2015-06-29

a roda dos cães expostos


chamo cão ao vizinho, chamo cão ao badalhoco que dorme na nossa entrada todos os dias excepto naqueles em que tenho insónias e venho fumar à porta e lhe prego um pontapé e ele só volta três noites depois, chamo cão ao funcionário azul da décima quarta repartição, chamo cadela à sorte, chamo cães aos voluntários da associação de protecção dos animais que se entrincheiraram num barraco encostado à via rápida porque muitos animais deixam cães-de-férias nas bermas, chamo cão ao "serra" que trouxe por burla de beira de estrada depois de passar e dizer ao meu filho, que não se calava que queria um cão, estás a ver, estúpido?, ali queriam duzentos euros por um canito, aqui pedem vinte,
e a cara do miúdo, um rui da raça dos boxers anões que não deve muito à inteligência do pai,
estás a ouvir o teu pai? percebeste a lição de vida? ali duzentos, aqui vinte!!!!.
e a cara do miúdo já só retinha o brilho do "serra" de focinho negro e cara castanha a olhar para ele,
chamo cães aos tipos que ainda não conseguiram entender a nova forma de circulação das rotundas, mesmo que eu acelere todos os dias, de manhã à ida para o trabalho e à noite à vinda, para chegar perto deles e lhes buzinar no focinho,
chamo cadela à minha sogra e chamava cão ao meu sogro antes de ele quinar,
chamo cães aos ministros,
chamo cães aos deputados,
chamo cão ao meu filho e cadela à minha mulher quando há razões para isso, e há todos os dias,
ganhámos uma viagem em time-sharing mas era um problema para deixar o "serra", não achava correcto deixar o bicho sem comida, apesar da voz média do café ser de que tendo quintal os bichos desenrascam-se, afinal são animais e têm é de caçar, e a verdade é que eu tenho quintal mas não achava bem deixar o bicho sem comida, disse ao rui que íamos levar o "serra" de férias e ele todo contente, a verdade é que, como já adivinharam, o "serra" virou um rafeiro magro e feio e não cresceu, ladrava sem controlo sempre que eu não estava em casa, porque quando eu estava conhecia bem as minhas botas, então ensinei uma lição aos cães da associação e, mal meti na via rápida parei na berma junto ao barraco e atirei o "serra" para o mato, não sei porque é que a mulher criticou, eu fiz as coisas com princípios e não deixei o "serra" em qualquer lado, atirei-o para o mato junto ao barraco e gritei
- agora divirtam-se, cães!
e ri-me mas depois tive de me controlar porque o miúdo percebeu tudo e chorou até ao algarve, quer dizer, não até ao algarve, avisei-o na estação de serviço de salvaterra que se não se calasse apanhava, ele não se calou e em alcácer apanhou mesmo e ficou a choramingar mas isso já não me incomodava, chegámos à praia e enquanto eu discutia com a tipa do time sharing que parece que afinal não era de graça o puto já estava todo contente na poeira do estradão para a praia com o balde e a mãe, porque não tinha mais nada que fazer, a limpar-lhe o ranho e eu a gritar com a tipa, depois de chegar a acordo caminhámos os três quilómetros pelo estradão até à praia, foi um negócio do caraças,
o mal,
o mal é que a partir dessa noite comecei a ter pesadelos que todos os cães que o pessoal deixava nas bermas sabiam o que eu tinha feito e me cercavam a casa,
aquilo incomodou-me tanto que eu já não queria voltar, mas não havia mais dinheiro,
eu fui preso no inverno seguinte por causa desses pesadelos que não paravam e eu fiquei doido de dores de cabeça e falta de descanso e de umas falcatruas com as facturas da oficina, coisas que eu nunca percebi porque toda a gente fazia aquilo e não tive uma única visita da puta da minha mulher e do atrasado do meu filho,
a prisão não me fez bem e eu voltei à droga e ao álcool, a gaja ganhou-me a casa e o filho em tribunal mas fodeu-se que eu não tinha mais para onde ir e escorracei o cão do badalhoco da entrada, a minha própria entrada, caralho!, para dormir lá eu e ela aprender uma lição, vocês não vão acreditar mas os cabrões dos cães da associação que recolhiam bichos das bermas também davam de comer ao cão do vagabundo que lá estava e tiveram o desplante de me vir perguntar se eu queria comida, e eu levantei-me
eu sou o dono desta merda, seus fdps do c!!!!!
eles olharam para mim com medo, mas acontece, tenho de confessar, que eu nunca mais me consegui levantar da minha situação, nunca mais ninguém me deu emprego com cadastro, sabem que eu cheguei a ser preso outra vez por desrespeitar uma ordem de afastamento da minha própria casa, mas quando saí voltei à minha entrada mas como estava tão fraco e já não falava nem me dirigia a eles, a  minha mulher já não meteu outra acção e deixou-me em paz, os subsídios acabaram e o pessoal do café já não me queria lá que eu não me desenrascava a tomar banho em lado nenhum, confesso que os cães da associação me chegaram a deixar sacas com comida na minha porta que os cães verdadeiros me roubavam se eu não estivesse atento, mas quem nunca me ajudou foi a cadela da mulher e o atrasado do filho,
como se eu tivesse culpa,
como se eu tivesse culpa,
dá-se que os cães da associação sabiam de quem era o "serra" e o guardaram para o regresso do atrasado do rui, mas parece que o bicho morreu de desgosto, eu ia lá saber, claro que isso era inventado, mas o puto nunca mais me perdoou,
mas quando souberem onde estou agora mesmo,
quando souberem onde estou sem me conseguir mexer
vão perceber que o puto tem maus fígados, além de atrasado é mau como as cobras, porque já se passaram os anos daquela merda do "serra", e mesmo assim o tipo não esqueceu,
um dia em que eu já não tinha forças nem para abrir os olhos o gajo, sangue do meu sangue, puxou-me para o banco de trás do carro, eu pensava que ele me ia levar ao hospital porque já nem sentia as mãos, mas o cão do rui meteu para a via rápida já passava da uma da manhã e guiou toda a noite e deixou-me aqui no fim do mundo, abandonado como um cão,
eu só sei que é alcácer porque o atrasado do rui me disse, entre dentes, com uma raiva de cão, acho que até espumava de prazer, composto e controlado que até metia medo,
foi em alcácer que perdi a esperança, em alcácer a perderás tu
já não como nada há três noites e três dias e ninguém aparece
eu acho que o cão calculou esta merda ao milímetro
esta noite sonhei com o "serra" a lamber-me as feridas
grandessíssimo filho de


