2014-12-13

Improbiso a Oeste

Nota Prévia: a regra é a não publicação de textos que são lidos ou ditos em lançamentos ou sessões não filmadas ou televisionadas, precisamente para premiar quem se desloca ao local. Como este disurso, proferido num momento que me honra profundamente, tendo como companheiros de mesa Nuno Júdice, Rui Zink e João Morales, está integral no youtube, publico-o, finalmente, porque são raros os meus registos de oralidade e humor. Divirtam-se. :)


"Quando bi a mesa literária que me tinha calhado a Oeste, com berdadeiros monstros como o Rui Zink e o Nuno Júdice,

que é para não dizer outra coisa,

bi que num tinha a mínima hipótese de me sair bem na bida real. Resolbi entom ber se me safaba contando a história do combate do meu pai por lebar a literatura surreal, e não real, a terra de cegos.

Bou entom começar:

Título: O labrego surrealista

O meu pai é um labrego surrealista que até já se tentou dependurar no estendal lá de casa com cinquenta molas, não tendo sido bem sucedido. Com efeito, ainda tebe sucesso c´os braços,

mas fracassou com todos os outros membros.

Bai daí, frustrado por num conseguir realizar instalações surrealistas, consultou a wikipedia

e enberedou pelo surrealismo literário. Comprou Breton, Kafka e Cesariny, que nunca leu, e rumou ao café da terra empenhado em criar o grupo dos surrealistas de sanfelos da marinha, mas tebe grande resistência do grupo de leitores do jornal de notícias e do teimoso do Basconcelos, que era um joserodrigues-santista fanático, e que gritaba para o meu pai quando lhe bia a Metamorfose na mão:

“Uma vida num te chega para perceberes isso, Moreira, mas na minha cabem binte Zé Rodrigues, e quanto mais grosso melhor, salbo seja.”

O meu pai ficaba furioso e saía porta fora do Café Gelo. É bom que se perceba que este nome num tem nada a ber com o café do Cesariny, mas era Gelo porque o dono do café, o Loureiro, era um forreta e num tinha aquecimento, já que o berdadeiro nome do café era Café do Loureiro.

A berdade é que toda a literatura tinha de ser balidada no Café Gelo do Loureiro:

um gajo ia lá e perguntaba: bocês aprobam o LECHERNERBONNIER? E o pessoal todo repetia em uníssono: LE-CHER-NER-BON-NIER,  LE-CHER-NER-BON-NIER, e todos, pelo menos quatro bezes, senteciabam: é bom, é bom, é bom, é bom.

E o Cruzeiro Seixas?

Seixas, Seixas, Seixas, Seixas, Seixas, é bom, é bom, é bom, é bom.

Esta era a Academia Literária do Gelo do Loureiro.

Ora bem, esta história começa realmente, no que aqui nos interessa, quando eu cheguei a casa e a empregada me deu o recado.

“Sêdôtor, telfonou um tal de João Morais, o meu marido até explicou que era o seleccionador de râguebi, e disse que o sedôtor tinha uma mesa no oeste cum Rui Cinco, ou Cínico, num sei, e outro que é o Juice.”

Ora, ao contrário do que possam pensar, eu não despedi esta empregada por causa do recado,

páginas 2 de 3:

foi ela que me despediu a mim e à minha mulher, quando, dias depois, deixou escrito:

“Decidi que estaba na hora de me ir embora e que era abuso e gozo par mim

cas pessoas telefonem para casa dos senhores e deixem recados com nomes estúpidos.”

E enquanto eu enfrentava o drama de ficar sem empregada, o meu pai, orgulhoso, ia ao Café Gelo do Loureiro obter aprovação para os meus companheiros de mesa, não sem antes passar na libraria do Guedes, lá em sanfelos, que também bendia o selo do carro e daba para pagar o telemóbel e a luz e o gás, e comprar um libro de cada um

-        Do Rui Zink só temos o Hotel Lusitano, disse o Guedes.

-        E só tens este, Guedes, com as páginas todas amarelas?

-        Assim é que é bonito, pá. Ora cheira.

E o meu pai, já à procura da pândega, que lá na terra é sempre assim com os livros do Zink:

-        Por acasonum tens a Dádiba Dibina, de 2005?

E ele,

-        Ter, tenho, pá, tenho três ricos filhos criados a consola, com mais de cem quilos cada um.

-        Playstation?

-        O mais belho pela dois, o do meio pela três e o mais nobo pela Uí.

             E o meu pai chegou ao café só com o Hotel Lusitano, porque o Guedes não tinha nada do Nuno Júdice, mas, como bão ber, a Probidência habia de resolber esse problema.

            Chegado ao Gelo, o meu pai tebe de balidar o Zink, e o pessoal:

-        Zín-que? Zín-que? O que é isso? Zín-que?

-        Esperai, esperai, num podeis dezer à moda do norte, tem de ser curto, seco e fininho, assim, Zíiiink, e todos, Zínk-Zínk-Zínk,

e em jeito de aprobação, com as bocas fechadas e cheias de ar e os queixos a dizer que sim,

Mutito bom, muito bom, muito bom, muito bom.

            Perto estaba o presidente do conselho fiscal do clube local, o Sanfelos Futebol Clube, cuja experiência surreal são os óculos degradé com defeito, porque ficam escuros depressa mas demoram muito tempo a clarear, e o homem, quando entra em qualquer lado bindo do exterior, num tira os óculos porque pensa ca miopia é pior ca cegueira e entom bai contra tudo, e o Loureiro, qué o dono do café, pá, dás-me cabo da mobília, e o Basconcelos, que num grama o presidente nem por nada, prega-lhe uma galheta para ele aprender, ele abaixa-se e diz “tá quieto, pá, assseeeee!”,

enfim, é surreal.

            A berdade é que, quando o homem deita a mão ao meu pai, num o larga nem por nada. Nesse dia chamou-o, e então Moreira, já pagaste as quotas, pá? quais quotas?, carago, pá, as quotas de dois mil e quinze, pá, o clube precisa, pá, ah, tá bem, eu pago mais tarde, ok, tá bem, mas eu queria-te falar era desse Zink.

Epá, eu sou como tu, mas exigentalista, até ando a ler o Cámus,

Camius, disse o meu pai

mas porquê, tem um i e um acento?

Página 3 de 3:

Não

então, pá?

continua, bá!

Pronto, li o estrangeiro e até gostei, apesar de me parecer que o Cámus se passa no fim, e como queria ir direitinho, apesar do Guedes da libraria me dizer que era melhor não,  eu insisti e comprei o seguinte, que era o Mito do Xifo

e o Basconcelos, ao longe, Sísifo, pá, Sísifo, num sejas parolo e pedante, pá, lê o Zé Rodrigues, pá!

E o presidente, Cala-te!

Oube, espera lá Moreira, eu até acho que o Zink é bom, mas num percebi nada do Mito do Xifo...

