2016-04-27

(o apuro das estações) da instalação da primavera


reparei a descer um caminho de barro entre campos que os animais
presos a um ponto fixo para pastar entregam todos
ao fim do dia um círculo perfeito
que subtraem ao campo
e pus-me a pensar que aqueles círculos que se vêem do espaço
podem não ter sido obra de civilizações extra-terrestres,
mas apenas de civilizações atadas a pontos fixos
sem liberdade a entregar círculos perfeitos
depois do almoço
e, para não me parecer tanto com o Eme Tavares,
tenho forçosamente de escrever que não foi só nisto que
reparei durante a instalação tardia
da primavera

embora eu tenha a certeza de que, se estivesse frio e chuva e mar
alteroso, não teria reparado nos animais a pastar,
eram cavalos, póneis, burros, um bode e
eu, sigam em frente, não há metáforas

aqui

eu próprio, com o dano do corpo e da vida na praia,
tinha marcado o início da primavera para domingo,
mas só desci o caminho a pé quando fui trabalhar,
agora eu vou trabalhar a pé todos os dias,
os sapatos ficam cheios de pó, os olhos
não, o povo estranha que o advogado
saia calçado e de pasta e passo,
quando o mundo anda todo descalço e de telefone
móvel nas patas e a correr, mesmo parados
dentro de carros ou de cabines
telefónicas que já não existem

a chorar

buzina-se menos nos invernos modernos
estar parado é bom, podemos ver os mails,
os likes, as declarações
amigáveis, sorrimos ao dia todo
sozinhos, temos saudades
de um olhar, talvez do
nosso próprio olhar, e depois,
nos funerais, fixamos o chão por
respeito, suplicamos o céu por
agonia

e a vida esvazia por
desventura

foi aflitivo descer o caminho de barro sem saber
nem querer saber
o nome das flores

e eu peço desculpa por não ser importante
de facto,
só abri este poema para fixar
os círculos perfeitos dos
seres imperfeitos
e explicar um detalhe da primavera:

à hora do almoço, porque o vento é
liso e o resto do silêncio quente,
já se ouvem os gritos abafados
dos miúdos no recreio da escola,
como os ouço da varanda sobre a praia
antes das sestas de verão

e essa inocência abafada e longínqua

é,
sempre foi,

toda a primavera que há
em mim


PG-M 2016


2016-04-11

este atraso da primavera


não me lembro de uma primavera tão atrasada a norte, já fui a sul
e vi-a lá curvada a pedir alimento, porém nas caixas
torácicas das mulheres e dos homens do norte
não está

não é tanto

o frio ou a chuva ou até
a temperatura, mas o
elemento; eu vivo
junto ao mar e pelo menos esse sinal,
de o mar continuar nervoso e agitado mesmo
em dias exultantes,
basta. o sol
não faz o verão,
a chuva não tem no corpo
o inverno e o corpo
não sobrevive sem
outonos

é uma operação matemática basilar dizer
que a primavera é o outono do inverno
e que o verão é o outono da primavera
e que o outono somos
nós
também já sabemos das nossas aulas de álgebra
que o algoritmo do amor perverte as estações

seria forçar o poema dizer que a primavera está atrasada porque toda a gente
vive com máquinas na mão e sob iluminação artificial entre a casa onde o
medo tem pausas e o carro onde transita entre estados de raiva e o trabalho
onde por vezes mirra, porque isso é assim de norte a sul e a primavera
só se atrasou a norte

é verdade que desligar tudo menos os olhos e os pêlos dos braços e
caminhar na rua faz sempre com que a essência do outono que somos
perverta as mesmas estações que o amor, porque o amor e o elemento
são o chão dos homens e das mulheres todas, mesmo dos frios
como invernos polares ou abrasadores como verões
tropicais

(estar no feminino o plural
de homens e mulheres não foi
lapso, mas porque chove a
intenção não apressa a
primavera)

este atraso da primavera, contudo,
mudar-me-á menos como pessoa
do que continuar a ler Sebald

e caminhar nas ruas com
o telemóvel desligado

é mais estranha a sensação de, trinta anos depois,
ter a mesma música como primeira da playlist,
cuja repetição envolvia, não um toque, mas a operação de
fast rewind e play, fast rewind e play, fast rewind e play,

ou voltar a um jogo oficial de voleibol

antes escrevesse um livro sem ninguém
onde em silêncio a escutasse chegar
e dissesse aos homens e mulheres
todas
que estar encerrado num beijo
é o agasalho certo

os lábios ligeiramente secos a mostrar a solidão
as línguas com o tempero da espera
as salivas mornas do adeus do
ano passado e depois os
círculos e semi-círculos
as elipses e as tangentes
dos beijos bem dados
e o tempo, o tempo longo,
o cheiro como as magnólias
a abdicar das folhas

pode já ser verão quando as bocas
descolarem

há abraços, sim, mas nem todos
com a consistência certa

os beijos não mentem
o mar também não
o vento às vezes
Sebald nunca

e a primavera a norte só se atrasa
de vez em quando


PG-M 2016
fonte da foto

2016-04-10

Frey e a memória daquele verão

Não é que me importe que a morte do Glenn Frey - não apenas o guitarrista dos Eagles, como vi por aí dito e escrito, mas um dos génios de um grupo genial, como são os Eagles - tenha ocorrido quase à sombra do silêncio, até porque não condeno o barulho que hoje se faz quando um grande - como David Bowie - morre. É assim mesmo, estamos no tempo em que todos nos podemos expressar e ser visíveis publicamente e, desde que não pensemos que o que dizemos é mais importante do que diz o vizinho do lado, desde que não disputemos o nosso protagonismo nem sejamos frívolos, acho muito bem que os grande se celebrem, forte e feio, à partida, já que raramente o são à chegada. Mas, dizia, não me importo que a morte do Glenn Frey tenha ocorrido quase em silêncio. Sou egoísta. Parece quase íntimo. Pois se o cultivo assim mesmo há tantos anos, porque haveria de morrer em histeria? Entre as muitas composições brilhantes de que foi autor, instrumentista e vocalista nos Eagles, devem achar estranho que anexe a esta celebração uma música menor, como Sexy Girl. Eu até concordo que é uma música sem uma qualidade supimpa, mas acontece que, se eu tivesse de me despedir do Glenn Frey, esta seria a banda sonora. Lembro-me perfeitamente: Corria o ano de 1985, eu estava na sala grande da casa dos meus pais, onde tínhamos uma aparelhagem de qualidade que eu estava proibido de utilizar, mas que utilizava todos os dias, desde que o meu pai não estivesse em casa. Às 14h, hora em que o Adelino Gonçalves arrancava com o power play da "Discoteca", na Rádio Comercial, eu estava sempre a postos com os dedos no pause do leitor de cassetes. Quando o Adelino se calava, soltava o botão e gravava. Eram cassetes e cassetes assim, com "misturas" quase psicadélicas. Imaginem então um dia de Verão na casa da praia de Francelos, a janela da sala aberta para o ar quente da rua onde, a cerca de cem metros, víamos deliciados passar as raparigas com as saídas de praia e as seiras com tolhas, cremes e lanches. Nesse preciso momento, as primas da Rua da Alegria, três belíssimas mulheres - uma com quase um metro e oitenta, uma com isso, outra com mais do que isso - acenam da rua e o Adelino Gonçalves fala da carreira a solo do Glenn Frey e da grande música do verão que naquele dia tinha a sua estreia na Comercial: e arranca o Sexy Girl. Não sei porque é que sempre a liguei mais à Cristina, que das três primas era a do meio. Talvez porque no meio esteja a virtude. E à notícia da morte do Glenn Frey, foi, claro, o sexy girl que ouvi na minha cabeça. She moved in next door to me, and she showed me the world. Então até já, Glenn. Para nos vingarmos, não está mal cultivar o irmão de Eagles, Don Henley, que lançou em 2015 um grandíssimo álbum: ouçam o "No, Thank You" e digam-me alguma coisa. Até lá, you are all sexy girls.
PG-M 2016