PG-M 2015

2015-06-26

da noite de são joão

vim para longe e esqueci-me do material de apoio
não tenho o apuro analítico nem o esquema
da multidão, só a fome envergonhada e o medo
do dia em que o dinheiro faltou
e pensámos todos juntos
não que os poemas não devem ser fáceis e gráficos
mas que está tudo fodido
tenho as caras radiantes da noite
de são joão, as mãos a empurrar
para um lugar maior
tenho o tempo que sobra

dos gritos

fica o corpo ofegante e o choro suspenso sou forte
sou forte sou forte outra vez um grito
outra vez o silêncio outra vez um grito
outra vez o silêncio

e quando nem eu nem tu nem a multidão
trazemos para o cubículo produtor
a memória descritiva do paraíso
da noite de são joão
e escorre dos tabiques formais uma lama
sólida que é raiva e fica a raiz do mundo
marcada a vermelho na matéria branca
dos olhos
temos esta mania

da poesia



PG-M 2015



2015-06-11

poemadasolidãomoderna


No grande open space, que nunca poderia ser traduzido por espaço aberto, os likes corações e sorrisos gráficos trocados entre ecrãs leitosos pelas portas da madrugada são agora sombras espessas que circulam entre o wc e o lugar e o lugar e a máquina de café ou então nem se movem não se olham não perguntam não se tocam não se cheiram trocam ordens pelo mensageiro interno e enviam mails e ao almoço fotografarão a própria refeição para durante a tarde comerem comentários. Ali ao lado, uma mulher chora com a cabeça garrotada, sem perceber porquê. Ninguém a ouve e se a ouve não a lê. Ninguém a vê e se a vê não a suporta. Andam todos apagados e silenciosos no open space a carregar os dedos e os torsos de lítio para não cegarem perante os amoleds. A mulher que chora suplica apenas o abraço, mas os abraços estão muito vistos para partilhar. Ainda assim uma velha companheira que ela pensava já reformada (não, nunca faltei um dia) aproxima-se e levanta o telemóvel no ar. Fotografam-se abraçadas e com sorrisos inéditos. A mulher que chorara agradece e transita para o wc a pensar que agora até os abraços são frios, como ossos empilhados. Senta-se na sanita e chora outra vez. Salvem os migrantes, lê ela no jornal gratuito. Lembra-se da fotografia de uma Beach na sanita a fotografar-se enquanto o filho pequenito mama como se tirasse um café de cápsula. Liga-se ao wifi e inscreve-se, pela primeira vez, no instagram. Pensa que a seguir terá direito ao seu café de cápsula. Sorri, mas no espelho não aparece sorriso nenhum. Já estava online. Daqui a minutos vai começar tudo de novo. No grande open space, que nunca poderia ser traduzido por espaço aberto, os likes corações e sorrisos gráficos trocados entre ecrãs leitosos a meio da manhã são agora sombras espessas.

PG-M 2015
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AAmizade





Deixem-me lá escrever algumas sentenças sobre a amizade.

Não se pode pedir amizade. Mas pode-se aceitar amizade.

A amizade exige a aprendizagem do silêncio na presença do outro.

No outro amor o bom silêncio é uma consequência de uma espécie de paz, que alguns chamam felicidade.

Toda a amizade é desinteressada, os favores são espontâneos e não têm conta corrente.

A verdadeira amizade não exige presença, muito menos imposição física, mas o amigo real nunca adia uma pulsão de contacto e sabe ler os constrangimentos.

O amigo nunca pesa, a amizade é um objecto leve, quântico.

Os amigos nunca são numerosos, porque saber sê-lo é uma das mais raras virtudes animais. E pode-se ficar muito amigo de alguém num só dia, mais do que de muitos numa vida inteira. Precisamente por uma espécie de osmose ou leitura química dessa virtude.



PG-M 2015
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carta aberta à dona paula pela arte em oncologia

dona paula, nesta carta vou tratar-te por tu, mas sempre por dona paula porque toda a gente na escola de fornos de algodres te conhece por dona paula,
dona paula, tu entregaste-me aquele livro de arte em oncologia e abriste-o na página que tinha um texto teu onde tentaras expressar o teu fim do mundo quando te diagnosticaram carcinoma mamário tipo ductal grau III scharff e bloom
dona paula, eu fotografei o texto e disse que o queria ler com calma e prometi que depois te diria alguma coisa
dona paula, este é o depois
reparei, dona paula, desculpa ter reparado nisso, mas reparei, dona paula, que nada em ti ou em qualquer auxiliar de educação da escola de fornos continha a abdicação da vida que vejo nos olhos cinzentos de muitas auxiliares de escolas urbanas que já desistiram da vida e andam como sombras a limpar a gordura e os papéis amarrotados do mundo
na sessão para os meninos, foste dar para assinar o livro sem ninguém e levaste-o contigo
e à saída trouxeste-me o livro de arte em oncologia e abraçaste-me
o abraço cheirava a um campo de júlias e o teu cabelo doce ao vento com uma figueira no meio do terreno
tenho a dizer, dona paula, que a dor estampada no texto como uma espada japonesa que nos vaza para nos sair o mal todo não supera a dor de te ter lido os olhos e visto cada cena de cada minuto da tua vida e tu a subir, sempre vigorosa, uma escada sem fim com morcegos humanos - cegos como os outros- a bater-te no corpo sem clemência
e o amor, dona paula, o amor tamanho na tua cozinha e nas escadas que esfregaste e nos soalhos que poliste e que, medidos, fazem mil vezes a distância de fornos a fátima
dona paula, parece breve esta solidão, mas eu sei que não é,
e é por ser longa e dolorosa que te dá o tamanho que tens

sempre aí, imperial, mãe, mulher, gigante, forte, doce
 
falámos dos estacionamentos repletos dos serviços de oncologia, das filas nas cantinas dos serviços de oncologia, do texto da sessão que ofereci aos meninos e onde o cancro é uma manta negra tão disforme que nos cobre a todos e faz chorar e tu, dona paula, apareces ao trabalho com esse cabelo de campo de júlias e esse corpo erguido e cheiras aos anjos que mimas no teu texto

não te sentes tantas vezes esse mimo, esse palhaço pobre da vida, dona paula, em frente ao espelho a compor a maquilhagem que parece sempre descomposta?

e não valerá pelos encontros dos que no coração encerram apenas bondade, dona paula?
como tu e eu e aquelas meninas de olhos húmidos que nunca nos querem deixar partir?

