2017-02-19

Natalie crying blood

 Coisa estranha, esta da arte. Se nos propomos falar de uma obra que nos é externa, como criadores, mas cujo processo compreendemos visceralmente, por termos tentado ou feito algo de parecido, há algo que se perde no processo, por parecer que falamos do outro tentando falar de nós.
Não.
Gostava que percebessem que, quando digo que entendo o processo criativo de "Jackie", de Pablo Larraín, e da própria Natalie Portman, por ter passado por algo muito parecido durante largos anos, ou seja, por ter trabalhado durante muito tempo uma mulher como arte, como este cineasta ou um escultor ou um pinto ou outro escritor, estejam elas vivas ou mortas - como está Jackie - estou apenas a dizer alto que não estou sozinho. 

Ouvi, à saída do cinema - e depois cá fora - uma só discussão em torno de Jackie:
uns pensam que Natalie Portman conseguiu a imitação perfeita, outros pensam que não.
Creio que não é isso que se pretende. "Jackie" é muito mais do que isso.
É a devolução do tempo que não vivemos ou esquecemos ou observámos de longe.
Pretende-se talvez o retrato perfeito, por dentro por fora, e aí talvez nenhum de nós esteja em condições de dizer se o filme chega lá, mas dá, pelo menos, essa sensação, e dá-a de uma forma contundente, por vezes avassaladora. O filme e a própria Natalie, como se chorasse sangue.
Esta Jackie é aparentemente frágil: essa aparente fragilidade é apenas dúvida. Dúvida cartesiana.
É, por isso, força e inteligência. Profunda inteligência. Filosofia. Poder.

E, se chego ao quarto parágrafo sem dizer o que realmente importa, já falhei.
É por isso que não vou escrever mais nada. Prefiro fazer uma pergunta e respondê-la primeiro: de todos (e foram muitos) os filmes e séries e livros sobre este momento histórico de JFK (e falamos dos momentos imediatamente anteriores e posteriores ao seu assassinato), qual foi o que te levou mais perto dos corpos e dos espaços e dos cheiros e dos medos e dos sons?
Qual foi o que te levou mais perto de tudo, o que te fez sentir que estavas lá, entre os membros do staff, entre os amigos e inimigos próximos, na dúvida, na determinação, na certeza?

Este "Jackie", sem qualquer dúvida.

Os três culpados principais são Pablo Larraín (que realiza), Noah Oppenheim (que escreve) e Natalie Portman (que já vinha ameaçando, mas que aqui aparece sem tiques e transfigurada, e olhem que isso não se vê nos trailers ou nas fotografias, têm de estar quase duas horas a observar-lhe as subtilezas: o biopic perfeito em underacting? Eu diria que sim: o biopic perfeito em underacting).

Talvez, talvez.

A verdade é que, se lhe entregarmos o peito, saímos parvos, íntimos, arrebatados.
Só Marion Cotillard me impressionou mais, até hoje, como Piaff.

Portanto, vénia, aplauso e cinema.
Têm de vê-la no cinema ou numa sala fechada sem um único som ou perturbação.

2017-02-16

Anti-Pró Dias dos Namorados

 Eu e a minha mulher já passámos os trinta anos de namoro, coisa incrível em quem tem pouco mais de trinta de vida , mais década menos década. Não querendo ser melhores do que ninguém, como o aniversário do que nos juntou é poucos dias antes do São Valentim, fomos ganhando terror ao dia, à medida que ganhou os contornos cosmopolitas que hoje tem. O dia dos namorados é quase sádico quando não os temos, e vai-se esvaziando com o tempo, com a proximidade do outono, com o tamanho do amor. É verdade que há silêncios mais importantes do que uma flor, muito mais importantes do que coraçõezinhos gráficos, mas também é verdade que, nos anos em que nos limitamos a rir, a ser histriónicos, exagerados, imitando os gestos mais lamechas no escuro do cinema, mesmo que o riso vá até às lágrimas e isso seja felicidade, falta a flor que lhe recusei neste dia. "Não. Hoje não. Todos os dias menos hoje." Por isso, por todas as recusas parvas de ser cosmopolita e lamechas, por toda a fúria da diferença, no fim vais querer-me simples e claro. Por isso, mesmo com o riso pleno, perdoa-me, meu amor.