I am not to speak to you

"I am not to speak to you", stranger - Walt
Whitman. E o dia começara
com a Susana a postar que não ia ver o vídeo
de Natal que põe em imagens o síndrome dos
funerais, aquele do termos sempre tempo para
funerais e para dar ao polegar - que agora é
comunicar, não pedir boleia -, mas não para um
"desconfortável" café com aquelas coisas antigas
como olhares, toques, cheiros, até algum tédio e
desconforto, e logo a seguir a Maria João posta
este poema do Whitman que diz ao stranger que
lhe foi íntimo na memória e na solidão toda uma
vida:

I am not to speak to you

Ah, como duas boas amigas descarnam,
sem saber, meridianas,
a minha missão, que me foi íntima
na memória e na solidão toda uma
vida. 

Be afraid. Be very afraid. 


PG-M 2015

2016-04-09

Verdade. Truth. Mary. Cate. Nós.

Verdade.Truth. O que aqui escreverei não é sobre o que aqui escreverei. É mais amplo, mais meu, mais mundo. Talvez uma redenção. Cate Blanchett novamente deslumbrante. Não é só obrigatório para jornalistas. É para todos os que gostam de viver com verdade, mesmo que a verdade comporte riscos de nos pegarem fogo, de a frustração, os complexos, a vista limitada, nos arrastar para o lodo e nos mudar para sempre, não porque duvidemos de nós próprios, mas porque ficamos cansados e não queremos isso. Queremos paz e silêncio. Não seria um spoiler repetir aqui o momento mais marcante do filme, em termos de conteúdo e mensagem, mas prefiro que vejam e sintam directamente. É aquele em que ela fala da verdade e do barulho, dos factos e da aparência. É isso mesmo. Está bem: nunca gostei muito daquele da mulher de César, não basta ser honesto, temos de o parecer. Mas isso não é verdade, é habilidade. Se fores hábil toda a vida, serás canonizado. Se fores apenas tu, se amares e acolheres e seduzires e fores seduzido e te confessares, mesmo que respeites os teus princípios sagrados, não sairás incólume. Portanto, a vida ensina os verdadeiros a serem hábeis. Mas em que parte é que esse investimento na habilidade não vos soa a falso? A mim soa. Mas é assim mesmo. Hoje, para descredibilizarmos algo ou alguém, basta fazermos barulho. Em público ou em privado. Faça-se barulho e tudo e todos se apagam e pagam o preço que tiverem de pagar por serem inábeis. Com a jornalista cujo livro inspira este filme - e nele é retratada pela Cate -, Mary Mapes, conseguiram. Anularam-na para sempre. Verdade. Truth. Ainda assim redime vê-lo dito assim: basta fazer barulho para destruir a verdade e os verdadeiros, a honestidade e os honestos, o colo, o afecto, a luta, o sexo, o cheiro, a pele, o amor, o presente, o futuro. E até o passado, até o tempo.

PG-M 2016

2016-04-06

Granítico-poeto-murconhe


(sou eu)

.apenas.

Granítico-poeto-murconhe

(também se pode admitir a forma
 Granítico-poeta-murconhe

mas tem menos individualidade, sendo apenas respeitável como formação gramatical. A areia na barba e no lábio inferior não é relevante, é só verão; eu escolheria esta última forma para escrever na calçada e as pessoas calcarem, porque causaria menos estranheza e mais prazer a um colectivo. Temos de ter esse respeito pela sensibilidade média.
Ao formar a palavra nova - que sou eu, mas podem ser outros, portanto, não sou só eu - ambas são compostos não-sintagmáticos por coordenação, mas aquela primeira deformou-se em prol da própria personalidade do tripeiro apaixonado por livros e por escrever, podendo ser substantivo (se me tratarem um dia, como desejo, como "o" granítico-poeto-murconhe"), ou adjectivo, (se disserem que eu sou isso;), e deformou-se em derivação por sufixo zero do substantivo poeta (que também pode ser adjectivo), para o lado esquerdo e para o lado direito; esta gramática é carnal, feita e sentida em jorros, não tem nada de estruturalismo ou perdas de sangue até o corpo da frase ficar exangue, que é o que querem fazer à minha gramática verde-acinzentada (sou algo daltónico, não liguem) do Lindley Cintra e do Celso Cunha, que é linda e pela qual eu me apaixonei tardiamente; não me vou pronunciar sobre o que aconteceu tecnicamente à palavra "murconhe", porque essa não é nova, é de cá, está cá dentro, e nunca poderia ser murcão; nunca

nunca

Se acharam isto complicado, destrocem (no sentido intransitivo) e fiquem por favor apenas pela parte não-em-itálico.

PG-M 2016

2016-04-02

sinfonia os meus lábios queimados, o meu corpo ultrapassado e o fim da partícula-herberto-funcional


Já há muito tempo que não me fazia isto. Uma amiga um dia numa tarde numa hora
imprópria, quer dizer, essa amiga e eu estávamos na prática a viver as nossas vidas
com os amigos e os filhos e as mulheres e os homens em volta, estávamos na prática
com uma rotina de tédio de fim-de-semana e na verdade a
rede social em que subíamos e descíamos as primeiras escadas sendo
rigorosamente nada um ao outro era em si o núcleo desse tédio, eu disse
visceral, ela disse que era uma palavra odiosa, eu disse que a palavra nada
tinha de odioso, talvez ela quisesse dizer a ideia para que remetia, vísceras,
mas que mesmo assim frequenta a minha própria expressão, não poucas vezes