não te queria escrever isto tudo, dona paula, queria apenas uma frase, no máximo um parágrafo, que tivesse o teu enorme tamanho, mas cujo corpo sintático se situasse no meu tórax e na tua face e se insinuasse como um abraço, assim, encaixadinho sob tudo e sobretudo, e então pensei que precisava de uma fotografia tua para acompanhar esta carta aberta, uma fotografia tua, mas eu sou mau para caras, dona paula, procurei, procurei no meu arquivo a fotografia que me deste ou pelo menos parecia que tinhas dado, mas não tinha a certeza de nada, dona paula

nenhuma chegava perto da tua beleza

e então pus o teu nome completo no google, o nome com que começas o artigo no livro da arte em oncologia a dizer que estás ali e estás inteira, e apareceu logo a tua fotografia em primeiro lugar

então percebi: não devia ter escrito nada.
apenas:

"depois de fornos e do teu abraço, é assim que te vejo"

e mais nada, dona paula. é assim que te vejo, e, se é assim que te vejo,

eis-te

agora assina-me por trás da fotografia com a tua letra redondinha e conforme bilhete de identidade e por cima do logótipo do fotógrafo mais antigo das beiras que chegou a fazer uns trabalhos em fornos e vem inteira


PG-M 2015
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2015-06-10

Cerejal

para lhes mostrares, na cidade, que lhes pode acontecer o mesmo que a ti e que elas não nascem em sacos hermeticamente fechados e depois pesados nas balanças de precisão nem dos caixotes à beira da estrada.

a dona isabel, à entrada da quinta, tinha cerejas no regaço e estendeu-me um cacho
"leve-as aos seus"
a minha mente urbana leu "cerca de dois euros só neste cacho"
e a dona isabel, apontando para a serra
"e se quiser ir comê-las das árvores há um cerejal bem no topo do monte"
a minha mente urbana leu "tu nunca vais subir ao topo do monte"

a dona isabel era a primeira empregada reformada da quinta, disse, passava os setenta e tinha este gosto, subir sozinha ao monte e colher cerejas perfeitas para as oferecer aos amigos e aos passantes
"sabe o que é isto?" - abriu a mão  com folhas verdes e flores brancas, desfeitas
a minha mente urbana reconheceu a tília, ela pareceu desiludida
"a cidade chega sempre cega, o senhor é de cá perto?"
disse de onde era, da terra dos cegos

depois a dona isabel despediu-se com um aviso
"se subir ao cerejal, pode comer as que quiser, mas não as ponha para sacos"
e reiterou, "pode comer até aqui", traçando o queixo com o braço, "mas não as prenda em sacos"
cheguei ao carro com aquele cacho perfeito
as mentes urbanas dos meus fizeram-nos abrir as bocas em deslumbramento

quis subir ao monte, que em meio século nunca tinha estado num cerejal nem comido cerejas das árvores
o resto ascendeu de imediato à condição de mito.
estava uma brisa quente e o sol oblíquo com o cotovelo no caramulo. as cerejeiras parecem chorões burgueses dando as folhas como costas de mãos e cachos resplandecentes sem qualquer contenção

demorei muito tempo a começar a comê-las
fotografei-as, filmei-as, esta ridícula urgência urbana de estar sempre a suspeitar de que nos estão a oferecer um momento a que nos vamos agarrar quando os nossos pés dividirem o chão com o abismo

depois agarrei as mãos das cerejeiras, os ramos que são uma espécie de dedos anelados de folhas e cerejas na palma
comi cerejas sem limite e pensei que a maior parte do prazer e da consciência está na escassez
a escassez das coisas
a escassez da vida

e não, não fui urbano, não trouxe uma só nas minhas próprias mãos ou o meu próprio saco
ainda andei de mãos dadas com as cerejeiras do cerejal, a brisa rompia o silêncio e o sol oblíquo, enfim, detem-me os clichés e promete-me que não vives muito mais tempo sem procurares e agarrares os dedos de um cerejeira e te unires às cerejas e era veludo vermelho na capa real do alfaiate dos montes

para lhes mostrares, na cidade, que lhes pode acontecer o mesmo que a ti 


PG-M 2015
fotografia do momento

2015-06-06

És tu, mulher lisboeta

Hei-de escrever-te um épico sobre os jardins suspensos de Lisboa
e os maravilhosos subterrâneos do metro onde encontro sempre
as mais bonitas de todas as mulheres do mundo
e as pessoa apinhadas têm uma sonoridade especial ou então as multidões
que esperam no cais quando a composição se demora
do outro lado
esperam focadas na superfície ou perdidas no infinito
se deres uma de Marina Abramovic e as fixares com emoção
vais parecer mais do que um maluco
casos há em que uma tristeza elíptica se torna redonda e, por vezes,
perpendicular à tua, casos esses em que pode ser tudo,
mas já não é tristeza. Entretanto,
voltarei aos jardins suspensos para te escrever o épico.
Terá uma heroína com uma beleza nunca vista
que retirarei do metro ou de uma repartição pública
És tu, mulher lisboeta, ainda mais bonita do que isso.
Isso é Lisboa.
Prometo.
Cross my heart and hope to die.
Entretanto apaixonei-me.


PG-M 2015
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2015-06-01

Bárbara ao mundo

Há um cometa na Madalena que tem a qualidade de estar sempre visível e de ter um brilho constante. Esse brilho constante, dizem, é dos planetas. Também se aceita: afinal a Bárbara é tudo isso: cometa, planeta, universo.