Sísifo, parolo!

...e num consigo encaixar o Zink nos exigentalistas...

Também não o encaixas nos surrealistas, disse o meu pai

Achas?

Acho.

Olha, enfim, num leias os livros do Zink, cuma vida num te chega, pá, lê só os títulos.

Se tu o dizes.

Moreira, isto sou eu a dizer e já sabes que sei o que sei, mas o Júce é bom, pá, vai por mim.

Ok, pá.

Já pagaste as quotas, Moreira?

E foi isto toda a tarde. O Basconcelos ainda foi encher a cabeça ao do conselho fiscal,

disse-lhe que aprendesse,

que o Zink era Gnóstico e citou o Hans Jonas e tudo,

e diz um “A embriaguez da improcedência, pá”, e o outro, eu sei pá, “um deus separado do eu é um deus carrasco, pá, mas o  Zink num é nada disso, qu´é que queres, pá?, larga-me da mão!

Entretanto eu chego a casa, e recebe-me a noba empregada do meu pai, quer dizer, gobernanta, que esta era toda fina e exigia que a chamassem de gobernanta,

-        Olá, senhor doutor.

-        Olá, senhora gobernanta.

-        Go – VER - nanta, senhor doutor, desculpe, Go - VER - nanta.

E sem sotaque algum, disse:

-        Soube que o seu paizinho não conseguiu arranjar Nuno Júdice. O Doutor permite-me?

            Confesso que fiquei cum bocado de medo, mas permiti, e ela alça de uma mão, aponta-a para o céu, e começa:

página 4 de 3:

“Um outro Poema de Amor

No fundo, as relações entre mim e ti
cabem na palma da mão:
onde o teu corpo se esconde e
de onde,
quando sopro por entre os dedos,
foge como fumo
um pequeno pássaro,
ou um simples segredo
que guardávamos para a noite.

Nuno Júdice, in "O Movimento do Mundo"

Eiiia. Até eu fiquei abananado. Que bonito, senhora go - VER - nanta, que bonito.

E depois, com excesso de zelo, ajoelha-se e diz:
-        Eu sei outro! Permite-me?

Como eu até tinha achado aquilo espectacular, deixei:

-        Já Bocage não sou...

-        Ah, esse não, senhora GoVERnanta, esse num é do...

-        Ah, peço imensa desculpa, enerbei-me, posso, senhor doutor?

-        Faça fabor!

-        Não sou nada, nunca serei nada...

-        Oh, senhora go – VER – nanta, agora já podia ir parando....

            Ela ajoelhou-se, desesperada,  eu tibe medo que ela me despedisse como a outra e lá a deixei dizer Bocage e Campos. Com esta gobernanta, cheguei a ter medo que o meu pai fosse perdendo gradualmente o sotaque e o surrealismo, mas perdeu só o surrealismo.

            É berdade. O Grupo surrealista do gelo do Loureiro acabou.

            Principalmente porque o meu pai já num aturaba o presidente do conselho fiscal,

            que aliás acabou internado em ortopedia piso três com lesões persistentes e foi processado pelo Loureiro por cósa da mobília e nunca mais lá apareceu.

            O meu pai juntou-se ao grupo de leitores do Jornal de Notícias.

            O João Morales, o Rui Zink e o Nuno Júdice são reais e eu nunca deixarei de ser filho de um labrego surrealista.



            Obrigado e Biba a Lourinhã."

PG-M 2014

2014-11-23

está na hora (leitores)

A minha prenda de Natal (ou do que quer que seja ) a todos os leitores. Já tardava. Obrigado. Obrigado mil vezes. Não. Seis mil vezes . Cá voltará sempre. Sempre.

serei a tua Moby Dick, cabra


Já não sei se é a instabilidade do meu corpo, das minhas ideias ou da própria cidade, que começa a ser sentida como um navio prestes a embater num icebergue (podia ter tentado dizer-lhe isto: serei a tua Moby Dick, cabra), mas, enquanto percorro a floresta em direcção à penthouse, cada árvore parece marcada para me deter.


PG-M 2014
fonte da foto

O velho Lobo

 
O Lobo Antunes voltou a dar uma entrevista em que repete o número em que finge não conhecer os que estão a chegar à literatura, ou por cá andam há pouco. É bem feito. O velho Lobo não está louco, e comporta-se de uma forma que exige músculo e vista larga aos visados. O velho Lobo não está a desprezá-los. Se os receber individualmente, conversará com eles, ouvi-los-á. Com bom ou mau feitio, é um monstro no melhor dos sentidos e, nesta altura, merece ser respeitado por isso. A mim diverte-me ver tudo aos saltos e à estalada. Sou finalista do Leya e não sacralizo o prémio - é um investimento de um grande grupo, não importa se bom ou mau, os meus princípios não me permitem essa pronúncia, e o que tiver a dizer, digo em privado. O "Livro sem ninguém" beneficiou muito do selo de finalista - que eu fiz questão de pedir, porque, no que toca a vendas, me estou lixando para o significado do livro ou a quantidade de literatura inserta. Quero é vender: fazer o break-even para não dar prejuízo à editora, e tudo o resto é ganho, sendo que só a partir das dezenas de milhares de exemplares o escritor ganha algum poder. Eu não tenho nenhum. Mas quero vender, quero chegar ao máximo de leitores possível. No resto da vida, preocupo-me com a literatura, e não é bem com os vaidosões éditos como eu, mas com tudo o que de bom me chega, mesmo inédito. Quando lanço, ai lanço a sério e lanço longe . É óbvio que dava um jeitaço deitar a mão aos 100.000 menos impostos. Eu e mais cinco ou seis que em 2012 ficaram à bica são os que podem morder o lábio inferior com mais força. Vai uma esmolinha para os finalistas? Mas a verdade é que continuei sempre a acarinhar os vencedores, e todos os outros. Escrevi a todos os finalistas do meu ano, faço por escrever a todos os que chegam de novo à minha editora. Escrevo também a muitos literatos, mas talvez deixe de o fazer. Não creio que valha a pena. A postura de humildação praticamente desapareceu das chamadas "novas gerações" - a maioria está muito focada em si e olha de lado os próprios pares. E agora querem reclamá-la do velho Lobo? Mas não é evidente que ele faz um número que pretende isso mesmo, pôr à prova as fragilidades dos que se acotovelam e até dos que não se acotovelam por aí? Ao permanecer no meio, a única via a seguir é a do espelho. É útil observar os outros a verem-se ao espelho, como é útil observarmo-nos a nós próprios a vermo-nos ao espelho (é preciso um segundo espelho: enquanto a nossa figura nos aparecer feia, menor, e a dos outros maior do que nós, está tudo bem. Quando a nossa figura nos começar a parecer sempre esbelta, gira, impecável, e a dos outros sempre ridícula, que soem os alarmes). Como já escrevi, divertem-me e estimulam-me intelectualmente as entrevistas do velho Lobo. Devo-lhe a ele e a Saramago e à Rosário Pedreira estar édito. Posso brincar literariamente com o nosso meio, já o fiz, posso queixar-me da falta de lealdade e humildade em privado, realmente gostava de conhecer mais gente como o Afonso Cruz e o Rocha e o Miguel Roza e o Rebocho e a Mar e a Lacerda e a Cristina (e mais alguns), mas creio que os simples e claros serão sempre poucos, não adianta chorar, e o recém-chegado, também Afonso, é um menino cheio de pureza e potencial, não o cerquem, não lhe encham os ouvidos, digam só que não ligue, que "o meu irmão" é o velho Lobo, que o velho Lobo está a meter-se com ele e com todos os outros, como o Guerreiro e assim, que até confundiu teológico com gnóstico, mas isso sou eu a ser pedante, porque o Guerreiro é um tipo que também já cá anda há muito e temos é de o aturar. A verdade é que a maioria, entre os recenseadores e os autores, não sabe ouvir, dedica o tempo a destruir tudo em volta, mas, quando lhe apontam um erro, uma incorrecção de verbo ou postura, cala-se bem caladinha. Então, porquê perder tempo quando temos o velho Lobo a encher-nos a alma e até nos podemos rir com isso?

