2014-08-04

não temos fotografias

 isto não é um poema, são tremoços,
cerveja clara ou um copo de vinho branco, areia,
mar contido no horizonte que muda cada vez
que uma criança salta
ou rio em curva que apaga as tuas pálpebras por causa de uma luz
vesperal,
cola com gelo, meia torrada, corpos vestidos na
esplanada, despidos
à medida que a duna desce e a praia
avulta, vultos
a rasgar linhas de espuma, o céu a transitar

o céu a transitar

azul claro, azul escuro, vermelho, laranja,salmão, cinza claro, cinza escuro

preto

selfies no ocaso
vultos outra vez
bolas vermelhas
agora lua

lua é uma palavra que já não cabe nos poemas,
mas isto não é um poema,
são

selfies de manhã
água turquesa
bolas de berlim
com creme

que espalhas nas costas e no pescoço e na ponta do nariz
carências

faltam beijos de língua em público
faltam bancos
de jardim, faltam

- nas noites quentes de música -

olhos aquosos em vez de
vidro, faltam
felácios com lábios
em vez de litronas e charros
em todas as bocas

faltam beijos de língua em público,
lucidez demorada nas salivas
orações
em papilas gustativas,
areia no corpo e as palmas nas coxas
francas
guerras
de ventres lisos

isto não é um poema, isto é o pico da noite
moderna,
um colectivo alienado a deitar-se
nas camas dos pais
acorda tarde e começa tudo
de novo

antes de ser noite

cerveja clara ou um copo de vinho branco, areia,
mar contido no horizonte que muda cada vez que uma criança salta

isto não é um poema, apenas praia
e agosto afixado
nos murais

antes ninguém sabia
o verão só falava
no jantar
de fim de curso

lembras-te das dunas e nós
nos beijos de língua em
público, nus
na guerra dos ventres lisos,
que pena,
dirias,

não temos fotografias

PG-M 2014
fonte da foto



2014-08-03

carta-aberta-terra-ar (Volume III: notas para um suicídio regular)

(continuado de Volume II - Camila sobre o MH17)

Mãe, mato-me lentamente na caverna da Setsuko porque não mais suporto a vida como ela se me afigura. Há, pois, amor e pirilampos à porta do meu túmulo.

Como disse o Emerson, mãe, corta estas palavras e sangrarão, são vasculares e vivas.

Não salto de uma ponte, mato-me lentamente numa caverna - igual à de Platão, parecida com de Saramago e onde, de vez em quando, passa um camponês com livros.
Lembras-te de quando vimos juntos "O Túmulo dos Pirilampos" e como aquele deslumbramento da obra-prima absoluta nos toldou fisicamente?
A inefável sequência de analepse da caverna, os momentos de felicidade em solidão da pequena Setsuko quando o irmão a deixava sozinha para tentar arranjar comida e só trazia fome, a caixa de rebuçados e os pirilampos, os outros momentos - os insuportáveis - a que somos expostos pelo realizador recebendo os factos mais terriveis e vendo a própria cara da fome,

tocam a arte suprema.

Lembras-te da Amelita Galli-Cruci a cantar o "Home Sweet Home" enquanto regressávamos à última chama, depois de tudo estar morto,
mãe?

Vai para lá do pensamento, faculta-nos o sofrimento físico, a superfície, a pele, o buraco da fome, a brutalidade do real -  e tudo desenhado à mão para o criador. Primeiro escrito sofregamente, entre lágrimas - porque, já sabíamos, a história está na pele de quem a escreveu -, depois desenhado meticulosamente por outros, na escuridão do ateliê Ghibli. Ele concebeu e comandou e chama-se Isao Takahata e é, de algum modo, irmão do mestre Myazaki.
Isao aprofundou.

O aprofundamento da razão dá altura à alma

(chega-se ao sublime, ao alto, ao pico, descendo de forma consistente às profundezas do pensamento)


Roger Ebert disse que o Túmulo dos Pirilampos é um dos melhores e mais poderosos filmes de guerra de todos os tempos: não tem artifício. Caracteriza regressivamente a condição humana e a guerra, do fim para o princípio, da perda absoluta - toda a perda - à essência: é, por tudo isso, isso tudo. E é como me mostro para ti aqui: tudo.

Quando te disse que não suporto mais a vida como ela se me afigura, quis dizer: como ela se me afigura depois de a ver morrer. Não a Setsuko, mãe, mas o meu amor. Apesar de a Setsuko nos fazer morrer e de o meu amor não estar fisicamente morto, é sem ela, a mulher que amo, que não consigo viver. Como vês, a explicação do suicídio é simples, clássica, finalmente frívola.

Tenho quinze anos e já não há cidade que valha a pena vistar com ela, todos os quartos de hotel serão ainda mais iguais, talvez apenas o efeito do vento nas cortinas mude, nem isso, porque eu só a veria a ela, só a ouviria a ela, só falaria para lhe ver os olhos a escutar-me a voz, como a Mireille do Cortázar à sua Lamia, lembras-te?. E então o mundo, na ronda parda do amor que exclui tudo menos o objecto dele, seria sempre o pretexto - e o objecto o texto. Verona é um pretexto, Paris é um pretexto. Ela o texto que eu desenho com sangue nos dedos. Terá ela reparado nas sombras entre os meus sorrisos? Das ruas nos abraços? Das cidades nos beijos?

O que importa é o que ela disse: que me ama, mas não entende o amor que me tem.

Por isso me tornei insuportável.

Bem vês, mãe, o amor é do mundo, está no mundo, não é apenas do homem nem está apenas no homem.
O verdadeiro amor, o amor absoluto, é sobre-humano e rebenta com os corpos onde reside.

Ou aspiramos a uma finitude, ou a temperamos com pedaços de existência palpável e frívola, ou implodimos.

Deixa-me, pois, mãe, morrer e enfim sossegar.

Unamuno disse que a religião espanhola é o Quixotismo. A minha também, tu sabes, mas falta-me loucura para ser verdadeiramente feliz, incompleto.

O poema de Quixote foi a Dulcineia - capaz que era dessa imperfeição.
Já eu, mãe, sempre fui cego para Dulcineias.

Porque olho através.
Porque não contenho a impureza do absoluto.
Porque Cervantes, que soube descer e negar toda a influência literária, veio a influenciar o próprio século e os que lhe sucederam. Cervantes nunca ouviu falar de Shakespeare, mas Shakespeare conheceu bem - e temeu - o Quixote, que Bloom irmanou com Sir Falstaff. A temível realidade das veias que correm nos braços da ficção seria a pergunta que Bloom faria, se pudesse, ao próprio Skakespeare: "Como é que consegue que as suas personagens sejam mais reais do que as pessoas com quem nos cruzamos diariamente?"

E apesar de o Cortázar o dizer, que nos romances se esquece indo beber para as confeitarias, eu nunca esqueço nada e viciei-me na insuportável ameaça da lucidez. Os jeitos de Rolando ofenderam-me de forma duradoura*.


E Erasmo, mãe, advogou que o sublime é a loucura que emana directamente de nós: não lhe chegarei, pois. Nunca. Nem com Erasmo, nem com Longino, nem comigo, nem com ninguém. Não chegarei lá, ao lugar onde, para Bloom, virtude e esgotamento são sinónimos: a velhice.

E, se não emano, imano.
Morrerei na irrisão de mim próprio, portanto, finalmente pleno.

Ao camponês que me vem visitar e me traz livros, nunca comida, já instruí que te entregasse esta à morte, que espero te encontre bem, mãe.
Se a vieres a ler, quer dizer que, finalmente, me extingui.
Não permitirei que Aurora Bernárdez me seleccione os textos para publicação póstuma. Quero que sejas tu.

Não chores, mãe, que a beleza é negra.
Cada vez mais negra.
E todas as caixas de música, apesar de sublimes,

dão medo.

Teu filho.