No desporto tendemos a glorificar o sucesso, os títulos, a técnica, as estrelas, mas sabemos, quando estamos sentados nas bancadas de um pavilhão, que o nosso amor, a nossa admiração, nem sempre incide sobre os fortes - as mais das vezes torcemos pelos mais fracos ou pelos mais marcantes. Quando se assiste a um jogo ao vivo, olhamos e lemos o que bem entendemos no espectro do jogo: podemos seguir um só detalhe, um só jogador, um só fiscal de linha, durante o tempo todo. A verdade é que são todos os pormenores, juntos, que dão corpo ao jogo, não apenas os elementos centrais.
Hoje venho falar-vos da excelência que também se lê dessa forma. O nome deste tipo de excelência é conhecido: chama-se humanidade. Há muitos virtuosos que guardam a virtude só para si: a Bárbara estende-a pelo mundo. E destaco-a de um fim-de-semana onde houve vários campeões. Ontem, ao assistir, na nave de Esmoriz, a um jogo de voleibol da fase final de cadetes femininos onde se discutia o quinto lugar, entre a AA São Mamede e o C Atlântico da Madalena, os nossos olhos, num misto de ternura e admiração, seguiram sempre aquela menina número 17, do Atlântico da Madalena, do princípio ao fim do jogo, e estas linhas são uma crónica de celebração dela.
Bárbara ao mundo.
Porque a Bárbara, que fez dezasseis anitos o mês passado, merece um prémio qualquer, que não de latão, e já se faz tarde. Uma homenagem preliminar, se quiserem, antes do tempo todo passar sobre ela. Não será a única. Mas é única. Vemo-la e ouvimo-la desde pequenina progredir naqueles courts de voleibol, nos corredores, nas bancadas, sabemos que é impossível estarmos tristes à beira dela, passam os anos e ela não esmorece. Com o cabelo frisado preso num rabo de cavalo e um sorriso rasgado que leva ao limite em todos os jogos, tão ao limite que por vezes chora de intensidade, a Bárbara, capitã na derrota ou na vitória, corre os pavilhões deste país a abraços. Literalmente a abraços. Colegas de equipa, público, árbitros, adversários, todos já levaram o seu abraço doce que redime. Afinal, esteja em nós a tristeza da derrota ou o entusiasmo da vitória, o abraço da Bárbara é como um nível. Um nível é um instrumento que marca a horizontalidade de uma linha ou superfície, fundando-se na diferente densidade do ar e da água. Quando a bolha está quase a rebentar, o abraço da Bárbara apazigua. Ela toma as dores dos outros, muitas vezes à custa de si própria. E, se o comportamento dela fora do campo é por todos conhecido e apreciado - ainda ontem, sendo uma fase final, pudemos ver a Bárbara correr todas as equipas que estavam no pavilhão, depois de uma derrota, a abraços, alguns bem longos; a Bárbara comove porque nos mostra, afinal, onde está a substância do desporto -, o comportamento dentro do campo não é muito diferente da menina que corre os pavilhões há uns bons anos, com a voz rouca que protesta ou estimula, e é capaz de atravessar várias vezes o court todo a dar ânimo às companheiras, como, em jogo, numa mesma jogada, chega a servir, a ir ao chão salvar bolas perdidas e a atacar com eficácia.
Lembro-me de estar na bancada e, observando a Bárbara, comentar com o meu filho, que tem a honra de jogar no mesmo clube, que era há muito o fã número um daquela menina, daquela força da natureza. Depois do festival que ela nos proporcionou ontem, impus-me tirar-lhe esta fotografia escrita e deixá-la exposta aos anos. A Bárbara nunca vai envelhecer porque tem em si uma certa eternidade. A Bárbara é uma festa.
E corporiza muitos dos sentimentos que a timidez, a reserva, o pudor, não deixam outros tantos demonstrar: a Bárbara é afecto puro, o nosso e o dela. A Bárbara é ímpar.

Ontem, em Esmoriz, se a Bárbara olhasse do campo para a bancada, veria vários rostos comovidos com a sua beleza, que é toda e que é a todo o tempo. O prémio não é de latão, é de ouro: e a metáfora estafada serve-nos para o troféu. Bárbara de ouro.
O nosso troféu é ela própria.
Campeã absoluta em todas as modalidades e de qualquer forma que olhemos para ela.
As nossas lágrimas e os nossos sorrisos foram sempre acolhidos por ela.
Doravante as lágrimas ou o sorriso dela serão sempre acolhidos por nós.
Eis o pedestal que ela merece.
Eis Bárbara ao mundo.


PG-M 2015
foto propriedade de Esmoriz Ginásio Clube

2015-05-29

Too good to be true

Hoje há muita gente de ressaca em Fornos de Algodres.
Hoje eu estou com uma ressaca emocional das valentes por causa de Fornos de Algodres.
Esteve um dia magnífico, a viagem desde o Porto correu bem e eu cheguei uns vinte minutos antes da hora prevista. Ao passar pelo Tribunal de Fornos, decidi parar. Eu fui a Fornos como escritor, mas, como sou advogado, a minha ideia era procurar a sala dos advogados, tomar um café e saber como vivia o tribunal esta nova reforma. Pois. Não há tribunal, este foi um dos deixou de existir (um rápido aparte, porque a crónica não é sobre tribunais: uma colega juíza em Viseu contou-me uma história de resistência e cidadania que não foi noticiada a nível nacional, e é muito recente: quando o Tribunal Judicial de Viseu mudou de instalações, não há muito tempo, os funcionários do Tribunal de Trabalho de Viseu, em más instalações há muitos anos, mudaram o tribunal todo, de noite, em segredo e em protesto, para o edifício desocupado, a que a Câmara ia dar outro destino, e a verdade é que acabaram por ficar lá).

No edifício do Tribunal de Fornos de Algodres funcionam os serviços de registos e notariado. A Débora, uma das alunas que colaborou comigo na preparação da sessão, tinha-me dito que a mãe trabalhava lá. Entrei de mansinho, tirei a pinta da mãe da Débora e perguntei-lhe se era mesmo. Era. Quando cheguei à escola já levava que contar. No fim do dia, contudo, as emoções eram tantas que um só corpo não as consegue conter a todas. Daí as ressacas sucessivas. É por isso que eu costumo dizer que o amor é sobre-humano, voga numa dimensão paralela e vai descendo sobre nós.

A ideia era, ao arrepio de todas as desconfianças, burocracias e bloqueios mentais e sociais, cumprir um sonho que há muito eu próprio alimentava e que ia cumprindo, parcialmente, pelas escolas: construir uma narrativa que incluísse toda a assistência. Não pura ficção, mas apoiada em factos e características dos alunos que iam assistir à sessão. Pedi dois representantes por turma, e eram três turmas, do 10º, 11º e do 12º. Com eles trabalhei durante uma semana de forma a ter material de trabalho para escrever a intervenção. Numa iniciativa assim, como é fácil de perceber, há muita coisa a vencer. O mundo aberto de notícias e a histeria instalada impede-nos de dar colo sem correr riscos de sermos mal interpretados, seja onde for. E durante esta semana eu senti esse medo, essa desconfiança, que chegava de várias formas e em vários silêncios e resistências e é naturalíssima, num país de egoísmos e predadores primários. A meio da semana de trabalho, quase todos os pais já tinham ido pesquisar quem era o escritor (por isso é que a mãe da Débora me reconheceu de imediato) que estava a preparar uma intervenção com os seus próprios filhos, ainda por cima num contexto mais conservador do interior português, e o facto de terem encontrado entrevistas televisivas e alguma projecção mediática aquando da saída dos dois livros ainda piorou as coisas:

 o que quer um escritor do meu filho ou da minha filha quando ninguém se interessa por nada?