PG-M 2014

Interstellar (cinema deste lado e do outro lado)


Deste lado:
Interstellar é mais do que um filme. É uma forma de estar e de pensar. É um movimento. A melhor valsa desde Kubrick. Não preciso de distância para o ter como culto. O argumento, o tal que os desmancha-prazeres começam logo a desmontar porque não têm pele e usam sangue de réptil, é pouco relevante quando se filma com esta grandeza. Talvez o melhor sexo que possas ter dependa menos da coreografia do que das vísceras, da pele, do cheiro. E Interstellar é isto: vísceras, pele, cheiro e som dos limites da condição humana. Maravilhoso. Inesquecível.

Do outro lado:
Descobrimos o cinema português de massas, pronto, os best-sellers. Espero que estes filmes financiem os outros, os que nos fazem sair diferentes do cinema, tal como os livros de massas financiam os outros (obrigado, já agora). Também era bom que isto gerasse a necessidade de bons e criteriosos cinemas, tal como existem bons e criteriosos livreiros, e possam conviver, em vez de se levarem mutuamente à falência. E que cada um respeite o seu espaço, sem pretender que o próprio é que é a sério e o outro não existe. E, finalmente, que aprendam uns com os outros, sem pedantismo, para que as massas cheguem aos bons, e os bons às massas, e que os menos bons fiquem melhores e os excelentes bons de ler e de ver. 


PG-M 2014

Nada




não quero corpo, habitação, nada

quero só os teus olhos


PG-M 2014
fonte da foto

Um clube da má língua


O mal existe como acidente do bem. Ou é o contrário? Ou um é condição do outro? Ou céu e o inferno avançam paralelamente? Ou nada? Está cá tudo, não está? Esta pode ser uma conversa da casa dos segredos ou é mais uma conversa tida nos salões da Maria Alexandrovna Moskalev (do Dostoyevsky) em Mordassov? Ou, afinal, no café do bairro ou aqui mesmo, na rede? De algum modo, quando cá escrevemos, citando ou pensando por nós, achamos todos que encontramos uma luz especial, um brilho especial, que se partilha por sentido de colectivo ou, noutro plano, ostensivamente por exibição egocêntrica. Mas é curioso como, a tentar escrever um livro que queremos menos plano, ou a ler o querido do Fyodor, tudo me parece uma intriga palaciana invertida. Um dia divirto-me a dar título aos novos condes, mas, num certo sentido, e sem com isto defender o desinvestimento no que é importante e o investimento no que é merda, andamos todos, essencialmente, atentos a nós próprios e desatentos aos outros. Gabamos o génio do Fyodor Dostoyevsky a retratar sombras e luzes e achamo-nos a salvo disso quando apartamos a casa dos segredos de nós próprios. Está bem, está. Já aconteceu passarem por uma sombra vossa num qualquer festival literário, ou de música, ou qualquer evento socialmente distinto? O que é que nos distingue? Um coração aberto, meus meninos, porque um coração aberto nunca é o coração das trevas. E, evidentemente, uma só cara. E não é nada fácil ter uma só cara sem perguntar primeiro para o lado, e tu, o que vais fazer, o que vais dizer? É por isso que é sempre menos difícil alinhar na tribo dos que só desdizem e apoucam. Sentem-se a salvo. A salvo deles próprios. E, de vez em quando, percebem que estão, cuturalmente, imersos no próprio tempo e no próprio espaço, por mais que o combatam. No fundo, é tudo papa di kantina.

PG-M 2014

Investigação



Os corpos,

todos os corpos silenciosos,

são mais do que a soma dos seus impulsos


PG-M 2014
fonte da foto

A demarcação impossível do sofrimento



uma chuva ou um vulcão ou uma pinça nas entranhas
a implosão das costelas
um torso a céu aberto
a fúria de um rio bravo a abrir os braços e a galgar as margens como uma manada de búfalos de um só corpo
os indivíduos tresmalhados serão devorados
os sentimentos tresmalhados serão devorados
tristes as almas que evoluem a lamento
lamentáveis os olhos que evoluem a tristeza

e os pináculos do martírio?

e o filho que te arrancam?
vai-te foder tu e as tuas queixinhas de calçada
tu e os teus gemidos de viela
tu e a trela perpétua dos caminhos

o grito é o silêncio

abro a boca com os dentes todos à vista e a língua e a úbula e a traqueia e as cordas que sobraram das forcas e não sai som nenhum

quando vier, começará
sobe o uivo, desce a vingança

puta de vida


PG-M 2014

fonte da foto

ALA que se faz tarde (e há uma Margarida no campo)

Lobo Antunes: "(...) Porque é que a literatura portuguesa é tão má?
Isabel Lucas: É? 
Lobo Antunes: Não é? Acho que a Ana Margarida de Carvalho fez um livro bom. (...)"
Ípsilon (suplemento do jornal "Público") de 7-11-2014, p10

 
Um sorriso. Uma epifania. Somos todos uma merda, pá. Somos mesmo. A espaços podemos ser bons, sim, mas temos o tempo de permeio. O mesmo que nos permite olhar para Conrad com algumas certezas. Algum tempo para as apneias da Herta Muller. Para o Lobo Antunes com um misto de respeito e ternura e tanta reverência. Somos todos uma merda, excepto a Ana Margarida, que acabou de ganhar um prémio importante e merece este pedestal, esta semana de glória, este prenúncio do Lobo Antunes, que provavelmente ela sente como tão grande ou maior do que o prémio (eu sentiria). Dois terços de nós são perguntas, o outro terço certezas, nove em dez delas parvas e uma clara, transparente, e só de década a década, ou pelos bissextos, se tivermos sorte, elas nos chegam. O que eu sinto perante o Lobo Antunes é gratidão. Sei que, se eu tiver a sorte de ele um dia pegar num livro meu e uma pedra preciosa brilhar fugazmente nesses olhos profundos, azuis, encantados, uma só frase de milhares que ele passará com enfado, terei ganho um tempo que não é meu por direito. Esta pergunta é um pedido, uma esperança permanente, nenhuma crítica. Que sorte que eu tenho de ser contemporâneo, leitor, aprendiz e ter vindo a ser companheiro de editora de um homem que, sempre que se senta a falar de literatura, nos desmancha e nos chama para a luz. Obrigado, pá!