PG-M 2014
Nota: Este volume encerra a "carta-aberta-terra-ar". Volume I (Avigdor, sobre Gaza) aqui. Volume II (Camila, sobre o voo MH17), aqui.
fonte da foto

* do conto "Os Gatos", de Cortázar, publicado nos "Papés Inesperados", edição Cavalo de Ferro 

2014-07-29

carta-aberta-terra-ar (Volume II - Camila e o MH17)

(continuação do Volume I - Avigdor, sobre Gaza)

Exmo Senhor Director do De Telegraaf,
Hans,

O meu filho não tem nome.
Encontrou-se com a tua, Hans, no mesmo dia e num lugar mais elevado do que este. Dias antes o meu país tinha consumido o nome ao filho de uma conhecida jornalista de televisão, tratando-o com intimidade. Dias depois o meu filho, que tinha quinze anos, desapareceu, e, no centro do meu desespero, o país continuava a consumir o nome do filho e da jornalista, tratando-os com intimidade. Pobre mãe, pensava eu - como é importante a solidão - o tempo que for preciso -, em vez da multidão, no sofrimento.

O meu filho continuava por aparecer. O último sinal dele era uma sms no telemóvel da ex-namorada:
"pelo menos diz à minha mãe que estou bem".
Ela não disse. Limitou-se a reencaminhar a sms para o meu telemóvel.
Estão muito assim, os filhos, com o mundo na mão e nos olhos, mas calados e sem corpo.
O meu menino era diferente e passava a vida a dizer que era diferente:

"A alma é o corpo, mãe, dizia o Sartre".
Pouco depois de a sms chegar, alguns assassinos convictos destruíram o avião que trazia a tua querida filha de volta.
"Don't be coming. Come." Dizia a D ao André Gorz, quando lhe perguntava se vinha para a cama e ele, escrevendo compulsivamente, lhe respondia: "Já vou".
Ela não veio. O meu menino não veio. O relatório da autópsia dele calculava a hora da morte muito próxima da morte provável dela. E acreditas que eu vinha sentindo a sombra do teu avião como minha?

Agora não são vida, não são morte, são a memória do mundo. Passou uma barcaça e levou-os de nós.

Que adianta, Hans, lutar contra a dor? Depois de ti, conheci a história - que parece desmesurada, mas todas as histórias de perda são desmesuradas - de outros meninos que provavelmente avistaram a tua filha, passaram por ela no corredor do avião, brincaram com ela entre refeições. Os pais deles são australianos e chamam-se Anthony Maslin e Rin Norris. Perderam no mesmo voo Mo (12 anos), Evie (10 anos) e Otis (8 anos) — além do pai de Norris, Nick, que acompanhava os pequenos. Numa nota disponibilizada pelo Ministério das Relações Exteriores e Comércio da Austrália, dizem que estão a viver “o inferno do inferno”. “Os nossos bebés não estão aqui connosco — somos obrigados a viver com este acto de horror todos os dias e todos os momentos para o resto de nossas vidas”. Dizem que ninguém merece sentir a dor que enfrentam, “nem mesmo as pessoas que alvejaram a nossa família”.

“Nenhum ódio no mundo é tão forte quanto o amor que temos pelos nossos filhos, por Mo, Evie e Otis. Nenhum ódio no mundo é tão forte quanto o amor que temos pelo avô Nick. Nenhum ódio no mundo é tão forte quanto o amor que temos um pelo outro. Isso é algo que nos dá algum conforto"
E aos amigos:
"Queremos continuar a saber sobre a vida de todos vocês, as coisas boas e más. Já não temos mais vida para viver por nós mesmos.”

Vem mais um silêncio, um longo silêncio, algo que primeiro queima e depois comprime todos os órgãos, e depois só tu e Elsemiek, Hans.

Nos dias de desespero, até o corpo do meu menino ser encontrado num buraco remoto por um camponês, saí à rua dormente e lembro-me dos títulos dolorosos do De Telegraaf em nome do povo holandês:
"MOORDENARS".

Depois contaram a tua história, Hans, e, deus me perdoe, a tua inclemência e a promessa de não haver perdão para os assassinos da tua Elsemiek deram-me a força que me faltava, enquanto o meu país nos continuava a cercar com conselhos luminosos a todos os pais que perdem os filhos e com a intimidade àquela mãe jornalista, procurando história sensacionais onde havia só a vida e a morte que faz parte da vida.

É por isso que o meu filho não tem - nem terá - nome público, e é por isso que escrevo a um jornal holandês. Estás longe, Hans, e és igual a mim. Não sei holandês, mas não é preciso saber holandês para deixar um abraço e dizer um adeus.

O meu filho era um aluno brilhante, amado por pai e mãe, não era superprotegido nem mimado em excesso, mas nunca saberemos o afecto devido, a medida do amor, e a nossa geração, a quem garantiram que nenhum afecto podia ser demasiado, andou perdida a educar filhos debaixo do corpo e sem distância. Os filhos que agora abdicam do corpo e nos dão distância, suprema ironia.

O meu filho disse-me várias vezes que se queria suicidar.
Não, eu não perguntava o que tinha feito mal, não lhe virava as costas, nem o enchia de abraços. Tinha tudo para ele, estendia a mão, que ele apertava sempre que queria. Dizia-me que essa vontade me transcenderia sempre e não era mal que eu ou o pai tivéssemos feito. Andávamos, todos, sempre afogados em livros e a procurar a lucidez, mas não há medida para estes momentos. Demasiada lucidez ou clareza podem soar a falso, afinal há um lado primário, animal, de que a nossa civilização se afasta e deixa de saber interpretar. Como o uso do silêncio, que comparece nos grandes amores e nas grandes amizades. Como usa uma mãe o silêncio com o seu filho?

Hoje eu daria tudo pelo último abraço - este que te ofereço, Hans - do meu menino. Daria quase tanto pelo último adeus.
É precisamente o que não damos nem queremos sem uma boa justificação.
O abraço e o adeus.
Que são quase tão importantes como a água e o alimento.
Talvez o abraço a comida e o adeus a bebida.

Diz o Bloom que o génio comparece quando sentimos a consciência alargada, a percepção intensificada, e era sempre isso que eu sentia quando o meu menino me falava, não quando calava. E foi o que eu senti quando as notas de suicídio dele me chegaram às mãos. Disseram-me que estavam no bolso da camisa que tinha vestida quando o encontraram, e quero mostrar-tas, Hans. O meu menino ainda me vai escutar, o que talvez seja possível nesta nova forma de existência, a memória, porque para que aguém escute verdadeiramente o orador ou o escrevente não pode ter consciência desse acto.

E porque te quero mostrar essas notas, Hans, termino recordando o meu menino com as palavras da obsessão das últimas horas, Cortázar, porque  o meu menino tinha

"uma voz na qual havia também uma forma de olhar"

E era nesse olhar vital que eu via, ironicamente, explicação para a abdicação da vida. A explicação mais simples de todas, a explicação de tudo:
o amor, essa coisa, essa qualidade, esse acto sobre-humano.

E, pela tua Eselmiek linda, deixo-te o abraço para comeres e o adeus para beberes, Hans.

As notas do meu menino começam assim:

"Mãe, mato-me lentamente na caverna da Setsuko porque não mais suporto a vida como ela se me afigura. Há, pois, amor e pirilampos à porta do meu túmulo.

Como disse o Emerson, mãe, corta estas palavras e sangrarão, são vasculares e vivas."



PG-M 2014

carta-aberta-terra-ar (volume I - Avigdor)

Avigdor não será descrito aqui, não aqui, pelo que ele é ou pelo que parece.
Avigdor será descrito pelo que perdeu. E não há ficção ou literatura que o suporte.
Perdeu o filho, a nora e dois netos. A bomba que caiu sobre a casa, que fica em Gaza, tinha a estrela de David. Isso não teria nada de extraordinário se Avigdor não fosse israelita.
O seu filho morto, Abner, de vinte e cinco anos, morava no centro de Gaza, e também era israelita.
A sua nora morta, Golda, de vinte e três anos, era palestina.
O seu neto mais velho, Kenan, de seis anos, era ambas as coisas e nenhuma.
Como o seu neto mais pequenino, Saji, de quatro, que era isso tudo: do mundo.
Estão todos mortos. E assim essa parte do mundo que era chão de Avigdor.
A culpa é do amor, que vai a todo o lado e não escolhe o território,
ou escolhe-o com imprudência, que pode ser, afinal, um dos nomes do sublime.

Avigdor escreveu anteontem ao director do jornal holandês "De Telegraaf" uma carta aberta dirigida a uma mãe portuguesa, Camila, depois de ter lido online a carta aberta da própria Camila publicada no mesmo jornal, dias antes, sobre o assassínio de duzentas e noventa e oito pessoas do voo MH17 da Malasya Airlines no ar momentaneamente pestilento da Ucrânia.