2017-01-20

Z4


quandos irrompes
para a pipe
o teu corpo está deitado no cosmos
na posição das galáxias
ao longe
percutem supernovas
e silêncio


PG-M 2017
foto de José Rodrigues

2017-01-09

Manchester by the sea (e Arrival e outras coisas)

 Vi no Famashow - e olhem que não foi por ser no Famashow, porque sou daqueles que pensa que o universo informativo das televisões portuguesas está ao mesmo nível, com duas ou três excepções, e não me venham dizer que estes são melhores do que aqueles ou que há serviços de referência, com essas duas ou três excepções - as perguntas aos convidados à entrada de uma sessão de promoção do filme "Manchester by the sea", obviamente gratuita, em que classificavam o filme, na própria pergunta, como um "filme sobre a família". Ora, dizer que Manchester by the sea é um filme sobre a família é a mesma coisa que dizer que um anúncio da McDonalds é  sobre comida (e, por acaso, raramente é, principalmente o meu favorito, aquele em que a menina pergunta, em suspenso, com um acentuado e belíssimo sotaque nortenho - o meu -, ao nerd do pretendente, "tu adoras...?"). Este filme está a ser bem promovido, vai ser muito falado, vai ganhar óscares e outros prémios, mas não deixem que isso vos afaste dele por excesso de popularidade, porque é, claramente, uma das obras-primas a passar na grande tela nos últimos anos. Quando eu quiser mostrar um filme literário, um filme-livro, um filme com as qualidades todas da grande arte, das grandes artes, lembrem-me de falar deste. De resto, não se deixem cair em simplificações nem deixem que vo-lo descrevam de forma simplista. Não, não é um filme triste nem "sobre a família". É sobre isto tudo. É visceral, e, porque é visceral, parte das entranhas para vos transportar nos corpos dos protagonistas e vos fazer sentir as emoções todas, que também são vossas. Aliás, seria melhor dizer: para vos convocar os sentimentos, os sentimentos mais profundos e verdadeiros. É um filme que sabe calar, omitir, como um grande livro, que sabe sugerir como um grande quadro, e é claramente o momento da família Affleck, provando-nos que não vale a pena muitos saltos, muitos pinchos, pelos quais é mais conhecido o irmão Ben, para chegar ou voltar à excelência (partindo do princípio de que "Good Will Hunting", que o consagrou ao lado de Matt Damon - embora este último esteja, para mim, noutro campeonato, um campeonato em que tem superado os muitos tiques que tem como actor - um filme excelente). Pois este é claramente o ano de Casey. Vai ter de ser um dos cinco nomeados para o óscar de melhor actor. Quem o vê neste filme, tende a pensar que não vale a pena apresentar mais nenhum, porque este é mesmo o papel de uma vida. Vamos aguardar. Era bom que tivéssemos outras surpresas e que a estatueta tivesse concorrência. Um bom amigo perdeu a minha sugestão de ir ver o "Arrival" no cinema porque, em decisão familiar, consideraram que o "Arrival" era "demasiada ficção". É provavelmente dos filmes mais importantes da minha vida, e ainda está em algumas salas de cinema. E ao ser o filme da vida de alguém (minha e de alguns outros que aceitaram a minha sugestão) só pode ser realista. Com ficção de apoio, se quiserem, mas realista. Ou seja, os trailers e as sinopses são simplistas por natureza, falsos por natureza. Já este Manchester by the sea tem tudo, bom trailer, boas sinopses, boa música, bons actores: mais do que bons, em estado de graça. Talvez o Arrival não tivesse nada disto, embora não precisasse, porque o argumento arrasava tudo. Não deixem que alguém vos diga o contrário deste Manchester, ou seja, que é tão realista que magoa. Não, a grande arte muda-nos. Se nos muda, projecta-nos para o topo, arranca-nos do chão. Ou seja, há um momento em que não estamos cá, estamos no espaço entre mundos a mudar. Por isso é que sinto estas duas obras-primas, Arrival e Manchester by the sea, como dois lados da mesma moeda. Um breakthrough íntimo. Acontece sempre quando o que vemos, lemos ou ouvimos é mesmo muito bom. Não percam, por favor. E não percam na tela grande, que é o lugar certo.

