2015-04-17

Castellana


tienes las líneas tan lúcidas
que en la galería de la calle mayor
siempre te exhibes en matices de

blanco

pero el deseo es un golpe negro

te escribiré con la lengua seca
para que tus nalgas brillen
en saliva esencial

alcanzaré solo un beso tímido
entre tapas,
castellana

y al final,
desde la calle mayor,
la multitud oirá solamente
la perdición

siii     nooo
siii     nooo

que es el léxico universal
del asentimiento de los cuerpos
y de la cesión

de las almas


PG-M 2015
Foto de Nagore Aramaburu, que por acaso é basca. Fonte aqui

2015-04-15

Francoatiradores


Primeira parte: o fenómeno Ana Catarina. Ana Catarina já abateu a tiro dois escritores. Fui um deles, hoje mesmo. Fiquei fã. Nuno Camarneiro chamou-lhe francoatiradora. Confere. Questiona sem pudor, dialoga, mas não tem perguntas porque tem convicções, fortíssimas convicções. Mas vamos por partes.

Segunda parte:
Cremos que as descrições da luz estão todas feitas. Mas eu ainda não descrevi isto:
vejo-os assim. Um olhar, talvez metade de um olhar, e quase toda a cara é luz, não quero saber o que vestem.

Mas vamos por partes. Terceira parte:
Eles pensam que eu vou à escola pelo meu texto, pelo meu livro, mas nós, eu e os meus livros, que são deles, somos apenas os pretextos. É tudo sobre eles. Eu quero que seja sempre tudo sobre eles. Tem de haver uma sedução singular da literatura aos jovens leitores, e creio que a forma de o fazer ainda não foi devidamente pensada. Até a frio poderíamos dizer que eles, sendo leitores agora, são o corpo do leitor informado e criterioso do futuro, ou seja, não vale a pena apressá-los, apenas deixar as sementes, seduzi-los. Eu sei a marca que a mera imagem de Saramago, a dez metros de mim, deixou nos meus vinte anos, na altura em que o mundo nos ensinava a não gostar dele. A outra, em Penafiel, a pouco mais de seis meses da sua morte, foi outra coisa, foi um corolário de qualquer coisa e eu já tinha crescido.

E é como lhes digo: se a obra só pode ser avaliada, devidamente avaliada, muitos anos depois da morte do escritor, apesar da miríade de prémios (quantos prémios nóbeis estão ignotos e sem leitores?), o que estamos nós, escritores, a fazer aqui, agora? A esconder-nos dos leitores? A viver num olimpo de cortiça longe de tudo? A fingir de mortos, decidindo a nossa própria relevância? Não. Não eu. Eu sou apenas corpo e vou até aos corpos que me esperam. Estes, ainda ontem deitados ao mundo, são um olhar, talvez metade de um olhar, e quase toda a cara é luz, não quero saber o que vestem.

E eu tenho uma consciência aguda, quando escrevo sobre os magníficos que se destacam em cada sessão, que são muitos mais os que ficam na sombra, às vezes leitores de uma vida, alguns já com maturidade para decidir que não se querem desiludir e que o autor, para eles, não é uma pessoa física, inteligível. É por isso que hoje eu e um grupo de professoras concluímos que o "pathos", o intenso pathos dos 9ºs anos de escolaridade, acontece porque eles ainda estão no colo dos pais, ainda não erguem barreiras ou distâncias e todo o arrebatamento, todo o fascínio, é permitido. Mas não é hoje, ainda, que  vou escrever sobre essa espantosa experiência de ter passado sete horas numa escola porque os alunos me quiseram lá, como aconteceu em Vilar de Andorinho - embora tenha recentemente publicado no meu facebook a fotografia da Andreia, uma rapariga agarrada ao meu primeiro livro, "A manhã do mundo", enquanto assiste à sessão, e que está nessa franja dos que ficam na sombra e, provavelmente, nunca nos aparecerão à frente, mas serão grandes leitores.

Esta longa introdução serve apenas para disfarçar os magníficos da sessão de hoje, 15 de Abril de 2015, no Olival, e que vou nomear. Mas insisto: voltarei para falar dos que ficaram na sombra, se algum dia comunicarem.

Quarta parte, que volta à primeira:
O fenómeno Ana Catarina.
A Ana Catarina não é apenas uma rapariga que quer provocar desconforto no interlocutor. É profundamente inteligente, está sempre com um sorriso - parcialmente cáustico, parcialmente franco. Não sei se tem boas ou más notas, sei que tem o barro dos grandes. O actual sistema de ensino não permite, propriamente, perceber este tipo de excelência. É burro e burocrático. A Ana Catarina, essa, é uma força da natureza. Questionou todo o seu mainstream social, mas é muito curioso: exaltou, provavelmente sem se aperceber, um filme como o Titanic, que foi o mainstream social da geração anterior. Mas fê-lo com tal conhecimento que me vai obrigar a rever o filme: muito por causa da Kate Winslet. E da Ana Catarina, claro.

Havia uma menina que sabia cantar uma música da Nena. Caramba. E, apesar de eu lhe ter dito que nenhum verdadeiro fã da Nena Kerner gostava do 99 redbaloons - pedi-lhe  pelo menos a versão em alemão -, caramba. É bom, caramba.

O fenómeno Cristiana Dias. Pequenina, doce, e no entanto a fazer-me lembrar tanto o que eu era da idade dela. Eu, que era doce, mas nunca fui pequenino. Atravessada pela paixão da música, clarinete, ficou hoje com duas incumbências suplementares. Um livro e o filme, porque a comparei à Setsuko do Túmulo dos Pirilampos. Perguntei-lhe, no fim, se achava que era discreta, se se diluía na multidão. Disse-me que, se não fosse chamada a intervir, sim, diluía. Eu disse-lhe que não. Que uma pessoa como ela se destacará sempre na multidão. Fico para o segundo acto.

