2017-12-30

os monstros entre nós

Estou no bar vermelho do hotel. Não tirei a camisola preta, porque me disfarça o peso.
A televisão está a dar jogos da NBA nos ladrilhos de vidro da janela. As cores das equipas e do recinto de jogo misturam-se no vidro com as bolas dos candeeiros de rua, que são brancas e amarelas. Não que tenha mal ser um tipo grande, mas chateia-me que o atribuam à falta de amor próprio. Eu gosto de ser grande. Sempre quis escrever como um pintor. Sentar-me no chão da estação de São Bento e descrever o que me apetecesse. Mesmo que não estivesse lá. Eu sou bom rapaz. Sou também inábil. Sei exercer a hipocrisia da misericórdia. Não sei praticar a que me daria vantagens. Não sei viver, mas vivo. No hotel onde fechei a primeira versão de três livros, sempre no dia 26 de Dezembro, sou, este ano, apenas leitor. Também me sinto advogado, o que me perturba. Peço o segundo café e o primeiro copo de água. Não quero dizer mal das mulheres. Não têm culpa de escrever crónicas ridículas sobre a filha do Figo. Mas, na verdade, elas aqui são, em média, mais velhas do que nos outros hotéis e já não seduzem. Tenho pena. Gosto da classe da sedução em qualquer idade. Há algo de distinto nas copeiras e nas camareiras. As recepcionistas são inalcançáveis. Lá fora, há seis meses, foi tudo consumido pelo fogo. Desta vez, até a água. Hoje chove torrencialmente. Maria esconde os olhos de quarenta e sete anos de humilhação à voz de um homem cobarde e frágil. Nunca teve medo dele, sentia-se protegida como num coro de ópera. Não tinha voz própria, tinha a voz média de um colectivo. Costumava cantar o Heilig Heilig do Schubert no auditório da junta e sempre pelo Natal. Maria chorava sempre, a música parecia maior do que ela e até do que o mundo. Não se podia queixar. Então o coro deslumbrava e ele bebia e entrava-lhe na alma. Ameaçava furá-la toda e às vezes acertava-lhe com coisas. Quarenta e sete anos depois fez queixa dele à polícia. Saiu de casa. Ele ligava e dizia que tinha saudades de ouvir a voz dela. Ela pedia para ele deixar de ligar. Quiseram pôr-lhe a pulseira e ele reagiu mal. O juiz internou-o no Conde Ferreira e nessa noite ela foi lá levar-lhe roupas. Quando o homem apareceu atrás do enfermeiro, todos reconheceram um louco dentro de um olhar azul claríssimo onde, ainda assim, não entrava luz nenhuma. Deram um beijo carinhoso, ele forneceu algumas instruções para fechar isto e aquilo e, se ela quisesse, levar para a filha o bacalhau que ele tinha destinado à ceia de natal. O homem ia passar a ceia de Natal perigosamente sozinho. Havia de ligar a Maria e a filha, com pena, convidaria o pai para a ceia. O homem chegaria para a furar. Mas nada disto acontecerá porque Maria está agora a entregar-lhe roupas para três meses de internamento. Maria regressa a casa da filha a chorar. O homem que foi o seu a vida toda estava internado, finalmente. Toda a vida o pedira, e agora chorava. Maria usa um silêncio cheio de culpa entre os lábios grossos, mas não tem culpa nenhuma. Arranja as couves. Estende a roupa no estendal. Põe o bacalhau de molho. Amanhã vai à casa que abandonou buscar mais coisas para o agressor. Quem disse que dois mais dois são quatro? Clara, uma jovem mãe, cinco casas adeante, chora agarrada aos filhos que o ex-marido ameaçara não lhe devolver. Beatriz, uma menina de quinze anos, foi apalpada pelo padrasto e sente-se culpada. Ele metera-se na cama dela uma noite em que a mãe fora trabalhar e ela sente-se culpada. A própria mãe acusa-a de rameira. A menina afunda-se na escola. O pai salva-a, leva-a para casa dele e faz queixa. Chamam a menina ao Ministério Público e caem em cima dela para a apanhar em contradição. Perguntam se não estará a mentir. Ela fica assustada, quer desistir de tudo, mas o crime é público. Por isso, vai ter de falar de uma noite terror várias vezes e perante várias pessoas durante os próximos anos. É dificil que o agressor, que ela amava como um pai, seja condenado. Vão chamá-la mentirosa mais vezes e ouvir testemunhas que elogiam o padrasto pela sua conduta social impoluta. Vão exigir uma bateria de exames médico-legais. Ainda assim, a protecção do pai dá-lhe conforto. Volta a tirar notas altas. Hoje é dia de Natal e até o cafezinho está fechado. Sai vapor quente do chão da praça. Estou no bar vermelho do hotel. Não tirei a camisola preta, porque me disfarça o peso. A televisão está a dar jogos da NBA nos ladrilhos de vidro da janela. As cores das equipas e do recinto de jogo misturam-se no vidro com as bolas dos candeeiros de rua, que são brancas e amarelas.

PG-M 2017
foto minha

2017-12-24

Binoche (ao Olimpo) por quem não gosta (isto é: não gostava)

Faz-me muita confusão o discurso das mulheres quando sentem que a juventude lhes começa a fugir. Está bem, nós, homens, somos, em regra, umas bestas, e esse nosso reducionismo leva-as a justificarem-se antes sequer de as vermos, aliás uma técnica que se usa e de que se abusa no humor.
Ora, eu não gostava da actriz francesa Juliette Binoche antes de ela própria, agora e apenas agora, aos 53 anos, me ter tomado pelos cueiros no último filme estreado entre nós, "Un beau soleil intérieur", dePhilippe Garrel, que, de resto, é daqueles filmes que grita literatura por todos os lados.
Literatura enxuta, personagens densas, escrita simples e certeira, como a dos grandes.
Mas, a bem dizer, há muitos filmes com argumentos de qualidade. Não há é muitos filmes com cinquentonas que arrebatam a cena. As cenas todas. Principalmente actrizes de quem o escriba nunca gostara antes, por causa dos tiques e de alguma cedência (na qualidade) ao El Dorado americano, como aliás a outra, de que o escriba sempre gostou, Marion Cotillard.
Talvez Binoche tenha tido sorte com todas as artes internas do filme, do guarda-roupa à caracterização e à fotografia, mas a perfeição de Juliette Binoche está no registo escolhido em qualquer aporte emocional. Não desejarmos uma mulher destas pode ser a tese do filme, mas ainda me perturba mais que nós, homens e mulheres de bom gosto, não desejemos uma mulher assim.
Para mim é o papel da vida de Binoche e um dos papéis desta década. Não queria exagerar, mas sinto que vai ser uma das interpretações notáveis da história do cinema. Pena que, dá-me cá a impressão, vá ser ignorada no óscares, mas nunca se sabe. Ao menos que não o seja nos Césares. A Binoche de 53 anos mete a de 20 num bolso. Aliás, nos bolsos todos. E não é figura de estilo. É mesmo assim. Prova a todas as mulheres que o melhor está para vir, sempre.
Também gostei muito do filme, mas podia ser o pior filme do mundo. Com esta Binoche, podemos sentar-nos e desfrutar. E eu, que não gostava dela, se fosse mulher queria ser como ela. Tenho dito, pois. E olhem, boa noite de natal a todos! Obrigado pela fidelidade ao blogue!