digo

estou de vísceras

na verdade não fazia isto há muito tempo, escrever para remendar o tempo e o espaço,
foram uns três meses de labaredas e nem por uma vez nesses três meses eu mergulhei em
mim próprio e fiz piscinas rompendo o líquido amniótico, como faço desde a barriga da
mãe, na verdade faço-o desde a barriga da avó, na verdade faço-o desde o princípio dos
tempos, como aliás fazemos todos, era a matéria negra e depois era a lava e depois,
subitamente,
o mar,
é mais ou menos um cliché que o mar tem praticamente a mesma constituição
química do líquido claro que envolve o feto durante a gestação, é uma balada,
toda a gravidez é uma balada com pelo menos uma alma em suspenso,
já ninguém discute, verdadeiramente, a dimensão etiológica dessa alma ou sequer a sua
existência em sangue, voltemos acima ou atrás, estamos de vísceras, somos vísceras desde
fetos, sejamos ou não viáveis, viremos bebés rosados ou abortos, somos isso, não tem mal
nenhum ser sensivelmente-violento num poema, ainda agora o Herberto dizia
coisas maravilhosas numa lira entre dois cornos,
o Herberto, a bem dizer, é uma rima fácil,
provavelmente vou ter de me inibir de usar o nome e alguns versos dele como me inibo
de fumar, embora eu goste muito de fumar e até esteja convicto de que um ou dois cigarros
não fazem mal e não me levariam de volta ao vício, a verdade é que os casos documentados
dos outros dizem que as excepções voltaram a ser regra,
e é por isso que, não havendo nada mais fácil do que impressionar citando Herberto ou mesmo
manietando-o em metaliteratura, vou ter de te dizer, Rocha, que vou deixar de usar Herberto com
esta transparência e, vá, já mencionei que tu, com a tua gargalhada que valia tanto quando
estavas vivo como vale agora que estás morto e me fazes uma falta do caralho, ouve,
não é uma falta do dia a dia, até porque éramos tão diferentes que não queríamos saber dos nossos dias, só de vez em quando soava o alerta e tu vinhas ter comigo ou eu ia ter contigo ou nos encontrávamos no El Corte Inglês de Gaia, onde chorámos de parte a parte,
ou isso ou em frente ao mar, mas aí não vou dizer onde, porque
eu cometi o erro de levar lá um fdp e agora aquilo está inquinado e, embora eu goste do cheiro
dos fdps mais molezinhos e até da textura das suéteres de malha muito grossas, tricotadas pelas avós santas desses diabos, que cheiram a perfume misturado com vida e gás metano, porque raramente são lavadas na máquina e à mão tem de se saber porque só para torcer cada uma é preciso uma tarde, ainda assim eu vou lá de vez em quando, sem que uma rotina me denuncie, mas tu dizias-me versos do Herberto com aquele enlevo de menino tripeiro, talvez porque precisasses que eu te aceitasse e soubesses que eu tinha a mania de que não era um best-seller e tu, coitado, eras

o poema já vai muito comprido
eu quero que o poema se foda
até porque chamar poema a isto
fará voltar nos túmulos os membros
vivos que são mesmo escritores,
e quando digo membros digo os
membros sexuais dos membros,
na verdade, se há algo de vibrante
nesses génios são os membros
sexuais, porque realmente muitos
festivais literários com pernoita e
sem controlo são um desafio à
sanidade e à ordem conjugal,
fazem eles bem, como sempre
fizeram os coelhos, eu também
queria, mas não sou capaz porque
sou um neovirgem imaturo
que se apaixona por tudo
o que mexe e tem forma
humana feminina
e sem querer estou
velho e já não
me enxergo


oh pá, oh páááááááá, na verdade não posso acabar o poema sem
trazer para dentro dele isto da natureza tripeira e da classe pura,
que desconsolado fico quando vejo nos olhos dela o brilho do orgulho
e ao mesmo tempo como ela gostava de me ver refinar como um
cavalheiro distinto que dispensasse absolutamente o calão para
vincar uma certa identidade, mas sempre vos digo que em momento
algum o menino inseguro e trágico que eu sempre fui sentiu que o calão
tripeiro fosse uma forma fácil de se afirmar ou uma bandeira
prostituta de uma certa forma de se ser livre
que virou popular no primeiro vinco do terceiro
milénio, eu acho que, como o Bocage,
devemos e podemos
(falo dos tripeiros)
devemos e podemos
não ter limites entre nós
mas ser distintos perante
mouros ou celtas
e sempre com a devida vénia

quem tem classe tem classe

na verdade, eu não queria escrever um poema,
mas este texto não era este texto sem respiração espacial,
então formo-o na cabeça e deformo-o na tela, como
qualquer pintor incompetente,

o que eu precisava mesmo era de ouvir outra vez os Kitty, Daisy and Lewis e sonhar
que ainda os vejo em Portugal, sendo que pressinto que serei acometido por um ou
dois desmaios e falarei, antes de desfalecer, como um tripeiro,
com os olhos molhados e os lábios mordidos e chupões no pescoço e
hálito a minis dizendo em todos os tons e densidades de todas as fases
de todos os sistemas termodinâmicos em equilíbrio nos sistemas fechados,
ou seja,
dizendo ortobárico e muito baixinho
tão bons!, tão bons!, grandessíssimos filhos
de uma grande puta, tão bons!, na verdade
eu não queria ter escrito nada disto

o leitor saiba que, cada vez que eu, PG-M,
quero voltar ao mundo como autor depois
de uma fase incicatrizável e sem encíclica
para meu governo, ou seja, cada vez que
eu me quero salvar

escrevo assim, com a playlist nos ouvidos
e sem dó
          
             só

de vísceras
e sinfonia

os meus lábios queimados, o meu corpo ultrapassado e o fim da
partícula-Herberto-funcional

PG-M 2999





2016-03-30

Idanha Absoluta



Senhor Presidente da Câmara Municipal de todas as Idanhas,

"Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro,
assobiando os nossos louvores",
Eça de Queirós, "Civilização"

Eu vi as cotovias sobrevoar o parque durante mais de vinte anos, mas só hoje
tive esta profunda inveja de elas não dependerem dos homens
para partir ou voltar.
E foi durante mais de vinte anos que eu escondi, sempre que pude,
que desaparecia do mundo aqui, porque aqui é o lugar mais vezes perfeito
de todos os lugares imperfeitos.
Foi só aqui, no parque, encostado às colinas onde tilintam bois e ovelhas
de dia e peroram girinos e pais durante a noite
que o universo se calou e eu ouvi o silêncio absoluto.
Lembro-me bem. Estava no alpendre sem luar e ainda fumava
e a brisa deixou de soprar e já não era hora dos sapos da piscina.
Tudo se calou de momento – aconteceria uma vez mais num lugar remoto do Alentejo
com a planície como quintal e por aqui rasou a perfeição por mais quatro ou cinco vezes. Não que seja preciso.
O silêncio normal está muito bem. Hoje, sentado nas escadas de madeira aprodrecida do bungalow mais alto do parque a fingir que leio “Vida e Destino”,
vejo a cotovia rasar a copa das árvores e as colinas circundantes
e entrar e sair livre do lugar onde os homens se decifram,
esse valor perto da totalidade de cada um, a paz por dentro.