PG-M 2014
fontes das fotos: ALA e AMC

2014-11-18

Caixa com Mulher dentro

 
E agora que a noite te vai levar no corso escuro
E os teus olhos estão cerrados de esperança
Agora que é infinito o passado e urgente o futuro
E o teu coração vai azedo da passagem
pelas portas mais pequenas das
casas

Agora que as mãos te doem e o sabão te humilha e os arames do estendal
te perfuram
a linha da vida e os dígitos estão negros
Agora que as tuas pálpebras estão queimadas por cubos de solidão e incêndios que rebentam na cozinha e as luzes fluorescentes te entorpecem
Agora que o teu corpo está no fim e ainda prestas vassalagem às mochilas
e já não tens braços mas puxas a roupa da máquina para dentro da tua própria bacia e cais para trás e bates com a cabeça há muito afogada por todos os teus papéis secundários na parede do vestíbulo

agora que todos excepto o mais velho que não chegou do treino e o marido que não chegou do golfe
dormem
e tu estás morta

tens um recado na mesinha de cabeceira que ele deixou antes de ir para o campo às três da tarde e ainda não voltou com a pergunta que no teu funeral parecerá a metafísica de uma vida rutilante:

e se amanhã despachasses os meninos mais cedo para o treino com umas sandes nas mochilas e fôssemos ao cinema ver aquele filme de que a minha secretária me falou e que eu até te expliquei que gostava muito de ver porque é uma espécie de remake do Rocky quando estavas ontem a estender a roupa e eu vim cá fora buscar os tacos, não sei se ouviste

e ele vai ler emocionado aos amigos enquanto te limpa os lábios frios no caixão

o desespero do velório durará a noite em que deixarão o teu corpo sozinho na capela mortuária,

o desespero durará,

não o teu último sorriso,
mas o inútil putter
que ele guardou irritado à pressa na mala do carro
quando o primeiro de todos os filhos lhe ligou
a dizer que ninguém abria a porta

nunca mais

foda-se para esta merda a tua mãe
é sempre a mesma coisa adormece
a ver a novela e um gajo que se lixe

e um gajo se lixe,
meu amor


PG-M 2014
fonte da foto

2014-11-14

Literatura da tapada, da pedreira e do ourives


Não sou crítico ou recenseador literário, nem aspiro a tal. Sou leitor há quarenta anos.

Recentemente, contraí a epidemia dos escritores que começam a ler em função do que querem escrever, e posso dizer que estou gravemente doente, já que poucas coisas me satisfazem e raramente consigo ler um livro que não me interesse como oficina. Em mais de uma década de blogue, poucas foram as vezes em que escrevi sobre livros. Este foi-me entregue de forma muito discreta e humilde pelo próprio autor. Não vinha sequer dedicado, eu é que fiz questão. Olhando para trás, devo tê-lo recebido com uma certa altivez e indiferença. Procuro sempre acarinhar a produção literária ou - se não puder ser literatura - a escrita, e recebo qualquer livro com entusiasmo e esperança de que seja a descoberta que me mate a sede permanente, mas desconfio sempre dos que têm ar de serem auto-editados, porque respeito tanto o ofício de editor e revisor profissional, que tendo a considerar menos quem parece não os ter, não os procurar, não perceber que são uma das essências da literatura.

Há também pessoas que se juntam e se querem impôr para fazerem o  diálogo da mediocridade e, quando nos falta tempo para lermos tantas coisas que temos a certeza de que são boas e nos fazem falta, posso levar essa mediocridade a mal. Às vezes levo. E isto acontece dentro ou fora do chamado "meio", embora, claro, aconteça mais fora do que dentro. 

Não estou fechado numa bolha literária ou artística, nunca estive, e, embora me perturbasse essa perda de capacidade da leitura pela leitura, este livro ensinou-me mais uma grande lição. Lembro-me do Saramago - entre outros - dizer que para falar de nós, mais vale não falar, lembro-me desta ideia reiterada pelos lábios da própria Pilar, talvez a primeira que expressou quando nos conhecemos, e também tenho presente a aspiração do Lobo Antunes ao silêncio. Então, num silogismo de taberneiro, diria que quem fala de si não se ouve. 

Ora, foram muitas as vezes em que procurei a literatura em bruto, sem escola que não a da leitura, a do ouvido e a da própria mão. Cesário Costa, neste "Memórias da Memória" (Editora Ausência, 2002) é praticamente, apenas e só, esse magnífico silêncio da vida, porque fala de si e da sua vida na sua terra e nos seus lugares entre o nascimento do seu avô e os nascimentos dos seus filhos. Também me recordo daquela ideia do Lobo Antunes: escrever contra os melhores. A verdade é que, à medida que ia subindo pela leitura do livro do Cesário, em espanto e, confesso, alguma comoção, corria a consultar o que tinha feito no "Livro sem Ninguém" e pensei, pensei tantas vezes, como este livro do Cesário é o Livro sem Ninguém com pessoas à vista, e como tinha sido bom eu tê-lo lido antes de publicar, porque, garanto, ia plagiar secções inteiras do livro do Cesário e depois pugnaria por não o convidar para lançamento nenhum e nem se chegasse perto do meu livro, para não detectar a desfeita.

