2015-02-25

O doloroso sorriso de Matilde

Como era doloroso o sorriso de Matilde. Estávamos no auditório do Colégio da Bonança, em Gaia, e eu explicava ao Bruno a sobre-humanidade do amor. Havia um sorriso a pontuar as minhas intervenções que se sobrepunha a tudo o resto - um sorriso que abria o riso em momentos diferentes das aberturas do resto da sala. Depois falei ao Bruno do amor paternal e da forma como magoa, como transcende as forças e é assombrado pelo medo da perda. Como é doloroso o sorriso de Matilde. Há nela uma transparência, uma luz, um peso específico que é peso nenhum. Leveza. Fomos ainda às paixões, ao banal como segredo de uma certa felicidade, aos romances, à minha actividade de arrumador de carros na Praça dos Poveiros. Como era doloroso o sorriso de Matilde. E tudo começara na implicação da assistência. O João espirrou e as amigas riram-se. Pedi-lhe para descer da plateia até à mesa. Sentou-se ao meu lado. Ele garante que não, mas sempre achei que o espirro do João era ficção. O João tem olhos claros e francos e veio a jogo. Leu o primeiro parágrafo da intervenção, que já anunciava mais ficções, as supergémeas Patrícia e Catarina e o Pedro, filho de uma Estrela. E Matilde rutilante, sobre tudo, sobre todos.
Eu tinha planeado uma conspiração.
Os alunos todos no centro, como heróis da história, eu na plateia. Eles seriam contos, eu leitor. Queria ter inventado, mas não inventei, duas colegas para eles. Tinham de ser gémeas. Punha-as em turmas diferentes.
Ou então inventava um Pedro como eu,
mas filho de uma Estrela. Impossível. As gémeas, por exemplo, seriam as novas supermulheres, uma conduzida pelo olhar, outra pelo sorriso. Uma seria uma espécie de sancho pança da tia Agatha Christie. Teria o nome de Katniss Marques. E salvaria um tal de Roger Ackroyd. A outra seria uma feiticeira em cidades de papel. Ambas augustas, como o seu herói.
E mais uma coisita: a ajudante de uma delas tinha de se chamar irmã Lurdinhas.
A outra inventaria para si um clube azul e branco para reinar sobre o mundo.
Por fim, o Pedro teria uma Estrela de carne e osso.
Mas eles não existem.
Elas e ele tinham todos de existir para eu escrever a partir dos respectivos corpos. 

Como era doloroso, doloroso, doloroso, o sorriso de Matilde.

A professora Luísa estava de castigo. Não cumprira as regras militares mínimas para que a conspiração funcionasse. No Colégio dos Carvalhos, havia um professor que nos punha de joelhos no estrado, de costas para a turma, com as mãos debaixo dos joelhos. Dispensámos a professora das mãos e dos joelhos. Sentou-se entre os alunos, debateu comigo a gramática estruturalista, o complemento oblíquo. Como eu desejo a perversão deste ensino e a inversão desta pirâmide. Comecemos pelos livros, só os livros, os bons livros, contaminemos estes nossos parceiros de mundo com os melhores livros.

Como era doloroso, Matilde, o teu sorriso - pelas mais belas razões, como te vou explicar.

A Mariana apresentou-me e contou-me. Contou-me bem. Não por dentro, como Abigail, mas fez-me a casa de escrita pelos anos todos. Deixou que eu contasse o meu Torga. E os meus filhos. A Mariana tinha uma responsabidade. Mas quando for por ti, Mariana, só por ti, como vai ser a tua literatura, a tal que entra pelas veias e sai pelas teclas? Fala-me disso. Não demores, não demores, porque eu estou quase a explicar as boas dores.