PG-M 2017

2017-12-12

Saramaguíada - booktrailer no teatro

 Prenda de Natal para leitores e amigos: o booktrailer do Saramaguíada. Desde que o grupo de teatro In Skené me surpreendeu com a encenação e representação dos primeiros dois capítulos do Saramaguíada, estava firme a decisão. A representação ser o booktrailer. Estes jovens rapazes e raparigas, alguns virtuosos, merecem. Eu sinto-me privilegiado e grato. Nessa manhã, em Gondomar, no primeiro evento público do novo livro, como noticiei aqui, a Ana Catarina Vigário e a Carolina Cardoso, as duas actrizes que neste trecho estão sentadas no palco, a Catarina à direita de quem vê, a Carolina à esquerda, decidiram oferecer-me outro momento magnífico, que não estava no programa. O ensaio geral de uma peça de Tchekov que ia à cena nessa tarde, "Os malefícios do tabaco". Observei-as esmagado na cadeira, agradecendo à providência a capacidade de estar atento e de me importar com os lugares onde pode estar a arte. Agradeço também à Joana Sousa por ter filmado e editado com grande qualidade, como podem ver aqui, a base deste booktrailer. Se quiserem ver a versão mais longa, sem legendas, vejam a ligação na descrição do vídeo no próprio Youtube. Agradeço também aos actores Tomas Cerejo, Carolina Serra e à belíssima diva Flávia Dias, que é Pilar, aqui. O meu último comentário é que é muito curioso como são os dois primeiros capítulos do livro, precisamente, os que têm perfil dramatúrgico imediato, sem qualquer reescrita. Quem teve a sensibilidade de o ver foi o In Skené e o entusiasmo destes jovens pela arte dramática devolve toda a inspiração e projecta o texto para a estrelas - o tal lugar onde Saramago não queria estar, mas onde eu - e muitos outros antes - o pus. Espero que gostem.

2017-12-09

A (eterna) professora e o (eterno) aluno

Porque me honra profundamente, vindo da cátedra como veio, e porque me comove, por momentos e razões que não quero aqui escalpelizar, porque já passou a quinzena deste JL nas bancas (esta semana está a Ana Margarida de Carvalho na capa), publico hoje a recensão completa da Professora Agripina Vieira ao Saramaguíada. Obrigado aos que entendem que este ofício exige o máximo esforço e o máximo respeito. Como se pode ler na epígrafe de Maria Victoria Atencia no início do livro, "Porque duele, el alma duele (...). (clicando na foto, conseguem ler - ou então em texto,a seguir)

"NAS MARGENS DO TEXTO, Jornal de Letras, Novembro de 2017
Agripina Carriço Vieira - “Como uma claraboia para dentro do mundo”


            Se fosse possível, numa palavra, caracterizar o último romance de Pedro Guilherme-Moreira a escolhida seria o adjectivo avassalador. O seu Saramaguíada, publicado no passado mês de Setembro pela Poética Edições, faz parte daquele grupo (pequeno) de textos de que falava Proust. Dizia o autor francês que, de quando em vez, surge um escritor original que alicerça o seu texto numa rede de relações significantes novas e inovadoras que interpela os leitores. A leitura destes textos não se compadece com imediatismos e linearidades, e se esse facto pode desanimar é apenas porque sentimos “que le nouvel écrivain est plus agile que nous”.

A afirmação proferida em meados do século passado aplica-se na perfeição ao novo romance de Pedro Guilherme-Moreira. Saramaguíada é uma preciosidade para os amantes da literatura, que nos desafia a entrar num universo mágico, situado fora de um tempo cronológico, fora de um espaço geográfico, todo ele feito de palavras e pensamentos em diálogo, dando amplo e total sentido às reflexões de Pilar que “sabe que cada palavra é como um lago profundo que contém todo o mistério, todo o encanto e toda a explicação das coisas, mesmos das inexplicáveis” (p. 43).

O título antecipa a centralidade temática da efabulação, enunciando desde logo uma clara e inequívoca referência a um dos nomes maiores da literatura universal, ao único escritor nacional galardoado com o Nobel, José Saramago, indiciando igualmente que outros o acompanham nessa jornada. A magnífica ilustração da capa, da autoria de Vasco Gargalo, confirma-nos a interpretação, ao representar uma imensa estrada povoada por personalidades maiores do mundo da cultura e da literatura que começa em Saramago e termina na angolana Alda Lara, tendo como ponto de destino final Paris, metonimicamente representada pela Tour Eiffel. No entanto, e como adverte o autor num curioso texto intitulado Ordem das coisas que antecede o corpo do texto, neste livro celebra-se “a literatura e as ideias, que são das pessoas, mas não as pessoas em si” (p. 15). Estamos, pois, no mundo do pensamento, “ali todos eram ideias, sonhos ou pensamentos materializados” (p. 65), por isso o herói da narrativa é Esse, a materialização do pensamento de Saramago. É um universo sem fronteiras de tempo ou de lugar, onde as criaturas (ficcionais) dialogam com os seus criadores, onde Esse e O’Neil viajam para Lisboa numa barca conduzido por Confúcio, onde Eça e Esse, em Tormes, acompanhados por Charles Robert Anon (heterónimo infantil de Fernando Pessoa e representado figurativamente por um desenho que reproduz uma fotografia do poeta aos dez anos) discutem o papel social da literatura. Desta breve apresentação, surge como evidência que qualquer apaixonado pelos livros e pela literatura se sente, diante deste romance, como uma criança numa loja de brinquedos, levado num turbilhão de sensações feitas da alegria da descoberta e do entusiasmo da indagação.

Vários elementos concorrem para a originalidade do romance, que nasce antes de mais da incorporação e discussão de obras da literatura universal, pertença de todos nós, que aqui ganham novos significados, abrindo-se a novas perspectivas. No entanto, o exercício de reescrita empreendido não é apenas e só uma apropriação de textos da plêiade de escritores, pensadores, filósofos, poetas, dos mais variados países e de vários tempos, convocada pela efabulação. Com efeito, o leitor é surpreendido pela afirmação da paternidade dos excertos textuais citados (Dom Quixote, de quem Esse recebe uma missão secreta, refere-se ao seu criador como “o pai Cervantes” p. 68), que surgem em discurso directo, pela voz dos seus autores que assumem, por essa via, a condição de personagens ficcionais. Por outro lado, constitui ainda marca de originalidade a série de elementos paratextuais que ladeiam o corpo do texto, com particular destaque para a “Tábua de Personagens e Lugares”, em que ao traço da palavra escrita, desafiante e penteada por um humor fino e desconcertante se alia o traço elegante e bem-humorado das ilustrações de Vasco Gargalo.