Pois vi-me, na primeira parte do livro, e quase a cada parágrafo, a "escrever contra" o Cesário e a pensar na mão segura, eloquente, leve, que ele tem para descrever as casas, as quintas, os pinhais, os quintais, os hábitos simples, a pedreira, o alfaiate, como tinha sido bom importar para mim as cerejas "vermelho granada" que ele roubava e encher a minha horta de morangos. E eu sei que, se o meu livro tivesse gente à vista, este era o livro que queria ter escrito. O Cesário é um homem simples, com uma vida de trabalho desde tenra idade, e foi estudando, muitas vezes à noite, enquanto fazia quilómetros a pé, e foi-se cultivando - até porque nas suas linhas também se sentem muitos livros, muitas leituras, dedicação ao teatro. Mas eu creio que o mais notável na primeira metade do livro do Cesário (que a segunda é diferente), perfeitamente arrebatadora e imprescindível para qualquer gaiense de sessenta ou setenta anos (embora um bom livro seja imprescindível para o mundo inteiro), é a sua mão enxuta, que não deriva, que não se tenta exibir, que fala apenas do que conhece, do que sabe, esse silêncio. Mas, até aqui, na literatura da tapada, da pedreira e do ourives (notáveis as páginas em que Cesário descreve a arte de ourives no Porto dos anos cinquenta, sessenta do seculo vinte), é preciso nascer com a arte nas veias para poder lá chegar. E Cesário chega. Aliás, a primeira metade deste livro - a segunda também é boa, e não desemerece, mas é um relato biográfico mais plano, embora o livro acabe de forma muito bela, em epístola, aliás citada pelo ilustre prefaciador, Hélder Pacheco, embora eu considere a frase tão destacada ("Os pampilhos amarelos que cobriam os campos que conheceste, prenuciando a Páscoa, foram substituídos por prédios") no prefácio e na contracapa é superada por muitos outros parágrafos ao longo do livro. Por exemplo,

"Ainda no jardim, no fundo do quintal, em maio, quando ia pelo carreiro com a saca dos livros e da lousa às costas e os bolsos cheios de sameiras para jogar a "pincha", via reluzir na relva ainda húmida do orvalho algumas cerejas vermelho granada, expostas como rubis sobre o manto aveludado da relva, como jóias numa vitrina. Não era preciso comprá-las.

Delicadas, apanhava-as, umas intactas, outras debicadas pelos melros que cantavam melodiosamente mais acima na árvore, tirava-lhes vagarosamente a pele, saboreava-as enfim e corria para a escola para ter tempo de jogar qualquer coisa antes de tocar a campainha para entrar na sala de aulas do professor Queiroz.


A sensação era estranha e quase amarga. Imaginemos um quadro de natureza morta com esta cenário. Sentia que o estragava quando apanhava as cerejas vermelho granada do chão."

Tão bonito, não é? E há tantas passagens assim. E é curioso como eu também acabo por recorrer, no Livro sem Ninguém, à ideia das naturezas mortas que suspendem em si a arte.

Qualquer livro beneficia de uma boa revisão e edição, e este não as tem, mas seria injusto para o Cesário que isso fosse destacado, porque foram tantas as palavras notáveis que sublinhei como as vírgulas e os acentos fora de sítio e um ou outro lapso, que servirão para que lhos possa mostrar e a próxima edição saia perfeita. E os lapsos são raros e esparsos, ao contrário do que detecto em tantos manuscritos de aspirantes que me são enviados, e provavelmente menos do que os dos meus próprios manuscritos pacientemente revistos e editados pela Maria do Rosário Pedreira. Aliás, o que ficará para a vida - sim, posso dizer que raras vezes tive, nestes quarenta anos, tanto prazer a ler um livro - será o paradigma do Cesário, que me servirá perante todos os aspirantes: vejam lá como se escreve como quem revolve a terra ou incrusta pequenas pedras preciosas. O Cesário escreveu, literalmente, o livro da sua vida, que pode ser o livro da vida de muitos. E não é um livrinho engraçado. É um livrão.

Um livrão que congela numa belíssima fotografia o lado mais belo de um tempo que já não volta, e que é o nosso, se temos sessenta, setenta, o dos nossos pais, se temos trinta, quarenta, ou o dos nossos avós, se temos dez, vinte anos. Não se esquece. Agradece-se. Obrigado, Cesário.


PG-M 2014
foto do Cesário

2014-11-10

absolut


vais perdoar que te dispense
absolutamente


pois essa é a consequência da perfeição

podes ser um estudo para piano do Max Richter
podes ser os lírios já mortos nos regaços
podes ser a donzela alquebrada
nos meus braços

se eu te quiser
morrerei por não te ter

e mesmo que te oiça
que te colha
que te beije

haverá um momento em que te deixo
e me aninho mortal
por todo o sempre

pois essa é a consequência da perfeição
se eu te quiser
morrerei por não te ter

absolutamente

PG-M 2014

2014-11-05

As mulheres perfeitas de Lisboa

Não há mulheres perfeitas. A não ser no metro de Lisboa. Era isto que te queria explicar ao café, quando me achei tão comovido contigo que as minhas palavras habituais se demoraram na garganta – o que, já se sabe, faz chorar os olhos e dar a desculpa das rajadas que percorrem os becos de Telheiras e levantam uma poeira subtil que irrita a córnea. As palavras por habitar formam frases surdas e fazem com que os lábios se entreabram sem nada – mas, do mal o menos, os meus lábios são bonitos, carnudos, e, favorecendo-os a boca fechada e o silêncio, não desmerecem das hesitações. A língua avança, humedece-os, e eu tenho de reformular e tu

- Diz.

e eu, não há mulheres perfeitas. A não ser no metro de Lisboa. Se guardares o telemóvel no bolso e te ergueres acima da massa que se fecha na luz programada e sistematizada do mundo sem vento dos ecrãs, verás. São olhares que elas não confiam a ninguém. De que não abdicam. Com efeito, até os inibem e escondem. Se estiver uma já sentada na estação, evitar-te-á até a composição retomar a marcha. Mas, no momento em que a vais perder, dá-to. Normalmente esses olhares queimam, tu entras em sobressalto, há um desespero quântico e logo te focas na estação seguinte: Arroios. Na vinda, tinha sido uma miúda pálida que tinha o polegar fixo no ecrã do telefone e escolhia sempre um ponto neutro como objecto, ligeiramente descaído para a esquerda do eixo que se pode traçar entre as tuas pupilas e as dela. Os lábios pintados de vermelho e o cabelo a várias matizes, não de tintas, mas de luz. Perdeste-a na de Roma. Esta era insubstituível. Na volta, a miúda era outra, morena, romani, e olhou-te de frente mal se sentou – mas foi a única vez que te olhou. O telemóvel era um pretexto. Tinha os cabelos pretos a escorrer em flocos e ia recebendo uma combinação de sombras e halogéneo. Os olhos meigos com umas longas pestanas.


Estou a falar disto para não gaguejar nem dizer que a perfeita és tu. Isso e que escrevo como quem fica exangue. Corto os pulsos e as palavras saem. Estava escuro dentro do café e tu brilhavas e tinhas contornos definidos. O cabelo negro, os olhos negros, os lábios com o rigor da beleza genuína. Não sei se acreditas nisto de aplicar matemáticas ao que se eleva acima do primordial, do animal. Concordamos que não há nada de natural na monogamia, e aí convém-nos ficar frios, no chão, sem arrebatamentos, como cavalos a bater os cascos no tempero exacto das suas aspirações. Sabemos apenas que, quando as crinas esvoaçarem no espaço, a galope, já tudo será possível. Já tudo será nosso. A minha comoção explica-se por reconhecimento. Primeiro a bondade, depois a clareza, e, à medida que a conversa vogava, subia, descia e entrava em nós, como as bicas, o sumo, a cola, a leveza. Agora tudo é possível a galope pelos campos ou pelas linhas ou pelas estradas ou pelas praias, um beijo ou um corpo, o silêncio ou um braço, as mãos cingidas e os perfumes. Reparaste como os perfumes fizeram o seu percurso sozinhos, apesar de nós? Como eles, a pele. Como eles, as mãos sobre a mesa. Como eles, os olhares. Olhares directos, longos, cheios, com o jogo mais puro. Rayuela. Não há mulheres perfeitas. Excepto no metro de Lisboa.