Depois os Ruis, o filho do João Paulo (desculpa não te tratar pelo nome, mas há um arrepio do tempo inexorável quando, em vez do teu amigo, encontras o filho com a idade que te lembras de ter quando o pai fumava contigo nos intervalos), e um rapaz de que não me lembro o nome, tinha óculos e estava presente no fim. Dinis, és tu? Não  me lembro do nome, mas não me esqueço dele. Também não me lembro do nome das professoras de História, Filosofia e Economia, mas não me esqueço delas. Vou descrevê-las: uma tinha cabelo bordô, outra azul marinho, outra laranja - creio que ainda fui apresentado a uma azul celeste, à saída. Devia haver índigos e vermelhas, verdes e e lilases, pelos corredores, não sei, não sei. Todos, mesmo sem nome, têm uma refracção de luz própria e estão aqui.

Mas devo a explicação à Matilde.

Tinha-me esquecido apenas do Daniel Defoe, o do Robinson Crusoe, que escreveu a mais estranha teoria económica, mas, pensando alto, já estávamos no fim e no fim das escolas fico sempre em carne viva. Talvez não sobrevivesse todos os dias perante esta nitidez. O coração explode. Sai-se fragilizado dos circuitos essenciais da condição humana: todas as escolas têm esta substância. E, quando ela nos transcende, é duro.

Tão duro como o sorriso de Matilde.

No fim, a Inês passou ao largo sem assinaturas, sem palavras, só a empatia vista do lado dela, a representar todas as empatias que se perdem como velas a apagar, primeiro no espaço, depois no tempo, e o combate de saber delas, empatias, simpatias, e as recuperar a todo o custo, porque a carência urbana é sempre de afecto, não de alimento, ou de afecto como alimento.

As supergémeas estavam como se já me conhecessem há muito - há um novo elemento na família. É bom que falte o ar no fim das sessões das escolas, que nos sintamos todos no corpo uns dos outros. Como a Matilde, que me comoveu as horas todas. Há uma altura em que pergunto ao João, o meu assistente, como era possivel aquele sorriso, aquele riso, aquele espanto. No fim, a Matilde responde com um abraço, encaixa-se no meu torso e deixa-se ficar.

Doce, nívea, límpida, diáfana.

Podia ter ficado a tarde inteira.
Ali, debaixo de mim, dos meus dois metros por dois, o abraço de Matilde sente-se e não se sente, porque não há uma clivagem física, uma estranheza, é como se ela já fizesse parte de nós, é uma espécie de fé.

O sorriso de Matilde dói como o sorriso de um filho para um pai na cidade dos homens:

o amor é sobre-urbano
o amor é sobre-humano

O sorriso de Matilde dói porque não tem fim - e nós temos.
O sorriso de Matilde dói por causa da nossa imperfeição.
O sorriso de Matilde, que lhe encontra o rosto todo, que lhe luciluz nos olhos até deflagrar no mundo,

é perfeito. 


PG-M 2015
foto da Matilde com publicação devidamente autorizada



2015-02-24

Mil e um posts (noites)

Ela lembrou - como boa leitora e amiga - que o milésimo primeiro post deste blogue devia ser especial. Não há Xerazades que valham uma Marlene Babo. Que um dia, espero que breve, vai ter direito a retirar-se para ler o tanto que quer ler e a acompanha pelos cantos do seu mundo, e escrever todas as formas que quer assumir. Eu cedia-lhe o meu pequeno lugar, se pudesse e soubesse. Ainda assim, já é, como aqui está escrito, uma realidade na arte. E uma bênção. Uma mulher forte e hábil. Uma pessoa boa. Ímpar. Rara. O milésimo primeiro é, claro, dela. Um só não chegava.

PG-M 2015
foto de Marlene Babo

2015-02-23

A primeira noite de óscares


Eu explico-vos: a ideia não é ser um mimalhinho com soninho e doses industriais de desconhecimento - ou excesso de conhecimento -  cinéfilo. Já não estão cansadinhos dos posts onanistas em que assumem que todo o mundinho está à esperinha do que vocês vão escrever no facebook, no twitter, no instagram ou no tinder (era bem aplicadinho) coisas como "que tédio", "que chato", "o apresentador está apagado". Mimalhinhos: se querem mesmo cascar na Academia e nos mais de mil milhões de comparsas da noite, escrevam uma coisita devidamente fundamentadazita e bem humorada. Remeto minuta: a última noite de óscares. Entretanto, morreu o Final Cut, o site de cinema da Visão, mas ao menos não tivemos de aturar o Alvim.