O Pedro fez uma pergunta, foi o único, o corajoso, mas eu obriguei-o a começar assim: "Pedro, tu, que tens um nome fabuloso, nós, que temos um nome fabuloso...". E perguntou sobre a Manhã do Mundo.

A Cristiana Ferreira, ainda que suavemente questionada por aqueles risinhos naturais de colegas, fez-me sentir que o que dela descrevi foi um tiro certeiro. Que ela é mesmo assim, que a adivinhei, mesmo que seja impossível decalcar completamente uma personalidade que se está apenas a projectar. Mas o sorriso dela, no final, era de "closure" (calem-se lá os puristas, não há tradução para o tom original de "closure", é uma bela palavra inglesa).

E a Mariana Moura, e o João Oliveira, e a Inês Peixoto.
E a abertura com a Sara Moreira, sem sono, presente, alerta, fantástica.

E finalmente o Edward Norton. O Edward Norton estava na Diogo de Macedo. Se ele me fizer a gentileza, um dia ainda juntarei foto a provar isso. Entretanto, dá pelo nome de Paulo Tavares e lê muito bem, mesmo apanhado de surpresa. Leu o texto "Abigail, abigail, abigail", de uma sessão anterior na Diogo de Macedo.

Voltarei. Sempre. Pela Luz.


PG-M 2015
Foto de Ana Catarina

2015-04-09

Três da tarde


tenho os dedos sobre a mesa de mogno
e já são três da tarde
e sob os dedos saudade

 
eu não devia estar aqui 


na tua nudez
tenho a boca sobre o vidro  
e atrás do vidro a
pele

 
e eu não devia estar aqui

 
uma lâmina
uma língua
às três da tarde
com o queixo no granito
da igreja
onde só eu
volto invisível 
e às três da tarde

sumo
do resto
das horas
com os dedos sobre a mesa de mogno



PG-M 2015
fonte da foto

Uma da tarde


À uma da tarde vais comer

ou és comido por ela
fincas o braço no balcão,
se fores aldeia,

e comentas o futebol,

fincas a alma no bruá
cinzento do bistrot,
se fores cidade,

e comentas o futebol



PG-M
fonte da foto

2015-04-08

sempre foste a mais bela da rua


Sempre foste a mais bela da rua
mas antes do medo, meu amor,
eu exaltava o teu cabelo
e as minhas mãos nele
agora não tens cabelo e

usas na cabeça um lenço com motivos indistintos

tens chorado ao espelho
preferes que não te toque
achas-te feia e fechas as
portas

já não há pretextos, meu amor,
ainda que os teus olhos tenham
uma tristeza comprida dentro 
e ela escorra nas paredes e
faça ruído na escuridão 

já não há pretextos 
e está tudo igual,
excepto a beleza

que antes tinha detalhe
e o volume dos cabelos 
e o engano da textura
e a ilusão do perfume
e agora é apenas

absoluta



PG-M
fonte da foto

Beat


eles ficaram surdos aos sons pequenos
das coisas grandes e no fim do mundo


dentro dos barcos à deriva nos mares 

os meninos choravam com os fones nos
ouvidos a escutar a gravação do próprio


mar


PG-M 2015
fonte da foto

5 da manhã

 
quando chego à cama pelas cinco

não gosto que estejas virada para norte


deito-me fetal na margem sul
bebo televisão por uma palha
e quando o vasto leite da inconsciência
se entorna pelo quarto
a paz de dentro quer unir-se à paz de fora
e a massa do silêncio da rua chega
ao fundo dos pés que esfregamos
entre os dias
um de nós procura o comando e o fim
deste dia e a distância do outro


persigo com a mão esquerda qualquer forma


tua, abrando
as pálpebras
os lábios não
hei-de deitar-me de costas como um cadáver
de bruços como os vivos pelas praias
sobre o meu lado direito como a mãe
me punha no berço
sobre o meu lado esquerdo quando tu


cravas as unhas na manhã
e digo
tem calma, meu amor, tem calma,
dorme o último troço
da treva


esta noite foi belíssima
mas mentira
era o que faltava
contar num poema
a geografia da noite

que somos nós no esplendor
do que nunca dirão
de nós, portanto


das 5 da manhã em diante

a substância parda e absoluta
do amor



PG-M 2015
fonte da foto

Seis da tarde

 
ela conta os frutos
enche o cesto
faz os doces do outono
faz os golpes
das castanhas
abre o peito
estala a luz
e às seis

(às seis da tarde em ponto)

ama



PG-M 2015
fonte da foto

2015-04-07

7 da tarde

Finge comigo a regressão
ao analógico
toma a mão esquerda
dos teus filhos se
dextros
ou direita se canhotos
cobre-lhe os dedos
com os teus

e escrevam cartas
e escrevam cartas

escrevam cartas
à madonna angelicata
toma-o todos os dias pelas sete
da tarde
e dança 


compra selos nos correios e envelopes
na venda
não lhe expliques Petrarca
diz só finge
comigo a regressão
enquadra-lhe o gesto na precisão 
das entrefaixas e quando
a agulha romper o vinil
 

mostra-lhe a primeira de todas
as cartas de amor



PG-M 2015
fonte da foto

2015-03-30

Rocha

Rocha. Pedra. Pedro.
Pedro. Sou eu que escrevo.
Rocha. És tu que estás escrito.

Vamos a isto?

"Veja só o lusco-fusco, eu reparo,
 é o fim do mundo, e o que sei
 é que não sinto mais medo."

Não é Herberto, é Silva, é o refrão da música "2012", era o que tu ouvias perto do fim, com esperança, como se estivesses no colo dela.