Too good to be true.
Foi essa deliciosa ideia, essa deliciosa dúvida, o "demasiado bom para ser verdade", que se colou a todo este projecto. E ontem, à saída de Fornos, a boa incredulidade mantinha-se em todos nós. É tudo demasiado bom para ser verdade. Os meninos e as meninas, entre 15 e 19 anos, tiveram de embarcar com entusiasmo e acreditar que era pelo bem. Eu próprio me podia maçar com a mais leve sombra de suspeita sobre a bondade das minhas intenções, mas já há muito percebi que, contra a histeria, é marchar, marchar. Marchar sem olhar para trás até, realmente, os ter enroscados no nosso colo e já nada mais importar e todos, dos professores aos pais e aos próprios alunos, perceberem que, às vezes, os milagres descem à terra. Uma amiga, comentando apenas o resumo e o princípio da sessão de Fornos, aventou que me poderia chamar de santo, mas já sabia que eu ia dizer que santos eram todos menos eu. Até porque a beleza e o entusiasmo, muitas vezes, também é estético, de cheiros, de olhares, não apenas de intenções e pedagogia puras. Mas eu respondi à minha amiga Carla, na brincadeira, que ontem me senti tocado pela santidade. Caramba! Caramba!

Ontem, durante a sessão, algumas pessoas choraram, eu estive lá perto.
Eu tinha consciência de que, ao tocar na substância desta ou daquele pessoa, em geral (os medos de todos, as aspirações universais) ou particular (as saudades de um ente querido, de um amigo, a solidão, a incompreensão, os sonhos), podia haver comoção. E houve. Como o auditório era plano, fiz como tenho feito nestes casos: empurro a mesa para trás e encosto-me à dita, meio sentado, meio de pé, para que todos me vejam. Quando percebi que havia meninas a chorar, nos dois casos em que isso aconteceu (e ambas são personagens fortes), pousei as folhas e fui dar-lhes um beijo. Pedi desculpa. Não é minha intenção ultrapassar estes limites. Mas também sei que pode ser o melhor dos sinais. E houve muitas, muitas, muitas e francas gargalhadas. Vou aprendendo o ofício do cómico, e de como é difícil. Há umas que resultam sempre, outras que raramente resultam, outras que resultam num dia ou num lugar, mas não noutro dia ou noutro lugar.

O maior conforto foi, confesso, poder olhá-los a todos nos olhos e ter à minha frente, de pé, professoras e directores, e, sentadas na primeira fila, as sete meninas que comigo colaboraram directamente, todas elas maravilhosas, mas de que destaquei a própria Débora, que superou todas as minhas expectativas, leu os dois livros e um conjunto de poemas durante essa semana, e leu-os bem, tão bem que me desconcertou profundamente: pensei como é possível uma menina de quinze anos alcançar uma compreensão tão profunda da literatura no meio de obrigações e testes e aulas e saraus, etc. E hoje outro pensamento me assombrava: se não acontecessem estes contactos, vários mundos continuavam sem se tocar. A semana passada não conhecia uma Débora nem uma mãe da Débora. Nem a Laura que veio falar comigo depois da sessão sobre teatro e me fez descobri que há uma comunidade vibrante que promove a cultura na aldeia de Carapito, Aguiar da Beira. Nem a Mariana, ó Mariana dos olhos amendoados, que, no final da sessão, esteve vários minutos muito direita com aquele olhar puro a fixar-me, olhos muito abertos, como se me estivesse a fazer todos os exames da maldade e da bondade: eu autografei-lhe o livro, mas esqueci-me de lhe dar um beijo, e eu tinha imposto a mim próprio que abraçaria todos os que quisessem ser abraçados. Então chamei-a de volta para isso e ela voltou a ficar ali, em frente a mim, certamente com as conclusões do diagnóstico. Nem a incrível Vera, que tem qualquer coisa que se projecta da sua figura que, ela sim, nos faz querer aspirar à santidade. Nem a belíssima Babá, de cuja beleza ninguém me avisou em tempo e depois a gente fica meio aparvalhada a trocá-la de nome com a Faby, que, ela também alta e bonita, leu com uma força quase imprópria (isto é um elogio) o final do meu poema "Caixa com mulher dentro", foda-se para esta merda a tua mãe/ é sempre a mesma coisa adormece/ a ver a novela e um gajo que se lixe/ e um gajo se lixe,/ meu amor" (houve leitura colectiva, sim, levantava-se um e dizia um verso, levanta-se outro e dizia outro, e foi tão bonito). Nem a Lety, que é maravilhosa e está proibida de duvidar. Nem a voz profunda da Sandra nem o sorriso da Ritinha. Nem a força do Cabeças (que presença, rapaz!), nem a delicadeza do homem dos músculos, o António. Nem a entrega das professoras Isabel e Fernanda, a simpatia do director António (e a classe da Dona Amélia, uma auxiliar que me levou o Livro sem Ninguém!), nem a forma como aquele abraço final da Dona Paula, outra auxiliar que parece um anjo, me comoveu (e um dia falarei dela melhor, porque em Fornos havia a dor da perda oncológica em todo o lado, nela, na Isabel, e em mim - porque eu era para lá ter ido com o Luís). Nem a resistência à dúvida da Alexa, que a superou. Nem o colo da professora Anabela. Nem a integral e completa Ana Raquel, que é já uma mulher encantadora (ela desconfiava que era mais crescida do que pensava, agora tem a certeza). Nem a doce Diana. Nem a agridoce Mia, que parece frágil e forte ao mesmo tempo, doce e ácida, com um humor delirante e inteligente, mas também violento, mas que me encheu todos os poros com uma personalidade relevantíssima que tem em si todas as possibilidades de grandeza: a Mia tem naquele olhar curioso, luminoso, uma dor certa. Não sei se uma dúvida sobre si própria, mas ela entende-se pela própria natureza - da Mia uma só certeza: todo o mimo será pouco. É, pois, a mimalhinha-mor.  O que eu mais ouvi no fim foi "gostei de ti" (para os que me fazem a vontade do tratamento por tu, que rompe tantas barreiras) ou "gostei de si". A professora Fernanda até mo disse na cara, coisa rara: "Gosto de ti, Pedro." E hoje eram as saudades, a ressaca, que passa facilmente os montes e vales que separam o Porto de Fornos. Então e eu? Então e eu, caramba? Ainda por cima, nada do que eu deixei acima exclui qualquer outro que não vai mencionado nesta crónica, nem podia (seria deselegante, por exemplo, dizer que por lá têm a professora de educação física mais bonita do mundo...ups...já disse). Simplesmente não é possível. E, de cada vez que eu fosse pescar à minha memória de ontem, seriam outros os nomes aqui. Porque eu olhei todos nos olhos, até um nome que omiti por lapso, mas estará na versão final, o do Bruno Bush (mais um da família Bush, próximo presidente americano na segunda metade do século XXI?).