Os mimalhos como vocês e eu são o exemplo da esperança: todos os anos voltam.
 
E agora comecemos tudo de novo. Depois da última, a primeira. Esta, a 87ª, de 2015, que se refere aos filmes estreados em Los Angeles até ao dia 31 de Dezembro de 2014. Para o vosso escriba, foi o 30º directo de enfiada. Consagro a noite de óscares de 2009 como a melhor das trinta (noite retro, substancial, os consagrados a apresentar os candidatos um a um, olhos nos olhos); e a que me faz mais saudades é uma em que não vi, só ouvi, na TSF, finais dos anos oitenta do século XX, era esta rádio um bebé. Piores as da TVE e as da RTP. Bons dezasseis anos de TVI, em que os comentadores começaram a calar-se. Melhor cobertura de sempre foi a deste ano, da Sic: apesar dos comentadores da Sic Caras, que desafiam a sanidade de qualquer santo, ou a santidade de qualquer sano, a Sic fez o que nenhum canal antes fez: recuperou grandes momentos e comprou quase toda a temporada de prémios (os Bafta foram uma grande surpresa, a não perder no futuro).
Neil Patrick Harris é um amigo de café com doses adequadas de humor. Talvez não se compare ao Ricardo Araújo Pereira. É melhor. É mais popular. Talvez menos culto. Ri-se de si próprio e não usa a auto-depreciação como técnica humorística. Começamos bem.

Todos desejávamos, estou certo, um misto de arranque entre o melhor do Billy Crystal e a clássica cantoria. Foi o que tivemos. Tema? Os mimalhinhos que criticam tudo e todos. "Moving pictures". Tecnologia (hologramas em palco) e beleza. Humor. Anna Kendrick subtil e engraçada. Jack Black a representar os mimalhões revoltados do frívolo e da cultura de espelho, ecrã e selfies. Arranque bom. O apresentador, para quem conseguia estar atento e perceber algumas private jokes (para isso, é preciso estar "dentro" da cultura artística americana), lançou tiradas de qualidade em todas as pontes para os apresentadores. Vítimas da noite: Ben Affleck ("Sabem como é que o Travolta chama pelo Ben Affleck? Benedict Cumberbatch!")  e Bob Duvall ("vá, acordem o Robert Duvall!").

Ponto negativo: faltou rasgo aos apresentadores das categorias. Praticamente ninguém saiu do guião. Grande desilusão o Eddie Murphy plastificado e sem um único sorriso ou tirada criativa. Ao menos que lhe tivessem escrito uma. É violação directa da nostalgia da geração que o consagrou.


Momento alto, para quem esteve atento: Rosamund Pike, ainda na passadeira vermelha: "I feel alone." Isto vale para a única nomeação do excelente filme "Gone Girl", mas também para o que acontece a um filme com lobby fraco. Já escrevi testamentos sobre a Rosamund Pike, uma das minhas actrizes favoritas. Fez o papel da sua vida neste filme. Só podia ter ganho. É verdade que nunca me opus a prémios de consagração, mas a Julianne Moore sacaria ainda, certamente, um papel ainda melhor do que este "Still Alice", que leva um "bom pequeno", para a merecida consagração. Assim, a unanimidade de que era o ano de Julianne estragou a coroação. Rosamund já não deve saber o que fazer. Mudar de promotor, de agente? "I feel alone". Coisa corajosa de se dizer perante todo aquele brilho. Mas vá lá: nada que se aproxime do escândalo do ano passado, quando foi consagrada a miúda Jenniffer Lawrence, que é só razoável, e criminosamente esquecido um papel que ficará na história do cinema. O da belíssima francesa Emmanuele Riva, de 88 (!) anos, em "Amour". Ah, pois não. Não perdoo.

Nota da distinção e educação britânica: os londrinos Rosamund Pike e Eddie Redmayne pediram aos americanos desculpa por terem trazido a chuva para Los Angeles.

Sabiam que Meryl Streep tem uma licenciatura em Design de Moda? É verdade. Por mim, deixava-a de fora uns anitos para não cansar, para não estragar a sua marca notável na história do cinema.

