por trás eram tão perfeitas que eu era assombrado sempre pela mesma imagem antes de me aproximar e lhe dizer olá, eu de joelhos abraçado à cintura fina dela a chorar de raiva com as mãos sobre um joelhinho e ela, vá lá, só um beijinho no esquerdo, mas tira a mão, tá?, e eu a aproximar-me a morder os lábios e a dizer olá, e ela

- Estás tão vermelho, Johnny.

e eu três vezes, e as três vezes a gaguejar, é o calor, Rita, é o calor, é o  calor.

- Calor em Dezembro?

- É o ar condicionado, Rita, o ar condicionado, o ar condicionado.

Ela torcia os lábios, eu mordia os meus e continuava o serviço público que ela nunca me agradecia.

Amparar-lhe a solidão."

Está tudo bem. - dizias tu sempre
Está tudo bem. Está sempre tudo bem, repetiu a Ana, tua irmã, porque sabe que está mesmo, sabe que resolveste a vida toda com a maior leveza, ainda que, como diz o Eric, nunca tenhas aprimorado a arte da dança e só soubesses mexer os braços, porque os pés ficavam fixos como os de um toureiro. Disse o Eric.

A tua arte, a tua pessoa, a tua escrita, está neste parágrafo que escreveste no regresso do Brasil .

"Há uma personagem que sobressai na aventura brasileira: o seu nome é Serápio. Inventado pelos seis na manhã do primeiro dia, tornou-se omnipresente em todas as conversas. A sua omnipotência demonstrava-se através de palavras curtas em frases longas e toques no ombro a que se seguia a evocação dos nossos nomes próprios e uma pausa de alguns segundos como se não se lembrasse por que nos tocara. O Serápio não existe, a não ser nas mentes conturbadas de seis escritores, mas foi o nosso companheiro de viagem, sempre leal, sem nunca faltar, até à nossa extenuação. Um grande abraço, Serápio. Onde quer que estejas, deixa-te estar."

E, ao contrário do segredo da nossa amizade, o segredo do Serápio não será revelado já por nenhum de nós, disso estou certo, por mais que tenha informado gargalhadas atrás de gargalhadas. Isso também é respeito.

Se o Brasil não é condição da amizade, é o mito perfeito da saudade. A ti devo o convite e as pessoas que me ficarão na vida para sempre depois dessa semana. E a ironia de um encontro perfeito de escritores, como eu o imaginava, sem ninguém o ter planeado. Nenhum filisteu, como diz o Guerreiro, poderia planear coisa tão perfeita, nem as lâminas que escolhem nomes para não integrarem festivais literários, um dos males dos nossos dias, perpetrado por muita gente de bem que não vê, ou não quer ver, mais. E tu querias voltar por causa disto:

Na primeira manhã estava sol, um sol jubiloso, mas frio como na pátria europeia, nós descemos a rua do hotel, virámos à direita, tínhamos as termas à esquerda e uma loja de tudo à direita, virámos à esquerda no Itaú e na próxima esquina era o nosso ponto, onde bebíamos mau café com um copito de água das pedras ao lado e aí começaram os dias felizes, que passavam pelas sonoras gargalhadas em todas as ruas mineiras, pelos rodízios no Bepi, pelas conversas materiais, um tema por dia, tudo espontâneo, pela forma de contrariar a surpreendente timidez dos mineiros dançando, dançando nós, nós com elas, nós com eles, pelo wifi no Palace de Poços, muito por causa dos nossos amores.

Por isso querias voltar. Enganámos o tempo, fomos tão felizes, tão felizes, que não seria pecado enganares outra vez o tempo e seres tão feliz, tão feliz.

Quero voltar ao Brasil, doutora.