Querida Camila,

 Sobrevivo numa casa de uma rua de Tel Aviv, Israel, e, tal como a Camila na sua cidade, em Portugal, há perto do café que frequento um pequeno quiosque com jornais de todo o mundo e, como a Camila, também não sei holandês, e apesar disso, também como a Camila, percebi os gritos de dor dos holandeses pelas capas do De Telegraaf. Ao passar para o café, "298 DODEN" ou "MOORDENARS" fez-me parar e, imagine, rezar, eu que sou pouco religioso, que provavelmente é o mesmo que ser nada religioso. Quando comecei a escrever-lhe esta carta, contudo, vivia noutro mundo. Agora estou sem chão. Uma bomba lançada pelo exército do meu país caiu sobre a casa do meu filho, no centro de Gaza, onde ele vivia uma bonita história de amor com a que era, seguramente, a mulher mais bonita e doce do meu antigo mundo, Golda, que herdara o seu nome árabe da mulher judia que um disse "Eu também sou palestina", Golda Meir, primeira-ministra do meu país. O meu Abner (já lhe falo dos nomes, que na nossa família significavam tanto: por nada) prometeu a Golda, quando estudavam na Universidade de Haifa, que um dia fundariam uma família a que ninguém saberia o que chamar e com isso um pilar firme da paz. Para o cumprirem escolheram o lugar das minorias, seguindo as instruções do exército de Isarael: vão para o centro de Gaza, que é seguro. As instruções que os mataram. Sabe a primeira pergunta que a polícia de ambos os lados me fez, Camila? O que é que está escrito neste quadro? Era uma inscrição em sânscrito num quadro pendurado na sala luminosa do apartamento do meu filho em Gaza: "Amo-te". Abner e Golda eram ambos linguistas, e resolveram erguer-se numa língua antiga que não era a deles. A ambas as polícias respondi que não sabia. Ao exército do meu país, que me informou e pediu desculpas pela morte do meu filho, citei a mãe da minha nora, Golda, e o que ela dissera anos antes ao seus próprios soldados, quando Israel lhe matou o filho mais novo da mesma forma que agora lhe matara a filha mais velha:
"Não vos autorizo a assassinar uma única pessoa em nome do meu filho."
Não critico aquele pai holandês, Hans, a quem a Camila dedica a sua carta, nem posso, aliás, condenar a promessa que ele faz de não perdoar nunca a ninguém a morte da sua menina de dezassete anos, Elsemiek, no voo MH17, porque essa determinação dá espessura e músculo ao meu próprio coração, cor à minha raiva, açúcar ao meu ódio, mas aqui sabemos, já há muito, que a paz nasce do perdão e da abdicação da vingança. É por isso que o ódio não pode durar um único dia.
 Por cada dia de ódio morre um filho nosso.

Os que nos "protegem" matam os nossos meninos em escolas e parques infantis, em aviões e, tantas vezes, no nosso próprio regaço. Há sempre uma justificação elevada. Mesmo que sejam ratos em túneis. Porque é isso que, para os que nos "protegem", todos nós somos, Camila. Ratos nos túneis. Irrelevantes.
Todas estas linhas de egoísmo, Camila, para lhe expressar os meus profundos sentimentos pelo suicídio do seu filho de quinze anos, anónimo como o meu ("o meu filho não tem nome", escreveu a Camila a abrir a sua carta, e nós, aqui, chorámos), mas de quem ninguém saberia - e ele, nas suas últimas linhas, é genial - se não fosse a Camila. Peço-lhe então que não se sinta sozinha, porque não há medida para a dor de qualquer pai. A minha e a sua são a mesma.
Termino com uma estupidez que me vai perdoar. As minhas primeiras lágrimas, a minha primeira raiva, foi para o nome que o meu pai me escolheu e para o nome que eu escolhi ao meu filho:
Avigdor, o meu nome, significa "pai protector".
Abner, o nome do meu filho, significa "a vela do pai".
Esse significado, "a vela do pai", servir-me-á pela eternidade. Não devia.
Golda era companheira e mãe.
O meu neto Kenan gostava de puzzles. O mais pequenino, Saji , do Ipad de Abner. À morte envergavam, respectivamente, uma camisola amarela - com inscrições em hebraico - e uma laranja - com inscrições em árabe.
As camisolas eram uma declaração de liberdade e educação e réplicas das que Abner e Golda haviam envergado, anos antes, para se defrontarem nas eleições para a Associação de Estudantes da Universidade de Haifa.
Os cadáveres de ambos, depois de estendidos na sala luminosa do apartamento de Gaza, onde estava pendurado o quadro "Amo-te", em sânscrito (a sala estava intacta, ao contrário da cozinha, nas traseiras, onde os quatro tomavam o pequeno-almoço quando a bomba com a estrela de David os encontrou) ainda tinham vestidas as camisolas amarela - com inscrições em hebraico - e laranja - com inscrições em árabe.
Bem vê, Camila, porque é que as lágrimas são infinitas.

Seu, Avigdor


PG-M 2014

2014-07-24

Os corpos e os olhares todos (ensaio sobre a praia)

 Por influência de grandes como Emerson, Montaigne ou Sócrates, o avô saiu hoje para vender bolas de berlim na praia com o vigor filosófico do seu próprio corpo.
Consciente dos seus limites aos setenta e cinco anos, as dores crescentes dos quilómetros de areia, as rótulas em pó, mas com a confiança na superioridade gnóstica do seu próprio eu, luz da sua alma, Lolita.
Assim apôs na epígrafe do ensaio sobre a praia:
"O meu sorriso tem treze anos (deixara a estiva há treze anos, com uma reforma por invalidez, e começara a vender bolas de berlim na praia nessa mesma altura), é a minha alegria, a luz da minha alma, Lolita"
Explica-se esta referêcia literária porque eu sou o monitor do município na carrinha-biblioteca-ambulante e o avô passou a ler tudo o que lhe deixo nas mãos, quando torna a casa esgotado da jorna das bolas com creme, depois de esfriar os pés e deixar o peixe ao lume.
A obra-prima do Nabokov marcou-o particularmente.
"Filho, sinto uma culpa insuportável.", dizia-me, no fim de cada um dos duzentos dias que demorou a ler o livro, cujo empréstimo eu fui prolongando por baixo da mesa porque tenho conhecimentos na vereação da cultura.
Não era uma culpa própria, que o avô é, sempre foi e será, um santo, mas uma culpa universal, e é por isso que "Lolita" é, sempre foi e será, uma obra-prima.
Depois, não se espantem, leu tudo.
Emerson, Montaigne e Sócrates em Platão.
Quando me pediram para explicar, entre tremoços e minis, na tasca do Zeca Eufrates, como era possível que o meu avô lesse tais coisas, eu limitava-me, cuspindo cascas, a explicar:

"Os mestres escrevem simples e são simples de entender. Escrevem ou falam como nós aqui no café, olhos nos olhos. Os outros não são mestres, sequer discípulos. São"

e o pessoal que comia os combinados ao balcão é que completava a frase com os mais variados insultos, são políticos, bestinhas, cagões, etc, com os quais, que fique assente, nunca concordei, mas também é certo que nunca completei ou quis completar a frase.

Vem isto a propósito do ensaio de avô sobre a praia, que ele ditou e eu escrevi depois dos jantares do verão passado, e é tão curto quanto sublime, na senda dos mestres:

"Passo sempre no mesmo passo e na mesma praia, mas o mundo também é sempre tão diferente, e eu escrevo isto porque sempre fui tão igual.
Quando as pessoas se vêm despir do que evitaram o ano todo, a nudez, a gordura, a imperfeição, ficam claras, simples e firmes - pelo menos todas as que não se enterram na areia ou mergulham de vez no mar definitivo.

(há aqui coisas que têm a minha mão, mas juro que as ideias são do avô)
Na primeira idade há uma pureza que não dificulta as coisas. Os olhos e a pele das crianças brilham, têm sorrisos ou interrogações transparentes, implicados, estão no lugar a que pertencem.
Mas se eu avanço na praia e na idade e entre os guarda-sóis a regra são olhos pequenos e testas franzidas e a desculpa é o que alumia e aquece, o sol. O reclamado sol, aifnal, não é vida, e passa a constrangir e a diminuir.
As pessoas não estão bem com os seus corpos, vêm encolhidas e sérias, mesmo que tentem sorrir, com o euro na mão, muitas com vergonha, muita vergonha, e não é de serem vistas, mas de terem de comunicar, que é o que fazer automaticamente o resto do ano - ou parece que fazem.