Eu tenho dentro de mim o colo da mãe, no qual viveste.
Eu tenho dentro de mim o colo da mana, no qual viveste
Eu tenho dentro de mim o colo da Rute, no qual viveste.

Ela estava sentada no sofá, tu deitavas-te no colo, estava morno, e pensavas, fechando os olhos, de sorriso leve, vejam só o lusco-fusco, eu reparo, é o fim do mundo e eu sei

é que não sinto mais medo.

Foi assim que morreste, sereno, no colo de um dos teus amores, a tua irmã Ana. Quinta, 26 de Março de 2015, mesmo a começar o dia. Na véspera tinhas animado as tropas. "Pessoal, sinto-me bem, quero ver ânimo nesta casa!". A Rute tinha-te enviado uma mensagem de amor pouco antes da uma da manhã, já 26. Foi a primeira que leste quando acordaste,  escreveste assim:

6:04h: "Que mulher, meu deus, que mulher."

E enviaste.

Assim, sem pontos de exclamação, o amor puro.

A Rute recebeu.

Levantaste-te, foste à casa de banho, sentiste uma ligeira falta de ar e regressaste à sala. A tua irmã sentou-se no sofá, tu deitaste a cabeça no colo dela, está morno, pensaste, fechando os olhos, de sorriso leve, vejam só o lusco-fusco, reparaste, é o fim do mundo e tu sabias

que não sentias mais medo.

Penso no colo do teu pai de outra forma, a imagem que me passa como se fosse minha, que eu queria que fosse minha, do dia em que te visitei em Viana, na casa em que foste menino, na casa em que te recolheste doente, na casa em que morreste, o pai a passar da sala para a cozinha e a apertar-te o ombro porque não quer perde-te nem um minuto, a vida em frente, o pai a passar da cozinha para a sala e a apertar-te o ombro porque também não quer perder-te nesse minuto, a vida em frente.

Na capela, a velar-te, estava com a mesma força e o mesmo silêncio e a mesma ternura e foi por isso que lhe dei um beijo, como se estivesse a beijar o meu próprio pai.

A nossa amizade tinha estes silêncios, muitos silêncios e nós sabíamos que isso era bom, e nesse dia da visita teve ainda mais. Tu sabias que eu estava lá porque estavas doente, agora posso dizê-lo: muito doente. E se nós te fizéssemos a vontade e não falássemos desse detalhe, se soubéssemos esperar, no meio das piadas acabavas por encaixar a  banalidade da doença como mais um item da lista de compras. Fora da lista estava a Rute. Nesse dia falaste-me da Rute e disseste uma coisa sem eu te ter perguntado antes:

Podes escrever tudo.

A Rute era íntima, não costumavas falar dela, ainda que eu tivesse estado no princípio.

Tiveste de morrer para eu perceber o que me querias dizer, e que na altura me pareceu uma simpatia, uma confiança, porque nem eu, nem tu, nem ninguém, concebia a tua morte.
A Rute teve de dizer a mesma frase, a mesmíssima frase, sem saber que tu ma tinhas dito da mesma forma,

Podes escrever tudo. 

para eu perceber que a minha repugância em escrever uma linha, uma só linha que fosse, sobre ti, à morte, era uma mistura de egoísmo e culpa que não te honrava. O coro de despedida de tantos amigos foi tão bonito. Mas, nas máquinas debulhadoras e aplanadoras de mundo, ninguém falou verdadeiramente de ti. Nos jornais, tirando o Sérgio, que sabia mais sobre ti do que a agência Lusa e todos os que citaram o comunicado da tua editora e pouco mais, não tiveste propriamente um epitáfio, e nas televisões foste essencialmente uma nota no rodapé vermelho que despeja as "outras" notícias, um rodapé como os dos índices bolsistas, algumas redacções ponderaram se deviam retirar um minuto aos mil que dedicaram a uma lista de quatro pessoas que se destinava a um algoritmo de censura nas repartições fiscais para falar do primeiro escritor português a entrar no top 10 do new york times ou na tua visita ao talk show do Jô Soares, o cartão visita que criaste com habilidade e mérito e que terias gostado de ver, mas as redacções decidiram em sentido contrário: Rocha não tem dignidade de notícia de pivô ou reportagem. Mais um minuto de lista vip, mais um minuto da investigação do co-piloto da germanwings e um especial do Herberto que o Herberto não quis.

Na minha cabeça passaram mil páginas sobre ti.
Eu sabia que hoje de manhã tinha de me sentar com urgência, nem uma linha mais sem primeiro te escrever tudo, e no entanto hoje o tempo trouxe-me paz, pensei desistir e ficar outra vez em silêncio, o sol passava como dedos entre os carros sobre a ponte da arrábida e as minhas mãos agora tremem sobre o teclado. Nunca me aconteceu isto.

Deixa-me começar por te dizer em que medida somos amigos.
Não é por termos ido juntos ao Brasil. E nem sequer somos companheiros de editora. Não é por termos sido companheiros de protesto onde muitos nos conheceram juntos: o protesto contra a ignomínia do cancelamento da Feira do Livro da Apel no Porto, essa poesia da primeira semana onde tudo foi feito de peito aberto e quase sem imprensa, onde me ensinaste que havia mundo para lá das recensões e dos pasquins "oficiais", onde me mostraste como é que os leitores se expõem e te sentem corpo a corpo.
Já que estamos vivos ou acabamos de morrer, mesmo agora, sejamos contemporâneos dos nosso contemporâneos.
Todos têm o direito de te celebrar, celebrando-se a si próprios. Não és mais especial do que quem fica, nem nunca o quiseste ser, por ter ido. Mas, ao contrário do Herberto, o nosso Herberto, não o do coro, mas o do tremoço e das minis na esplanada da Arcádia, a tua obra és tu. Menor ou maior, não importa. És tu.