Quando escreveste "Um país encantado", parte da elite reparou em ti. Eu reparei, e tinha a mania, olha que tinha mesmo a mania. Tu não tinhas a mania, tinhas na cabeça as melhores vozes de Saramago e querias o teu próprio papel. Depois chamaste-lhe "Virgem", mas está aí, não preciso de ser eu a dizer que, querendo, sabias escrever e tinhas a tua própria voz, que, humildemente, ias procurando e testando à vista de todos, em lugares como o facebook.
Mudaste de estratégia de forma hábil e as elites encaixaram-te noutro lugar, numa margem qualquer. Ninguém te chamava, ninguém queria saber de ti, vendias demasiado. Já o que se passou nos últimos tempos, com o trabalho e a amizade do Paulo - posso dizer, à vista da paisagem, coragem (que, infelizmente, rima) - , repôs justiça da tua relevância neste pequeno país (no melhor e no pior dos sentidos). O que eu não sabia, mas depois observei, foi que vinhas construindo uma casa, amealhavas para o futuro. O teu editor americano disse-te que, depois de mais dois livros vaticanistas, te libertava. Estavas no penúltimo, a "Resignação", e muitas vezes me falaste dessa liberdade e da outra literatura, da tua voz, que querias retomar e oferecer a essa casa de leitores e livreiros que vinhas construindo. Podias escrever sobre tudo, e sabias fazê-lo bem. Não recusarias os prémios, como Herberto, mas também não os aceitarias como Bernhard. Sabias perdoar, como aconteceu nos últimos anos perante tantos que te começaram a aceitar depois de te terem apoucado ou ignorado. E que também te perdoaram, se foi o caso, porque tu também sabias pedir perdão, ainda que possas não os ter pedido ou concedido todos, como os teus personagens do Vaticano e como qualquer homem.

No Brasil, quando nos sentávamos, tínhamos mais do que aquilo a que alguma vez as elites poderão aspirar, com as suas certezas, as suas margens, as suas desconfianças: dois best-sellers, um long-seller, um worst-seller e o sobrinho do Pessoa. Lembras-te de como nos fomos espantando com o Miguel Roza, aquela conferência notável dele no Teatro da Urca, quando explicou que aquela passagem do Tabacaria

"Come chocolates, pequena, come chocolates"

era uma privada do tio Fernando para ele e para a irmã, ainda vivos. 
E depois aquelas meninas brasileiras, valorosas, vindo para autógrafos de todos nós, a Júlia, a Carol (a Sílvia Plath) e a Lívia (a atriz sem cê), a afrontarem o tio Fernando no jardim, sem planejamento (como se diz na pátria americana),  pedindo para ler os textos de Carol com sotaque europeu e atrevendo uma tabacaria de coração, sem ensaio, ali mesmo, filmada de telemóvel.
O sobrinho, o nosso Miguel, marejou no avião, ao ver os quase nove minutos da Tabacaria da Carol e da Lívia (o olhar da Lívia não se esquece, nunca olharam para uma Tabacaria tão bem).

E ainda falam de mitos e mitómanos. Perante os nossos olhos, Pessoa era comestível, tal como Herberto com minis e tremoços na esplanada da Arcádia, no Porto, na mesma praça onde nos conhecemos, onde protestámos e onde eu andei, há quarenta anos, de mão dada com o meu avô, antes de subir à loja de tabaco (come chocolates!) que ele tinha na Rua Chã e depois de ter nascido na travessa Cimo de Vila.

Tu sabias que nada na literatura é absoluto e tinhas consciência do teu lugar, que é e será sempre na estante - entre o Q e o S.


No futuro, vou eu ensinar, usando-te, que a literatura tem uma ética, e que a ética, em certos momentos da contemporaneidade, quase todos, transcende a estética. Tu atendias a todos, hoje. Ainda atendes. Já aos estetas, esses, mesmo sem o domínio do tempo, falta-lhes isso, tempo, para nós, para os livreiros que amaste e te amaram, para os leitores que amaste e te amaram. Amam. O tempo que só agora te faltou. Mas, enquanto nós, impuros, amigos, estivermos sobre a terra, vamos contar a verdade do menino que todos soube transcender e abraçar.

O último mês passaste-o entre a casa dos pais, onde convalesceste,  e hospitais.

Excepto a ida a Lisboa. Logo que pudeste e te deixaram. Doutora, tenho de fazer isto. Foste gravar o Contentor 13, que ainda há-de passar, com a arte e a subtileza ainda invisível da Marlene Babo.

Foste muito feliz nesse dia. Porque voltaste a falar de livros e não da doença. O jantar em casa do Francisco José viegas, com o teu agente, o Paulo Ferreira. Enorme amigo. As tuas gargalhadas.

O prazer a jantar. A paz.

O Zambujo a tocar no rádio.

A viagem de regresso.

A pizza que a antecedeu.

Que tu adoraste.

Diavola.

A viagem.

A mão pousada na perna da Rute.