É por isso que houve lágrimas, outra vez, nos abraços finais.
O amor é sobre-humano e desce sobre os corpos, vai lá dentro, enche-nos até nos deixar a explodir e depois parte, ficamos zonzos, sozinhos, sem abraços. Não é possível o abraço permanente, esse é o problema.

Tenho de interromper aqui.
Percebi que tenho muito mais a dizer e não cabe aqui.
Aliás, há uma intimidade que nasce deste dia maravilhoso que não cabe em lado nenhum, muitas vezes nem dentro de nós.

E não há colo tamanho.

PG-M 2015

2015-05-23

Os putos de hoje não valem nada

 O difícil é explicar a uma criança, ou jovem adulto, cujos olhos brilham no lugar para onde se retirou para ninguém reparar nele que - por momentos - é o centro do mundo. Porque esta é a explicação do curso do afluente da vida onde, muitas vezes, todos os corpos parecem flutuar sem ela (vida), simplesmente em direcção à foz: os dias são uma sucessão de quedas para o centro e embate para as margens. Somos o centro do nosso mundo de manhã e, à tarde, postamo-nos tristes nas margens para que ninguém repare em nós, porque nos dá um acesso agudo de realismo e percebemos que não somos nada. E, sendo essa consciência condição de lucidez, é importante explicar a quem ainda não teve a sorte de algum amadurecimento que não, que é mentira, que não és irrelevante, e que o que os velhos muito velhos de todas as idades dizem nos cafés antes de irem aos correios receber o subsídio de inutilidade,

"os putos de hoje não valem nada"

é mentira.

"estão sempre a olhar para os telemóveis ou para os computadores"

até acontecer que tu os tocas e eles levantam a cabeça.

Até acontecer que tu lhes tocas e eles levantam a cabeça.

Até acontecer que tu lhes tocas e eles levantam a cabeça.


Um bom amigo que já me morreu ensinou-me a sabedoria de, na vida pública, nunca usar superlativos com pessoas ou instituições, para que todos se sintam estimados por nós. É uma sabedoria válida para nos cultivarmos a nós próprios. Mas, e se, por um momento, só de quando em vez, cultivarmos os outros? E se falarmos de nomes, sem que isso signifique apoucar os omitidos? Eu aqui vou falar de alguns nomes, mas é um facto que, nos meus olhos e no meu peito, ficaram muitas imagens intensas, até alguns abraços, que não vou, não posso, nomear.

Há uma razão para ter demorado a escrever esta crónica.
O arrebatamento é um sinal de influência do divino nos corpos. E aqui o divino talvez não seja dos deuses, talvez seja o amor, o mesmo que venho identificando como tendo uma natureza sobre-humana. Entrei na escola Anes de Cernache, em Vilar de Andorinho, terra do meu bisavô escultor, pouco antes das dez da manhã. Estavam previstos noventa minutos para a sessão de apresentação do escritor à comunidade escolar. Noventa minutos é hora e meia. Mas eu só saí da escola às cinco da tarde. O último rapaz a deixar-me foi o Xano, futebolista, que nem sequer lê muito nem é grande barra a português. No entanto, eu sei que, vida fora, ele vai hesitar quando passar por livros e vai parar quando passar pelos meus. Está explicado, em dez segundos, o meu objectivo máximo na missão que me impus quando me deram o privilégio de ir às escolas cair no colo de pessoas que têm todas as possibilidades em aberto e por isso ainda não foram devorados pelo cinismo. 
E depois a professora Isabel teve uma ideia perfeita. Quando eu me calei, no fim da intervenção, ela passou uma folha branca por aluno e todos me dedicaram umas palavras. As folhas estavam furadas e foram arquivadas todas juntas numa capa artesanal previamente trabalhada pela turma de artes e pelo professor Manuel Tavares, que aliás fizeram um trabalho belíssimo e inédito em torno de uma fotografia do meu bisavô escultor, sob iluminação da professora Ana Paula. E, pela primeira vez no final de uma sessão, a professora Dora teve de conter a vontade de alguns terem o seu exemplar do livro assinado na minha presença porque havia muitos outros que já não estavam ali, tinham deixado um post-it com a razão de ciência. Curiosamente, todos voltaram depois do almoço, quando souberam que eu ia ficar à espera deles. Venderam-se neste escola perto de quarenta livros, no conjunto, quando raramente passam da dezena. E, afinal, eram três nonos anos. O professor Abel Cruz tem uma dedicação excepcional aos livros e à biblioteca, o professor Paulo, que fotografou, uma dedicação excepcional às crianças.
 Depois ficaram os escritos, difíceis de suportar.
Porque os putos de hoje, não só valem muito, como têm um potencial adormecido que, quando estimulado, nos oferece respostas que nos deixam gagos. O fenómeno mais comum nas escolas onde me dão tempo é dialogar com elementos excepcionais que depois explicam que têm más notas. Não é surpresa. A escola está asfixiada por burocratas e depende da excelência de alguns, alunos e professores. Tem um modelo esgotado e não, o modelo revolucionário não é o que protege os meninos e tem medo que a avaliação os traumatize. Qualquer criança a quem sejam dados instrumentos, espaço e alento, funciona. E, entre estas, algumas que riscam o seu percurso escolar com rebeldia e revolta, são génios que escorrem entre as mãos de professores que, muitas vezes, sabem do potencial deles e nada podem fazer, agrilhoados como estão.

O Vítor Felix, 14 anos, escreveu-me assim e emocionou-me:
"Da primeira vez que te vi, achei que ia ser como os outros autores, uma apresentação rápida e sem muito interesse, mas não, cada vez que falavas colocavas um sorriso no rosto que abria os meus olhos e a minha imaginação. Fizeste-me pensar na vida e nos livros. Quando tu explicaste as minhas dúvidas, deste-me grandes exemplos da tua vida, e foi aí que eu disse: "Vou trabalhar, vou conseguir ser feliz".

Não procuro mais nada, Vítor.

Quase todos agradeceram coisas simples como olhar para eles, ouvir e sorrir.
WTF????
Estamos mesmo reféns de paranóias?
Nos EUA, desde cedo, mas principalmente ao nível universitário, o aluno é verdadeiramente acolhido como um par. Eu acredito, profundamente, que se tratarmos todos como pares, não só potenciamos tudo de bom neles, como nós próprios aprendemos. Aprendemos muito. E depois: os abraços e os mimos não ocupam espaço. E até aquilo que torna muitos paranóicos, a tensão sexual, as paixonetas, o encantamento e o arrebatamento descontrolado, funciona dentro da maior normalidade se a proximidade se construir olhos nos olhos, com verdade e sem subterfúgios. Os afectos são facilmente descodificáveis quando verbalizados e não oprimidos. Todos eles são o centro do nosso mundo, também, só não são o único centro e eles sabem disso. Aliás, sabem-no bem demais, e é por isso que se colocam, quase sempre voluntariamente, à margem.