Temos umas pontas por atar: devias ter tirado a fotografia colectiva dentro da loja Havaianas, no Brasil, mesmo amuado. Olha-me este. Devias ter ficado mais um pouco para ir comigo a Fornos de Algodres dar um abraço à Isabel, que também sabe destas ausências a que agora nos obrigas, e àqueles heróis todos, mas não te preocupes: eu levo-te, quando, finalmente, for.

A medida da nossa amizade, com efeito, é segredo.
Mas ao estipulá-la aqui é importante escrever que não há nada de especial nela, e é isso que ela tem de bom. Não há uma hierarquia na amizade ou no amor - se não são amizade ou amor, são outra coisa, e muitas vezes digna, seja respeito ou simpatia ou até antipatia -, e é importante explicar isto aos tantos que estranham a dor que sentem na tua perda, que perguntam a si próprios porque é que lhes dói tanto, que até sentem que não têm direito a estar tão tristes, que é ridículo não pensarem noutras coisas. E eu faço questão de aqui incluir os amigos de uma só hora ou os amigos que deixaram de o ser, por culpa deles ou até por culpa tua. Tu eras um tipo forte, mas, como todos os homens, primordialmente frágil. Rias-te quando eu te quebrava ao meio com estratégias de bondade. Uma delas era imaginar sempre os fdps no berço, filhos de alguém, pais de alguém. Como nós próprios, quando nos portamos mal, eu e tu. As mais das vezes o mal é um mal pequeno. Outra coisa que nos aproximou foram as nossas diferenças: no primeiro minuto em que nos sentámos olhos nos olhos, o primeiro minuto da nossa amizade, eu repeti a pergunta que te tinha feito anos atrás: "onde está o raio dos documentos secretos do Último Papa?"; Tu respondeste com um sorriso e disseste "Dá-me o benefício da dúvida." No olhar eu li o resto. E disse que dava. A partir daí, sabes a condição que punha sempre: eu não troco favores, se te fizer alguma coisa é de coração, se o fizeres por mim não te ficarei a dever nada. A partir desse dia, pensei no tamanho que tinhas, como conseguiste dar uma lição de marketing e estragégia de vendas de livros a todas as editoras portuguesas, como chegaste quase sozinho ao tal top do NY Times sem vender a alma, quando muitos a teriam vendido para o mesmo efeito. Fiquei eu e quem era minimamente humilde e inteligente - lembro-me do espanto do Joel, que é minimamente inteligente - a observar-te a trabalhar, como te comportavas dentro das livrarias perante os leitores e os livreiros, como te comportavas fora das livrarias perante os leitores, os livreiros e os amigos. A tua resiliência num tempo em que ninguém, no chamado "meio literário" queria realmente saber de ti.

Mas nada disso é a medida da nossa amizade, apenas do respeito, e já volto ao Herberto, que nós lanchávamos e tratávamos de dessacralizar, gostávamos da bicicleta nos poemas quase perfeitos,  e mesmo nos perfeitos, dele, e que até esteve na nossa ideia quando me falaste a primeira vez de uma Academia Literária,  porque sabíamos que ele nunca aceitaria integrar uma, a mesma de que me falaste na sequência da mobização de escritores de corpo e alma no protesto do Porto, não dos idiotas que só se respeitam a si próprios e pensam que os seus únicos pares estão mortos ou muito velhos, e me disseste assim: "O primeiro nome é o Herberto, mas esse nunca aceitará." E, embora fosse óbvio, para ti e para mim, o meu respeito por ti aumentou nesse dia, quando o disseste com palavras: "Obviamente estamos excluídos de uma tal Academia, estaremos sempre, temos muito que trabalhar e nunca o poderemos fazer com o escopo de entrar numa elite". E ainda disseste, gentil: "Quer dizer, eu estou." E eras um paciente e exigente leitor dos manuscritos dos teus pares e de alguns leitores que queriam ser pares. Tinhas essa qualidade de não magoar, de dar coragem a todos, algo que eu e tantos não possuem. Aceitavas todos os convites para apresentar livros, bons ou maus. Isso pode não ser uma virtude literária - ainda discutimos como eu seria "Whiplash" e tu não, nunca, pode não ser uma virtude literária, mas é, certamente, uma virtude humana.

Lembro-me de como tomaste conta da minha amiga Pilar num São João, quando eu tive de rumar a outras paragens, como a integraste e fizeste amiga.

Foste um bom aluno e tinhas sempre notas altas nas redacções, mas nada disso é a medida da nossa amizade: é esse segredo que passo a revelar:

Conheceste-a num Março
Foi também um Março que agora te misturou na eternidade, no começo desta primavera, tinhas acabado de festejar com ela mais um aniversário.
Sublevaste-te numa entrevista que ela te fez na Rádio Nova. Causa: o teu olhar doce, adjectivo que ela mesma me ensinou e que a estroinice heterossexual nunca me deixou apreciar devidamente: tiveste de os fechar para eu andar, avidamente, à procura dos olhos doces em todas as nossas fotografias.
Pouco depois conheceu-me ela. Houve um princípio de amizade.
Pouco depois conheceste-me tu - cara a cara, porque já tínhamos trocado muitas linhas por outros meios. Houve um sólido princípio de amizade.
Eu andava perdido a pontapear intelectualmente tudo o que via à frente, por causa do cancelamento da feira da Apel no Porto, e tu convidas-me a participar noutra sublevação, também romântica, dos escritores contra a falta de jeito do município e da Apel: havíamos de afixar poemas e prosas dos nossos pares de todo o país nas árvores da praça da liberdade.
Ficou selado o nosso compromisso de honra, mas eu pedi-te para não aparecer na imprensa, tarefa que achei mais adequada a ti, ao Miguel Miranda e ao Manuel Jorge Marmelo.
Então fiz-me substituir por ti numa tentativa de mediar os últimos esforços com contactos que a Rute tinha na autarquia. E lá foste tu, em vez de mim, falar com ela.
Nesse dia, posso eu jurar, apareceu claro para ambos que seria para sempre.
Desde esse momento, eu fui um navio. Fui um fiel de balança mais ou menos em segredo. Lembro-me do antes e do depois. De pensar, no antes: como é que um escritor best-seller como tu, com todo o charme que isso traz, não me fala de amores definitivos? E de dizer, no depois: é ela, Luís, não procures mais. E o segredo, o tronco desta amizade, foi receber-te frágil, coisa que não és, a cada declive do terreno, por ela, por ambos, pelas circunstâncias. Ser a mim que me ligavas ou escrevias quando estavas em sobressalto num mapa que era novo para ti - o amor que está há mil anos dentro de nós. Estavas há mil anos dentro dela. Ela estava há mil anos dentro de ti. É disso que me orgulho, mais nada. Agora estou a escrever-te a última carta que te escreverei duas mesas atrás do lugar onde nunca mais houve desespero, só amor, e tu mo disseste.

E depois foste olímpico. Querias afastar todos os que pudessem sofrer e a quem fosse mais difícil esquecer, depois de partires. Mas ela combateu-te e ficou, então serenamente, dando-te o espaço de regresso. E o mais íntimo que está dentro da frase "Podes escrever tudo" talvez seja o fruto do vosso amor, que foi planeado com ardor e sem desventura, mas não chegou a ser feito. Posso dizer-te que o plano encerra a totalidade do filho que desejaste, que ambos desejaram, e não diminui o teu sorriso à morte.

À Rute colavas um texto meu, de que gostavas muito, sobre a explicação das mulheres que apagam as outras e a história do gordo e do pequenito (o pequenito podias ser tu), e aquele vestido preto que lhe ficava perfeito:

"Quando ela trazia o vestido preto e as pernas dela por trás eram tão perfeitas que eu era assombrado sempre pela mesma imagem antes de me aproximar e lhe dizer olá, eu de joelhos abraçado à cintura fina dela a chorar de raiva com as mãos sobre um joelhinho e ela, vá lá, só um beijinho no esquerdo, mas tira a mão, tá?, e eu a aproximar-me a morder os lábios e a dizer olá, e ela

- Estás tão vermelho, Johnny.

e eu três vezes, e as três vezes a gaguejar, é o calor, Rita, é o calor, é o  calor.

- Calor em Dezembro?

- É o ar condicionado, Rita, o ar condicionado, o ar condicionado.

Ela torcia os lábios, eu mordia os meus e continuava o serviço público que ela nunca me agradecia.

Amparar-lhe a solidão."

Está tudo bem. - dizias tu sempre
Está tudo bem. Está sempre tudo bem, repetiu a Ana, tua irmã, porque sabe que está mesmo, sabe que resolveste a vida toda com a maior leveza, ainda que, como diz o Eric, nunca tenhas aprimorado a arte da dança e só soubesses mexer os braços, porque os pés ficavam fixos como os de um toureiro. Disse o Eric.

A tua arte, a tua pessoa, a tua escrita, está neste parágrafo que escreveste no regresso do Brasil .

"Há uma personagem que sobressai na aventura brasileira: o seu nome é Serápio. Inventado pelos seis na manhã do primeiro dia, tornou-se omnipresente em todas as conversas. A sua omnipotência demonstrava-se através de palavras curtas em frases longas e toques no ombro a que se seguia a evocação dos nossos nomes próprios e uma pausa de alguns segundos como se não se lembrasse por que nos tocara. O Serápio não existe, a não ser nas mentes conturbadas de seis escritores, mas foi o nosso companheiro de viagem, sempre leal, sem nunca faltar, até à nossa extenuação. Um grande abraço, Serápio. Onde quer que estejas, deixa-te estar."

E, ao contrário do segredo da nossa amizade, o segredo do Serápio não será revelado já por nenhum de nós, disso estou certo, por mais que tenha informado gargalhadas atrás de gargalhadas. Isso também é respeito.

Se o Brasil não é condição da amizade, é o mito perfeito da saudade. A ti devo o convite e as pessoas que me ficarão na vida para sempre depois dessa semana. E a ironia de um encontro perfeito de escritores, como eu o imaginava, sem ninguém o ter planeado. Nenhum filisteu, como diz o Guerreiro, poderia planear coisa tão perfeita, nem as lâminas que escolhem nomes para não integrarem festivais literários, um dos males dos nossos dias, perpetrado por muita gente de bem que não vê, ou não quer ver, mais. E tu querias voltar por causa disto:

Na primeira manhã estava sol, um sol jubiloso, mas frio como na pátria europeia, nós descemos a rua do hotel, virámos à direita, tínhamos as termas à esquerda e uma loja de tudo à direita, virámos à esquerda no Itaú e na próxima esquina era o nosso ponto, onde bebíamos mau café com um copito de água das pedras ao lado e aí começaram os dias felizes, que passavam pelas sonoras gargalhadas em todas as ruas mineiras, pelos rodízios no Bepi, pelas conversas materiais, um tema por dia, tudo espontâneo, pela forma de contrariar a surpreendente timidez dos mineiros dançando, dançando nós, nós com elas, nós com eles, pelo wifi no Palace de Poços, muito por causa dos nossos amores.

Por isso querias voltar. Enganámos o tempo, fomos tão felizes, tão felizes, que não seria pecado enganares outra vez o tempo e seres tão feliz, tão feliz.