Mimalhinhos, deixem-me lá eleger as mais elegantes: Scarlett Johansson, de verde, acabada de ser mãe; Lupita, com milhares de pérolas; e a minha Marion Cotillard.

Diz que a única diva do cinema moderno é essa estrondosa Cate Blanchett. Eu não gostei tanto assim, mas que é um traço, é.

Laura Dern rejuvenesceu com a nomeação: menina dos nossos sonhos, que andava apagada e a desaparecer em papéis secundaríssimos, reapareceu com o "buzz" em torno do pai o ano passado, e agora esteve lá por direito próprio (mãe de Reese Witherspoon, em "Wild").

O permanentemente apaixonado Ethan Hawke deixou o clube dos poetas mortos no ano em que morreu o seu capitão, Robin Williams: está marcado pelos anos, mas representa bem aquele espírito de tropa de toda a equipa de Boyhood, derrotado da noite, mas já marcante na história do cinema. Eu era pela vitória no óscar do melhor filme: mesmo adepto confesso do Birdman, daria a consagração ao Boyhood. Creio que o realizador Linklater e toda a sua equipa mereciam a consagração pela contenção que, no meu entender, caracteriza a maior arte. Podiam ter feito um filme feérico e profundamente dramático, mas escolheram algo morno, como a vida, como a rotina. Grande risco e esta derrota. Alguém viu o notável e curtíssimo discurso do símbolo deste filme, o miúdo Ellar Coltrane, e a forma como ele explanou os conceitos - que eu nunca vira expostos a este nível - de vulnerabilidade e colaboração. Não percam o discurso dos Bafta aqui. "Life itself without anything explosive or tragic": isto convenceu-me de que o Linklater, ao não ter rasgo, drama, tinha arriscado tudo e merecia esse reconhecimento. Mas Arquette, bonita e vigorosa, rápida, a reclamar os direitos das mulheres que a sua personagem no filme vê denegados por alguns anos, colando-se à mulher que representa em Boyhood: não era a melhor actriz secundária, mas foi a compensação - pelo corpo dela Boyhood levou o ouro.

Parca justiça para Intersetellar, ao vencer apenas nos efeitos especiais.

Mais do que Foxcatcher, um filme mais denso e relevante do que a maioria dos oito: zero.
Empate no número de óscares entre Grand Budapest Hotel e Birdman, nas categorias principais para este último. Merecido o argumento original, a realização. Já não gostei tanto de Whiplash ter perdido no adaptado, mas o discurso do argumentista de Jogo de Imitação, o miúdo Graham Moore, confessando a tentativa de suicídio aos 16 e dando coragem a todos os "weird", em nome de Alan Turing, valeu parte da noite.
O outro discurso que deu nas vistas foi o dos oscarizados pela melhor música, Glory (do desprezado Selma), conhecidos por John Legend (estava John Stephen) e Common. Houve um silêncio "branco" na sala quando Legend lembrou que há mais negros presos hoje do que havia escravos nos EUA em 1850. Este foi o momento de Selma: este ano teve esse mérito, de nos ter oferecido uma espécie de curtas metragens de mini-consagrações. A fulgurante investidora Oprah e a comoção do rapaz que teve a ideia inicial e combateu duro para tornar este filme realidade: o britânico de Oxford, David Oyelowo, protagonista de Selma e novo Martin Luther King, não nomeado. Contraste de lágrima com as da ruiva e branca Jessica Chastain . Outro "detalhe": afinal houve nomeados, e vencedores, negros.