Não vou citar o conteúdo de todos, porque muito dele é tão elogioso que me ficaria mal.
Mas quero aqui deixar registado quem se dirigiu pessoalmente a mim, por escrito, e me tocou:
A Ana Pinto (a sabedoria é tua), a Diana Barbieri (quanto empenho e dedicação), a Rafaela Anjos (o que eu quiser? está bem), a Ana Ramos (vou relfectir de volta o que escreveste), o Pedro Lima (a obrigação encantada), a Catarina Gonçalves (obrigado eu), a Inês Moreira (o ponto de vista novo e, está bem, eu digo aqui que és a melhor filha do mundo!), o João Ferreira (a beleza), anónimo (eu leio, ao princípio, porque não consigo ordenar as ideias espontaneamente e estou mais nervoso do que vocês), a Inês Sousa (espero que a tormenta tenha partido), a Catarina Silva (a melhor voz e a melhor conversa são as tuas), o Tomás Gonçalves (um leitor conquistado), a Natacha Pinto (a nova vontade de ler), a Viviana Silva ("as palavras são a base do mundo"), o Ricardo Leitão (se eu sou importante na tua carreira, tu és na minha), a Joana Lima (a curiosa), anónimo (honra minha), a Diana Patrícia (FCP forever: eu também estarei aqui sempre, eu também tenho os meus inexplicáveis), anónimo (nova leitora), Ana
 Rita (o fenómeno do tu), o Rui Martins (a linguagem altamente difícil, mas natural), a Rita Gonçalves (leitora dos dois livros, que bom!), Isabel Aragão (nome de rainha, mensagem de princesa), mais sete anónimos (a adoração da manhã), a Filipa Moreira Carvalho (o negativo e o postivo: da próxima leio os excertos eu; claro que gostei de te conhecer), a Inês Serra (também me cativaste), a Renata Pinto (e a dedicatória à mana, que acabou por ser dela própria), Leonardo Soares (o maior escritor, já se sabe, com esta barriga - obrigado por veres a dedicação), o Fábio Tavares (cativante também tu e, sim, lê os livros), o Bruno Sousa (que usa intelectual como elogio de uma forma originalíssima, e diz "foi a primeira vez que estive com um escritor deste calibre" - que vaidade, Bruno!)  anónimo (a primeira vez que ouve um escritor que descreve tão bem tudo à sua volta), o Alexandre Ferreira (pede-me para ter confiança em mim próprio; acho que este é o Xano, o peixe do Wallace), o Pedro Silva (sobre a maneira de expressão), o Tiago Santos (a percepção), a Vanessa Carvalho (a experiência bonita), a Maria Beatriz Silva (a lição de
vida), a Andreia Pereira (as palavras inspiradoras e o homem simpático e divertido), o Vasco (Blue eyes), a Bruna Campos e a Andreia (e a expressão clara da leitura), a apresentação da Ana Rita (adorei a apresentação, e sim, um abraço e um beijo, como pediste), o Cristiano Hipólito (leitor e a oportunidade melhor), a Diana Teixeira, as Professoras Maria José Soares, Maria Carlos e Maria João, o professor de design Rui Santos e o Manuel Vieira (obrigado por lerem o livro), o Tiago Cunha das estrelas, a Inês Matos (pelo silêncio empenhado).

Os putos de hoje são estratosféricos e lindos.

Não procuro mais nada. Não é preciso mais nada.


PG-M 2015
fotos de Paulo Almeida

2015-05-15

9 da manhã

 
às nove da manhã estou atrás
do balcão de madeira mais
propriamente um tipo raro
de castanho muito mais
escuro do que aquilo
a que o senhor está
habituado e vai
começar o meu
último dia de
cinquenta
anos de
casa

o patrão vendeu a loja aos chineses

deixei o carro num lugar de ninguém
como é costume desde que eles
instalaram os parquímetros
mas não pintaram o
rectângulo final
tomei café no
vitorino que
eu já venho
comido de
casa

vendo
tabaco e harmónicas
o patrão usa um casaco
de lã de inverno ou de verão
e tem um cofre negro no escritório
mas leva sempre o apuro embrulhado para
casa

vendo
bem já ninguém
compra tabaco em lojas
rigorosas com coisas relevantes
penduradas nas paredes e expositores
do melhor vidro e poesia nos guarda-pós que
o patrão substitui meticulosamente todos os dias
por outros novos mais cuidados do que os fatos que
ele guarda no armário para se mudar antes de regressar a
casa

vendo
bem já ninguém
quer harmónicas,
já ninguém quer harmónicas na
rua
já ninguém quer harmónicas em
casa

estou com a lagrimita quando
o patrão fecha a casa pela
última vez amanhã
as trancas vão ser mudadas, o balcão,
o imenso e majestoso balcão,
vai ser desmantelado
e a vitrina forrada
a mandarim
ficou um acordeão
esquecido no alto
do armário
maior
ai meu deus, senhor caius,
disse eu a olhar por mim
abaixo, não tirei
o guarda-pó
é para si, antónio,
deixe estar

cortámos pela travessa da rua chã, como sempre

quer boleia?
não, senhor caius,
deixe estar
ele entrou na 4L
a carreira chegou logo e
ainda virou à esquerda para o tabuleiro de cima
da ponte dom luís, ainda passou para gaia
ainda se cruzou com tróleis
 
lá em baixo, no cais da estiva,
a ribeira descoseu os vultos
dos caixotes
e todos gritaram alto vai-te foder e todos
riram abraçados e entraram
nas tascas e nas
casas
nos varadins estreitos as mulheres preencheram
a falha do estendal com camisas brancas
puseram a mão na ilharga e umas
também se riram e outras
choraram

ai o tacho ao lume

ao longe a arrábida soprava
a noite para a foz e
a afurada ouvia
o amanhã
às nove da manhã
se me forem ver
procurem devagar
e com cuidado o meu
lugar em casa

voltarei eternamente
sou de cá tenho
harmónica
não tenho 
mais nada 
o acordeão ficou
esquecido no alto
do armário
maior