Quero voltar ao Brasil, doutora.

Quando escreveste "Um país encantado", parte da elite reparou em ti. Eu reparei, e tinha a mania, olha que tinha mesmo a mania. Tu não tinhas a mania, tinhas na cabeça as melhores vozes de Saramago e querias o teu próprio papel. Depois chamaste-lhe "Virgem", mas está aí, não preciso de ser eu a dizer que, querendo, sabias escrever e tinhas a tua própria voz, que, humildemente, ias procurando e testando à vista de todos, em lugares como o facebook.
Mudaste de estratégia de forma hábil e as elites encaixaram-te noutro lugar, numa margem qualquer. Ninguém te chamava, ninguém queria saber de ti, vendias demasiado. Já o que se passou nos últimos tempos, com o trabalho e a amizade do Paulo - posso dizer, à vista da paisagem, coragem (que, infelizmente, rima) - , repôs justiça da tua relevância neste pequeno país (no melhor e no pior dos sentidos). O que eu não sabia, mas depois observei, foi que vinhas construindo uma casa, amealhavas para o futuro. O teu editor americano disse-te que, depois de mais dois livros vaticanistas, te libertava. Estavas no penúltimo, a "Resignação", e muitas vezes me falaste dessa liberdade e da outra literatura, da tua voz, que querias retomar e oferecer a essa casa de leitores e livreiros que vinhas construindo. Podias escrever sobre tudo, e sabias fazê-lo bem. Não recusarias os prémios, como Herberto, mas também não os aceitarias como Bernhard. Sabias perdoar, como aconteceu nos últimos anos perante tantos que te começaram a aceitar depois de te terem apoucado ou ignorado. E que também te perdoaram, se foi o caso, porque tu também sabias pedir perdão, ainda que possas não os ter pedido ou concedido todos, como os teus personagens do Vaticano e como qualquer homem.

No Brasil, quando nos sentávamos, tínhamos mais do que aquilo a que alguma vez as elites poderão aspirar, com as suas certezas, as suas margens, as suas desconfianças: dois best-sellers, um long-seller, um worst-seller e o sobrinho do Pessoa. Lembras-te de como nos fomos espantando com o Miguel Roza, aquela conferência notável dele no Teatro da Urca, quando explicou que aquela passagem do Tabacaria

"Come chocolates, pequena, come chocolates"

era uma privada do tio Fernando para ele e para a irmã, ainda vivos. 
E depois aquelas meninas brasileiras, valorosas, vindo para autógrafos de todos nós, a Júlia, a Carol (a Sílvia Plath) e a Lívia (a atriz sem cê), a afrontarem o tio Fernando no jardim, sem planejamento (como se diz na pátria americana),  pedindo para ler os textos de Carol com sotaque europeu e atrevendo uma tabacaria de coração, sem ensaio, ali mesmo, filmada de telemóvel.
O sobrinho, o nosso Miguel, marejou no avião, ao ver os quase nove minutos da Tabacaria da Carol e da Lívia (o olhar da Lívia não se esquece, nunca olharam para uma Tabacaria tão bem).

E ainda falam de mitos e mitómanos. Perante os nossos olhos, Pessoa era comestível, tal como Herberto com minis e tremoços na esplanada da Arcádia, no Porto, na mesma praça onde nos conhecemos, onde protestámos e onde eu andei, há quarenta anos, de mão dada com o meu avô, antes de subir à loja de tabaco (come chocolates!) que ele tinha na Rua Chã e depois de ter nascido na travessa Cimo de Vila.

Tu sabias que nada na literatura é absoluto e tinhas consciência do teu lugar, que é e será sempre na estante - entre o Q e o S.


No futuro, vou eu ensinar, usando-te, que a literatura tem uma ética, e que a ética, em certos momentos da contemporaneidade, quase todos, transcende a estética. Tu atendias a todos, hoje. Ainda atendes. Já aos estetas, esses, mesmo sem o domínio do tempo, falta-lhes isso, tempo, para nós, para os livreiros que amaste e te amaram, para os leitores que amaste e te amaram. Amam. O tempo que só agora te faltou. Mas, enquanto nós, impuros, amigos, estivermos sobre a terra, vamos contar a verdade do menino que todos soube transcender e abraçar.

O último mês passaste-o entre a casa dos pais, onde convalesceste,  e hospitais.

Excepto a ida a Lisboa. Logo que pudeste e te deixaram. Doutora, tenho de fazer isto. Foste gravar o Contentor 13, que ainda há-de passar, com a arte e a subtileza ainda invisível da Marlene Babo.

Foste muito feliz nesse dia. Porque voltaste a falar de livros e não da doença. O jantar em casa do Francisco José viegas, com o teu agente, o Paulo Ferreira. Enorme amigo. As tuas gargalhadas.

O prazer a jantar. A paz.

O Zambujo a tocar no rádio.

A viagem de regresso.

A pizza que a antecedeu.

Que tu adoraste.

Diavola.

A viagem.

A mão pousada na perna da Rute.

O chegar a Matosinhos

A gargalhada que soltaste quando, na A1, viste o outdoor do nosso FCP, que diz simplesmente:

Chegámos

Um beijo de despedida.
Entraste no carro do Nuno, teu irmão, para seguir para Viana.