Há vinte anos, uma nota no rodapé de um guia falava da
inauguração de um parque de campismo e juntava fotografia
do que só podia ser mentira, estava a visão da ilha quando se chega,
mas eu resolvi vir ver,
voltar às idanhas da minha infância, sentir-me pequeno em Monsanto,
levar cornadas de bodes em Penha Garcia, jogar futebol no campo de tiro,
brincar no parque infantil de Monfortinho, atirar pedras ao Erges e entender
que as cotovias nunca dependerão de Orbitures ou Câmaras Municipais para vingar.
Para se vingar da contenção. Para impedir que as cinjam. Vim ver as abelhas fazer mel de rosmaninho. Descobrir que a estrada de cegonhas foi, finalmente, asfaltada.
Testar a curva desconhecida do Tejo. O queijo de Malpica como em cem anos de solidão.
O corvo Vicente que, como um cão, se deixou adoptar por Idanha, a velha,
e armazenava a comida nas escadas do adro da igreja.
A amoreira. A cerejeira. O olival. Os brasões de Medelim.
Os bons dias da papelaria da Paulinha. A família do mercado.
A excelência do Helana,
a comida em casa do Moinho, onde o menino - que nos toca - canta em vez de falar.
Esta que eu fiz cenário de um livro que ainda está escondido e estará.
A albufeira para onde a trouxe com aquele barriga redonda de seis meses
e onde jurámos que o traríamos depois de nascer enquanto ela bordava o nome numa babete e os dois com os pés na água a deixar descer mais um fim de tarde completo,
redondo, laranja, a esbater na encosta.
A avenida de faias a descer com a torre da estrela ao alto.
A tutela das fragas de Monsanto. Deixem-me em paz. Espargos, criadilhas, trufas.
Os anos noventa foram gloriosos: preços baixos e a certeza do paraíso
encheram o parque. Os anos dois mil catastróficos. A Orbitur, cuidando
do espaço com mais profissionalismo, trouxe a frieza, subiu os preços,
rompeu fidelidades, fez circular os gerentes quando começavam a conhecer
o objecto, esvaziou aquele que eu nunca tive pejo em chamar
de mais belo recanto de Portugal continental. Deixou-nos sozinhos.
E se eu disser que, mesmo assim, não foi há mais de três anos que
descobri o verdadeiro jardim do Éden, que se acede pelo fundo da rua do Helana,
e acende no carreiro que começa no portão da belga que dá ares de louca
ou de lúcida e é dona daquilo tudo, uma visão esmagadora do topo de um planalto
que parece um pequeno Massada a encher-nos o peito
com a cova da beira bela como em mais lado nenhum,
ainda que de todo o lado seja quase tão perfeita, aqui não é só a melhor
entre os lugares imperfeitos: é mesmo o lugar perfeito.
O parque vai fechar daqui a dias. Nós estamos perdidos.
Sabemos que há casas, turismo, estudantes, canoas, acampamentos de escuteiros,
senhoras do Amortão, mas fechar este parque é deixar que o corpo do lago se curve
pelo seu lado mais digno, é abrir o tampão e deixar
que se esvaiam os sonhos todos.
No fim de tudo, senhor presidente, e como diz Vassili Grossman
no “Vida e Destino”, a verdadeira conversa que poderia ter consigo
não é esta. O que eu precisava de dizer não tem forma de ser dito.
Deste chão jorra um energia poderosa que se mistura a meia altura
na luz do dia e, à noite, no tecto dos céus estrelados. Não tem comparação
com lugar algum do mundo por onde passei.
Há coisas parecidas, nada é assim. Como um super-herói,
aqui li, escrevi, sorri e ri como um doido, aqui me deixei serenar
como um homem.
Seja, Senhor Presidente, esse homem,
porque o melhor político não é bicho que chegue a tanto.
Ou a tão pouco. Não explique nada. Limite-se, por favor,
a contrariar o destino da dignidade de um povo. Dê-nos
um lugar para morrer felizes. E um parque para viver.

Eça abriu. Eça fecha: "Eu e tu e aquele monte
somos moléculas do mesmo todo".

Pedro Guilherme-Moreira, em carta aberta,
29 de Março de 2012

PS: o parque reabriu, a carta ganhou forma de poema e não quer voltar a ser neccessária

2016-03-23

Calcinado, mimado, feliz


 106 escolas depois, mais de 300 alunos em duas sessões só em Ovar, a maior de sempre, já depois de Castelo de Paiva ter batido o recorde com mais de 200, poucos dias antes. Ovar, Júlio Dinis, na última sexta-feira, 18-03-2016, dia em que entravam de férias de Páscoa. Já não me apetece gastar palavras com estes miúdos e professores maravilhosos, não me apetece mimar ninguém, não me apetece ser interlocutor de nada, não me apetece ser um puto afectuoso para quem a amizade, o amor, o desejo e a auto-estima adolescentes são quase uma questão pessoal e falada sem hipocrisia ou pudor, corpo a corpo, cara a cara, voz a voz, silêncio a silêncio, como se tivesse mantido intacta a memória dos códigos; apetece-me apenas expressar a minha gratidão pela forma como sou recebido e estimado e mimado e a quem me recebe e estima e mima, sem nunca mais extrapolar ou fazer render o momento; 
sentirei a ressaca de afectos sozinho, ficarei com as magníficas dedicatórias, mostrarei as imagens do momento - porque eles merecem ser divulgados -, ouvirei todos sem me deixar apaixonar, responderei a cada um de forma enxuta e científica, responderei pronto a cada chamada de professores para aulas surpresa ou sessões especiais, assinarei todos os livros e papelinhos e cadernos, mas regressarei sozinho à minha caverna e ao meu silêncio e à escuridão do destempero e do retempero. Infelizmente cresci, envelheci, calcinado como um quadro negro com gatafunhos de cicatrizes na pele, é uma felicidade imensa encontrar o nosso lugar entre os velhos, o banco de jardim com que sonhei a vida toda, ainda menino, dizendo aos amigos, aos verdadeiros amigos, vida fora, àqueles em cuja bondade acredito - e são poucos, muito poucos - 
encontra-te comigo daqui a trinta ou quarenta anos, data e hora, naquele banco de jardim. Já marquei na Cordoaria e no Príncipe Real, na Lello (sem poder prever que teríamos de pagar, e bem, 3 euros) no topo da escadaria, no jardim botânico de Coimbra, na Piazzetta San Marco (no Chioggia), na Torre dos Clérigos, num jardim parisiense e, claro, no Empire State Building. 
 
Olhar para estas fotos, cara a cara, gesto a gesto, chega para remate da emoção - melhor: da comoção - que cada escola me provoca.Obrigado. 