Na viagem por esta saramaguíada, viagem repleta de desafios e estranhezas, somos conduzidos por uma curiosa personagem que assume a condução da narração, mas igualmente a construção da efabulação. Vai inscrevendo no entrecho comentários, explicitações de opções diegéticas, interpelações aos leitores, convocando-os, desse modo, para um surpreendente e desconcertante jogo de interpretação e reconfiguração em busca da intencionalidade dos textos, procurando desvendar aquilo que Ricoeur designou como a “transcendência na imanência, que se alicerça na construção de redes de afinadas textuais, não só com os autores que explicitamente são convocados por Pedro Guilherme-Moreira, mas também com todos aqueles que o leitor vai encontrando nos trilhos significantes de que o texto é feito. A leitura de um livro é por excelência um acto individual, um constructo, para o qual cada leitor leva as memórias de outros textos que com este põe em diálogo. Constituindo-se com espaço de cruzamento de escritas e de leituras anteriores, o texto oferece aos seus leitores uma multiplicidade de relações e significações das quais destacaria duas em particular: Utopia de Thomas More e Huis Clos de Jean Paul Sartre (ficam em aberto a concretização desses diálogos e o prazer da descoberta).

            As grandes obras, aquelas que perdurarão na mente dos leitores, são as que incomodam, porque abalam certezas, desarrumam pensamentos, desconstroem convenções. Tudo isto sucede com a leitura de Saramaguíada de Pedro Guilherme-Moreira, um livro surpreendente e belo, “como uma claraboia para dentro do mundo”.


PG-M 2017
foto de uma recensão da Professora Universitária Agripina Vieira no Jornal de Letras de Novembro de 2017

2017-12-08

O fim dos falsos inocentes



"O fim da inocência" é duro. Oksana Tkach virtuosa. Joaquim Leitão mais do que competente a filmar momentos de violência, sexo e alienação que, ao contrário do que tem sido dito, não são típicos desta geração. São transgeracionais. Todos nós estivemos perante esta bifurcação. Aliás, estamos. A vida toda. E não é como pai que fico preocupado. É como próximo. Desde sempre pugnei pela queda dos tabus perante os mais novos, nessa idade de limbo em que o corpo parece adulto mas a alma ainda é menina, porque só os podemos proteger se falarmos disto. Explicar que a exposição em redes sociais não é inocente para muitos, e que há desejos negros e inconfessáveis. Às vezes, basta olharmo-nos ao espelho para perceber como somos falíveis, e o que distingue a humanidade é entender e controlar o que é animal e imoral. Não, ninguém tem direito de seguir o seu desejo nem é livre de o fazer. E mostrar isto desta forma crua, sem forçar o argumento, filmá-los em cima, deixá-los a sós connosco deixa-nos a nós desprotegidos. Já todos sabíamos, mas ver sem poder fazer nada é terrível. Vários rapazes e raparigas da idade dos retratados no filme, começando a projecção gozões e descontraídos, estavam colados às cadeiras ao intervalo. Assustados. Porque o filme é duro. É mesmo duro. Por isso imperdível. Tem sido relatado que muitos avós e pais e mães saem a meio, porque não aguentam. Isso acontece porque não estavam preparados. Mas é preciso que estejam. Que saibam que em dez seres humanos que se reúnem à volta de uma mesa, qualquer mesa, há vários (não apenas um) com instintos primários e inconfessáveis. E entre eles um ou dois que, por egoísmo, se podem tornar perigosos a qualquer momento. Não é por isso que é legítima a paranoia e o colo vigiado ou negado às crianças. Se o tabu cair e o assunto ficar em aberto, o perigo diminui. Mas se continuarmos a censurar e a esconder e a negar, os mais perigosos continuarão a atacar na sombra e os mais frágeis continuarão por proteger. Abençoado Joaquim Leitão por isto. #ofimdainocencia #pgm
PG-M 2017
Nota: a (belíssima) foto estava publicada no facebook do livro / filme sem identificação do autor

2017-11-13

Jim Carrey e o princípio e o fim do mundo

Jim Carrey, Lobo Antunes, Rodrigo Amarante, Eduardo Lourenço, George Steiner, Shakespeare, Cervantes, Saramago, Robin Williams, vida e morte, panteão, palhaços, gritaria em rede social, depressão, suicídio, grande e pequena arte, existência ou inexistência da literatura, Irene, milagre seria não ver no amor essa flor perene.
Tenho o privilégio de ser chamado a escolas e a comunidades de leitores para justificar o meu direito a abrir a boca na contemporaneidade, onde só uma ficção benevolente pode atribuir-nos mérito e demérito artístico. Na verdade, nenhum artista - está visto que eu vejo os escritores como artistas - ou julgador de artistas pode realmente saber se é importante ou não. Nem para o seu tempo, nem para o fim ou princípio dos tempos. Todos, claro, aspiram a isso.
Um das coisas notáveis que Jim Carrey disse ao programa 60 Minutes foi: "Eu quero ser o melhor actor que alguma vez existiu, mas não tenho de ser."
Porque é que eu sigo Jim Carrey, apesar de o resumo contemporâneo deste génio ser o estigma americano dos processos interpostos pela família e pelo último marido da namorada de Jim que suicidou? Forneceu-lhe drogas que a levaram ao suicídio e transmitiu-lhe três doenças venéreas? É isto que agora o define para o mundo frívolo.

Porque o Jim Carrey disse uma vez, e tem-no repetido pelos tempos, "descobri que a minha missão no mundo era inspirar os outros, ajudá-los a descobrir o melhor de si mesmos".
Para mim, o ano sempre começou em Setembro, e cada Setembro repenso a minha relevância no mundo, e a dúvida anda entre regressar à caverna ou exibir-me com as vestes sociais que me podem tornar suportável.