Há dias escreveste-me com planos para fazer uma maluqueira na próxima Feira do Livro de Lisboa. Um novo vídeo do Happy, melhorado e aumentado. Estavas tão entusiasmado e concreto que cancelei a minha ida a Viana, onde ia, uma vez mais, ler-te no olhar como estavas, sem perguntar. Fizeste-me, pela primeira vez desde Dezembro, pensar a seis meses. Andava a pensar ao dia. Na quinta-feira liguei-te por volta das 10h. Queria ouvir-te os planos concretos. Atendeu-me a tua irmã Ana. Calei-me, não a cumprimentei, o meu maior medo estava a cumprir-se e eu só pedi:

"Não digas"

Hoje choro quando ouço o Happy.
Sorri e ri centenas de vezes, porque ali está o bem, não o neo-cliché-universal-happy-2014, ali está a bondade que todos percebermos ser o nosso desígnio.
Nós não olhamos para o outro lado.
Nós damo-nos ao trabalho de deixar "likes" aos nossos amigos e leitores.
Nós respondemos às mensagens de quem nos estima, com ou sem corpo.
Hei-de rir outra vez. Está para breve, prometo.

É por isso que, agora, sem o teu corpo e para todo o sempre, é possível amar e procurar, ainda, o olhar doce.

Só acho que devias ter usado barba mais tempo. Ficava-te mesmo bem. Como os círios que te guardam. Os círios que o Ferreira Fernandes ainda ontem lembrou como escritos pelo Nelson Rodrigues: haverá sempre um círio a guardar o pobre atropelado, porque há sempre uma piedosa mulher que acende uma vela.

Quero acabar com Herberto, se não te importas, e o que está tão bem, nele e em ti, e nós sabíamos, e dizíamos, que eram dois extremos do mesmo diâmetro, que é isso que significa diametralmente oposto, pontas da mesma linha, acolhida sem cânones ou certezas, está bem ser eremita e está bem ser social, está bem estar no meio, está bem ser erudito e está bem ser popular, está bem estar no meio, está bem ser lírico e está bem ser prático, está bem não sair ou ir todas as semanas a uma escola e estar no meio dos miúdos e dizer-lhes para ler o Rocha (como eu gostava que vocês o lessem) ou o Herberto, mas ler, ler é a libertação do horizonte limitado da própria escotilha da câmara esconsa da casa das máquinas onde o barulho é infernal e não se vê nada lá para fora.

Estar bem não é estar bem com deus e com o diabo. Estar bem é estar bem.
Diavola é pizza.

Ouvi dizer que Herberto é nocturno, mas é aí que a minha ignorância vence: mesmo que fale de noite e se situe dentro da carne da noite, o verso de Herberto é de dia.
Como tu, que és, flagrantemente, diurno.

E o estilo, a história do velho ou do novo, não deifiques o novo, não deifiques o velho, nega as correntes, as marés, sê verdadeiro dentro da frase e dentro da voz e dentro do corpo - ou depois do corpo, quando passares a existir assim. A Ana Leonardo lembrou, antes de morreres, citando Herberto, que "aquele homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas." E diz a Ana Leonardo, como o poeta brasileiro Mário Quintana: Que se celebrem vasos de orquídeas para sempre.

No sofá do teu adeus, quando a primeira onda da morte de Herberto se recolhia no mar, devias ter uma manta, como o Herberto nas fotografias do Alfredo Cunha. E tinhas, eu sei que tinhas. O aconchego, a felicidade.
Nenhum "Eli lemá Sabactani". Nós soubemos dizer-te que a nossa voz te procura. E dentro de ti era o sol. Tu nunca o escondeste.
Barba. Devias ter usado barba mais tempo. Ficava-te mesmo bem.
Como a magnólia que amanhã de deixarei no cemitério.
E como os círios.

A tua gargalhada em falsete, sonora, comprida, é fácil de ouvir.

É só pensar nela e aparece.

Olha.

Olha outra vez.

E outra.

Ahahahahahahahaahah



PG-M 2015



Referências:

Sobre a doença, aqui
Sobre o Brasil, aqui
O protesto, aqui e aqui

2015-03-25

Loren



Sofia tu
és todas as coisas 
a poesia o beijo a
inclinação
um jogo uma fuga
o espaço entre os
bosques o tronco
o passante
o cheiro ou o vento

e desces alísia

a veia pedonal
os rios principais  
um quadril sideral
o tempero preciso

dos imortais


PG-M 2015

2015-03-14

extinção

 a minha lâmina sobre a tua
lei, a fúria, a saliva, a dor
dos nossos pais
sobre montanhas
a chuva e a terra entre


as bocas


mente-me os rios todos
os mares e os séculos
curtos dos primatas
a gadanha separou
os corações
sobre as fragas do norte
e as baías e enseadas
a vida da morte


sou o último gigante


espesso como lama
selvagem como
primeiro
no meu peito vazio a
imortalidade
da oração
 

dos homens que houve
sobre a terra



PG-M 2015
fonte da foto

IWFYH Facebook

Mark pensa de qual,
entre mil silêncios possíveis,
Priscilla se serve neste momento.
Convém precisar:
este é um diálogo moderno.
No tempo em que tudo é rápido, dialogar por escrito, ler e ficar a pensar,

é virtuoso.