(para o avô, as redes sociais são uma realidade vivida de ouvido)
Quando eu volto, perto da hora do almoço, e já quase não sou chamado para bolas, vejo centenas, milhares, de ilhas em terra. As pessoas que não esqueço são penínsulas, continentes, são as que brilham como as crianças e, tenham o corpo que tiverem, são sempre elegantes no trato e refinadas no entusiasmo.

(o meu avô não saberia dizer que "entusiasmo" é, etimologicamente, a possessão de deus, mas quando eu lho expliquei ele ficou assombrado, e então, disse ele, tive uma certa esperteza, porque era  mesmo isso que queria dizer)

As pessoas que não esqueço recebem o sol e têm a cor certa, a medida certa, e aguardam pelo curso do tempo e até confessam saudades minhas, eu que me sinto apenas funcional

(o avô escreveu "funcionário", mas eu pedi-lhe para mudar para "funcional", é praticamente a mesma coisa mas muito mais importante)

A adolescente que aparece mirrada e insegura e de olhar fechado é mais velha do que a velha que aparece de queixo erguido e sorriso aberto e olhar seguro e focado, às vezes iluminado.

Embrulho sempre a bola num guardanapo de papel, o meu papel, e eles afastam-se por pecado.

Mas sempre me perturbará, depois dos livros que li, ter visto coisas que nunca antes vira, como se me tivessem lavado a cara, eu que fazia esta praia há anos e todos os dias de todos os verões desde o fim da estiva, o que sempre me perturbará é ter percebido que as pessoas, que esperam o calor para libertarem os corpos e enfrentar o sol e o mar, são meros agasalhos de si próprias, são quase todas demasiado velhas para o seu próprio sorriso, a sua alegria, a sua Lolita, luz da sua alma, têm quase todas os olhos muito pequeninos e os corpos mirrados e estão sem classe ou confiança, o ego inchado e a transbordar a sombra do guarda-sol, e acabam por desprezar, nos três meses sonhados, tudo aquilo que almejaram, e não recebem, porque não se expandem nem reflectem o sol e o mar que procuraram.

(eu acrescentei uma modernice, porque era uma ideia que o avô queria incluir e me tentou explicar, as selfies de verão, que validam e carimbam e tipificam uma felicidade que não é procurada intrinsecamente, nem extrinsecamente, no próprio ou no próximo)

Verão após verão, a praia nem chega a ser teatro.
Os corpos e os olhares são a desilusão.
O mar a ilusão.

E eu sinto culpa. A culpa universal de sempre. E a urgência de ir, com as minhas bolas com creme, de olhos abertos e sorriso claro, corpo confiante e postura transparente, contaminar a praia do meu sorriso, luz da minha alma, Lolita."
PG-M 2014, ele e o avô dele

2014-07-17

mão ANTE mão (Quiz marítimo de férias)

 mão:

Quero viver porta com porta contigo
Contar-te segredos pela parede fina
Como naquele filme do Genet

ANTE:

as pessoas queixam-se tanto de as deixarem desertas, mas nós - que escrevemos ou lemos - temos a doença de estarmos sempre povoados

(com ou sem solidão em anexo) 

mão:

"A vida dos sentidos é um plágio de uma idealização maior. Mas é um plágio legalizado porque sabe bem sentir os cabelos em desalinho." C. Lacerda (ou é Lispector? )
 
 ANTE:

 Ontem - 10 de Julho - o dia fugiu-me dos pés e das mãos, e ainda não consegui responder a todos individualmente. Não o farei publicamente. Há algo de feérico no dia de anos, se acaso indicamos publicamente a data de aniversário no facebook. Todos sabemos que não somos especiais nem particularmente amados porque uma multidão nos parece rodear neste dia. Mas não é mau. Tem sido sempre uma oportunidade de recuperar contactos e, ao longo do dia, aqueles que escrevem quando podemos olhar, permitem que nos lembremos que eles, não nós, existem. Alegra-me ter de devolver mimos e poder recuperar muitos contactos perdidos. Tenho a certeza de que a solidão, no dia dos nossos anos, é a mais intensa de todas. Hoje o mundo normaliza e nós só somos especiais porque sim. Nós todos.

 mão:

Tenho falado deles e delas, e não me vou cansar enquanto nos trouxerem mais do que aquilo de que alguma vez fomos capazes da mesma idade. Ainda ontem dizia a uma amiga que nós, mesmo os maluquinhos por literatura que limpavam concursos literários, não atingíamos este nível, que está hoje acima até de muito consagrados sobrevalorizados. Esta geração, que muitos encaram como regressiva, salvará a nossa, que não tem trazido rasgo à literatura. Trago-vos palavras escritas de forma informal pela Carol, aquela menina de 16 - 17 feitos há dias - que me disse espontaneamente a Tabacaria do Álvaro de Campos num jardim brasileiro:

"Eu não vou dizer que existe só uma verdade e sentido para tudo que é a inutilidade, assim como não vou dizer que cada homem é um crime e que alguns crimes são imperdoáveis, não obstante, devem ser absolvidos.
Eu não vou dizer que a única coisa que nos redime é o amor. Também não direi que é assim que sempre acontece: ele nos liberta da vida maçadora condenando-nos à morte, e dá o veredicto com piedade. Não concluirei que os poemas de amor são, geralmente, tristes, por serem testamentos infinitos. Então, não aproveitarei o ensejo e não direi que o fim é infinito, e que o próprio infinito, às vezes, tem a delicadeza de se fazer de fim.
Assim, não vou dizer nada, porque nada é tudo que eu tenho a dizer."

ANTE:
O São João do Porto está a recuperar o vigor. Uma multidão bonita sempre a circular. A festa esmorece mais longe. A magia de romper as barreiras do pudor por uma noite e sorrisos abertos e luminosos do entardecer de 23 ao amanhecer de 24. Único no mundo.

mão:

(Em modo Luiz Pacheco, este é de uma clareza e lucidez difíceis de atingir, com um perfume de liberdade e regionalismo que pode resgatar muita gente de um sofrimento atroz, eheheh. Bom domingo )

DO EXPERTO

Há um crítico de poesia filho
de uma grandessíssima puta
que no entanto vingou
com o dinheiro da mãe
e hoje (sobre todos os poemas)
elabora sempre a mesma dolorosa
e sofrida recensão
(no periódico global)
em que chega sempre à mesma
conclusão
(primordial):
que é, ele próprio,
um animal.

ANTE:

numa deliciosa reportagem da Sic ("O teatro e as serras"), uma senhora de 83 anos dizia: "Quando ele se foi (o marido), o que me custou mais foi fechar a porta e ir para o campo." Porque ele estava sempre em casa e a porta ficava aberta.

Amanhã vou fechar a porta e vou para o campo - às segundas o corpo tem de se habituar a descolar do calor dos nossos e a casa fica vazia logo às oito da manhã.

Eu fecho a porta e vou para o campo.
 

mão:

 No ofício da escrita, sinto sempre que estou em dívida. Devo a quem lê de forma desassombrada, e não tenho o direito de não escrever. E isso é claro a uma segunda-feira pós-eleições, quando quase todos precisam de ser resgatados do guião do país medíocre, e quando a quase todos dói o dia e os nossos espaços e pessoas arrancados ao corpo outra vez. Ninguém me elegeu para escrever, mas isto não é democrático. É a melhor maldição. Prefiro dividi-la com as pessoas que estão e passam. Sou um bardo de solidão na multidão, como diria o Emerson. Tento não ser medíocre, mas como só o tempo largo dá relevância aos textos, é isso que é quem vai mostrando palavras. Em rigor, os poemas e os livros deviam aguardar cinquenta anos em casco de carvalho antes de serem servidos. É essa, pois, a incoerência da contemporaneidade que eu trazia na alma quando me convenceram a deixar imprimir as palavras ainda verdes e anémicas. Mas quero que creiam em mim quando digo que venho por vós, não por mim. Qualquer escritor que usa a primeira pessoa é confundido com um egocêntrico, mas o egocentrismo é uma das ilusões do nosso tempo. Os maiores egocêntricos disfarçam o discurso. Os puros de espírito, das duas uma, ou se guardam em casco de carvalho ou se mostram de vísceras e celebram a arte e acendem a luz de defesa de território nos pobres de espírito. Um amigo disse-me que eu sou uma boa pessoa mas tenho sido uma má personagem. Tem razão. Mas vejo-me cada vez menos preocupado com personagens neste caminho privilegiado dos livros. Sou o que sou, de veias dilatadas e sangue fervente em qualquer parte do corpo, desconfortavelmente inclemente com a mediocridade e a incompetência, tolerante com a insuficiência, perigoso para os maldosos, mas destes há poucos, embora tantos aprendizes involuntários. A noite ardeu num poema que me consumiu e que tenho de deixar amadurecer, desta vez, até ao princípio da tarde. A poesia em que eu creio escreve-se com cem palavras, não mais, e não pode ser críptica. Aliás, a literatura mais fácil de fazer é a que despreza o par e o elemento que lê. Páginas viscerais e crípticas são fáceis de fazer para quem é doente disto. O que me consome é o projecto absolutamente transparente que verbaliza o que era impossível horas antes. Assim "A carne da virgem maria", em que quis incluir uma e todas as mulheres, um e todos os amores, uma, todas e nenhuma fé a partir da figura de maria. Apresento-vos "A carne da virgem maria" ao princípio da tarde. Para fazer frente a esta segunda e depois zarpar, a todo o vapor, semana fora. Obrigado por "ouvirem".

ANTE:


Maravilhoso! - ao jantar, na Lourinhã, a 30 de Maio de 2014. A minha mesa com Zink e Júdice foi o cumprimento de um sonho, e só depois de acordar posso dizer alguma coisa. Já a do Adelino Gomes e Alfredo Cunha, à noite, sobre os rapazes dos tanques, foi memorável (como o livro da Lídia), forte, poética, histórica.

mar:

E para os que ainda não tiveram férias, e para os que já as usaram, tomai uma espécie de aforismo libertador do Cortázar, que devereis usar sem tento e substituindo "argentino" pelo que sois (eu colocaria "tripeiro", por exemplo), quando tiverdes de responder a alguma desfaçatez: "Como bom argentino descomedido na fala, a minha resposta é cortês mas inequívoca: puta que os pariu." ("Papéis inesperados", Cavalo de ferro, 2009, p20)
 
PG-M 2014
(fotos minhas)

2014-07-07

(não) exercício de teatro pleno


Esta crónica
(ou soilóquio ou monólogo ou didascália, o que quiserem, o que vos apetecer)
Esta crónica esteve para se chamar "exercicio a merda!"
(dialogando, de forma intelectualmente desonesta, com o conceito de merda/sorte teatral)
ou, tendo em conta  sensibilidade de alguns departamentos cutlurais, "exercicio o tanas!",
mas, como o próprio encenador lhe chamou exercício, achei que os princípios da boa educação não me permitiam um ou outro.

Permitem apenas dizer e defender ao longo das linhas seguintes que este pode não ser exercicio nenhum.

Falo da peça "Esta noite improvisa-se", de Luigi Pirandello, como encenada, precisamente, por Nuno Carinhas para o fecho de ano dos finalistas do curso de teatro da ESMAE (Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo), Porto, e que esteve em cena no Teatro Helena Sá e Costa até ontem, 6 de Julho de2014.
E de como a vou comparar - disparate! - com "Turismo Infinito" e "À espera de Godot".

Depois de ter perdido, em anos anteriores, várias representações do "Turismo Infinito", no Porto e em Lisboa, largamente elogiada e com excelentes críticas e testemunhos arrebatados do público, fui finalmente vê-la quase em ritual (o ritual de quem precisa de alimento) - em Março deste 2014 - ao Teatro Nacional de São João. E, porque as expectactivas eram altíssimas, fui-me desiludindo ao longo da peça, quando percebi que a maioria dos textos não tinham outra carne, outro sangue, outra forma, porque nenhum deles houvera sido escrito para vir à cena, ainda que o próprio Pessoa teatralizasse a própria existência - don't we all? Não quero, não gosto, de magoar quem muito trabalha para dar o seu melhor, e esta é a posição de absoluta subjectividade de mais um urso, entre muitos, mas que tem uma relação profunda com todos aqueles textos de Pessoa e sus muchachos. Com a excepção do (este sim) solilóquio da corcunda Maria José (que alguns classificam como um heterónimo feminino de Pessoa) - excepcional na encenação e na representação inesquecível de Emília Silvestre - e da excelência do João Reis, a tudo o resto faltou força, corpo, carne - particularmente a todo o Bernardo Soares, que é uma luminária lido e foi um fósforo ouvido e visto. Aquilo de que fala o Genet, o Salazar Sampaio, o próprio Pirandello, entre outros, o teatro como respiração, o toque no braço do público, não esteve lá. Levei pessoas comigo, outros levaram pessoas consigo, e não há que ter vergonha de dizer que vi bocejos, enfado, tédio, como já tinha visto no "À espera de Godot", de Samuel Beckett, poucas semanas antes. Não, o teatro não pode permitir isto.

Os entendidos - eu não sou, eu sou um dos que esteve nas pontas dos dedos dos actores ontem, sou apenas público e exijo vísceras - explicar-me-ão (já o li em muitos lados) que Beckett é fundamental pela ousadia de novos modelos, por romper com cânones, e que a encenação de Ricardo Pais do "Turismo Infinito" tem uma quantidade infinita de méritos. Mas cairemos naquilo em que eu próprio caí quando me apaixonei por teatro: li teoria, li peças, li tantas coisas no silêncio e longe do palco, quis perceber como era, como se pensava, como se fazia, para, como autor, não escrever o inútil, e acabei por não escrever nada, fiquei avariado na grelha de partida, até me virem buscar para deixar a pele no texto para quem quer deixar a pele no palco, e escrever, escrever, escrever, experimentar aquele imediatismo, aquela adrenalina de quem visualiza a cena em acção mas depois tem a humildade - tem de ter a humildade - de dizer ao encenador, como ontem ficava claro no Pirandello, que "o autor não interessa", que "isto" (o papel onde estava escrita a peça) não existe.

E falo das grandes e consagradas peças do nosso quintal para explicar como é injusto e ridículo minimizar o que quer que seja pelo lugar de onde vem e por quem o protagoniza quando, no fim da peça, nós, no público, estamos arrepiados e temos a carne a vibrar e o corpo tomado, e experimentamos até outras dimensões. Sejam actores, encenadores, figurinistas, técnicos de luz e som experimentados, sejam actores, encenadores, figurinistas, técnicos de luz e som em tirocínio.

A mim nunca me tinha acontecido chorar enquanto aplaudia de pé, e chorar na cara da emoção dos actores e nas próprias lágrimas de uma das actrizes, a Leonor. Aplaudir de pé está banalizado, ouvia eu ontem quando as muitas palmas se calaram. Tenho visto, sim, pináculos humanos a erguerem-se quase automaticamente quando o pano cai, mas não nos devemos esquecer de que estamos a falar do lado positivo do arrebatamento e até de uma certa forma de comunicação que tem uma tradição de séculos. Deixá-los erguerem-se por aqueles que nos saudaram e "morreram" em palco.

Como há semanas o "Nós somos Rolling Stones", encenação de Gonçalo Amorim que me levou às lágrimas dos dois lados do planeta, noite e dia, choro e riso, com a fada que, depois de estar dez minutos a bater à porta, perguntava "porque é que demoraram tanto tempo a atender, caralho?" e nos brindava com esse libertador "foda-se!" quando não gostava de alguma coisa (era uma fada barbuda, foi um grande desempenho do Paulo Moura Lopes) até tudo o que todos os actores nos deram no limite do esgotamento físico, agora este "Esta noite improvisa-se" deixa-nos colados à cadeira: não por ser um exercício, mas porque, depois de nos excitar os sentidos (principalmente a ironia, que deve ser um dos sétimos sentidos) nos coloca num túnel regressivo de emoções e vem da cor para o cinzento - talvez preto e branco - corpulento, e nos apresenta muitos actores de nervo e (já) maturidade, e abre a oportunidade ao brilho da Maria Quintelas.