Até aqui, o meu único foco de intervenção pública foi provar que são os outros, não eu, que importam. Que o escritor não existe por si, mas pelo leitor. Que, mesmo que não seja lido, todo o livro é um compromisso entre os algoritmos indecifráveis da arte literária antes de serem sintetizados e passados ao papel e o que fica disso para poder ser lido. Um livro não tem de ser fácil, mas tem de ter em si, pelo menos, a possibilidade de ser lido. A comoção de ter pela frente pessoas que, com mais ou menos vontade, estão ali para me escutar, é sempre enorme. Sinto uma reverência que, se não for domada e convertida, pode até ser inibitória. Em momento algum me sinto importante. Gosto até de brincar com a aparência de importância que os escritores precisam de ter para se distinguir da massa informe ou disforme dada ao prelo pelas empresas de venda de sonhos ou projectos dos que sonham ser escritores. Todas as artes, hoje, são susceptíveis de serem imitadas e de terem edições que o público não consegue, imediatamente, distinguir se é autêntico ou fruto do ego de pseudo-artistas que pagaram para ser vistos, não para ver. Pseudo-artistas que nunca ficam à escuta, única forma de apanhar a matéria suprema da arte algures no universo e, podendo ou sabendo, dar-lhe uma forma, boa ou má, de bom ou mau gosto, desta ou daquela corrente, feia ou bonita, não importa. Importa apenas que seja genuína criação, ainda que falhada.

Também aprendi com o Jim Carrey que devemos falhar bem e controladamente. Que o momento incompreensível em que eu decido cantar o Lilac Wine na apresentação de um livro e as lágrimas na garganta me darem cabo da pouca voz que ainda estava disponível não foi um fracasso total. Afinal, eu estava a chorar por dentro por uma leitora tetraplégica cujo exemplo sempre me emocionou. Se eu fosse perfeito em tudo, nunca conseguiria criar empatia com os leitores, só fãs loucos e irracionais.

O desfile de nomes ao princípio é só um exemplo dos que tenho ouvido de forma crua e acrítica, primeiro, para poder formar uma opinião ou me tornar melhor artista. Não pessoa, artista.

Esta moda no "#notme" não me comove. Sabem porquê? Porque eu sempre estive na primeira linha de protecção dos fracos ou enfraquecidos temporariamente, por condição social, religião, idade ou género. Aliás, cometo reiteradamente o erro de me aproximar dos fracos e de lhes dar protecção, mesmo sem que isso me seja pedido. Conheço bem a linha fina entre assédio e sedução. Não existe, na condição humana, um único movimento de sedução de qualidade que não pise linhas. Escrevi várias vezes sobre isso. Testei limites em ambas as profissões que tenho exercido, advogado e escritor. Percebi a hipocrisia e o poder do sexo. O poder destrutivo do egocentrismo e do egoísmo, mas também de quem o usa para prejudicar ou mesmo destruir terceiros em situações de fronteira. Hoje em dia é muito fácil e hipócrita confundir saúde com doença, no que ao sexo diz respeito. Mas, na verdade, uma pessoa de princípios nunca cede e, se acaso comete um erro, sabe imediatamente reconhecê-lo. Há puritanismos (muito) mais perigosos do que libertinagens.

Chegados aqui, nunca retirarão a Cervantes o ceptro de autor da maior obra de todos os tempos (por subjectivo que seja, já houve várias eleições nesse sentido de pares com autoridade), mesmo que ele fosse o maior criminoso de todos os tempos. Aliás, o que o tempo faz aos maiores criminosos de todos os tempos é dar-lhes um sentido e um significado histórico que serve aos vindouros para se protegerem. E como nunca retirarão o ceptro a Cervantes, também não retirarão os prémios e o brilhantismo ao Kevin Spacey nem o génio ao Salinger, apesar do pobre comportamento perante a Joyce Maynard.

Da mesma forma, transcende a minha opinião ou sentimento pessoal o jantar do Panteão. A única coisa que isso me serviu foi para perceber que prefiro uma boa dúzia de génios que jantou no Panteão há dias e que tocará este mundo realmente para a frente do que os medíocres dos políticos que responderam presente à gritaria das redes sociais. E vocês, com quem é que contam para o futuro? Com o Paddy Cosgrave ou com o António Costa, que até já lá tinha feito as suas jantas?

Jim Carrey é - por razão nenhuma quanto a ele próprio - a partir desta semana, não apenas mais um ídolo ou mais um génio que cultivo, até porque, como ele explicou na célebre entrevista em que descompõe uma repórter de passadeira vermelha na Fashion Week (repórter a quem ganhei respeito, porque se aguenta brilhantemente perante um destruidor - mas sempre genial - Jim Carrey), mais vale cultivar personalidades e conteúdos do que ícones, mas o maior génio das artes que exerce.

Vi horas a fio de performances, entrevistas, bem mais do que filmes (porque ele é bem mais genial quando é ele próprio), e regresso sempre ao Commencement Speech que vos deixo no final deste.

Se, entretando, a ligação do vídeo expirar, voltem por favor a procura-lo no youtube e, como tudo o que é muito importante, vejam-no com vagar.

No final, parecer-vos-á claro o mistério do princípio e do fim do mundo.

E restar-vos-á toda a coragem para  o que fica entre os dois.

Tenham uma boa vida.

PG-M 2017
origem da foto

2017-10-16

caramba, a vida

É curioso como olho para este lugar, cada vez mais, como um lugar vago, com a cara da solidão, apesar de tanta gente, como se visse desfilar uma multidão parda e silenciosa e conseguisse ouvir algumas conversas de circunstância - queríamos que fosse aquele permanente almoço barulhento entre amigos, em que tudo o que dói fica suspenso - ou o jantar alaranjado com fumos de forno e um tinto denso em que nos levantamos para ir buscar um copo e ouvimos uma gargalhada a puxar outras e o ar corpulento, como o vinho, e não pode ser sempre assim, vimos por aqui bem intencionados para que alguma coisa nos mova, ou apenas para deixar imagens maiores do que nós e assim completar a ilusão do nosso tamanho, preocupa-me, preocupa-me não valer a quem ainda não aprendeu que a vida tem de ser um esforço permanente de levar o sangue ao ponto de ebulição, mesmo em plena tristeza, podes estar sereno perante uma paisagem arrebatadora, em silêncio, e profundamente triste, como aqui, de olhar vazio para o ecrã azul e branco, mas o sangue tem de passar espesso e em alta tensão, sempre, não é um programa de saúde, não é sequer um abraço, há momentos tão desventurados que queremos é que nos deixem, que não nos toquem, que não nos falem, vai a multidão parda e tu podes agarrar num braço, sair dela, sentares-te a tomar um café e uma conversa de disparates levantar a película aderente dos nossos dias e sem querer estamos a consumi-los, a comê-los como deve ser, e até o trabalho, um bom dia de tensão, pode salvar-nos da incomensurável tristeza, aflição, ansiedade, medo de falhar, estamos aqui no centro de um multidão parda e podemos, sem demagogia ou lamechice, dar o grito de várias formas, e a infinita dolência, como a infinita alienação, são duas gémeas a percorrer os corredores do hotel e o melhor que tiramos daí são vários Jack Nicholsons que espreitam a todas as portas sem querer, realmente, saber. Se formos capazes de manter o sangue em ebulição, pousar o telemóvel, desligar o pc, abrir a boca e ouvir, fazer barulho e calar, nada do que é bom é contínuo, nada do que é mau é contínuo. Está gente fosforescente a sair da multidão parda e a encher as margens, há um rumorejo que cresce, já ninguém promete cafés ou jantares, já ninguém adia para depois da morte, já todos seguiram o bom exemplo dos velórios e funerais, onde homenageamos o outro, não a nós, onde cuidamos dos que o cuidaram, não de nós, onde não nos fotografamos, onde descobrimos um tempo impossível, em vez de nos ocuparmos a afastar todos para longe, e agora eles, os fosforescentes, falam, eles falam todos uns com os outros. Que raiva, dizem. Olha, dizem. Ouve, dizem. Caramba. Caramba. Caramba, a vida.