PG-M 2017

2017-01-05

Deixa que eu levo os miúdos à escola


Deixa que eu levo
os miúdos à escola
e prometo
combater o vazio
nos olhos deles
a secura nas bocas
dos professores
as lágrimas nos
patamares o frio
no pbx a luz branca
que zumbe no wc


Deixa que eu vou
comprar pão
e prometo
combater o vazio
na boca deles
a secura nos olhos
dos clientes
as lágrimas
na mesa do canto
o frio que sai
do calor da padaria
para o profundo
das casas

Deixa que eu levo
os sorrisos da cidade
à casa dos loucos
que acenam à multidão


Deixa que eu fumo
o teu cigarro
quando for proibido

Deixa que eu faço
amor por ti
direi às mulheres
como estão bonitas
voltarei a casa inteiro
sem poemas
complicados

já te falo do fumo
nas chaminés e
do cheiro a
estrugido
das oito da noite

combaterei a solidão
e as portas fechadas
ninguém faz comida
quando quer morrer

ninguém se faz só

só por fazer


PG-M 2017
fonte da foto

2016-12-30

Young and noble champions

(in english in the end) Esta história tenho de contar. Álvaro Gímeno e Guilherme Moreira, os melhores pontuadores absolutos do Torneo Navidad de Voleibol 2016, o Álvaro com quase 4 sets só à sua conta, o Gui com quase 3. Para quem gosta de voleibol, voleibol a sério, e sabe que não é sobre vitória e derrota, mas sobre pequenas histórias particulares e grandes duelos públicos, sabe que assistiu a vários na noite do segundo Espanha-Portugal (3-2). Gostava de destacar dois, entre muitos: o surgimento do Manuel Meirinho. Para um miúdo que veio do zero, como voleibolista, há dois anos, foi notável a garra e o esforço de superação neste jogo - na negra, empatou sozinho o jogo a 3-3, depois do 0-3 inicial (alguns "kill blocks" e picos ao metro, além dos gritos "ronaldianos" que mobilizaram toda a equipa - "siiiiiiiiiiim" e "eu estou aqui").
O outro foi este, entre o jogador fantástico que já é o espanhol Álvaro (mortífero no serviço, potente e inteligente no ataque, eficaz no bloco, enfim, tudo, e que se conserve assim :) ) e o craque aspirante a ser tão bom quanto ele, o cavalheiro de honor :), o meu Gui.

O Álvaro ganhou, mas o mais belo foi a luta, particularmente a forma como o Guilherme se foi artilhando para receber aquele serviços mortíferos. No final, a imagem documenta-o. Não é um cumprimento banal à rede: são sorrisos francos, a sapatadinha carinhosa, o respeito, e, estou certo, um princípio de amizade. Não tenho ilusões: sei bem que a maioria das pessoas, mesmo os amigos, lidam mal com a visibilidade ou com o falível conceito de sucesso, um conceito que sempre detestei. As coisas até podem acontecer e ser mostradas lá em cima, no absoluto, mas estes dois rapazes estiveram onde todos estiveram e esteve o Manel há dois anos: no início, no absoluto zero. E trabalharam muito para chegar aqui - e resistem quando estão lá dentro. É onde estão muitos que podem chegar aqui e mais longe. As conquistas desses também podem e devem ser contadas, desde que não percamos a noção do ridículo. O que aqui lêem é só a festa de um pai orgulhoso. Não acho que isto seja o máximo. É só bonito. Como amante do voleibol, agradeço a estes craques o espectáculo que me ofereceram. E ainda nem 18 anos têm. Ps: alguém identifique o Manel Meirinho aqui, que eu não consigo; mas ele merece ler isto. (já consegui, afinal! :) )
 