PG-M 2015
fonte da foto

2015-02-25

O doloroso sorriso de Matilde

Como era doloroso o sorriso de Matilde. Estávamos no auditório do Colégio da Bonança, em Gaia, e eu explicava ao Bruno a sobre-humanidade do amor. Havia um sorriso a pontuar as minhas intervenções que se sobrepunha a tudo o resto - um sorriso que abria o riso em momentos diferentes das aberturas do resto da sala. Depois falei ao Bruno do amor paternal e da forma como magoa, como transcende as forças e é assombrado pelo medo da perda. Como é doloroso o sorriso de Matilde. Há nela uma transparência, uma luz, um peso específico que é peso nenhum. Leveza. Fomos ainda às paixões, ao banal como segredo de uma certa felicidade, aos romances, à minha actividade de arrumador de carros na Praça dos Poveiros. Como era doloroso o sorriso de Matilde. E tudo começara na implicação da assistência. O João espirrou e as amigas riram-se. Pedi-lhe para descer da plateia até à mesa. Sentou-se ao meu lado. Ele garante que não, mas sempre achei que o espirro do João era ficção. O João tem olhos claros e francos e veio a jogo. Leu o primeiro parágrafo da intervenção, que já anunciava mais ficções, as supergémeas Patrícia e Catarina e o Pedro, filho de uma Estrela. E Matilde rutilante, sobre tudo, sobre todos.
Eu tinha planeado uma conspiração.
Os alunos todos no centro, como heróis da história, eu na plateia. Eles seriam contos, eu leitor. Queria ter inventado, mas não inventei, duas colegas para eles. Tinham de ser gémeas. Punha-as em turmas diferentes.
Ou então inventava um Pedro como eu,
mas filho de uma Estrela. Impossível. As gémeas, por exemplo, seriam as novas supermulheres, uma conduzida pelo olhar, outra pelo sorriso. Uma seria uma espécie de sancho pança da tia Agatha Christie. Teria o nome de Katniss Marques. E salvaria um tal de Roger Ackroyd. A outra seria uma feiticeira em cidades de papel. Ambas augustas, como o seu herói.
E mais uma coisita: a ajudante de uma delas tinha de se chamar irmã Lurdinhas.
A outra inventaria para si um clube azul e branco para reinar sobre o mundo.
Por fim, o Pedro teria uma Estrela de carne e osso.
Mas eles não existem.
Elas e ele tinham todos de existir para eu escrever a partir dos respectivos corpos. 

Como era doloroso, doloroso, doloroso, o sorriso de Matilde.

A professora Luísa estava de castigo. Não cumprira as regras militares mínimas para que a conspiração funcionasse. No Colégio dos Carvalhos, havia um professor que nos punha de joelhos no estrado, de costas para a turma, com as mãos debaixo dos joelhos. Dispensámos a professora das mãos e dos joelhos. Sentou-se entre os alunos, debateu comigo a gramática estruturalista, o complemento oblíquo. Como eu desejo a perversão deste ensino e a inversão desta pirâmide. Comecemos pelos livros, só os livros, os bons livros, contaminemos estes nossos parceiros de mundo com os melhores livros.

Como era doloroso, Matilde, o teu sorriso - pelas mais belas razões, como te vou explicar.

A Mariana apresentou-me e contou-me. Contou-me bem. Não por dentro, como Abigail, mas fez-me a casa de escrita pelos anos todos. Deixou que eu contasse o meu Torga. E os meus filhos. A Mariana tinha uma responsabidade. Mas quando for por ti, Mariana, só por ti, como vai ser a tua literatura, a tal que entra pelas veias e sai pelas teclas? Fala-me disso. Não demores, não demores, porque eu estou quase a explicar as boas dores.

Depois os Ruis, o filho do João Paulo (desculpa não te tratar pelo nome, mas há um arrepio do tempo inexorável quando, em vez do teu amigo, encontras o filho com a idade que te lembras de ter quando o pai fumava contigo nos intervalos), e um rapaz de que não me lembro o nome, tinha óculos e estava presente no fim. Dinis, és tu? Não  me lembro do nome, mas não me esqueço dele. Também não me lembro do nome das professoras de História, Filosofia e Economia, mas não me esqueço delas. Vou descrevê-las: uma tinha cabelo bordô, outra azul marinho, outra laranja - creio que ainda fui apresentado a uma azul celeste, à saída. Devia haver índigos e vermelhas, verdes e e lilases, pelos corredores, não sei, não sei. Todos, mesmo sem nome, têm uma refracção de luz própria e estão aqui.

Mas devo a explicação à Matilde.

Tinha-me esquecido apenas do Daniel Defoe, o do Robinson Crusoe, que escreveu a mais estranha teoria económica, mas, pensando alto, já estávamos no fim e no fim das escolas fico sempre em carne viva. Talvez não sobrevivesse todos os dias perante esta nitidez. O coração explode. Sai-se fragilizado dos circuitos essenciais da condição humana: todas as escolas têm esta substância. E, quando ela nos transcende, é duro.

Tão duro como o sorriso de Matilde.

No fim, a Inês passou ao largo sem assinaturas, sem palavras, só a empatia vista do lado dela, a representar todas as empatias que se perdem como velas a apagar, primeiro no espaço, depois no tempo, e o combate de saber delas, empatias, simpatias, e as recuperar a todo o custo, porque a carência urbana é sempre de afecto, não de alimento, ou de afecto como alimento.

As supergémeas estavam como se já me conhecessem há muito - há um novo elemento na família. É bom que falte o ar no fim das sessões das escolas, que nos sintamos todos no corpo uns dos outros. Como a Matilde, que me comoveu as horas todas. Há uma altura em que pergunto ao João, o meu assistente, como era possivel aquele sorriso, aquele riso, aquele espanto. No fim, a Matilde responde com um abraço, encaixa-se no meu torso e deixa-se ficar.

Doce, nívea, límpida, diáfana.

Podia ter ficado a tarde inteira.
Ali, debaixo de mim, dos meus dois metros por dois, o abraço de Matilde sente-se e não se sente, porque não há uma clivagem física, uma estranheza, é como se ela já fizesse parte de nós, é uma espécie de fé.

O sorriso de Matilde dói como o sorriso de um filho para um pai na cidade dos homens:

o amor é sobre-urbano
o amor é sobre-humano

O sorriso de Matilde dói porque não tem fim - e nós temos.
O sorriso de Matilde dói por causa da nossa imperfeição.
O sorriso de Matilde, que lhe encontra o rosto todo, que lhe luciluz nos olhos até deflagrar no mundo,

é perfeito. 


PG-M 2015
foto da Matilde com publicação devidamente autorizada