E nos cafés de Telheiras.


PG-M 2014
Foto de Luigi Morante. Fonte.

2014-11-01

Em Novembro


Em Novembro
ela conta os frutos
enche o cesto
faz os doces do outono
faz os golpes
das castanhas
abre o peito
estala a luz
e às seis

(às seis da tarde em ponto)

ama



PG-M

2014-10-18

Porch


Regresso ao amplo alpendre de madeira para fumar um narguilé
ou uma cigarrilha ou qualquer coisa que um velho cowboy americano fumasse
o terreno perto da casa é seco
há um pequeno bosque a separar-me da estrada
os fumos são comestíveis
o da minha cigarrilha e o das árvores que o velho que eu sou tem a certeza de se moverem
todas as noites de outono, de se encolherem
todas as noites de inverno, de abrandarem
na primavera e de pararem
no verão
o fumo é o segredo do bosque, fica entre copas
com um sopro, levanto a tempestade
é fim de tarde e no interior da velha casa acende-se uma luz
a tinta branca estala sob os meus dedos
no meu modo americano não há mulheres visíveis, a não ser aquela luz da casa
ao fim da tarde
às vezes dedilho as duas cordas que restam na guitarra e lastimo uma canção do oeste
com a voz côncava que o tabaco me devolveu
o canto fica distante da estrada onde vão parando amigos que não sabem que sou eu
há lágrimas moucas
identidade
o fumo comestível dissipa-se nos braços do arvoredo
o do meu charuto encobre-me a cara
estrelas enfim
a luz no centro até depois do jantar
ninguém sai da estrada
ninguém vem
antes de me deitar ainda volto ao alpendre para cheirar o tempo
estendo os braços com a palma das mãos voltada para cima
o mundo pousa
a última passa nunca chega ao fim

PG-M 2014

fome

 
há no mundo, fora dos corpos, uma fome incurável que nos cerca e isola
e nos faz ilhas e se quer matar quando em solidão e depois se teme e deixa crescer como se fizesse parte de nós e nos impede de sermos gregários: é a fome de não sermos ilhas e de não estarmos sozinhos e o mar, em volta, como ilusão absoluta da multidão que não nos vê, mas que nós, de vez em quando, vemos,
altura em que pensamos que há no mundo, fora dos corpos, uma fome incurável que nos cerca e isola e nos faz ilhas e se quer matar quando em solidão e depois se teme e se deixa crescer como se fizesse parte de nós e nos impede de sermos gregários: é a fome de não sermos ilhas e de não estarmos sozinhos e o mar, em volta, como ilusão absoluta da multidão que não nos vê, mas que nós, de vez em quando, vemos, altura em que pensamos que há no mundo, fora dos corpos, uma fome incurável

que nos cerca e isola e nos faz ilhas e se quer matar quando em solidão e depois se teme e se deixa crescer como se fizesse parte de nós e nos impede de sermos gregários: é a fome de não sermos ilha e de não estarmos sozinho e o mar, em volta, como ilusão absoluta da multidão que não nos vê, mas que nós, de vez em quando, vemos. (...)


PG-M 2014
fonte da foto

the real secret story


estava aqui a pensar fazer o Grande Curso contra os cursos de escrita criativa, mas desisti logo. Pensei que mais vale catedráticos sem cátedra andarem a ensinar o que não sabem a desesperados fora de ofício do que a pedir na rua, porque isto está mau, mesmo mau, mais vale prémios literários fantasma com short lists de taberna do que governos que pensam que a cultura é um luxo. deixá-los, então. prefiro divertir-me com isto, a sério que prefiro. ainda tenho a honra de encontrar e abraçar alguns que admiro mesmo, e os outros, os que admiro pouco, às vezes cheiram e vestem-se bem, é um prazer, mesmo um prazer. e não quero ser o magoadeiro. beijinhos, sim. esta sim, é a secret story.


PG-M 2014
 

calendário perpétuo




Temporal.
É isto que te recuso. Que sejas tempo.
Mas, se também te recuso a morte, o desejo entra em colapso.
E não posso recusar-te o efémero e o eterno.
Então vem com os detalhes que passam e eu troco a imortalidade da memória pela finitude do corpo.
Temporal.
Já podes ser eternamente temporal.

Este (*) por todos.

*
dia/ mês/ ano/ ano bissexto/ século/ milénio/ universo/ sábado/ domingo/ janeiro/ fevereiro/ março/ abril/ maio/ junho/ julho/ agosto/ setembro/ outubro/ novembro/ dezembro/ dia 1/ dia 2/ dia 3/ dia 4/ dia 5/ dia 6/ dia 7/ dia 8/ dia 9/ dia 10/ dia 11/ dia 12/ dia 13/ dia 14/ dia 15/ dia 16/ dia 17/ dia 18/ dia 19/dia 20/ dia 21/ dia 22/ dia 23/ dia 24/ dia 25/ dia 26/ dia 27/ dia 28/ dia 29/ dia 30/  dia 31

ou

Esta
vida
dimensão
loucura
segunda
terça
quarta
quinta
sexta


PG-M *
fonte da foto

2014-10-15

Fernando Alves? "Amo-o"


Depois de uma velha eternidade em que, dia após dia, Fernando Alves me deixava assombrado, arrebatado, das madrugadas de rádio à beira do colapso, afastei-me e cortei os pulsos da escrita, e tenho de escrever para não me esvair em sangue, ou para me esvair, sim, devo escrever para me esvair em sangue, e deixei de ser capaz de parar de escrever ou de ler, apercebi-me de que me esperavam Camus, Kafka, Vergílio, Vieira, Torga, Saramago, Lobo Antunes, e deixei a rádio, aqueles febris dias de uma rádio que eu próprio fiz, e a rádio faz-se - nos idos de noventa.

Este é um motivo, provavelmente um motivo falso, uma explicação conveniente.

A verdade é que muito Fernando Alves pode matar, o corpo comove-se e o olhar ergue-se para brilhar insuportavelmente mais do que os astros, os que brilham ou reflectem a luz dos outros, e queremos estar com ele na caverna onde não existe nada que comunique com o exterior para lhe dar uma palmada nas costas, um gole de tinto que repousa num copo de três entre o polegar e o indicador, e dizer-lhe: "é isso, companheiro, é mesmo isso,"

ou, a sorrir, "esta vida é uma merda"
ou, a chorar, "uma merda maravilhosa".