This story I have to tell. Álvaro Gímeno and Guilherme Moreira, the best absolute scorers of the Torneo Navidad 2016, Álvaro with almost 4 sets only to his account, Gui with almost 3. For those who like volleyball, volleyball seriously, and know that it is not about victory and defeat, but on small private stories and great public duels, know we watched several on the night of the second Spain-Portugal (3-2). I would like to highlight two, among many: the appearance of Manuel Meirinho. For a kid who came from scratch as a volleyball player two years ago, it was remarkable the claw and the effort of overcoming in this game - in the 5th and final set, he drawed the game alone, recovering from 0-3 to 3-3 (some kill blocks and spikes at one meter and those "ronaldian" war cries that mobilized the all team - "siiiiiiiiim" (yes!) and "eu estou aqui!" (I am here!)).. The other was this, between the fantastic player who the spaniard Álvaro already is (deadly in the service, powerful and intelligent in the attack, effective in the block, anyway, everything, and we ask he is kept like this :)) and the aspiring ace to be so good as he, the gentleman of honor :), my Gui. Álvaro won, but the most beautiful was the fight, particularly the way Guilherme was shining to receive those deadly services. At the end, the image documents it. It is not a banal compliment in the net:
the sincere smiles, the affectionate hand shake, the respect, and, I am sure, a principle of friendship. I have no illusions: I know very well that most people, even our friends, do not deal with the visibility or fallible concept of success, a concept I have always hated. Things may even happen and be shown up there, in the absolute, but these two boys were where everyone was and Manel was two years ago: at first, at zero absolute. And they worked hard to get here - and resist inside the court. It is where many who can get here and further are. Their achievements can and should be counted as long as we do not lose the notion of ridicule. What you read here is just the feast of a proud father. I do not think this is the maximum. It's just beautiful. As a volleyball lover, I thank these players for the amazing performance they offered me. And they are not even 18. Ps: Someone identify Manel Meirinho here, which I can not; But he deserves to read this. (I got it, later :) )

Algumas fotos (some photos):