No intervalo, o apresentador imortalizou a cena que deu o óscar de melhor fotografia a Birdman e ao artista de Gravity, Emmanuel Lubezki (7 nomeações, 2 óscares, vencendo, pois, dois anos seguidos): Michael Keaton a cruzar uma Times Square de cuecas brancas, sem figurantes e numa cena inesquecível e imersiva. Cuecas que o realizador mexicano, Alejandro González Iñárritu, confessou trazer vestidas nesta noite, para dar sorte. E deu. Ganhou três óscares (argumentista, realizador e produtor de Birdman). Neil Patrick Harris prendeu o roupão na porta do wc do Dolby Theatre, despiu-se, passou pelo baterista Miles Teller (de Whiplash, mas a tocar a banda sonora de Birdman), ordenou que parasse (gesto e frase do oscarizado melhor actor secundário, JK Simmos, em Whiplash, "Not my tempo") e apresentou assim mesmo, de cuecas. Por falar em JK Simmons, ele só chegou ao cinema, vindo do teatro, aos 40 anos. Sabem quem foi o seu mentor? Sidney Poitier. "Call your mother, call your dad, don't text, don't email, call them." A mensagem anti-statu-quo cultural do vencedor JK Simmons.

Em termos estéticos, houve um regresso aos anos setenta e ao primeiro Star Wars, no cartaz comum dos nomeados. Não pode ser por acaso. Em Dezembro deste ano estreia o Episode VII.

Milena Canonero para o guarda-roupa (Grand Budapest Hotel): 9 nomeações, 4º óscar: e estes heróis, sempre esquecidos, mesmo afogados em óscares? Fica a menção.


Ida, previsível melhor filme em língua não inglesa, é um grande filme: Pawel Pawlikowski, o realizador, comenta, no "acceptance speech": "um filme tão calmo, com nevoeiro, a preto e branco, sobre silêncio, retirada do mundo e a contemplação, e aqui estamos, confusão, barulho, cores", e dedica "to my Polish friends who are drunk watching this, to my late wife and parents, to my children who are still alive, to the resilience of Polish people...and go drink!"

In memoriam, recordo os mortos mais imortais: mickey rooney, james garner, elisabeth peña,  maya angelou, james rebhorn, anita ekberg, virna lisi, richard attenborough, ruby dee, matha hyer, robin williams, luise rainer, lauren baccal, gabo, resnais, bob hoskins.
 
E ganha o melhor actor Eddie Redmayne, o colega de escola do príncipe William: apesar da composição esforçada, o sangue só ferveu em Michael Keaton. Creio que Eddie tinha tempo, Michael veio das sombras e merecia.


Lady Gaga surpreendeu, primorosa, a cantar o clássico "The sound of music" (o filme faz 50 anos), e, no final, grande oscar moment com o abraço à própria Julie Andrews.

E concluo com as curiosíssimas previsões micronarrativas de Neil Patrick Harry e a vigilância  da Viola Davis.

Uf. Este tem conteúdo, mimalhinhos?




Até para o ano e viva o cinema. Sim, cinema. Como se dizia na abertura, vocês falam, falam, falam, mas neste cinema coroado no centro do mundo também há momentos inesquecíveis e sonhos.

PS sobe o POST 1.000:
"one day, when the glory comes, it will be ours". Este milésimo post do blogue Ignorância é dedicado à Margot Robbie, a minha estagiária para óscar. Lembro das que formei no meu Estúdio de actores com cê, desde 1985: Halle Berry, Charlize Theron e Marion Cotillard.

PG-M 2015

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2015-02-21

Oito da noite

 Não te falo dos fumos vesperais das sopas
que subiam aos céus às oito da noite
nem quero que te lembres dos meus
indecorosos ritos
quando tinha o escritório à vista
de casa
de como eu me atrasava
para sair à gloriosa hora
do coro das chaminés
quero mais do que esta vida
neste poema
estou em crise com Sebald
procuro o olhar fixo
dos bichos da Nocturama
sinto a culpa do atalho
do Mário de Carvalho
já te neguei o afã
da rima do Celan,
como o génio do Gonçalo
para aprender a sangrá-lo
quero, isso quero, refazer o sistema venoso dos braços do Eme
enquanto descubro uma forma de ficar de pé no vê central
a decompor os restos do sistema venal
porque do Tavares farei o labirinto
onde vou cair com absinto
e tremoço
depois do almoço
com a Alice
a Alice é a puta velha
estruturalista
que tu conheces dos nossos passeios
ao Porto, e parava
na travessa das liceiras
a cinco contos
o broche
não tem sentido procurar os fundamentos da verdade
às oito da noite, à sopa,
e adormecer
subordinado
adormeci,
mas antes das nove
acordo
pornográfico
acordo-te
ortográfico
Não te falo dos fumos vesperais das sopas
que subiam aos céus às oito da noite
nem quero que te lembres dos meus
indecorosos ritos
passa-me o sal