PG-M 2017

2017-10-11

Temos fotografias

Eu nunca te mostro ou... nos mostro publicamente para lá do que escrevo, porque o amor, o verdadeiro amor, é ofensivo na face da desventura. Não há, pois, auto-retratos. Mas seria mais ofensivo para todas as mulheres que eu vi e me viram toda a vida dizer que ceguei e não vejo mais ninguém além de ti. Como fazia a mulher do García Márquez, e como fazem todas as grandes mulheres, tu também me chamas quando passam as mulheres que me arrebatam. Eu digo-te quase sempre quem são e nós vamos gerindo o perigo de nos perdermos com mundo, não com utopias. E no quase está a intimidade e o segredo de cada um, que o outro respeita, umas vezes, e outras tolera com mais ou menos sabedoria. As tentações estão dentro da harmonia. Sabemos que o verdadeiro amor só tem dois segredos: é simples e livre. Mas nunca descomprometido ou desleal. Esta mão está fresca sobre ti nos dias quentes e quente nos dias frios. Faz Janeiro trinta e um anos. Sou homem e amante, mas também sou um menino, um infante amedrontado, que já perdeu os mapas dos outros corpos. E se a confissão me faz perder a fama de onde nasce a tensão e a curiosidade dos outros (das outras), o mapa está aqui, sob esta mão, é o teu braço, a tua temperatura, o que eu faço de ti e tu de mim. E eu só saberia amar outra mulher como te amo a ti. E o corpo, oh, o corpo, teria de o aprender como uma criança, por este mapa, por esta mão, por este braço.

PG-M 2017
Foto nossa. Sim, somos mesmo nós, em Outubro de 2017, não há sete ou outo anos. Agora. O maior mérito tem sido velar. Mas desvelar os trapos que afinal não são trapos - uma ou duas vezes numa década - também tem o seu quê de utilitário. Sim, utilitário.

2017-10-03

vida e morte dos gatos

até muito tarde na vida

sempre que passava de carro pelo cadáver de um gato

ficava a pensar na minha morte
e desolado pelo tempo do gato
ali parado e sem amor

e os rodados dos carros sem alívio
zim zim zim zim zim
e o gato ali
parado e sem amor

agora na vida é mais tarde e

sempre que passo de carro pelo cadáver de um gato

não mudo de pensamento
só de atenção e é uma mudança
breve
leve
verifico se é preciso trocar de faixa
se o telemóvel está ligado ao sistema de mãos livres
se aquela morte não me vai atrasar a vida
penso no descuido do felino
mas tudo passa quando
o carro passa e eu passo
com o carro
sem ficar lá

como ficava antes

até muito tarde na vida

o meu filho sentava-se comigo à mesa do café
de camisola de manga curta e miniatura de mustang
e eu de olhar vazio e sorriso vago inclinava a cabeça e dizia

vrummmmmmmm

e ele dava uma gargalhada e eu continuava aflito
não com a vida ou morte dos gatos
agora o meu filho sai às sete e entra no wc do café
sai de camisa e gravata e olhar vazio e sorriso vago
e inclina a cabeça para mim e diz

vrummmmmmmm

e eu como mais uma colher de sopa

até muito tarde na vida
a peixeira parava ao largo e abusava da buzina
e a tia quina saía lampeira a dizer menina
e o toninho movia-se dentro do balcão
com dignidade a tirar cervejas cafés e a dar
raspadinhas e prémios e troco
do benfica em terra de portistas
e como o toninho era puro ficavam
todos a rir

até muito tarde na vida
o poder mal se notava na rua
os ferros e as mãos entravam na terra
as línguas nas bocas e o sal na comida
os corpos encaixavam debaixo dos braços
e não havia distância
nem desterro

até muita tarde na vida
cuidava-se da vida e da morte
dos gatos
o avô entrava no porto pela ponte dom luís
parava no largo 1º de dezembro cortava a travessa
da rua chã rompia o frio das sete para arrumar os
volumes de tabaco e as harmónicas novas iguais
às harmónicas velhas havia um balcão de dois metros
de ancho que eu até me deitava lá ao comprido ainda
eu não era comprido e os gatos viviam e morriam
normalmente

até muito tarde na vida
atirávamos o prego para a terra
o pião para o chão
o iôiô de balancé
para o vazio
trocávamos cromos a chorar
pelos mais raros
e ir ao telefone
era um momento solene
tínhamos cães e gatos como pessoas
e eles não morriam sem
consentimento
a avó dava notas de dez contos
e o jantar tinha uma única hora
em todas as casas

até muito tarde na vida
o natal era secreto entre os ouvidos dos primos
e as famílias compridas de dois metros de ancho
como o balcão da loja e como os jogadores
de basquete do futebol clube do porto
no pavilhão américo de sá e quando a solidão
e quando a solidão nos tocava
havia sempre um vizinho
no ombro

até muito tarde na vida
o mundo era imperfeito
e desarrumado
as bancadas dos estádios frias
e sem cobertura
havia baianas na casa da batalha
e sapatilhas de marca na crocodilo
e nós dançávamos slows
nas festas de garagem
e das paredes nasciam
grupos de rock
e ninguém se rendia
nas caçadinhas só
no jogo do lencinho
com juras de sangue
nos lábios das loiras
para todo o sempre
e os gordos e os
caixas de óculos
eram nossos
e investidos cavaleiros
no brasão do grupo

como o Piraña
do Verano Azul

até muito tarde na vida
jogámos futebol na rua
entre a vida dos cães
e dos gatos
com balizas de paralelos
e empates dez a dez
e perdíamos os amigos por
três meses e não pela vida
toda como agora
a morte dos cães
e dos gatos

até muito tarde na vida
fiz poemas muito maus e
mesmo assim os amigos
pediam versos como
Cristiano a Cyrano
para a Roxanne
e vinham de olhos
húmidos acusar-me
de poesia
e hoje
que os meus poemas são melhores
são mortos sem piedade como os
gatos no breu