Deixei-o por sobrevivência, pois, e agora encontro-o igual, sem tirar, nos mesmos Sinais, e, com a modernice das playlists em podcasts, pedalo por aí com um sinal atrás do outro, Fernando Alves não cansa, vai-se pelas ciclovias a rir e, às vezes, a chorar, abranda-se ali na marginal do Douro, logo depois de passar por baixo da Ponte da Arrábida, embargado. Tiro ali, precisamente e quase sempre, os auscultadores. Trata-se de ouvir um novo som do rio, uma nova cor veneziana, os rabelos crescem e multiplicam-se, agora têm motor e levam turistas, e fica um som que se reflecte nas escarpas que me recorda o que eu ouvia na cidade silenciosa de Veneza, só lá há passos e vozes e motores de barcos, e, em dias bons, com o norte pelas costas e a subir o rio connosco, é só o que se ouve: o sol a amarrar as pálpebras, vozes, passos e motores de barcos. Esse programa - emitido no meu dia de anos - contava a história do gasolineiro Manecas, de Vila Real, que tirava o número de sapatos só de olhar porque tinha tido várias sapatarias, e num passo, numa voz, num motor, dizia assim o Fernando

"Porque onde eu quero chegar, do pé para a mão, é ao momento em que, falando nós dos homens transmontanos, perguntei a Manecas pelo Torga, e Manuel Mourão (Manecas, como o conhecem em Vila Real), antes de responder, levou a mão ao boné e destapou a cabeça. Não vergou a cerviz: destapou simplesmente a cabeça. No dia seguinte, parei na Galafura a contemplar o poema geológico, a beleza absoluta de que falava o Torga. Fui ao carro buscar o Portugal do Torga, porque é justamente nesse texto, sobre trás-os-montes, que ele fala dos "homens de uma só peça, inteiriços, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão (pausa funda - ou de Fernando Alves), e pensei, claro, em Manecas, o homem que sabe medir os pés alheios só com o olhar, muito chão firme terá ele pisado para viver as histórias que me contou, tão firme como o aperto de mão que trocámos. A minha mão, esta que escreve com caligrafia incerta, a dele, aquela que usou para destapar a cabeça quando respondeu à pergunta que lhe fiz (pausa de Fernando Alves) sobre o Torga"

sobre o Torga

Soube, desde esse dia, que tinha de erguer o pedestal que o Fernando nunca aceitará, apesar da merecida comenda, e nunca mais me cansei de ouvir e reouvir (eu que sou tão pobre releitor) os Sinais do Fernando, porque ele, como os grandes livros, diz uma coisa diferente a cada repetição, o do Manecas foram umas quatro ou cinco vezes, e de sentir, sempre de forma infantil, com uns quatro anitos e agarrado às calças dele, vontade de lhe dizer, cada vez que ele fala de um escritor, tal como sentia há mais de vinte anos, senhor Fernando! senhor Fernando!, eu agora também sou escritor, mas sou tão pequeno que o senhor Fernando, habituado aos grandes, como o Torga e o Manecas, não me consegue ver.

senhor Fernando! senhor Fernando!

Pensei, garoto,  imberbe, quando "O livro sem ninguém" foi "Livro do dia TSF" e eu cumpri o sonho de ouvir aquela voz comprida e encantada do Carlos Vaz Marques falar de um livro que me tinha nascido debaixo das mãos mas nunca houvera sido meu, como não é nenhum, que o Fernando, nesse dia, ia finalmente reparar ao que vinha aquele tipo que usa um hífen, o mesmo hífen que, em alguns dicionários, é um insuportável sinal burguês.

E, meses passados, cruzei-me com ele nos corredores da Escritaria da Lídia Jorge e pensei, caramba, ele está sozinho e gosta de abraços firmes, é desta!, esta é a oportunidade de me render ao meu ídolo, mas, tal como fiz cinco longos e tortuosos anos em Coimbra, naquele percurso do trólei três entre o Teatro Académico Gil Vicente e o cruzamento da Avenida Dias da Silva com a Luís de Camões, tive o Torga sentado à minha frente, cara fechada, meu deus, meu bicho, e nunca fui capaz de o incomodar ou de arriscar o que me garantiam: ele vai responder-te mal.

Eu não podia arriscar o desprezo do meu Torga.
Como não podia arriscar a indiferença do meu Fernando.
Mesmo sendo o pequenito de quatro anos agarrado às calças do senhor e seja justa a trapalhice do arrebatamento.

E depois tive este texto de homenagem em suspenso durante tanto tempo, nunca me senti merecedor de o assinar - porque ouvia o Fernando que, sendo dos homens, parece acima deles. Um dia ouvi-o num dos Sinais e tive uma ideia: vou pegar num texto de homenagem de dois amigos que lhe aquecem o coração (por mais banal que seja a expressão, é mesmo isto), e adaptá-lo a nós, com o devido respeito e distância no que a mim me toca. E então glosei:

"Não sei quando é que o Fernando chega aos setenta (nem quanto tempo sou mais novo - ou se até serei mais velho - do que ele). Portugal é capaz de produzir um Fernando Alves: todas as nossas fantasias de autodesqualificação se anulam. Seu talento, seu rigor, sua elegância, sua discrição são tesouro nosso. Amo-o como amo a cor das águas de Fernando de Noronha, o canto do sotaque tripeiro, os cabelos crespos, a língua portuguesa, as movimentações do mundo em busca de saúde social. Amo-o como amo o mundo, o nosso mundo real e único, com a complicada verdade das pessoas. Os arranha-céus de Chicago, os azeites italianos, as formas-cores de Miró, as polifonias pigmeias. Suas canções - porque cada "sinal" é uma canção - impõem exigências prosódicas que comandam mesmo o valor dos erros criativos. Quem disse que sofremos de incompetência cósmica estava certo: disparava a inevitabilidade da virada. O samba nos cinejornais de futebol do Canal 100, Antônio Brasileiro, o Bruxo de Juazeiro, Vinicius, Clarice, Vieira, Torga, Pessoa, Saramago, Eusébio, Pavão, Oscar, Rosa, Pelé, Tostão, Cabral, tudo o que representou reviravolta para nossa geração foi captado pelo Fernando e transformado em coloquialismo sem esforço. (...) A Revolução Cubana, as pontes de Paris, o cosmopolitismo de Berlim, o requinte e a brutalidade de diversas zonas do continente africano, as consequências de Mao. Fernando está em tudo. Tudo está na dicção límpida do Fernando. Quando o mundo se apaixonar totalmente pelo que ele faz, terá finalmente visto Portugal. Sem o amor que eu e alguns alardeamos à nossa raiz lusitana, ele faz muito mais por ela (e pelo que a ela se agrega) do que todos nós juntos."