Como autor, estou convicto de que Pirandello falou em exercício por duas ordens de razão: porque uma das necessidades da comunicação da arte é tipificar intenções, principalmente à comunicação social, que era bem mais exigente e sabedora ao tempo em que a peça foi escrita; e porque não tem problemas em ironizar consigo próprio. No incício da peça, como já ficou dito supra, é claro quando escreve que "o autor não importa" (ou não interessa) e o põe na boca do encenador. Essa humildação primordial, tal como a contenção, é essência da arte, de qualquer arte.

Mas o que Nuno Carinhas encena é uma peça brilhante de Pirandello e uma declaração de amor ao teatro, não propriamente experimentação ou exercício. Quem viu sabe que, subitamente, a sala é um corpo único e o público um dos seus órgãos. Não é a primeira vez, não será a última, mas é uma das melhores vezes. O tirocínio de todas as funções teatrais corre maravilhosamente, da figurinista às luzes, dos protagonistas aos secundários, da encenação ao próprio público, que é chamado a tomar decisões, é questionado e criticado em cena e na plateia e dialoga directamente com o actor/ encenador. E a peça tem tudo, tem todas, as emoções, todas as vísceras.

E o colectivo, a turma finalista, não tem um único elemento mais apagado ou escondido, funciona como uma torrente que quase nos afoga de emoção - de todas as emoções, todas as vísceras. São cerca de quarenta e um só. Às vezes uma só.

Mas quero destacar dois, e espero que todos os outros saibam que foram olhados individualmente e estiveram brilhantes sempre que foram chamados (gostei muito do Alejandro, gostei da Catarina, da Mafalda, da Márcia, da Gabriela, gostei de tantos, tantos, gostei especialmente da humildade que transpirou e é rara no meio tão egocentrado do teatro - tantas vezes se fala de público, mas tão poucas o público sente que é o primeiro; tal como na literatura, de onde eu venho, tão poucas vezes o leitor sente que é, e deve sempre ser, o primeiro):

Destaco o Pedro Macedo, como corpo da comédia no colectivo. Desde a entrada em cena com o subtil e "sensível" "Volver!" até à assunção do leque.

E, claro, a Maria Quintelas, nos ossos de Momina. Foi ela a culpada por algumas lágrimas despropositadas, e não lhas perdoo, ai, não lhas perdoo mesmo, eu, que sou um homem, e os homens não choram (é essencial mentir, como o teatro, porque a verdade fica sempre clara - e simples - perante máscaras). A Maria teve o seu triunfo e destacou-se mesmo antes de restar no palco como protagonista. O que ela tem, teve ou terá não sei ao certo. Não sei ainda, embora pudesse perorar inconsequente e arrebatadamente. Seria inútil. Não é nada de físico, é algo de luz e posição e palco. Oh, mas isto é físico, não é? É pelo menos física. Química. Físico-química. Maria é físico-química. Vi outras encenações em que a Momina nem sequer cantava particularmente bem. O Nuno Carinhas, presumindo que tenha sido decisão dele (ou terá sido indicação do colectivo, ou de outro professor?) soube escolher a voz mais pungente, mais bela. E quando ela canta, e cada vez que ela canta, chora-se por dentro - e se ela não se detém, se prolonga aquele martírio branco, chora-se por fora. E, no terço final do espectáculo, ela protagoniza aquela inversão violenta que nasce no arco-íris de abordagens e estilos e desce ao pardacento espesso do drama, o Pirandello a manietar-nos (não sei se ele deixou didascálias ao encenador: "que Momina cante maravilhosamente, que Momina seja visceral, que seja Maria, que seja Maria!"). Para um autor, perante Maria Quintelas, há logo aquela deformação da diva retórica, teórica , ideal, que queremos para os nossos textos. Para o homem no público, tudo jorra, tudo verte, tudo se fixa no fogo de artifício de um ídolo que não se quer que desapareça. E o mais difícil está do lado do ídolo, quando desce: voa, aterra, apaga renasce? Bravo, Maria.


Não aceito, nenhum público aceita (e posso mesmo tornar-me um verdadeiro nortenho, com o execício pleno do calão, como este - não - exercício pleno de teatro) que me (lhe) digam, perante a minha (dele) máxima emoção, perante as minhas (dele) lágrimas, perante as minhas (dele) vísceras, que isto é uma peçazita e aquilo uma peçazona. Para mim, "Esta noite improvisa-se", encenação de Nuno Carinhas para o grupo de finalistas do curso de teatro da ESMAE 2013/2014, é, foi (que pena não voltar) a peça do ano ("Nós somos Rolling Stones" é capaz de empatar num plano tão alto), e eu vi Godot, e eu vi Turismo Infinito. Não importa. Não senti. E esta ferveu-me. Malvados.
Ainda estou a aplaudir. Malvados.

E a rir, que raio.
Que raio, Pedro.

E a chorar, que raio.
Que raio, Maria.

PG-M 2014
fonte da foto


2014-07-04

Tentativa de tradução da poesia (CL apresenta PG-M)

Catarina Lacerda apresenta Pedro Guilherme-Moreira e os seus dois livros publicados, "Livro sem Ninguém" e "A manhã do mundo"
(a única foto que saiu está desfocada e, literalmente, um "espanto" :) )

"Quando o Pedro me falou do diálogo entre escritores de diferentes gerações disse-me que o amor e a amizade se traduzirão sempre, no que à literatura diz respeito, por inclemência, inconveniência, e nenhuma contemporização. O que me me trouxe aqui hoje foram, essencialmente, o amor e a amizade, nunca a sua tradução. Confesso uma tentativa de tradução mas avistei, em pleno processo de moer a beleza e a eternidade, o meu fracasso. Traduzir seria escola, teoria, letra morta. Nunca poderia ter pressentido um convite destes. Nunca poderia sentir-me preparada para uma coisa destas. Não eu. Disso tenho a certeza. Viver é nunca nos sentirmos prontos para nada. Estamos no sistema cinzento, temos de estar, mas não há sistema cinzento dentro de nós. Como o Winston, protagonista de 1984, de Orwell. Mas como é que se explica a poesia a alguém? E estando aqui, como falar de um ser inefável, translúcido, que não quebra? Dizer que me ele me falou da medida certa das coisas. Que a humildade não é tão comum assim. Ele, que é um autêntico vulcão de poesia. Um vulcão sempre activo. E um leitor, no verdadeiro sentido da palavra. De pessoas, da poesia que está em todo o lado, do recanto, do café, do quotidiano. É um amante dessa banalidade que permite que o excepcional seja sempre inesperado. O escritor deveria estar bem perto de quem o lê. Este poeta de que falamos prontifica-se a uma autodesmistificação e é tão implacável como tem de ser. Foi ele que me disse que os eremitas são um mito, porque já todos o somos. Estamos sempre sozinhos. Mas é preciso um sítio onde pousar a cabeça, como procurava Manuel António Pina e tantos outros.

Pedro Guilherme-Moreira não é um ser circunstancial. É um homem alto, mais alto do que a média. A altura tentou ilustrar para fora o peso que carregava dentro. Sabia que a sabedoria não serve para nada se não somos capazes de esticar o corpo e desafiar as leis da gravidade para espreitar a literatura, que quando é louvável nasce por dentro e nunca para fora. O corpo do poeta rejeita com todas as forças a literatura pura exteriorizada. Ele está aqui, estão a vê-lo. Mas vejam com mais atenção como se agita na cadeira, como vos olha, primeiro desconfiado, mas frontal. Quando o conheci, não lhe percebi a poesia. Mas está lá, nele, essencialmente nele.

Os livros, agora dois, são as pernas que se estendem até aos leitores e que lhes acompanham as sombras dos dias. Uma rua sem saída estende-se pelo espectro de cores do arco-íris, com todas as casas iluminadas por dentro e com o escritor a caminhar pelas divisões de cada uma sem nunca tocar nos objectos, mas não os deixando intactos quando sobre eles escreve. E, como um ladrão que entra silenciosamente em lares alheios, fala sobre cabelos fugidios, roupa interior a secar ao sol, seringas esquecidas num beco. Um livro sem ninguém, um título matreiro que promete a eternidade das coisas e do pó que cai mais rápido sobre nós do que sobre elas. Mas há vida onde há corpo e toque e olhar debruçado. A cadeira onde se senta o poeta e estas de onde o olham têm tanta vida como os corpos que recebem. Antes de toda esta humanização através do objecto, já o escritor se tinha decidido a falar de vidas ceifadas, nunca pelo exterior, mas levando pela mão um leitor confortado pelos corredores de dois arranha-céus. Mostrou-lhe a asfixia e estranhos a falarem pela última vez. E nós apercebemo-nos de que podemos partir os vidros para respirar mas acicatar as chamas ou podemos deixar-nos morrer lá dentro ou saltar. Telefonar a alguém, arrependermo-nos. Tudo isto numa manhã que nunca ficou perdida no tempo, mas se tornou a manhã do mundo.