como se fôssemos nada



PG-M 2015
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Quatro da manhã

houve um momento na noite em que o pai deixou que na casa uma urgência
escalasse as suas próprias
paredes


a urgência que está sempre lá
o mal do amor incondicional
um sufoco indelével e pardo
a síncope permanente
a todo o momento deixa de contar
o corpo
e vem o amor em vez
e é uma coisa concreta
e tudo fica claro, nítido
os corredores da casa mesmo às escuras
quase sempre os cabelos dela
quase sempre os cabelos dele


os dela ficam mais bonitos com o tempo



quando o pai entra tarde na cama
se se desmoronou pela
sala
ela está sempre, quase sempre,
iluminada
não é a luz da televisão
o quarto fica subitamente dentro de uma
noz, o universo maior do que o
universo
a pequenez agiganta e no entanto
o mundo inteiro
o escritor, o pintor, o realizador, o actor, o cantor
explicam pressurosamente o sentido da vida
que pode ser dos olhos ou da própria consciência
e refulge no plano visível como uma moeda de prata
no deserto

quando sente essa urgência o pai
tem apenas duas formas de reagir


ficar na cama e pousar a mão sobre a cabeça
dela e deixar subir pela margem do braço uma espécie de sangue
paralelo aos corpos
o cabelo tem uma textura própria, nunca teve outra cor
que não as cores dela, por pouco tempo apenas o preto
mais tarde o castanho escuro com laivos de vermelho
depois as brancas suaves que lhe ocupam o pedestal
desde os vinte anos,
foi a certa altura um cabelo questionado socialmente, põe-te mais velha, devias pintar,
mas à força de tanta estima, de tanto amor deles, que de cada vez que a encontram lhe puxam a cabeça para o peito e a sossegam com carícias, o que pareciam brancas espessas, invasoras, tornou-se, com o vagar da vida e a têmpera da felicidade – que na vida pode ser tão áspera e sublime como a desventura na arte – um só conjunto harmonioso e macio onde se a vai buscar inteira

quando sente essa urgência
o pai tem esta forma de reagir,
ficar na cama e pousar a mão sobre a cabeça dela e escutar a respiração dele
no outro quarto e então deitar-se,
fincar o nariz na almofada e cingir os lábios com força como um sorriso que se trava porque não se pode consentir que o corpo siga sempre o curso do rio que traz dentro,
nenhum dique suporta toda a dádiva,
o pai tem essa forma de reagir ou a outra

levantar-se e ver o amor incondicional corporizar-se nos cabelos dele
enquanto dorme
os cabelos que foram sempre os mesmos desde o berço, como se o toque do pai pudesse ser traduzido na fórmula científica de uma reacção química
a pele dos dedos mais um fio de cabelo do filho é igual ao batimento cardíaco de ambos sintetizado pela respiração e pelo olhar e talvez
– outra vez –
pela boca
ele nasceu cheio de cabelo, depois perdeu-o, depois reganhou-o, esteve no pequeno berço do avô, depois numa cama com grades, depois numa cama que daria para chegar a adulto, e agora,
com as medidas a ultrapassar largamente as da mãe
tem exactamente o mesmo cabelo, que o pai toca de forma delicada mas dolorosa
porque sabe que, se no casal há um movimento de fora para dentro,
e pode-se sempre tentar entrar,
na paternidade tudo é de dentro para fora
ele nasce parte e já parte
estar tão dentro e fora é insuportável
agora ele dorme num beliche alto mas não importa que tenha um corpo de homem
se na noite o pai lhe toca os cabelos o amor incondicional vira sólido
em sublimação