2016-12-23

O Escafandro, a Cunha, a Makro e Direito 88-93

Não começa assim: um escafandro, uma cunha, uma makro e um direito 88-93 entram num bar. Começa assim: há quase 30 anos. Isso assusta. Assusta consideravelmente qualquer tipo que ainda nem 50 tenha perfeitos. Mas não há volta a dar:
  Há quase 30 anos éramos todos uns putos imberbes e semi-conscientes e a vida entre as 15h e as 18h chamava-se "puta". Não, não é a mesma "puta" de, por exemplo, "puta de vida". "Puta", para nós, queria dizer apenas ócio.  A hora da conversa e do café e da cerveja e do ping-pong e do bilhar e do lanche na B e dos telefonemas para casa antes do jantar (só o Bacalhau ficava meia-hora a dizer "arâ?" - "então?" ou "atão?" em nortense - à namorada) e da minha carta da tiragem das oito, escrita durante a tarde no Mandarim. Essa era a hora do ócio de quase todos os cursos universitários.O nosso foi o célebre curso 88-93, que pariu génios como a Manela Azevedo, dos Clã, que não exerce e é o paradigma desse curso de notáveis. Alma não normativa. O Miguel Guedes, dos Blind Zero, veio logo a seguir, mas esta crónica não é sobre músicos. É sobre os Escafandros. É sobre este grupo de nortenhos que já se conhecia de vista entre o Colégio dos Carvalhos e a Escola de Valadares e que se auto-apelidou de "Os Escafandros"  - não há um motivo, além de soar bem e ser a nossa cara. Na hora do ócio, ou ainda não tinham começado as aulas práticas, ou já tinham e não se ia a elas. Muitos de nós se mantiveram indefectíveis da "puta", quer no bar da Associação (Académica de Coimbra, mas já sem o futebol à mistura: esta, AAC-OAF (Organismo Autónomo de Futebol), também tinha bar, metros acima, a dar para a praça do Papa e para o jardim Botâncio, onde o Pedrosa, clemente e bom amigo, me enfiou um café sem açúcar e exigiu aos caciques da JSD que me fossem levar a casa, que eu estava bem bebido de andar a trabalhar e o Emídio Guerreiro tinha ganho a Associação com a minha ajuda, mas eles não foram, os caciques, e quem me foi levar a casa foi o Pedrosa e mais uns escafandros, como o Paulo Cunha, em subida épica aos Olivais - onde eu morava, pegado ao Torga - que ora não se pode nem deve contar. Note-se que o Pedrosa integrava já uma lista de Independentes que havia de tomar a AAC nos anos vindouros, e era hábito e pândega eu e ele a rirmo-nos dos cartazes que eles faziam e que o Pedrosa me mostrava sempre com afinco e disparando aquele riso de galinheiro a que eu não podia deixar de responder. Por esse facto, eu já havia sido admoestado pelos caciques da JSD. "Agora convives com o inimigo?", perguntava o Tó. Teve uma coisa boa: curei-me da política reles para sempre. Teve outra coisa boa: as meninas de psicologia, que, vestidas de laranja porque eram caloiras e laranja era a cor do curso, foram por nós confundidas com "Emidettes" e ficaram uma boa parte da noite a aturar-nos à porta do bar da Associação, até eu passar das marcas e o Pedrosa me enfiar o café sem açúcar no bar de cima, que o da AAC fechara. Ora, o Pedrosa, rapaz coerente, ainda usa tudo igual: a guedelha e a gabardine que usava no final dos anos oitenta e sempre foi o rapaz mais brilhante de nós todos, menino para ter aprendido grego antigo como auto-didata e criticar fundamentadamente as traduções francesas que confundem "cabelo" com "noite", tinha um irmão de oito anos (deve andar agora pelos trinta e cinco) que arrotava perfeitamente à mesa e, juntamente com o Engenheiro Américo, nos fazia chorar de tanto rir nas mesas de tábuas corridas do bar holandês, ao ponto de o Maria (o holandês dono do bar, casado com a Zé, outra holandesa, e isto é mesmo verdade) nos vir mandar calar, coisa que ele nunca fazia, porque dávamos andamento e ambiente à casa e ele estava sempre concentrado e empenhado em tirar as melhores super-bocks do mundo. Foi nesse bar que nos despedimos, meio chorosos, do Eduardo, quando ele desistiu do curso e foi para a tropa, como ameaçava o Taxeira do bom tempo (um mito coimbrão que morava numa casita no topo do Jardim da Sereia): vais p'á tropa! Nessa noite, ele e o Ricardo de São João rasgaram uma nota qualquer (vinte paus?) ao meio e agora, sempre que se encontram, juntam as duas metades. Tão bonito. Temos também o Botas, que quando se aborrece fica com cara de constipado. O Martins, com uma memória monstruosa e humor por ofício, que comigo passou noites inteiras, à conversa, nas escadas do Teatro Gil Vicente, para onde eu, inadvertidamente, empurrei o Bastos, quando ele me agoirou o futuro: nunca mais terminas o curso. Terminei. E ele patinou de costas. Encontrei-o o ano passado - está melhor moço e menos agoirento -, é padre e teólogo de primeira água no Vaticano, mas ainda não regressou ao grupo. O Paulo Cunha, que era obcecado por loiras e me obrigava a seguir-lhes no encalço pelas ruas de Coimbra (foi assim - embora desse vez perseguíssemos uma morena - que descobrimos o nosso "bar de curso", o Holandês, que tinha a morenaça Paulinha a fritar-nos as batatas) e o Florim a aprender holandês, coisa que, parecendo que tem, não tem nada a ver. Hoje somos todos gajos porreiros e, pouco depois de uns terem terminado  o curso, e outros terem deixado passar o prazo de o terminar, acabando-o honoris causa escafandria, começámos a reunir-nos anualmente numa data improvável: ao almoço de 24 de Dezembro, véspera de Natal.