PG.M 2015
fonte da foto

8 da manhã


às oito da manhã sobre o rosto
a lâmina e dentro dela a
espuma e na figura o
medo e no jorro
o tempo
e um minuto
depois o sulco e nem
segundos depois o
sangue e na vizinha
toca nirvana

come as you are

e eu vou


PG-M 2015
fonte da foto - de Getty Imagens, Kurt Cobain

2015-05-10

Atlântico campeão nacional de voleibol

 E aí está. Há três anos campeão da 3ª, há dois campeão da 2ª, há poucas horas o nosso Atlântico da Madalena sagrou-se campeão nacional da 1ª divisão. Só com portugueses. Num jogo épico, em que esteve a ganhar por 2-0 e teve oito match points no terceiro set, permitindo a redução do outro grande finalista, o Castêlo da Maia, com um 35-33 (!!!) - grande jogo do Castêlo - e depois de se deixar empatar a 2, o Atlântico venceu a negra por 15-13, levando o pavilhão do Castêlo (repleto de gaienses) ao rubro. 
Parabéns também ao Benfica, que venceu nos Açores e inaugurou um novo título máximo, campeão de elite. É uma página histórica para Gaia. Ficam abaixo, em vídeo, os momentos finais do jogo do título.

2015-05-09

letra kitsch para música insigne por escrever que pode vir a ter como título nunca me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

 Deixa-me um cartaz na estação de são bento a dizer que ainda me amas e procura o meu corpo entre os trapos e os cartões e as garrafas que o carro do lixo recolheu às quatro da manhã do vidrão,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me andar pelos cantos da cidade com o resto da verdade e fome e sede e saudade perdido nas veredas do progresso e na delícia gratuita do índice médio de sucesso e felicidade e qualquer modo social de agressão,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me encontrar o teu olhar no reflexo de uma loja quando eu estiver diluído no granito que dá consistência às moradas dos que vivem por cima dentro das portas sem fome e deixa-te ficar a analisar os itens que consideras adequados para aquisição no próximo pretexto ou ocasião,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me um abraço dos nossos filhos na soleira onde eu dormir quando eu já não puder vir por ter sido removido de ambulância paras as macas dos corredores do santo antónio em urgência humanitária e diz-lhes que há muitos poemas que explicam o fracasso do pai no projecto da nação,
mas não me deixes morrer de tristeza nas noites de verão

Deixa-me um sinal de memória no foyer do crematório do cemitério do prado do repouso ou entre os altares abandonados dos outros mortos decentes dos jardins do além e canta baixinho aquela nossa canção remendada a cuspe com os restos que tens no coração e no meridiano de todos os amores que vivemos à vista de um instante de paixão mas

nunca, nunca, nunca

me deixes morrer de tristeza nas noites de verão 


cantada por PG-M (2015)

2015-05-04

as mãos


olha as mãos distintas da mãe
segurando a travessa a caminho
da mesa
olha a tristeza

subindo pelos fumos do jantar
olha as minhas próprias mãos roçando a toalha de linho
junto ao joelho da prima e olha para ti depois de tudo
fraco para evitar que da revoada ou da bruma
volte a descer o desgosto
o pai tinha uma mãos bonitas que nas costas e nas falanges
tinham pelinhos curtos que à morte foram brancos
e ainda cingimos quentes porque nós,

já velhos, esperámos no quarto o fim
como em meninos a alvorada

um de cada lado do pai de mão dada pela alameda dos plátanos
que no verão era a infinita lonjura
da ventura
e na primavera o trilho infausto dos amores
no outono as folhas de pontas caídas
no inverno as próprias mãos do pai
mais do que os casacos e os chapéus
e os galhos suplicantes
até nos encostarmos à cerca de cimento caiada a branco
da estação
e quando os comboios passavam
o pai nos puxar para ele e as mãos
nos guardarem


perpetuamente


como matéria negra onde
explodem supernovas
e bailam trajes de luzes
pelas eras

terás mornas as mãos dos que amaste
entre as tuas e os laços dos dedos

atados para sempre
olha as mãos dela apertando os livros
ao peito e a travessia

contigo, olha as mãos
a velar o sorriso, olha
a estrela polar na galáxia
proximal e as mãos enfim
entre as tuas ou em concha
sob os frutos
olha as mãos dele sem saber onde ficar
na vertigem do cruzamento
com ela, olha as mãos

nas algibeiras, olha
a estrela polar na galáxia
proximal e os nós
sobre os teus no curso
dos afluentes

olha as mãos dos bebés a dar-te
virtude
olha as mãos das crianças a dar-te
guarida
olha as mãos dos amigos e
os braços que em partes
da vida são inteiros

amparos

olha a piedade
das mãos dos maestros
em todos os aplausos
que abriste
olha as mãos dos médicos
a erguerem tabiques

entre os medos

olha as mãos dos professores
no giz que alumia
o quadro negro
olha as mãos que pungem

as teclas e erguem as forcas
dos números, de como é devassa
a hierarquia
olha as mãos no gatilho
das pistolas com os canos apontados
às bocas
olha as mãos nos microfones
dos que falam sem voz
de como é deus

o nada

olha as mãos dos músicos a pedir
esmola

olhas as mãos dos escritores
na ocultação exacta
do inútil
olhas as mãos dos pintores
no cosmos do traço
exordial
olha as mãos dos escultores
na evidência da
amputação


olha as mãos que formaram violinos
do arame farpado e descansam
com perdão e lágrimas
nos dedos
desfeitos os punhos que combatem a memória olha as mãos
sinaleiras sobre as mãos sinaleiras


olha outra vez a piedade
das mãos sobre o teu rosto
olha as mãos dos padeiros sobre a fome


olha as mãos de tribunos sobre o

brio, olha a espada nas mãos
de magistrados e padres
nas mãos de profetas
olha filósofos em silêncio e mãos
no ar e o riso troante
nos campos finitos e no mar
olha as mãos dos pescadores
olha as mãos dos poetas a chorar
olha as mãos de polícias

a abjugar e a arder
como as mãos de bombeiros
olha as mãos dos carpinteiros na

saciedade e as de troia
em todos, todos!, os cavalos
olha as mãos dos sapateiros
nos caminhos por fazer
olha as mãos na água por beber
olha as mãos na terra por comer
olha as mãos da avó
a pelar as castanhas cozidas
e as mãos do avô nas malgas
de vinho e nas conchas
de sopa

olha os abraços à porta das aldeias
olha a piedade do vento

nas mãos da turba e a solidão
das mãos do mundo inteiro
nas mais longas auroras e agora
olha as mãos da mãe a ceder ao inverno, lassas
da forma que deram aos colos, doridas
da leveza que ofereceram às
almas
e aos solos
olha as mãos do pai
como galhos suplicantes
o pai na alameda dos plátanos de chapéu e
casaco, por fim



PG-M 2015
fonte da foto