até muito tarde na vida
os poemas eram finitos
e os gatos infinitos

doravante morrem os gatos
mas os poemas não 

PG-M 2017
(que neste escreverá toda a vida mais e mais versos e estrofes a seguir a "breu" até que o atropelem na estrada sem piedade como os gatos no breu - eis o poema aberto)

fonte da foto


2017-09-30

nos próximos minutos ou então a vida inteira


nos próximos minutos (ou então a vida inteira), haverá apenas dois guilhermes no mundo, um pai e um filho, tão diferentes um do outro como as copas e os troncos das árvores, como os sorrisos duros e os olhares doces, tão diferentes um do outro que os respectivos corações são poços sem fundo e quem para eles espreita dos rebordos de granito entre os meses só vê preto,

só que a entrada para o meu é pelo topo e a entrada para o teu pela base e como não têm fim nem a manipulação formal de equações, operações matemáticas, polinómios e estruturas algébricas resolve o problema a quem nos estranha:

onde fica o verdadeiro acesso?
já quem nos ama chega ao centro de olhos fechados, comigo pela pele e pelo cheiro, contigo pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

ambos comemos ética e liberdade, só que eu já engordei e tu ainda não,
pelo que comigo a ética e a liberdade funcionam como as lutas de homens e touros mais ou menos como as caracterizou um dos maiores matemáticos do nosso tempo, Hemingway, estou quase nos cinquenta e ainda não sei viver com economia física e acho que a beleza de um gajo do porto está no desbraganço e no calão e na forma vigorosa de destruir as espaldas dos amigos
(não vou agora recordar-te, com o risco de uma lamechice mortal, que a minha solução não foi opção porque era espancado em criança e um dia me levantei e comecei eu a espancar: isso seria estúpido e pouco literário; na verdade sou assim porque acredito nisto)

e tu, que só muito recentemente te tornaste homem,
comes ética e liberdade com economia

como o garcía martín lá em oviedo, a forma como um homem não se vende nem se cala - nem aos amigos, nem aos inimigos, nem aos inofensivos nem aos mais perigosos - priva-o imediatamente da unanimidade, e, como a unanimidade é perigosa, torna-o seguro

mas, na verdade, ninguém sabe que esse homem é seguro, porque o homem livre parece sempre um cabrão e um cabrão parece sempre um simpático homem livre

a diferença é que eu agora passo a vida a dizê-lo e tu não

os teus amigos percebem-te em silêncio e sem proximidade
curiosamente, no fim de contas, os meus também

posso dizer-te, meu filho, que é provável que possamos obter algum reconhecimento à morte ou na extrema velhice, nunca antes

não esperes palavras justas ou reconhecimento quando partes de um lugar ou de uma casa
não esperes agradecimentos públicos
não esperes cartazes pendurados em murais

afinal, esta filosófica busca da autenticidade - e não da verdade, que é mais falível e impura do que a matemática - traz apenas isso, autenticidade

mas, repara, não leves a mal a ninguém o silêncio perante homens com qualidades
quem pode viver sem um abraço e um elogio público?
ou ao ouvido, baixinho, para que ninguém ouça, "mano, sabes que nunca me vou esquecer de ti"?
quem pode viver sem uma noite de embriaguez e a negação da dolorosa ciência dos dias, sem os metais da vitória e do sucesso, a carne das taças e o brilho da geometria, a arrumação iconográfica do ecrã do telemóvel ou a selfie que te ilude a sentença suicida:

mas a vida é só isto? esta merda?

afinal, meu filho, a única coisa que tu fazes é voar

e ser digno


e sim, a vida é só isto, é lama e cinzento, são corpos cansados e as curvas das mulheres misturadas com as curvas dos ossos, mas, tu que és de cá,

um dia vais fazer o que eu fiz: vais levar o sobrinho do Pessoa,
que nasceu da névoa em Canidelo, naquele percurso da luz:
pelas onze da manhã, estacionas o carro na afurada, debaixo da ponte da arrábida, e diriges-te a pé rio acima e, depois da primeira curva à direita, vais apontar (eu sei que não gostas, mas, por favor, aponta) para o primeiro vislumbre da ponte de ferro e mostrar o jorro da luz da manhã a varrer o rasto dos barcos em direcção a ti e ao céptico que te acompanhar e dizer

a vida são aquelas lágrimas de há pouco, sim,
mas também isto

e lá está o meu defeito, é sempre a mesma merda:

eu só escrevi isto para te dar os parabéns como todos os pais têm dado aos filhos que entraram na universidade este ano, e mesmo aos que não conseguiram mas lutaram e vão continuar a lutar

é, pois, um texto profundamente banal e nepotista

é até bem triste que um pai se sirva do seu próprio filho como exemplo nas escolas que visita como escritor, como se não tivesse vida própria além desse filho, e é por isso que eu gostaria de esclarecer publicamente, para que fique claro, agora e sempre:

é verdade, eu não tenho vida própria além deste filho; mais precisamente: a minha vida própria é este filho e tudo o resto uma grande consequência de não haver nada mais importante

vai continuar a ser assim até descobrirem o fundo aos poços dos nossos corações, lamento

nas escolas eu digo que andavas com umas notas pouco recomendáveis no décimo ano quando viste a luz da engenharia mecânica, soubeste que estava na moda e que o lamentável crivo se aproximava de um dezoito e tu estava longe de ser um dezoito e disseste

eu quero isto


e acabaste perto do dezanove; desligaste a playstation durante um ano, perdias cinco horas por dia a treinar com a tua selecção nacional de voleibol e a combater as leis medíocres deste portugal que há muitos anos não ajuda os seus atletas e prefere fazer leis parvas que as escolas e as universidades e as federações não combatem a sério, foste dando sempre passos seguros atrás quando te queriam empurrar para a frente, mudaste de clube, foste feliz e respeitado e nunca deixaste de voar, mas os critérios de topologia, geometria, até a teoria dos números para te descrever, tudo

tudo em ti é imperceptível e infungível

e no entanto és feliz

baixas o corpo quando o distribuidor te aponta a bola, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado

sabes o teu lugar, se to tiram combates por ele e bates palmas aos adversários
e quando abraças um amigo é para sempre,
mesmo que ele não abrace de volta

mas receber o teu abraço custa uma vida
e quem te estranha, pergunta: onde fica o verdadeiro acesso?
já quem te ama chega ao centro de olhos fechados, pela observação e pela aprendizagem da devida distância, que só a matemática pura ensina

entraste

vais lutar pelo máximo, sempre

e, naquele desporto que toda a vida foi nosso, estás parado no ar,
no teu deserto privado
e sem ninguém

mesmo perto do brilho, com o corpo pronto para lutar pelo impossível,
lanças tu a bola ao ar,
baixas o corpo, arrastas os braços pelo chão, baixas a cabeça e fazes a chamada

estás parado no ar
de laranja, de verde, de vermelho,
não importa

agora estás parado no ar, no teu deserto privado,
na falível percepção da felicidade
mas com memória do mundo


parabéns, meu filho



PG-M 2017
foto do próprio






2017-09-14

Saramaguíada - sai no final de Outubro

Nos "teasers" e nos primeiros anúncios do terceiro livro, a ideia que passámos foi sempre a de lançar no final do Verão de 2017. "Teaser" no dia 14 de Junho, que passará a ser o Diassaramago, porque este livro o cria, e mais não é preciso. Lançamento no dia 15 de Setembro.