O chegar a Matosinhos

A gargalhada que soltaste quando, na A1, viste o outdoor do nosso FCP, que diz simplesmente:

Chegámos

Um beijo de despedida.
Entraste no carro do Nuno, teu irmão, para seguir para Viana.

Há dias escreveste-me com planos para fazer uma maluqueira na próxima Feira do Livro de Lisboa. Um novo vídeo do Happy, melhorado e aumentado. Estavas tão entusiasmado e concreto que cancelei a minha ida a Viana, onde ia, uma vez mais, ler-te no olhar como estavas, sem perguntar. Fizeste-me, pela primeira vez desde Dezembro, pensar a seis meses. Andava a pensar ao dia. Na quinta-feira liguei-te por volta das 10h. Queria ouvir-te os planos concretos. Atendeu-me a tua irmã Ana. Calei-me, não a cumprimentei, o meu maior medo estava a cumprir-se e eu só pedi:

"Não digas"

Hoje choro quando ouço o Happy.
Sorri e ri centenas de vezes, porque ali está o bem, não o neo-cliché-universal-happy-2014, ali está a bondade que todos percebermos ser o nosso desígnio.
Nós não olhamos para o outro lado.
Nós damo-nos ao trabalho de deixar "likes" aos nossos amigos e leitores.
Nós respondemos às mensagens de quem nos estima, com ou sem corpo.
Hei-de rir outra vez. Está para breve, prometo.

É por isso que, agora, sem o teu corpo e para todo o sempre, é possível amar e procurar, ainda, o olhar doce.

Só acho que devias ter usado barba mais tempo. Ficava-te mesmo bem. Como os círios que te guardam. Os círios que o Ferreira Fernandes ainda ontem lembrou como escritos pelo Nelson Rodrigues: haverá sempre um círio a guardar o pobre atropelado, porque há sempre uma piedosa mulher que acende uma vela.

Quero acabar com Herberto, se não te importas, e o que está tão bem, nele e em ti, e nós sabíamos, e dizíamos, que eram dois extremos do mesmo diâmetro, que é isso que significa diametralmente oposto, pontas da mesma linha, acolhida sem cânones ou certezas, está bem ser eremita e está bem ser social, está bem estar no meio, está bem ser erudito e está bem ser popular, está bem estar no meio, está bem ser lírico e está bem ser prático, está bem não sair ou ir todas as semanas a uma escola e estar no meio dos miúdos e dizer-lhes para ler o Rocha (como eu gostava que vocês o lessem) ou o Herberto, mas ler, ler é a libertação do horizonte limitado da própria escotilha da câmara esconsa da casa das máquinas onde o barulho é infernal e não se vê nada lá para fora.

Estar bem não é estar bem com deus e com o diabo. Estar bem é estar bem.
Diavola é pizza.

Ouvi dizer que Herberto é nocturno, mas é aí que a minha ignorância vence: mesmo que fale de noite e se situe dentro da carne da noite, o verso de Herberto é de dia.
Como tu, que és, flagrantemente, diurno.

E o estilo, a história do velho ou do novo, não deifiques o novo, não deifiques o velho, nega as correntes, as marés, sê verdadeiro dentro da frase e dentro da voz e dentro do corpo - ou depois do corpo, quando passares a existir assim. A Ana Leonardo lembrou, antes de morreres, citando Herberto, que "aquele homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas." E diz a Ana Leonardo, como o poeta brasileiro Mário Quintana: Que se celebrem vasos de orquídeas para sempre.

No sofá do teu adeus, quando a primeira onda da morte de Herberto se recolhia no mar, devias ter uma manta, como o Herberto nas fotografias do Alfredo Cunha. E tinhas, eu sei que tinhas. O aconchego, a felicidade.
Nenhum "Eli lemá Sabactani". Nós soubemos dizer-te que a nossa voz te procura. E dentro de ti era o sol. Tu nunca o escondeste.
Barba. Devias ter usado barba mais tempo. Ficava-te mesmo bem.
Como a magnólia que amanhã de deixarei no cemitério.
E como os círios.

A tua gargalhada em falsete, sonora, comprida, é fácil de ouvir.

É só pensar nela e aparece.

Olha.

Olha outra vez.

E outra.

Ahahahahahahahaahah



PG-M 2015



Referências:

Sobre a doença, aqui
Sobre o Brasil, aqui
O protesto, aqui e aqui