às vezes,
há um momento na noite em que o pai deixa que na casa uma urgência
escale as suas próprias paredes
não raro,
perante esta urgência que está sempre lá
o pai senta-se na sala a ver a sua imagem reflectida na televisão apagada
e o tempo não se estende
suspende-se mas passa depressa
não há pensamentos, não há sentimentos, é só o corpo a voltar ao sítio
às vezes adormece e no outro dia, felizmente, esquece-se
de quanto os ama, ou, felizmente,
lembra-se de quanto os ama


PG-M 2o15


Duas da manhã

duas da manhã e tu
encolhes pela cama
dentro
foste actriz, rodaste valsas
no soalho imperial,
foste pintora, escreveste
crónicas nos grandes
batéis, foste véu abriste,
foste porta velaste, foste
escuta calaste, foste
mordaça disseste, foste
mãe escalaste, foste deusa
selaste
cavalos, armaste
demónios,
vês o teatro ao longe, dói-te
o futuro, há um bailado a que
não vais, escolhes o lago
que pende da tua
parede,
está frio
e tu negra,
macilenta,

vem
tens
a cara molhada, os braços
cruzados sobre as
costelas

vem
somes
não fazes comida nem lidas a casa
não limpas o pó
não cantas não ouves as
conjugações

queres principalmente morrer
às duas da manhã
à alvorada foi um
sonho, a morta atrás
do biombo, rebelde
da história limpa


do mundo.



PG-M 2015
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2015-02-20

Meio-dia

Meio-dia e o ocaso
da manhã que te agarrou
pelo braço estavas tu
sumida ao toucador
os lábios finos da véspera
o olhar estreito da noite
os braços suportando
a voz e a dor muda
da montanha
a caminho da
tua vida
há um peso aqui
e as horas vigiam a tristeza
foram as mãos na terra
a inventar o meio
dia como se fosse
não é
pudera o sol ditar
o tempo e esta hora
era apenas
o teu


começo

PG-M 2015
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Sete da manhã



às sete da manhã estou sozinho,
minutos antes
da respiração do dia
na casa,
a pensar na pureza
da literatura
nas hordas de génios
que desprezaram
prémios
e os desejaram
em segredo
e à mesa de cafés parisienses
ou lisboetas
ou madrilenos
ou romanos
ou de qualquer café
central
o confessaram a amigos
que o venderam a
biógrafos
dedico este libro a la impureza

dijo aramburu
penso na pureza
e na solidão
de qualquer arte
na aspiração
e na demência
na velhice
e no princípio
na absoluta simplicidade da semente
na absoluta complexidade

da semente
que vergado deitarei à terra
desconhecendo ainda
a frase


e como a morte se insinua
na eternidade 


saio nu e imperfeito para o pátio de cimento

com quebras como os homens
que executam
dedico este libro a la impureza
começam a passar os carros e os torsos frios
para o trabalho
os pobres acordam e voltam
a ter fome
eu entro em casa
visto o pijama
deito-me
cubro-me
encolho-me
como um feto

e não escrevo nada



PG-M 2015
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2015-02-14

Três da manhã

 
às três da manhã
o menino ainda toca Beethoven
no Müller & Sohn, e,

como as memórias puras,
a poesia ainda atravessa as paredes
das casas todas


não serão palavras

para os poemas de amor, usarei apenas
as teclas de um piano
seremos inéditos ao
amanhecer



PG-M 2015

Seis da manhã


evapora-se pela noite

sem busto

sem pele

às vezes o corpo assoma

aquece

sobe doce pelas mãos

pelo sexo

nunca vence

e mesmo a alma

só cede à luz pálida

do rádio murmurando


a manhã



PG-M 2015
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Uma da manhã

se deixares passar muito tempo,
vais encontrar-me velho
ou ausente
a velhice é perfeita
a ausência não
há horas que são tarde

e cedo
ao mesmo tempo
mas nunca é cedo
para tomar

as mãos
e pode ser tarde se chegares

depois
se fores errante
e a estalagem te aparecer

na minha porta
passa-a
sem esperar
os nossos velórios e

funerais

são sempre cedo demais

se eu cá estiver
mesmo à uma da manhã
terei um abraço quente
e um café estreito 
se não estiver 