PG-M 2016
Foto de P. Tomé

2016-03-11

Xico 2016, Ano 4

Senti-te a falta, Maria. Bé para os colegas. A Maria foi a alma dos meus anos todos, e não consigo partir para mais um relato da substância sem me penitenciar. Não me importei como reclamo para mim e para os outros, falhei, na voragem dos dias intensos, um olhar mais dedicado à minha amiga Maria, uma grande professora de português e uma grande mãe. As professoras Rosário e Manela dão o litro, mas a Maria sempre foi a minha alma na Xico. Por isso te senti a falta, mas este, deixa-me que te diga, Maria, foi dos nossos melhores anos. Na Xico 2017 - ano 5, quero-te a ti e à Clara, por favor. Neste novo formato, em que vou acompanhado de delegados da editora, graças a um departamento, o dos "Encontros de Autor", que está a funcionar afinadinho, é mais fácil gerir a ressaca de afectos. Não ir sozinho e não vir sozinho permite uma percepção mais clara das falhas e dos acertos. A Liliana foi a delegada para a Xico. Um tripeiro reconhece outro tripeiro, e a Liliana podia estar calada o tempo todo e eu saberia que ela era uma tripeira. Mas a Liliana é muito mais do que isso. Boa ouvinte, atenta, com um juízo crítico lúcido, profundamente bonita do que na beleza não é visível - mas também do que é -, uma verdadeira companheira de aventura. E as escolas são verdadeiras aventuras. Este ano a professora Rosário estava doentinha e a Manela-bibliotecária tem só dois braços, pelo que a coisa correu mais entre mim e os alunos, mais precisamente as Ineses com nomes bélicos, Guerra e Forte, e a Jéssica com nome de guerreira, Valente, no antes, e, entre muitos que ficaram mais escondidos na sombra ou na luz dos próprios sorrisos (eu vi-vos, acreditem que vos vi, mas não tenho o direito de vos expor; os vossos olhos eram tão vorazes quanto doces, olhavam para mim como se olha para os actores no teatro, com alimento, e eu agradeço-vos isso), a Rita Antunes, o Miguel, o André, a Fabiana, a Francine, a Carolina (sim, tu, que estavas mesmo em frente a mim) e a Ana Luísa.
Depois, no caderno, a assinar dedicatórias que até comoveriam um menir, e assinando quase em coro com o tag #somosTodosPedro (os tags, todos juntos, ali, no caderno, eram poderosos e comoveram-me a sério), Rita Ribeiro ("a tua poesia vale mil sorrisos"), a Glória Fernandes ("ainda há escritores que têm o dom de fazer as palavras valer"), Filipa-Carolina-Ana-Sara-Maria (a visão colectiva da literatura), todo o 11º LH1 (o futuro nas nossas mãos), Márcia-Jéssica-Mónica ("provocas-nos um sorriso verdadeiro e lágrimas de felicidade"), todo o 10º LH4 ("muito obrigado por este grandioso momento"), o arrepio e a comoção da Lara Rodrigues (eu não vos disse que a literatura não era chata?) - que passou a ver a literatura como poderosa, Cátia-Teresa-Vera ("a tua presença é mesmo "awsome" - tão fixe, isto!),  Ângela e Bianca (repetentes em sessões, acham que valeu cada minuto), o longo (adoro quando escrevem muito, como eu) e bonito texto da Inês Martins ("sempre achei que a literatura era apenas algo que aprendíamos na escola e que durava tanto quantos os anos em que estudamos; (...) aprendi esse significado com o Pedro. Literatura é arte, é vida, é alma, é tudo. (...)"), a aluna que mais se emocionou durante toda a sessão e que, por isso, teve direito ao original, a Rita Antunes (não vou sequer transcrever as tuas palavras; eu estive atento; a tua emoção não foi banal, foi gratificante; é isso que procuro com a literatura, Rita. Se não há emoção, eu declaro derrota), a/o anónima/o que reflectiu sobre os filtros e as abertura do peito e da alma e que riscou o nome e deixou só 10LH4, a Débora, que me viu à transparência ("um homem grande com um coração grande; (...) continua a partilhar, muda vidas, uma palavra basta"), a Bárbara Inês ("obrigada pelas palavras, Pedro, obrigada por seres tão genuíno, tão real. E, acima de tudo, obrigada por te preocupares"), e as Ineses, que falam de que o dia as mudou - só pode ser a minha ambição máxima: que seja o dia e a vida. Respondo ao André, que escreveu "Porque é que divides o mundo em gerações? Somos todos seres humanos." - Eu sou o primeiro a dizer para todos me tratarem por tu e a ter amor por gente boa, tenha 10, 15 ou 80 anos, André. A boca da geração é para vos abanar. Ou melhor: para abanar os que estão mais adormecidos. Só isso. Se reparares, André, eu acosso-vos e mimo-vos a todo o tempo. Puxo e empurro. Abano.

Tive oportunidade de publicar esta foto logo a seguir à sessão. Uma referência breve à declaração de amor "És o Deus da literatura", anónima e sob o tag #PedroDeus: não tenho de explicar que me sinto pequenino perante uma frase divinizadora, que não é, obviamente, literal, mas uma espécie de abraço de sangue - a menina ou o menino que escreveram isto querem, apenas, dizer que entenderam nas suas profundezas o que aqui fui dizer e que, como a Liliana caracterizou, e bem, é uma espécie de missão. Nós queremos muitas vezes dizer isto aos nossos ídolos, não porque eles sejam os nossos verdadeiros deuses, mas porque nos flagraram a essência, porque nos vieram dizer ao espaço pequeno e quase insondável (e certamente inefável) que fica, mais do que dentro, por trás do coração e em lugar nenhum do mundo, mas em todos os lugares das pessoas (dentro ou fora do mundo, do passado ao futuro, do tempo todo) o que nós não conseguimos formar entre a língua, os dentes, a  garganta e o nariz, que é o lugar físico das palavras. Porque não há. Não há palavras para a nossa centralina. E então divinizamos. Quase por raiva, divinizamos. Eles, estes meninos e meninas maravilhosos, também são deuses para mim. A Cláudia Baptista perguntou-me de viva voz, no fim da sessão, se eu tenho na vida o drama que trato ficcionalmente. A minha resposta inteira foi longa. Mas comecei por lhe dizer que "sim, tenho perdido pessoas, mas há muitos mais novos do que eu que perderam mais". Mas a pergunta é tremenda. Demorou-lhe aquele tempo habitual para levantar a mão, mas a pergunta é tremenda, Cláudia. No fim, é sempre a mesma coisa: a ressaca de afectos. Mesmo com a Liliana a ajudar. Começo a medir as sessões pelos que ficam depois, vida fora, e vejo crescer. Alguns ficam meus amigos, amigos a valer. Faz este ano cinco anos que estou visível, publicamente, na literatura. A Xico teve a sua 4ª sessão em 104 visitas a escolas. Castelo de Paiva segue-se como a 105. Ovar como a 106, tudo numa semana, como é habitual antes das férias da Páscoa. Os que estiveram nas primeiras sessões estão agora a licenciar-se e, creiam-me, é maravilhoso acompanhar os que ficam por perto. Como eu dizia há uns anos, na Xico, custa-me ter de os deixar. Custa-me muito. Sempre. Mas é sempre uma experiência transcendente. Eu acho que é amor. Apenas isso. O tal sentimento que é sobre-humano.

PG-M 2016
Fotos propriedade da Escola Francisco de Holanda, Guimarães, Portugal

2016-02-04

Luísa-chão, Matilde-em-absoluta-pureza, Inês-sobre-beleza, Mariana-doce,Teresa-em-rendição e tudo o mais

Luísa-chão, Matilde-em-absoluta-pureza, Inês-sobre-beleza, Mariana-doce, Teresa-em-rendição e tudo o mais. Hoje até no intermúndio há sol. A sessão-supresa do Colégio da Bonança foi na biblioteca e a biblioteca estava cheia de sol. A rua para chegar ao Colégio estava cheia de sol. O pátio do Colégio estava cheio de sol. Os corredores do colégio estavam cheios de sol.

Lembram-se da Matilde? Do doloroso sorriso de Matilde? Já lá vou, já lá vou. A  Matilde há-de ser um amor para toda a vida, por isso já lá vou. Hoje tinha de ver, pelo menos, a Luísa-chão-professora, a Inês-sobre-beleza e a Matilde-em-absoluta-pureza. A Irmã que estava temporariamente na portaria franqueou-me as portas todas, e o pai da Inês, no bar, orientou-me a subida, e uma professora, na sala dos professores, consultou o horário e levou-me onde, nem de propósito, estavam a Luísa e a Matilde. Muito perto do firmamento. A sério.
Primeiro a Luísa, a professora, que impressiona como chão. É uma rocha, precisa de mimo, muito mimo, porque a vida é dura, e ainda assim vem, vem todos os dias para exponenciar o brilho destes meninos maravilhosos. Ó Luísa-que-és-chão, deixa que a desventura te apure a ventura e que essas noites infindas e negras nunca te velem as mãos que dão colo. E que outras mãos te dêem colo a ti. É tão bonita a humildade na Luísa. Tão bonita que nos silencia. Abusem nos abraços à Luísa, por favor. Abusem, meninos. 