Acontece que a pré-venda correu tão bem que superou as previsões de autor e editora, e absorveu toda a primeira remessa do prelo. Aliás, literalmente, "não chegou para as encomendas". Ora, como a nossa palavra é só uma, ou seja, nem pensar em ter o livro nas livrarias antes de estar nas mãos de quem apoiou esta aventura previamente - já chegou a algumas centenas, mas tem de estar na mão de todos eles - a edição foi atrasada, a meu pedido, para o final de Outubro.

Este post celebra a chega do novo animal ao jardim zoológico literário.

A fotografia é do "despacho" de José Luís García Martín, um dos maiores e mais respeitados e reputados intelectuais ibéricos, o Professor Catedrático de Oviedo, Departamento de Filologia, e que vamos ter a honra de receber este fim-de-semana no Festival Literário de Ovar e que é o melhor cartão de visita para o livro. Livro que, é visível na fotografia, chegou ao "despacho" de García já com marcas visíveis de uma viagem atribulada: resta saber se criatividade dos Correios de Portugal ou dos Correos de España. Em Ovar, convidei-o para dizer mal de mim e do livro. Espero também dizer mal dele. Será uma oportunidade única. O meu respeito intelectual por ele não permitirá outra gracinha.

Gratidão para os que apoiaram na pré-venda e pedido de desculpa para esta espera extra de cinco semanas para os que o esperam em livraria.

PG-M 2017
fotografia de J.L. García Martín

2017-08-30

O último dia

 A partir de 1 de Setembro rege a lei do preço fixo. 31 de Agosto é o último dia de pré-venda, avisa a editora. Obrigado aos muitos que apoiaram e aos que nas próximas 24h ainda o farão. O livro está no prelo e sai quentinho esta madrugada. Começará a seguir segunda-feira para os que apoiaram esta fase. Nas livrarias estará a partir de 15 de Setembro. Os primeiros lançamentos serão aqui anunciados (e no facebook e no instragram). Loja online aqui.

2017-08-05

Entrevistas 2017 - a primeira

A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança e trabalho’