Ele esteve nas torres gémeas e numa rua sem saída e descobriu em ambos os lugares a poesia na luz torrencial dos dias e na noite inquieta daqueles que não dormem. A imagem do poeta é exactamente essa: uma luz acesa na noite. Em qualquer noite há um poeta que não dorme. Este, o Pedro, que pelo primeiro nome parece um filho nosso, disse uma vez assim:

tenho a cabeça cheia de poesia
mas nada nos dedos
os olhos a conter rimas
as mãos nos joelhos
e tudo
o que não se diz

A poesia que ele carrega é como uma deslocação dos ossos, que nunca mais lhe permitiu a total verticalidade do corpo. Não há menoridade aqui nem é coisa de nascimento ou de sangue. A mim, a poesia apanhou-me desprevenida num corredor que ia de uma divisão a outra. Nunca mais me livrei dela. Ele escreve desde sempre. Tropeçou em câmara lenta nela, em câmara lenta porque nos filmes todos os momentos marcantes merecem um abrandamento do tempo. Essa foi a primeira finta que ele conseguiu fazer à impermanência das coisas. Depois ganhou uma paixão total e aí nunca mais parou. Para nunca mais. O problema é que há muito poucos a ver. A cegueira é intemporal. Mas há mãos que chegam e ficam. Há eternidade. A limitação do corpo pode ser desmentida por uma música dos Sigur Rós. A vida é incluir. Incluir, incluir, incluir. A morte é rebentar. A morte devia ser rebentar, de lágrimas, de amor. E os textos deviam implodir e arremessar palavras contra a parede. E as palavras nunca morriam.

É difícil tirar de dentro
todos os pequenos poemas
encravados.

Mas a questão é esta: quem nunca se engasgou com a vida? O dia corre como qualquer outro mas de repente há uma deslocação, uma maré abrupta que inunda o rochedo em que nos achávamos, tão sossegado na paisagem. Não há sossego aqui. Além, o poeta continua a agitar-se na cadeira. Ele sabe que não há sossego. Conhece as marés mas mergulha fundo, não se abate por um céu cinzento. O abatimento só deveria existir se fosse arrebatamento, se a beleza fosse tanta e pesasse tanto que o peito não aguentava mais. Uma vez pedi aos céus que eles não me pressionassem o peito contra a terra, que o abrissem, que o rasgassem e deixassem entrar a primavera e o verão de todas as coisas, com o sol a tocar a pele seca do corpo. O amor não deixa a poeira do tempo varrer as encostas do peito. Morre-se, ainda assim. Morre-se. A poesia não. Nem o poeta, nem o homem que está dentro do poeta. Nem a agitação que carrega. Só o indizível é que tem tanto valor que pode ficar por aí. E há uma leitura superficial das coisas e outra marítima, que é a inatingível e que a escrita só deixa passar vislumbres. São as convulsões e as paragens cardíacas que ficam. A poesia é uma tentativa de guardar tudo numa pequena mão em forma de concha que é a memória. A memória é um dos maiores altares que edificámos sem querer. E o amor também, esse que é incluir até não existir mais espaço. Mas há sempre espaço.

À parte isso, guardamos em nós todos os sonhos do mundo."

Catarina Lacerda

2014-07-03

Lispector por Lacerda sobre PG-M

 
"O meu nome é como uma flor de lis ao peito: Lispector. Essa flor desabrochou era eu menininha, brincando à roda das palavras. Quando cheguei ao Brasil, chamaram-me de Clarice, nome enfeitado pelos medievais, que acharam que Clara não bastava. Então fiquei Clarice, uma figura com alguma claridade e um lírio dentro do peito. A mais nova da família, eu chorava a minha mãe e acolhia os gatos vadios. Foi aí que fui entrando dentro de mim, mas nunca me fechei. Têm dito que sou hermética mas eu estive sempre sangrando pelo mundo. A poesia explodiu em mim como uma onda pela primeira vez no Recife, quando tomava banhos no mar. Levantava leques de água no ar e sorria. Eu não mudei, não fiz concessões. Sou criança ainda, menina do mar e da areia branca. Ele também foi menino de praia. O menino crescido, agora já homem, já vacinado e ditador das viagens a tomar. Assina os poemas com três letras altas, que parecem fazer parte de um acaso, como se colhesse, sem pensar, maçãs de uma cesta. Ele é o conjunto das letras com o hífen a atravancar a harmonia do conjunto. PG-M, estranha forma de assinar poemas. Somos semelhantes, quase nascidos dos mesmos nervos, da mesma seiva. Porque eu me recuso a ser chamada de escritora e ele se desmistifica enquanto escritor. Eu não assumo, quero a liberdade de quem não tem nome. Ele vem e está ao alcance de um braço esticado, não foge, não se refugia na falsa eloquência do fato e gravata. Já o conheço há muito tempo. Antes de ter existido andava a ser sonhado por quem rasga o mundo e suja as mãos de terra para encontrar a verdade. A febre refugia-se em nós e as vísceras, apesar de habitarem corpos diferentes, também são gémeas umas das outras. E os pontos de interrogação sangram-nos as costas e lembram a urgência das respostas que tardam em chegar. Eu nunca esperei que alguém me entendesse ou que chorassem por causa de eu existir. Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca. E sempre houve tanta inteligência e tão pouco toque. Toque como a confirmação do eco, o grito que vem do lado de lá e que nos acalma o vazio. E escrever é o meu eco, é a confirmação da minha vida. Eu acho que quando não escrevo eu estou morta. Só depois posso renascer, tomar o espírito de algo novo que se anuncie pela manhã. Mas é tudo muito incerto e escrever não é nada um prazer. Sempre senti que escrevia como se fosse para salvar a vida de alguém, só mais tarde vim a entender, numa luz do fim do mundo, que me resgatava a mim dos escombros do caminho. Tinha feito a travessia o tempo todo com um fogo cá dentro e estava em meu poder provoca-lo ou deixar que se desvanecesse. Para trás já tinha ficado muita palavra. Este escritor, com um nome que se enrola na língua como as vagas do Atlântico, também balança entre a luz clara das palavras de todos os dias e aquelas que não saem nunca. O mais simples é dizer que advoga, escreve e estaciona carros nos Poveiros. O resto só a poesia explica, aquela que ele traz desde menino e não sabia explicar de onde vinha. Talvez falasse para dentro ou subisse aos cumes das palavras. E aí, no cimo delas, atira-se das torres gémeas, de mãos dadas com os jumpers. Imortaliza-se em verso. Agora escreveu um livro que não tem ninguém, ou que tem ninguém, ou que não tem alguém. Talvez, se o livro estiver mesmo deserto de gente, possamos encontra-lo ao fundo da rua do arco-celeste. Mas o poeta está em todo o lugar, em toda e qualquer disposição dos objectos, nas sombras, na intensidade da luz. O poeta terá reparado na poesia das coisas ainda muito cedo e a ela se rendeu, à falta de outra hipótese. Também eu acabei por saber, que eu tinha poderes que eu não entendia nem queria entender, mas a vida em mim os havia retido para que um dia enfim desabrochasse essa matéria desconhecida e feliz e inconsciente que era finalmente: eu!, eu, o que quer que seja."

Monólogo escrito e lido por Catarina Lacerda
(vídeo com vislumbre dessa leitura abaixo)

Catarina ao mundo


Ao mundo, importa que a Catarina aspira a entrar na universidade com 19 valores, que foi e é uma aluna exemplar e tem sido uma promissora actriz amadora.
A mim, o que me importa na Catarina é o nada. A consciência do nada - de onde se nasce e onde se pode morrer, por onde se pode passar. A humildade de travar as pulsões de arrebatamento que frequentemente a cercam, por ser quase sempre encantadora, quase sempre muito boa, muitas vezes genial. Com 18 anos, poucos têm essa consciência do nada. Ela tem.