Quanto a ti, Matilde, que tudo na vida se interrompa sempre que os nosso abraços acontecerem. Tudo. Ao abraçar-te, Matilde, param as dores todas, as do passado, as do presente, até as do futuro. Não posso usar palavras ou definições rebuscadas para ti. És apenas maravilhosa. Maravilhosa. Absolutamente maravilhosa. Conhecer-te foi dos momentos mais importantes desta minha pobre vida. Reconhecer-te nunca é menos. Porque dás sempre muito mais do que te damos a ti, calo-me, por pudor. Matilde-em-absoluta-pureza.

Teresa Pintão, que comigo pesquisaste o haikai, o haikai que nunca mais aparecia, Teresa Pintão, ouve, estou furioso contigo. Já te disse, mas repito para o mundo: estou furioso contigo. Sabes como os criadores são distraídos. Talvez o único que se livra disso seja o Criador que se escreve com c grande, e mesmo esse - mesmo a esse - fartam-se de perguntar se está distraído. Eu sou. Sou muito distraído. Os tímidos que se escondem nas sombras acabam mesmo por conseguir que eu não os veja. Como tu. Sei bem que sou um homem, Teresa Pintão, e tu uma menina, que talvez as meninas não devessem falar com homens,Teresa Pintão, mas teres estado em todos os lados importantes onde eu vos quis, até no Clube Literário de Gaia com os teus colegas, e não te teres mostrado, deixa-me furioso, Teresa Pintão. Como eu te disse hoje, foi um ano perdido para mim. É um direito que te assiste, Teresa Pintão, mas estou furioso. Não te rias, Teresa Pintão, não te rias. Lê lá o haikai deste que te escreve. Alto, Teresa Pintão. Alto.

Luz do dia, Cotovia
Fundamento dos teus versos,
Doce rima dos teus berços.
Dessa espécie de poema, J (com haikai dentro):
Elas passam no passeio das Cardosas,
Poderosas,
Passam todas em vestidos sufocantes
Estão pedantes,
Estão na praia por esplanadas refulgentes
Diluentes

Menos J,
Que é mulher. (...)
Vá que te rendeste, Teresa. Vi bem, por fora e por dentro, que te rendeste. Agora fica. Stay. :)

E tu; Mariana Emina? E o teu magnífico texto com as cem palavras exactas a ligar sensações e dúvidas, tu a dialogar contigo própria dentro dos parágrafos, a questionares os instintos, esse texto que construíste à minha frente e eu peço licença para passar a limpo, e imortalizar, aqui:
"não sei se as
 rosas vão voar, ou se estou a confundir rosas com
 palavras, ou se as rosas são pássaros ou palavras ou
 flores, sei que esta caneta escreve o que a cabeça lhe disser, e a
 cabeça não tem limite, por isso rosas não são flores aqui, não são
 pássaros aqui...pff! pff! Mas palavras são. E a isso não posso fugir.
 Mesmo em silêncio. Mesmo a pensar. Palavras são. Mas então e a cabeça?
 Penso em silêncio, penso em rosas, penso em pássaros. Penso, e são tudo palavras.
 Serão as palavras o limite. Não sei, vou jogar futebol."

Doce, doce, doce Mariana Emina.

Estavam mais quatro meninos que estão na foto e aqui, mas sem nome. O Pedro, que já conheço, e a quem devo, o Eduardo, que não conheço mas ainda vou conhecer, a Diana e a Ana - que certamente me conhecerão. Hoje sem nome, porque nome é a parte de dentro, e a parte de dentro eu tento sempre contar: passam a chamar-se aquilo que são. E vieram muitos mais.  E virão muito mais. Hoje, no entanto, e acima de tudo, Luísa-chão, Matilde-em-absoluta-pureza, Inês-sobre-beleza, Mariana-doce,Teresa-em-rendição e tudo o mais. Hoje até no intermúndio há sol.
PG-M 2016




2016-02-02

Samanta, Rita, Cláudia, Viviana e a literatura como transporte público no tempo (Douro, Oliveira do)

Gosto muito do nome Samanta. E gostei muito da menina que o trouxe. A Samanta tem silêncio. A Samanta tem força. A Samanta arrumou-se na margem, na cadeira mais distante, mas esteve toda a sessão implicada. Essa dignidade, essa profunda dignidade, tem de ter vencimento contra "bullies" e infantes cuja sensatez demorará mais tempo a entrar no corpo. Porque a Samanta tem beleza e vê quem quer. A Ana Rita Vieira e a Diana Pinto apareceram no fim de tudo. Não estiveram na sessão, porque não são das turmas contempladas e porque a aula de Filosofia coincidia com a letra do escritor. Apresentaram requerimento de forma à professora de Filosofia, que indeferiu liminar e fundamentadamente. Tentaram no intervalo e apanharam o auditório vazio, com o escritor ao fundo a assinar livros, acompanhado das duas professoras organizadoras, Isabel, professora-blibliotecária, e Eugénia, professora de português. "Podemos entrar?". "Claro", responde o escritor, e
logo de seguida pede desculpa às professoras pelo atrevimento. "Não se lembra de nós, mas nós lembramo-nos de ti" - diz a Ana Rita. A Diana fala no casaco do FC Porto, e o escritor lembra-se imediatamente, a menina irrequieta e simpática da melhor sessão de sempre das 102 escolas percorridas até ontem: Anes de Cernache, Vilar de Andorinho, terra do bisavô escultor, não teve leitura prévia dos livros mas teve o professor-bilbliotecário Abel, empenhadíssimo, e comprou quase quarenta, e os meninos cercaram o escritor até ás 17h e foi tudo magnífico. Aliás, está descrito aqui: "Os putos de hoje não valem nada";

A Diana e a Rita foram as primeiras, de 102 escolas, a voltar no ano seguinte. E, como a sessão estava no fim e se recolhiam as varas dos foguetes e já tinha tocado para a aula de português do professor Francisco, eu comecei a escrever um pedido de desculpas e uma justificação para o atraso delas, mas o professor Francisco deixara dois livros para serem autografados e as meninas tiveram a ideia de me levarem junto, como surpresa.
A surpresa e a emoção foram absolutas, porque reencontrei muitos dos que tinham estado na tal sessão notável. O professor Francisco falava de Camões e pediu-me para falar da poesia contemporânea. Eu falei da forma como, por ora, me excluo o mais que posso dos incluídos e expliquei porquê. Tive uma nova estrela a comentar o Prémio Pina: a fantástica Cassandra (faz-me sempre lembrar o filme homónimo do Woody Allen). Depois retirei-me, para que ele ficasse com cinco minutos de aula livres para dizer o pior possível de mim. Estávamos todos comovidos. Depois a Viviana Ferreira, que com o olhar me lembrou como foi das que esteve presente até ao fim, finalmente, voltou, e ao voltar surgiram ideias que nunca antes tinham chovido e podem ser maravilhosas para me curar do pânico e das ressacas de afectos que tenho depois de todas as escolas. A Viviana, que tem um desses olhares que dizem tudo: os olhos que gritam e dizem estou aqui, fala comigo, volta comigo, ouve-me, quero dizer coisas.