É só a declaração de amor do Caetano ao Chico, que deixei quase igual, e que, quando eu ouvi pela própria voz do Fernando, me fez pensar, caramba, é mais ou menos isto que te quero dizer. Basta-me, com supremo atrevimento, plagiar o génio do Caetano e colocar Fernando ao lado, não sobre, Chico, como se trauteássemos uma cantiga ao desafio como o meu pai fazia, nas noites da minha juventude, e depois o Fernando completava, e que até o Caetano um dia fez em conluio com o Almodóvar, mas não em Almodôvar, que era onde o Fernando o teria feito:

"Dicen que por las noches
No más se le iba en puro llorar
Dicen que no comia
No mas se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se extremecia al oir su llanto
Como sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando"

E assim foi.

Fernando Alves? Amo-o.


PG-M 2014

2014-10-07

se ao menos, mãe


se ao menos me voltasses
toda no sorriso

se ao menos eu andasse
solta nos teus passos

se ao menos te dourasse
luz nos meus cabelos

se ao menos te guardasse
voz neste silêncio

se ao menos te pudesse
ter mais um minuto

se ao menos me tomasses
toda no teu colo

se ao menos, mãe, no tempo comprido que eu conto daqui
à eternidade,
os homens soubessem que os teus beijos doces
estão dentro do carro e na estrada que percorro,
na música dos meus ouvidos
nos passeios
nos cafés

nas montras onde te peço
tudo

se ao menos os homens soubessem
que ainda cuidas
de mim
que eu te pergunto da vida
e ouço cada palavra

se ao menos eu pudesse
ter como te queria

numa cadeira sentada
e a minha cabeça
nas pernas e as tuas mãos
na cabeça

se ao menos,
mãe, se ao
menos, mãe


PG-M 2014
fonte da foto

livremente inspirada na canção "If only", da Dave Mathews Band, aqui:

2014-09-27

Dia 27


O dia vinte e sete é o último
em que te escrevo poemas
para que me poupes

nesta madrugada
chegarás de novo
com punhos em vez
de dedos
dentes em vez de
lábios 



e, com sorte,
(tu tens é sorte, cabra)

desmaias

dentro de mim

nunca me perdoaste a sombra disforme

do teu corpo pequeno 

 nunca me perdoaste o silêncio apagado

na arena,
nunca me perdoaste a luz transparente

dos filhos


nunca me perdoaste
o fingimento
nas legendas
do facebook


("maravilhoso fim-de-semana
com os meninos
em Formentera"
Click.)

fingia
sempre
a vida de sonho
com o homem
que me havia de
consumir até

à última
gota



se fosses vampiro, se ao menos fosses
vampiro

os sorrisos e as corridas
pelas promessas de
sexo
são hoje gritos e cercos
por
promessa nenhuma


há um quarto vazio em cada lágrima



ainda posso remendar os ossos
ainda posso remendar a cara
ainda posso remendar no tempo
o sangue que me estala sob a pele

já apaguei os vídeos
e as fotos felizes que,
depois de te matar,
não suportarei rever

agora vou apenas transformar
o choro dos nossos filhos
abraçados aos meus
joelhos

pela mãe ferida

em choro dos nossos filhos
abraçados aos meus
joelhos

pelo pai morto



PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-26

Dia 26



O vigésimo sexto é o amor,
mas o amor, oh, o amor, de momento,
é o universo infalível da matéria e da constância e do tempo e da
temperatura

do pensamento



lembras-te da imagem no espelho
os meus lábios cheios
o meu corpo nu?


lembras-te como a vias
nos olhos dos outros?


agora

leva por favor os reflexos

não me empurres
para os vidros
dos carros


"já olhaste bem para ti?"


nem me mimes
com o peso dos anos
e das rugas e das
molas e do tachos
e das camas
que serviam


e das pernas que

e das coxas que

te serviam


"é o que vales aqui dentro que me importa"
dizias
o punho fechado sobre
o coração
tum-tum,
tum -tum,
e eu
a ouvir as sombras
tum-tum,
tum-tum,
do futuro


e agora
lembras-te da menina sem corpo
e da mulher 
só por dentro?


oh, o amor, de momento,
são delírios que começam
lá fora.
não aqui.

não agora.

sai de dentro
dos lugares
onde eu

restar

sai de dentro
dos lugares
onde eu
estiver

vaga o tempo que ainda finges
na cidade

eu sou a mulher
eu sou a verdade



PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-25

Dia 25

Ao vigésimo quinto
dia decreto
que o mês acabou

e, desmedido e visceral, no pé direito da casa novecentista,
ouvindo o piano do nosso filho do outro lado da parede
longe de ti e do som da televisão, sumido, dolente,
as bolas de cotão da manta escocesa a vogar
no rasgo de sol que sangra da lucerna,
como se fosse domingo
e sem medo,

sem medo nenhum

amo-te

amo-te do outro lado da casa
amo-te do outro lado do mundo

hoje é dia de fingir que não existes
no lugar pequeno onde não estás
apesar de seres vista lá

foge da quadrícula laboral e do ardil dos amigos
para quem és toucado e
indumentária
função e plano
objecto e
critério

devolve
o teu corpo à mala, as roupas
ao pensamento
e volta
retira o meu cheiro do arquibanco
tapa-me a boca, cala-me as ominosas
disquisições

ai, ergue-te na esplanada
levanta o copo de cola
com gelo
e limão

e chove

espero mil anos por ti

não vês que o amor não são
dias
em janeiro esperas
fevereiro
em março abril
em maio junho
em julho agosto
em setembro

temes outubro

aceitas novembro e
em dezembro finges

no primeiro dia da semana
pensas no último
no último
no primeiro

no dia um
não aceitas o fim
no dia dois dói-te
no dia três, quatro, cinco começa o
imperativo
no dia seis, sete, oito, nove, dez,
estás no centro,
estás dolente

(recorda o sol na lucerna)

poucos sabem que o Plátano
é o ginásio do mestre
o lugar onde se ensina
o lugar onde  se cresce

e a plateia

lembras-te do meu Plátano
erguido à cúria de poetas?
a dizer-lhes que a plateia
és tu, não eles,
que nada, meu amor
te dê a dúvida
de que te pertenço e fico
para lá do fim da noite
e que até no tempo infindo

só os teus lábios me abrandam
só os teus beijos me calam

onze, doze, treze, catorze, quinze,
só os teus lábios me abrandam,
dezasseis, dezassete, dezoito,
só os teus beijos me calam,
dezanove, vinte, vinte e
um

amo-te do outro lado da casa
amo-te do outro lado do mundo

vinte e dois, vinte e três,

hoje é dia de fingir que não existes
no lugar pequeno onde não estás
apesar de seres vista lá

vinte e quatro

foge da quadrícula laboral e do ardil dos amigos
devolve
o teu corpo à mala, as roupas
ao pensamento
e volta

vinte e cinco:

ergue-te na esplanada
levanta o copo de cola
com gelo
e limão

e chove


espero mil anos
por ti


PG-M 2014
fonte da foto