com 1 comentário
Entrevistas > Pedro Guilherme-Moreira em Escritores online

Pedro, quando é que surgiu a tua vontade de escrever ficção e de publicar?
A resposta a esta vai logo na badana do primeiro livro, “A manhã do mundo”. A professora da 2ª classe pediu-nos para escrever uma fábula e eu transformei-a numa formiga. Era o que me apetecia fazer, mas pensava que estava a ter um atrevimento que seria severamente punido. Eu era bem comportado. Tinha tido dificuldades na primeira classe por excesso de medo. A professora Laura tirou-me o medo todo quando me ensinou a fazer contas de dividir, no primeiro dia, e me deu a nota máxima e elogios por ter feito a loucura de a transformar em formiga. A partir desse dia, achei que tudo era possível. A literatura faz isso. Transforma-nos em gajos perigosos. Mais valia ser medricas.
Onde é que, por norma, encontras a inspiração para escrever as tuas obras?
Temos de distinguir a poesia da prosa e do teatro, para falar só em três géneros. A poesia já lá está, é nossa responsabilidade reduzirmo-nos à mesma formiga da fábula para transportar a poesia e a mostrar ao mundo. Nem sempre o fazemos bem. Quando nos apagamos completamente, mesmo que sejamos o objecto do poema, um ou dois de nós chega lá, de vez em quando – a poesia é talvez o processo biológico mais próximo da inspiração. A prosa exige muita oficina, muito suor, perseverança, trabalho – eu quase só vejo inspiração no primeiro acto, aquele que nos obriga a parar tudo para registarmos a possibilidade de um novo livro. Finalmente, o teatro: nunca tive tanto prazer como quando escrevi para teatro. Estava lá, no palco, e tudo aconteceu ao mesmo tempo nas teclas e no papel. Uma sensação maravilhosa e terrível, ao mesmo tempo. Mas neste gajo perigoso há um denominador comum, seja na literatura, seja num jogo de voleibol: vísceras.
Quais as temáticas mais presentes na tua escrita?
Estava preparado para ser evasivo, como nos ensinou Bukowski, mas na verdade tenho-as: levar-nos para as margens da natureza e da condição humana. Tenho quase um desespero de nos observar lá, onde nenhuma minudência pode importar, de perceber o que realmente importa. Como fiz nas torres gémeas. Descrevi os suicidas e depois tirei-lhes a carne e vesti-me neles, para que sentíssemos o mesmo que todos os três mil mortos. Eu e todos os leitores. No Livro sem ninguém tirei-nos do mundo e li-nos lá. Um livro sem personagens grita gente por todos os lados. Noutros, inéditos, reverti as metamorfoses. No novo, “Saramaguíada (a invenção de Pilar)”, obriguei a ideia de Saramago a fazer as vezes de Quixote e levei-o de barca aos limites da literatura e do próprio amor, que são coisas diferentes, embora aquela contenha este e este não contenha aquela.
Que aspetos destacarias relativamente ao livro que publicas este ano, o terceiro, “Saramaguíada”?
A Pilar chega a Lisboa para conhecer fisicamente o Saramago a 14 de Junho de 1986, estávamos nós a aturar Saltillo e o México 86. É o Diassaramago, que se celebrou ontem. Nesse dia, levámos no corpo de Marrocos, 3-1, um golo do Diamantino. E nós, eu e vocês, não vamos dar descanso à ideia de Saramago, que renasce para isto, como renasce a cada leitura dos seus próprios livros. Mostro a Pilar pré-1986. Achei que devia. A Pilar faz parte da nossa literatura, é uma realidade, não podemos fingir que não, não devemos fingir que não. Não mostro a vida comum deles. Mostro-os depois da morte dele. Cruzo o mundo ideal com o mundo real de uma forma muito prosaica e simples, desde que ninguém se agarre ao tempo. O tempo, sendo tudo, importa pouco para as ideias, que, como sabemos, vão, voltam, são recicladas desde as cavernas – às vezes são relativamente novas, mas nunca são novas, ao contrário dos livros – claro que ainda não se escreveu tudo e os livros são mesmo novos, quando são. As ideias sobrevivem no tempo, mas também apesar do tempo. Assim, levo o Saramago a conhecer o Eça e a Maria Amália Vaz de Carvalho por motivos frívolos, que é o que tantas vezes fazemos no “meio”. Dou-lhe uma missão banal. Obrigo-o a aturar o jovem Pessoa e o seu cão Shadow e a levá-los nessa missão. O jovem Pessoa apaixona-se pela Annabel, do Lolita, do Nabokov, o que se torna um problema, porque Nabokov determinou que Annabel morresse de Tifo em Corfu. O jovem Pessoa sabe disso e quer evitá-lo a todo o custo. Em Corfu, ou numa espécie de Corfu, chamada Ilha dos Jornalistas sem Cabeça (onde reflicto sobre jornalismo e sigo os últimos passos do jornalista mártir brasileiro Vladmir Herzog) Saramago é julgado em público e defendido pelo Padre António Vieira. Encontra-se com O’Neill em Lisboa e com Virginia e Leonard Woolf numa ilha parecida com Amalfi, assim como com muitos outros escritores brasileiros, portugueses, espanhóis. Levo-o à Tormes de Eça comer o célebre arroz de favas. Encontra-se com Voltaire em Paris e com a mãe de Pessoa em Davos, numa volta de Montanha Mágica. E com vários vultos nas barcaças que o levam para aqui e para ali. Enfim, o livro nem é grande (cerca de 320 páginas), mas para mim tem um certo infinito, como aquelas pistas de aeroporto infinitas que querem agora construir, porque são circulares. Ah, e temos uma personagem arrepiante (temos várias, mas esta é principal): a própria Leni Riefenstahl, a cineasta do Hitler.
Quais os momentos mais marcantes no teu percurso enquanto escritor?
Encontrar os editores e os leitores de todas as idades. A emoção de ver um editor de grande qualidade mostrar-nos que a grande merda que fizemos, quando pensávamos (não pensamos todos) em obras maestras, como dizem os espanhóis. A Pedreira, que me deu a mão para lá deste muro alto da edição, apesar de termos feitios e ideias muito diferentes (creio que nos estimamos e respeitamos muitíssimo). A Virgínia do Carmo, pela humildade e pela coragem. E tantos leitores, dos 11 aos 97. As visitas às escolas são um profundo privilégio, apesar de precisarem de uma afinação de egos e métodos pedagógicos. Todo o ensino do português precisa. Não se ensina a ler nem a escrever, que é o fundamental. Exagera-se em grelhas numa “ciência” de máxima subjectividade. Só os grandes professores de português nos salvam.
O que é, para ti, um bom livro? 
Não me meto na definição universal do bom livro, que não existe. Para mim é fácil ver um mau livro, mas aprendi que quem os escreve, se tiver a humildade de os destruir e avançar, pode vir a escrever bem. Quase sempre, os livros mal escritos são escritos por maus leitores. Mas há bons leitores que não conseguem encontrar a voz e a técnica. A pressa em publicar não serve de nada. Mais vale ser injustamente recusado do que auto-publicar sem crivo e a ciência do editor. Isto era um mau livro. Um bom livro, para mim, só para mim, é um livro que me pendura pelos cueiros, que me faz praguejar do quão bom é, que me faz desesperar por não conseguir “resolver” aquela voz, que quero sempre desesperadamente plagiar para aprender a fazer parecido. É, cada vez mais, o livro que me mostra oficina. Ouvi dizer, um destes dias, já não sei quem nem sobre quem, que o bom livro e o bom escritor deixam as costuras à vista. Nem que tenham de as esconder no processo.
E o que faz de um escritor um bom escritor?
Ser simples, não emitir opiniões como sentenças erga omnes e deixar-se de merdas. Lutar pelos livros todos, não só pelos seus. Ser humilde perante o leitor e o editor. Colocar o leitor no topo da pirâmide. Saber parar e questionar. Não atacar publicamente os pares, mas criticá-los e pensá-los muito em privado e olhos nos olhos ou até nas costas, se ele não estiver por ali, desde que tenha a decência de, na primeira oportunidade, dizer na frente o que pensa. Não ser subserviente ao statu quo vazio, mas respeitar os decanos, a sabedoria e a erudição, lutando por uma nova. E, se, no final de tudo, for uma reles pessoa, que se meta em casa ou no escritório e se dedique obcecadamente à literatura, para não magoar mais ninguém e fazer o bem aos vindouros, poupando os contemporâneos. Se for uma reles pessoa, por favor não escreva no facebook.
Para terminar, gostaríamos que nos indicasses os teus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.
Gosto muito de muitos portugueses, mas vou optar por não indicar nenhum. Porque os clássicos não precisam e porque não é por mim que os novos terão mais leitores. Tenho, no entanto, de dizer duas coisas: o Pessoa é omnívoro e deve ser consumido com tento. Contra mim falo, porque o tenho em todo o (novo) livro, embora jovem, criança. E deixem de opinar sobre o feitio da Ana Teresa Pereira como se fosse um ser humano, porque ela também já é um mito. O maior mito britânico português. Portanto, quanto ao restante, Proust – Recherche, tem de ser. Bukowski também, qualquer um. Bachelard e Platão (e este inclui Sócrates, como sabemos, porque Sócrates não escreveu uma linha), idem. Colette, que não é só para gajas (essa era um das parvoíces), Chéri. Qualquer poetisa que não chame a si própria poeta vale a pena, só por isso, embora não deva ser excluída das escolhas só porque usa um adjectivo de género masculino sobre si própria. Os sábios de rua de todas as aldeias do mundo, e que cada vez escutamos menos, com a excepção do Fernando Alves. Insisto na Bíblia, no Dom Quixote, na Karen (os meus são íntimos, digo depois). La arte de quedarse solo, de García Martín. Se isto é um homem, Primo Levi. Já chega. Obrigado!

2017-07-10

Tudo

Foi hoje, sim. Eram umas nove e tal da noite. E não peço mais nada. Não pedi isto hoje, logo hoje, não contava, não esperava, não sabia, mas ele veio ter com o pai. Subitamente percebi que era tudo para mim. Eu tinha pedido uma vitória sobre a Espanha, mas perdemos (nem sei bem se perdemos, se ganhámos uma equipa), mas afinal era isto. E isto é tudo. Não posso pedir mais. Ele já está no trilho de afastamento, e no entanto parece mais próximo do que nunca. É um puto duro, nada mimalho, com um coração profundo. Perceberam que isto é sobre mim? É. Está tudo aqui. Não preciso de mais nada. Foram dos melhores segundos e das melhores prendas da minha vida. Longe, em Bad Blankenburg, na antiga Alemanha de Leste. Eu, que me chega vê-lo de longe, das bancadas, a rebentar de orgulho, esteja ele no banco ou no campo. Não o publico para exibir perfeição ou felicidade. Publico porque é o que quero para mim hoje e acho que mereço.

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