Antes tínhamos tido uma sessão épica, dominada pelos mais rebeldes e malandros, pelos "manos", pelos gangues barulhentos do humor, que ainda assim tiveram momentos de compreensão e silêncio profundos e que foram (escreveram eles em quatro páginas A4, à mão, que serão agrafadas aos exemplares de autor que circulam nas escolas) fantásticos. Como o Albino, O Ricardo, o Diogo, etc, etc. Fiquei na Escola Secundária de Oliveira do Douro, com duas turmas do 10º ano, entre as 11h e as 17h, com intervalo para um almoço excelente com as professoras. Tinha começado com um café servido pelo Ivo Martins, com o máximo profissionalismo, no Restaurante Biológico da Escola, que será inaugurado por estes dias. Poemas ditos de forma brilhante pelo Gonçalo Soeiro (Eugénio de Andrade), Tiago Ramos, Luís Manuel (Manuel da Fonseca), Hugo Sousa (Ruy Belo), entre outros, alguns meus, que a professora Andrelina incluiu nuns marcadores belíssimos que me foram oferecidos no final.
Também me foi oferecida uma colectânea de poesia, "Poesia V", do Agrupamento de Escolas Gaia Nascente. Como o leitor transversal que me sou, entrei no autocarro da literatura como transporte público no tempo e abri o livro e li os poemas. O primeiro, um poema de uma menina de dez anos chamada Daniela Cardoso, começava assim:

"pintei um sol
 e apareceu um ovo
 desenhei um barco
 e apareceu um arco"

O livro é de 2001. Fui procurá-la e, virtude dos tempos que vivemos, encontrei-a e falei com ela. Já licenciada, não fazia ideia, nem podia, que aquele poema de génio precoce podia tocar tanto um escritor publicado quinze anos depois. Literatura é isto. É isso que lhes digo e comunico. Literatura é isto. Mesmo mortos, eles, os outros, os grandes escritores, mudam-nos a vida, mudam-nos a nós, por dentro. E é um pouco isso que lhes quero levar: uma experiência intensa que não se apague pela vida fora, mesmo sendo um pequeno escritor.

Mesmo sendo obrigado a chamar o "mano" Gonçalo ao palco para lhe perguntar o que achava ele da própria atitude que ia tendo manhã dentro, ele que era naturalmente o melhor e o mais poderoso "dizeur", e tentava afirmar-se na sessão como se estivesse no recreio, não pelo melhor de si. É raro, mas acontece: a maturidade ser destrutiva, em vez de construtiva. E estes jovens homens acabam por entender e perceber e - espero - agradecer, o lado musculado, quando a sessão o exige. O que importa é que ele perceba que eu, os professores e quem lhe dá um lar, se o fazemos, o fazemos por amor.

Curioso o André Silva, a forma como começou quase a ter de se mostrar forte para os "manos", como até recusava dizer um dos poemas por receio do ridículo e depois emergiu como o rapaz valoroso que é. Como os silenciosos colaboradores Joana Caravela (com uma lesão no braço que a impediu de assistir ao início), Ivo Martins, Márcia Reisinho, Luís e os mais activos Cláudia e Hugo. O Hugo estava com uma indisposição e aguentou o que conseguiu. Vê-se que é um rapaz implicado, como a implicação que eu detectei na Samanta. A Cláudia, como eu esperava, continuou activa. Acabei por não ler o texto em que agradecia aos que comunicaram antes, e passo a fazê-lo aqui: 

"uma palavra especial para a Cláudia Santos, Márcia Reisinho e Hugo Sousa. Li-vos a todos e importei-me, mas, como desta vez o plano foi colectivo, não vos trabalhei. Mas li as tuas chamadas do céu, Cláudia, li os teus piqueniques, Márcia Reisinho, li a perspectiva lúcida que tens da tua geração, Hugo Sousa, mas hoje a intervenção foi mais pública, mais geral, os perfis individuais exigem um interesse e uma dedicação muito especiais e uma adesão mais forte de todos. Espero que isso aconteça na próxima visita e espero voltar aqui muitos anos para isso poder acontecer, convosco ou com quem vos suceder."
A educação e a delicadeza, a classe, do João Nuno Ferreira, fizeram-me pensar como é injusto que ele, provavelmente, viva o que eu vivi na primeira classe, no lúgubre (ao tempo) Colégio de Gaia dos padres Leão e Pinto de Sousa, o inferno de não conseguir traduzir para  o mundo o universo interior. Mas tenho a certeza de que isso vai acontecer, que o vais traduzir, João, mais cedo ou mais tarde. Continua com essa paciência. Ficaste-me marcado, profundamente marcado, tu e o João Simão, parecido contigo.

A Diana Batalha foi outro fenómeno, como o André Silva: começou no registo que dela deve conhecer  o mundo, histriónica e assertiva, vistosa na comunicação, e foi-se dobrando sobre ela própria e terminou tão dentro da sessão que impressionava, a atenção, o foco, os olhos. Obrigado, Diana. Especialíssima Diana.

O Rudolfo venezolano foi impressionante na sinceridade. "Gosto de livros, não gosto de escritores". Perguntei-lhe se nem de mim, ele pediu-me para não lhe fazer aquela pergunta e todos nos rimos. São estes momentos que ficam na pele. De alguma forma, pareceu-me um doce impostor, um rebelde no melhor sentido, mas o que ele trouxe ao debate foi muito relevante, porque, realmente, a pessoa de nós, autores, é e será sempre irrelevante, mas, de alguma forma, há uma marca, um estilo, um tempo, um cheiro, uma imagem que comunicamos às gerações contemporâneas e elas às vindouras. Alguma coisa dirão de nós. Eu digo apenas que temos todos a mesma idade no mundo e que somos todos irrelevantes, menos eles, os putos em crescimento, os putos a chegar-se à montra, ao balcão dos pedidos, e, como eu disse ao longo do texto, somos todos Paris, e Paris somos nós, mas não somos Paris por causa da moda do facebook ou dos atentados, somos Paris porque Paris é o mundo e foi feito pelo mundo, não pelos franceses, não apenas pelos franceses. E como Paris tantos outros lugares. Mas Paris, acima de tudo. Que entrou e já não saiu da Escola Secundária de Oliveira do Douro. Mais uma. E lá vou eu com a ressaca de afectos, até a Viviana Ferreira cumprir o seu plano.

PG-M 2016





2016-01-27

Alpendorada, Alpendurada, portanto AlpendOurada

Vê-se na foto, que aliás é uma parte muito pequena das três turmas que me devolveram em atenção, escuta e entendimento a minha dedicação. Com efeito, mais uma vez, a foto ia sendo esquecida. Só nos lembramos no momento dos despojos da sessão. Mas veio a tempo. Verdade que os nossos sorrisos, sendo sinceros, são plásticos, e que ao fim de algumas fotos, como disse uma das meninas, com piada, a cara já doesse.