Conheci a Catarina Lacerda - ou melhor, os olhos infinitamente indagantes da Catarina Lacerda, porque nada mais recordei depois desse acontecimento - num encontro do grupo de teatro amador de que ela faz parte, o contra-regra, residente na Escola Inês de Castro, em Gaia. Ela já me vinha sendo apresentada pela sua professora de teatro, Joana Félix, como um caso sério na abordagem à arte cénica e literária. Esse encontro pretendia apresentar-me aos actores que iam representar o prólogo que eu tinha escrito para a peça "As Criadas", de Genet, aos actores que iam actuar na própria peça (a Catarina estava entre estes) e aos professores. Foi, como eu costumo dizer, daqueles momentos que marcam, uma hora material, não formal, e que eu abordei no texto "Da beleza", que li antes do espectáculo que esse mesmo grupo viria a construir em torno do "Livro sem Ninguém".

A professora Joana vinha dizendo que ela mostrava pouca coisa do que escrevia, que se resguardava muito, e eu não fiz mais do que pedir directamente à Catarina que me mostrassse alguns textos, primeiro devidamente seleccionados por ela, e depois muitos outros, quase todos em bruto. O que li assombrou-me. A Catarina escreve sobre o imaterial (que não se opõe ao "material" supra) como tenho visto poucos escrever, e aqui não tenho qualquer dificuldade em trazer todos a jogo, os nossos grandes, os de sempre. Os textos de amor da Catarina, por exemplo, continuam reservados e por trabalhar, mas são tão bonitos que quase assustam, significam uma vivência elaborada, madura, um crescimento e ponderação serena dos conceitos, e muitas, muitas, muitas e boas leituras.

Ora, a Catarina fez 18 anos no dia em que saiu o Livro sem Ninguém, e fica por isso indelevelmente ligada a ele.

E eu, como sempre fiz aos meus estagiários de advocacia - ela talvez seja a minha primeira "estagiária" de literatura - coloquei-lhe desafios conscientemente ousados.

O primeiro foi personificar uma figura literária à escolha dela, que apresentaria o autor e o Livro sem Ninguém na sessão da Fnac do Gaiashopping, onde teria parceiros de peso (como a Maria do Rosário Pedreira, o Miguel Miranda, o Luís Miguel Rocha e uma assistência exigente) com a "agravante" de ter de ser ela própria a escrever o monólgo. Só quem lá esteve sabe como ela tocou todos. É isso que ela faz. Podemos até discutir a qualidade literária e a capacidade de comunicação da Catarina, mas o que é indiscutível é que ninguém lhe fica indiferente e todos, invariavelmente, me falam daquela menina encantada e encantadora. A Catarina é, essencialmente, de uma rara profundidade: como é actriz amadora, parte do trabalho dela é conseguir comunicar essa profundidade. Mas literariamente ninguém lho pode exigir. Mas o trabalho de transformação do conteúdo literário puro em texto dramático foi, creio, estimulante para ela, e o resultado foi este: Lispector por Lacerda sobre PG-M (vislumbre da leitura da Catarina neste vídeo)
No espectáculo da Noite sem Ninguém, a Catarina reformulou e adaptou o mesmo texto e o resultado foi ainda melhor, como pôde testemunhar o muito público presente nessa noite mágica.

E agora, na Feira do Livro de Braga, quando o grande Bruno, dessa instituição cultural quase benemérita (para tantos escritores) em que se está a transformar a Antunes Livreiros, me deu a ideia de levar à apresentação de 2 de Julho "aquela rapariga encantadora", eu complementei com uma inversão das normais regras do jogo nestas coisas: e se, em vez de uma leitura dramatizada, fosse ela própria a apresentadora? - algo que me era particularmente grato, depois de andar a ouvir há algum tempo comparações de "estatutos" de quem pode apresentar quem, como se estas coisas fossem lá pelo tamanho, e como se houvesse alguma instituição para aferir da grandeza de cada artista. E foi então essa a originalidade: foi a Catarina que me apresentou em Braga, como este texto: Tentativa de tradução da poesia

O efeito foi parecido. Encantamento. Respeito de todos os quadrantes.
Porque a Catarina leva muito a sério estas coisas e aproveitou as oportunidades que lhe foram postas na mão.

Temos pois os debutantes - como escritores, que normalmente são grandes leitores -, os consagrados (onde são claramente minimizados os professores universitários, e há tantos recensores de pacotilha que têm a aprender tanto com eles) e os "in-between" (esses, que pululam, que andam em todo o lado).

A Catarina, para mim, são palavras, mais nada.
Leitora exemplar, escritora que pratica diariamente o exercício da humildade.
A publicação em papel, e ela sabe-o, não é o mais importante. Há um crescimento - dela e de todos - que é mais importante e se faz com suor e trabalho diário.

A publicação é um acidente do tempo, é o compromisso com a contemporaneidade, com os que nos querem espreitar hoje, mas só o tempo julgará e decidirá. Publicar é o casco de carvalho onde se coloca a envelhecer o néctar (a matéria literária).

Em Braga, a hierarquia do livro foi invertida: se é liderada pelos hipermercados, a que se seguem os supermercados, os minimercados, os postos de abastecimento, os distribuidores, as casas editoras, as livrarias de grandes grupos, os editores, os recensores, o autor (finalmente!), os amigos do autor, os livreiros, as universidades, os leitores e as escolas, foi totalmente invertida em Braga para aparecerem em primeiro lugar a escola (que me trouxe a Catarina) e os leitores (que nos compram, nos lêem e nos apoiam ao vivo em troca de uma assinatura, às vezes nem isso); e grandes livreiros, como, por exemplo, esta Antunes Livreiros e este Bruno que me enche a alma.

E depois da Catarina ao mundo, um pouco de silêncio e descanso.
Ou o que ela é para mim: nada e depois tudo a cada frase de cada dia.
Palavras e silêncio, bom silêncio.

Como eu li em Braga, rezava o Emerson há duzentos (!) anos (p22, "A confiança em si, a Natureza e outros ensaios, Relógio d'água 2009, que Walt Whitman diz tê-lo colocado a ferver e Matthew Arnold disse ser a mais importante obra em prosa alguma vez escrita:)

"(...) O tempo e o espaço são apenas cores fisiológicas fabricadas pelos olhos, mas a alma é luz; onde ela está é dia, onde estava era noite. (...)
O homem é tímido e temeroso; já não caminha direito; não se atreve a dizer "eu penso, "eu sou", mas cita alguém, santo ou sábio. Sente vergonha perante o rebento da planta ou a rosa que se abre. Estas rosas sob a minha janela não fazem qualquer referência a rosas anteriores ou mais belas; são aquilo que são; (...) Não existe tempo para elas. Existe simplesmente a rosa, perfeita a cada momento da existência. (...) na flor desabrochada não há nada a mais; na raiz sem planta não há nada a menos. (...)"

PG-M 2014

2014-07-01

Chico, Carol, Vinil (sem ninguém)

Esta cena fica a oito mil quilómetros de distância e estava no mural da menina que disse a Tabacaria espontaneamente e rezava assim:
"Os bons dias se passam assim..."
Orgulhoso. Infinitamente orgulhoso. By the way, o Chico tem "A Manhã do Mundo" devidamente autografado . Falta chegar-lhe este "Livro sem Ninguém" às mãos. 

2014-06-25

Victoire et l'Immortalité


Victoire, escuta,

as vísceras são água

olha para mim

tenho a boca fechada e o queixo
imóvel, isto no mundo não são
lágrimas

um homem não chora
os olhos dos cães vagabundos de Paris também não.

ficam à tua espera, Victoire,
para serem lidos

como não choram os cisnes
do bosque de Bolonha
ficam à tua espera, Victoire,
para se dobrarem

como o Orfeu debaixo das minhas mãos,
cuja dor eu moldo surda e seca,
os cães vagabundos de Paris e os cisnes
do bosque de Bolonha são só

movimento

(c'est à toi, Victoire, l'immortalité)

e o cão olha-te
enquanto te dobras para o alimentar
e o cisne dobra-se
enquanto o olhas para te alimentar

e, como eles,
o homem não chora,
Victoire,
o homem

move-se 


PG-M 2014
foto do Orfeu, do escultor Alves de Sousa, não exposto, mas doendo naturalmente à entrada de um pavilhão da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Como bisneto, gosto muito que ele lá esteja, assim, como está. Victoire foi a mulher que ele amou.