Este almoço deve estar a fazer (ou já fez, não sei) 20 anos de tradição e nós acreditamos que durará para sempre e que o último a morrer vai almoçar sozinho com as cadeiras dos outros todas disponíveis e ocupadas ao mesmo tempo. Nos últimos 15 anos, o almoço tem sido sempre na célebre Confeitaria Cunha, ali no gaveto Rua Sá da Bandeira - Rua Guedes de Azevedo, em frente à Capela de Fradelos e à vista do Silo Auto, no Porto. Nos últimos anos já ninguém telefona a ninguém. Pura e simplesmente aparecem, sentam-se, comem, conversam e dão-se os ossos ao tradicional aperto da amizade. Havia, contudo, um só acto que queríamos eliminar: a necessidade de alguém ligar para a Cunha a reservar mesa. Ora, o ano passado, graças ao alto patrocínio da Makro (que há muitos anos fornece à Cunha as agendas especiais de restauração), foi-me entregue pela Sandra Paulo (chefona e mulher do terreno na dita Makro) a agenda de que eu seria núncio e portador. Este ano vai acontecer a mesma coisa. Ou seja, por uma vez, em vez de ser o comercial de campo a entregar esta agenda ao cliente Cunha, é o yours truly que a passará a levantar na Makro todos os anos e a entregará ao chefe de sala da Cunha que, como fez o ano passado, marcará imediatamente o almoço do ano seguinte. O ano passado levei a de 2016 e foi inscrito o almoço deste ano, como podem ver na foto junta. Este ano levarei a de 2017. Assim os escafandros só têm de fazer uma coisa: aparecer. E será assim até ao último que de nós morra, o tal que almoçará sozinho (mas nunca desacompanhado) numa mesa de oito. Podia terminar com aquele cliché do "enquanto cá andarmos todos é que é bonito", mas não. De facto, a maioria destas histórias, a nossa e outras parecidas, que se vêm extinguindo com os anos e já quase só existem nas lendas, continuam a ficar à tona como os últimos sinais de humanidade de uma sociedade iluminada por automatismos e máquinas e eficácia e ceo's. Os Escafandros não. Os Escafandros nunca. Os Escafandros são umas bestas, mas aparecem. Deixem-nos estar assim. Obrigado, Sandra Paulo e Makro e Cunha, por não serem automáticos. E até sempre.

PG-M e restantes escafandros 2016

2016-12-17

You cannot love in moderation

Na terra dos vivos a treva
sangra por dentro
o Cohen morreu
e nós por nascer

a luz a entrar pelas falhas

já ouço os sinos da vila
e sobre as margens antigas
estou pronto para esta
luta

atirem a corda escarlate
é tempo de dissolver
o grande baile
de máscaras

não podes amar com prudência
não podes dançar com os ossos
dos mortos

coloca a alma na eira
entre as paredes do rio
suporta as pedras sagradas
nos ombros 

fizemo-las vivas
já não estamos sós

beija o chão
muda de nome

não podes amar com prudência

não é com prudência que
sofres

não é com prudência
que choras

não é com prudência
que colhes a mão
de um filho na tua

ouve ao longe os tambores
os pássaros que falam línguas
esperando o nascer do dia
compõe o rosto
prevê os medos
vê a cidade através 
das lágrimas

a treva evanesce
provida de sol

e nós a voltar a casa
e nós a voltar a casa
e nós a voltar a casa

you cannot love in moderation 
(there's a crack in everything 
 that's where the light gets in)
 

PG-M e Matthew Perryman Jones e Cohen 2016
fonte da foto

Livremente inspirado no arrebatador "The land of the living", de Matthew Perryman Jones, que aqui se traduz e se mostra:
 

2016-12-14

Confissão (tomo IV) impertinente de PaloBlyK - dos vinte aos quarenta e tais


 Dunkin' Donuts. Ali.

Dunkin' Donuts?

Precisamente. Dunkin' Donuts. Na esquina da West 37th com a Broadway. Fazem um café excelente. Talvez o melhor café que uma pessoa pode levar num copo de plástico para uma conversa volante. É servido com a consistência e os espaços certos. Se eu fosse um cientista, talvez o soubesse explicar melhor, mas sou só um padre.