virás frio
eu no vaso
o mais certo
é fecharem a capela mortuária
antes da uma
e os mortos esperarem sozinhos

as horas todas



PG-M 2015
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2015-02-11

Dez da noite


Dez noite e eu sozinha
diante do espelho americano
dos lavabos do bistrot
tenho quinze
vinte e cinco
trinta e cinco
quarenta e cinco
cinquenta e cinco
sessenta e cinco
setenta e cinco

vou pintar-me vou mudar até notares
o lugar vago

quinze
nem acredito que estou aqui, que o pai deixou
ó meu deus
a mãe vai ser atravessada pelo ácido dos portões da escola secundária
o coro dos amos
"que tempos salazes estes em que eles se vendem pela liberdade miúda"
e o meu batom vermelho vai esbater-se entre os teus tipos
o vestido curto sobrar
pensei que o peito podia doer e a respiração apertar
antes de o corpo ser nosso
nunca beijarás uns lábios pintados
pelas fotografias da emily blunt
nunca tomarás uma mão demasiado segura
com unhas de gel
nem me conduzirás ao jardim interior
quando a tua evasão
é recordar o código
do cartão do teu pai

vinte e cinco
não há vez nenhuma antes desta
quando eu voltar à sala
pode começar a vida
não o pesadelo de um jantar acabado
eu a levantar-me sem nada
tu agarrado ao telemóvel
e no bengaleiro
quer o casaco minha senhora?
já sou minha senhora e tu
a travar o passo
vais responder a isso,
eu sei,
nada a declarar
nem um anel
nem saturno
nem a lua
nem ao menos o teu corpo
ao meu lado
antes tivesse pintado
os lábios de vermelho

trinta e cinco
restauro no espelho americano
a últma hora de vida
tens jeito para mudar fraldas
mas eu movo a cadeira do bebé
não queremos que acorde
janto com uma só
mão
a patrícia já vai na terceira lista de compras e acabou de entrar
no domínio do low cost
tu e o miguel de costas
o jogo é importante, elas
estão bem, deixa
deixa
deixo
deixamos as duas
se ao menos a patrícia se calasse
entrava em mim de
olhos fechados
o bebé a dormir
o vinho é bom
e uma mão
sempre
chegou

punheteiro

patrícia, vou ao wc
olhas pelo bebé?

quarenta e cinco
este poema está a ficar
demasiado contemporâneo
entrámos no domínio criativo
dos génios de escola
faço descontos ao espelho
ainda sou capaz de tapar
o tempo
que idade tinha
Clitmnestra,
de Coéfaras?
E a Ofélia, de Hamlet?
E a mulher de Bath?
E a Hester Prynne?
E a Blimunda?
Desenho com o dedo os contornos
do meu rosto
quando entrar na sala
ele observará o movimento
dos quadris
a malícia do sorriso
escreverá a didascália
no guardanapo de pano
(ele tomou-lhe a mão e saíram
com urgência)

cinquenta e cinco
só por convencimento artificial e soezes
redundâncias
posso consentir o meu aspecto
e à luz dos trinta e tal
o meu é o desespero de todas
as mulheres
vou atravessar a sala fingindo
a melhor versão do meu engano
usarei a táctica humorística
da auto-depreciação
e fingirei a menina
e lembrarei
o ridículo sonho de
que às vezes esqueço
o ridículo e sou mesmo
menina


sessenta e cinco
entreguei o cadáver
voltei a mim
majestosa e material
corpórea palpável sensível tangível visível
ergo-me na estampa dos dias
subtil, marginal,
não sou o centro de nada
não sou o centro de tudo
mulher de porte
de sorte
defino os contornos
o perfume
o vestido
a écharpe
a estola, sou
 
intemporal


setenta e cinco
vou absoluta
se ele voltasse
entraria pelo espelho americano
com a mão grossa e bonita
nos meus cabelos
as testas encostadas
se o amor cresce
até um fim

já é mais alto do que nós
mas na cruz fria da campa
tem o tempero certo
a massa exacta
o calibre
devido

quando saio ao encontro dele
ainda pinto os meus lábios
de vermelho


PG-M 2015
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