Mas o que se vê na foto é a luz de AlpendOurada. A luz de fora e a luz de dentro. À centésima escola ainda é bom poder replicar e reiterar a evidência: há sempre coisas novas, há sempre coisas diferentes, e, quando denominamos as sessões por eles, pelas maravilhosas pessoas mais jovens que somos levados a contaminar e influenciar, nada pode correr mal, assim haja tempo, mesmo no meio do barulho, de ver os que querem ser vistos e de descobrir os que não querem, pelo menos para os ouvir. E isto também se aplica às professoras que aparecem, cujo nome, por não me lembrar, vou ser condenado a saber - sei que a da ponta era a de português, a Emília, mas a de Matemática, de cócoras, em pose de futebolista (pena não termos aprofundado a utilidade da Matemática na literatura!), não, nem a do meio, que era uma ternura. A menina do centro, e vocês sabem logo qual é a menina do centro, mesmo sem medir com uma régua, foi também a menina do centro na sessão e, por falarmos de uma pessoa de qualidade superior, sabe também, ela própria, que por já ser excepcional aos dezasseis anos, não é melhor do que os outros, os que não são tanto como ela: porque nós somos demasiado complexos para sermos definidos assim, e é esta, sempre, a mensagem que lhes levo.Uma menina que seja má aluna e pouco culta pode ser o pilar, em casa, de uma mãe doente, de quem trata e com quem consome todas as suas forças, provavelmente faz o mesmo a vizinhas e até apoia no lar da vila. E não será esta tão ou mais valorosa do que a menina do centro? É, mas a menina do centro é fenomenal e chama-se Ana Catarina Alves. Aquilo que ela nos deu de novo não é muito comum: a forma como está atenta às etapas da vida e as vai processando em termos práticos e até filosóficos e intelectuais. A visão da morte. Neste passo, custa-me não ser imenso. Verdade que - e ontem foi-me dado o que peço sempre: tempo -, quando tenho tempo, observo a postura corporal e o olhar de quase todos, para perceber se alguém quer dizer ou mostrar alguma coisa que não disse ou mostrou antes, e não diz ou não mostra por falta de coragem ou timidez, que é normal e até recomendável, por ser um exercício de humildade. Por isso, custa-me a ideia de ter partido e que algum menino ou menina não tenha tido coragem de dizer ou mostrar o que há tanto tempo queria dizer ou mostrar. Mas uma coisa que eles me devolveram, ontem, foi a gratidão, e fizeram-no de forma expressa, com as dedicatórias que deixaram escritas ou com a atitude, com o olhar de agradecimento: disseram, de forma expressa, que o que fiz, escrevi e disse, foi importante para eles. Que se sentiram vistos onde eram menos visíveis. Ontem de manhã não houve fugas nem colegas que, para mostrar coragem e rebeldia, questionaram os que colaboraram comigo. Ontem o meu pedido foi totalmente atendido: todos se consideraram parte daquilo, todos se consideraram alvo dos mimos e dos aforismos e dos princípios, mesmo os que não viram o seu nome mencionado. Por isso é que Ana Catarina serve, por exemplo, a qualquer Patrícia ou Paula ou Milene. Que o Zé Lemos pode ser o Henrique, Nuno ou José Pedro ou Leandro ou Marco. Que Diana pode ser Anabela, ou Margarida pode ser Fátima, que Sara pode ser Ana Isabel, que Samuel pode ser Ricardo. Mas os que vieram para junto de mim, os que o fizeram expressamente, dirão se valeu a pena. A Fatinha na orquestra de Berlim a tocar a primeira nota na sua flauta transversal. A Pereirinha e o elogio da insegurança ou da fragilidade. A tia Lúcia a aterrar de helicóptero no H do São João para o primeiro dia como enfermeira. A Rosário e a aprendizagem da imperfeição. A Inês que canta e quase ninguém sabia. A Ana Lopes, o closet e a espessura e o poder das palavras (e da pessoa). A Fátima Ferreira e a visibilidade e força dos invisíveis. A Inês Bouça e o nosso Prémio Nobel duplo. A Inês Sousa e os dentistas e o cinema e a Kika. A Joana Vieira e a veterinária da Common Wealth. A Bebiana do cantinho e as histórias secretas e poderosas. A Mariana Luís, oh, a discretíssima Mariana Luís e a beleza e a subtileza e o tamanho interior. A Elisabete homónima e as férias de Verão com ele dentro. A Mariana Correira Carneiro e o Einaudi e o Forrest Gump e o Johnny Depp e avó "francesa". A Rita Caetano e o abismo do futuro. O Zé Lemos, o Tino de Fandinhães, a sensibilidade, a ambição política e o sono da avó, que passou a ser a avó de todos nós. Depois disto tudo, claro, devíamos colher os tais despojos da sessão todos juntos. Mas não é assim. Abre-se o Douro e o Tâmega e já não há ninguém. E, mesmo que volte, mesmo que fique, eu já estou entre-rios.

PG-M 2016

PS: à sessão da tarde, dos 7ºs anos, e sendo uma estreia, dedico este Post Scriptum, e é deliberadamente um Post Scriptum. Serviu-me de profunda reflexão e far-me-á retirar lições e afinar o modelo. Não que tenha sido inútil. Retenho o olhar daquela professora loira de que não retive o nome e que tinha um grupo fantástico bem juntinho a ela, que veio e partiu sem que tivéssemos tempo de ser elemento uns dos outros. Lembro-me das meninas que sobreviveram ao barulho dos colegas do 7º e que até levaram mais livros do que as três notáveis turmas da parte da manhã (do 11º). Lembro-me do professor e dos entusiasmadíssimos meninos do 5º ano, que apareceram e ficaram de forma ordeira e me cercaram para autógrafos em cartolinas coloridas que contam emoldurar e pendurar no quarto, imaginem a honra. A minha reflexão não vai no sentido de exlcuir os 7ºs anos das sessões, poque são, tipificadamente, impossíveis de controlar. Mas o que é isto, meus senhores? Chegámos à Madeira? Da minha reflexão resulta que só deve estar quem quer, mesmo que seja pequenino. Que eles se apercebam de como a falta de ordem pode ter consequências. Eu gabo-me de conseguir controlar todas as sessões escolares, e, como disse, esta era a centésima escola. Nunca tal tinha acontecido (o barulho e a desordem, porque a sessão até se fez e nem correu mal de todo). Gosto e dou espaço ao burburinho que se segue a questões  que geram debate entre eles: é positivo. O que me custa é a desordem e o desinteresse que impede os que são ordeiros, interessados e querem mesmo estar ali de desfrutar, que foi, aliás, o que aconteceu no final: ficaram os que queriam e desfrutaram. Defendo que, não por castigo, mas por selecção lógica, o sistema seja oportunidade-abdicação. Ou seja, depois de terem sido preparados pelos professores em aula, de pesquisarem e de tomarem contacto com a literatura, a imagem e o curricculum do autor presente, depois de a sessão ter início e eles peceberem o que estamos ali para lhes dar, se ainda assim não for possível penetrar nas epidermes de alguns, que abidquem, que lhes seja dado espaço para sair. Esses poderão ser arrumadores de carros, se for isso que escolherem - aliás, há muitas profissões relevantes e úteis que, não dispensando a cultura, acabam por se conformar com os que a rejeitam a vida toda. Uma coisa deve ficar claro: porque nunca tinha acontecido, não quer dizer que a culpa seja da Escola. Pareceu-me claro que a Escola é boa, tem mesmo muita qualidade. A culpa é minha, só minha. Não acontecerá de novo. Não nas próximas cem. O acidental e o negativo são parte da experiência. Mas nem sequer foi negativo o resultado, bem pelo contrário, como expressei aí em cima. Além da doce e empenhada professora loira e da sua turma e do fantástico professor do quinto ano e dos seus fantásticos meninos, destaco as meninas resistentes, a Marina Monteiro, Sofia Bouça e Maria Vieira . Uma palavra especial para a Alexandra: estás bem a tempo, gostei de ti: tu pensas que estás nas margens, mas és inteligente, estás bem dentro e contas. Eu vi-te bem. Luta por ti, pequenita. Desculpem se esqueci de alguma. Obrigado a todos. - Ah, e a delegada Paula Chaves, a minha estreia com apoio, foi incansável e inexcedível! Obrigado :)