Os espaços certos?

Sim, o espaço entre o topo e a superfície do líquido, o rasgo da tampa. Dura mais tempo quente e é melhor do que os outros quando fica morno e também é melhor do que os outros depois de ficar frio. A minha ideia é seguir na direcção do Hopper porque é um percurso que sabe sempre bem mesmo quando fica longe, quando fica quente, quando fica frio.

Mas não tem de ser. Podemos ir para aquele lado, para a Times Square.

Mas este percurso, na direcção do mito de um quadro de um pintor morto, como todas as direcções de quadros de pintores mortos, que descarnam a complexidade de cada detalhe de cada obra de arte, tem outro sentido.

Podemos ir por onde quiser ou para onde quiser, o confessionário pode estar na rua, tal como a rua está sempre no confessionário. A minha história e a minha confissão terminarão, de qualquer maneira. E eu só quero isso: terminar.

Ah, sim, a confissão até pode terminar, mas a sua história não. Não termina coisa nenhuma, e não é só agora que não termina, não termina nunca, pensei que não se esquecia tão depressa de que falava com um católico, mas este católico diz que é sempre melhor a rua para nos confessarmos, até porque quase dispensa um interlocutor individual.

A rua é o interlocutor colectivo.

Isso. Colectivo e íntimo.

O vendedor de cachorros está curvado sobre a sua banca móvel, na esquina da 37th com a 7th Avenue. Segura-me no café, Solomon? Vou comer qualquer coisa, já não como há muitas horas.

Solomon ficou com os dois cafés na mão e Nova Iorque a passar por trás, o vendedor estava desligado, sonolento, e continuou curvado, mesmo depois de receber o pedido do padre. Um simples, sem nada, por favor. O padre pagou com uma nota maior e deixou o troco. God bless you. O homem endireitou-se e ameaçou sorrir. Não conseguiu, mas a nova postura foi o suficiente para as bochechas receberem uma tira de sol. Apareça na missa das seis. Não costumo ir à missa, senhor padre. Mas venha hoje. Mas nem sequer sou católico. Isso não importa. Não sou católico, senhor padre, repetiu o vendedor de cachorros, por penitência. Será o quê, então?, pensou Solomon. Não sou nada, sou um vendedor de cachorros, essa é a minha fé, respondeu, sem nada lhe ter sido perguntado. Eu sei que não é nada, disse o padre, mas apareça. Apenas porque lhe peço. Só hoje.

Vamos embora, Solomon.

O vendedor ainda se endireitou mais e recebeu o pedido seguinte com espanto. Era uma senhora curvada que queria um cachorro com todos os extras. O homem ficou a ver o padre e Solomon afastarem-se. Depois conseguiu, finalmente, sorrir. Um padre católico de uma paróquia de Manhattan não era, propriamente, um traficante de colchões, nem estes convites eram hábito à esquina de cidades descomunais. O vendedor de cachorros tinha ascendência portuguesa e sabia, porque isso eram coisas que se sabiam no quarteirão, que o padre também tinha. Decidiu que essa tinha sido a razão. Não estava preparado para aceitar outra coisa. Como bondade, por exemplo. Isso deixá-lo-ia desprotegido, e aquele trabalho de esquina não o admitiria. Eram pelo menos cinco corridas por dia atrás de “clientes” com excesso de liberalidade, por assim dizer. Normalmente jovens, mas não só. Seis horas era a hora de recondicionar a banca móvel e vender os últimos cachorros, porque trabalhava apenas nas horas de luz natural. Teria de antecipar o fecho e meter a banca dentro da igreja para assistir à missa. Decidiu que faria isso. Logo se veria que homem era aquele padre.

Sim, sou português. Sou americano, mas sou essencialmente português, até porque o mundo, hoje, é essencialmente americano e eu tenho de afirmar-me como essencialmente português. Quando a minha mãe insistia comigo para eu apagar, o mais que pudesse, os traços da nossa origem, para me diluir no centro do mundo, que é aqui, eu, já crescidinho, dizia-lhe sempre:

Desculpa, mãe, se Nova Iorque é nossa e todo o mundo é Portugal.

Aquele vendedor de cachorros também é português. Não se espante que não tenhamos falado nisso. Apesar das grandes comunidades, dos guetos, das little china, italy, turkey, etc, etc, não costumamos nomear-nos nas grandes cidades. Já foi a Paris?

Não, nunca.

O padre fez uma careta – como é que um advogado rico a viver no centro do mundo nunca tinha ido a Paris, que é o lugar onde as origens remotas desse mundo, desse movimento colectivo para o desperdício e para a excelência, fazem todas todo o sentido? – mas prosseguiu.

Dizem que Paris é a segunda ou terceira maior cidade portuguesa, mas os portugueses não se manifestam tanto uns aos outros como possa pensar. É uma das coisas boas das grandes metrópoles: estar ali é natural, não temos de descarnar o visitante.

Caminharam um bom quilómetro em silêncio, durante o qual o padre português cumprimentou quase todos os sem-abrigo de mão, mais do que de mão, dando o polegar para uma saudação mais cool e íntima. 'Zup? Zup foi o som, ou a pergunta, ou a resposta, que mais se ouviu nesse quilómetro, o padre perguntou a três se já tinham recebido isto ou aquilo, e eles tinham, realmente, recebido isto ou aquilo.

Pelo caminho, por aquele caminho e com aquele caminhante, Solomon começou a perder a vontade de se confessar. Subitamente o mundo em volta tornava a sua vida irrelevante. Afinal ele ia falar dos seus anos de paz e felicidade. Ia falar do mito da fidelidade, ia perguntar o que achava o padre dos seus pensamentos e pulsões, de como amara e continuava a amar todas as mulheres, de como apareceria Penelope e de como o curaria das paixões diárias por todas as mulheres, menos do amor a Ida, e se era possível e perdoável conciliar ambos.

Ia falar das suas tentações e de como nunca as concretizava. Ia perguntar se era possível proteger pelo desejo, mesmo o desejo proibido ou impróprio, ou seja, ser tão puro que, ao identificar o desejo impróprio, se seja capaz de proteger o objecto desse desejo, alertando-o sem o alterar. Alertando-o para a possibilidade de outros menos puros não se conterem e de devassarem o indevassável. Ia falar da masturbação como essencial, já não a dos dias transbordantes da adolescência, mas a do equilíbrio da maturidade e do respeito pelos contratos nupciais.

E sabia que o padre lhe diria que não havia penitência para a lucidez, ainda que avançar tal conclusão lhe parecesse pouco lúcido e um péssimo sinal de conversão do que via ao espelho e sentia como um pecado, um grave pecado: Solomon via ao espelho uma espécie de santo.

Um santo que visitara todos os pensamentos, dos mais negros aos mais claros, um santo que tivera todas as tentações, das mais negras às mais claras, mas que era impoluto e seguia na vida os mais estritos princípios.

Desejara velhas imaginando dar-lhes a cúpula de uma vida sexual, fazendo-as sonhar com ele como se ele, santo, fosse tudo o que uma velha e sexy mulher pudesse querer para selar o seu próprio sexo, desejara lolitas de quinze anos sem lhes desejar a carne ou a natureza virgem e quisera protegê-las por considerar que o seu comportamento e exposição as deixava à mercê dos verdadeiros predadores, que são animais egoístas e primários incapazes de princípios, e acreditava no antigo hábito dos mentores fiáveis que ajudavam as meninas a erguer os muros e as defesas – papel que deveria sempre ser declinado quando fosse percebido desejo e procura de prazer pelo mais velho; vendera a ideia do período de carência dos jovens adultos que se apaixonam por alguém com mais de trinta anos: para testar esse amor, devem afastar-se da vida um do outro até aos vinte e oito anos – dez anos sobre a maioridade – , altura em que o jovem adulto despistará esse sentimento como deslumbramento e confirmará – ou não – o verdadeiro amor; desejara as mulheres dos melhores amigos, desejara as mais fáceis por serem mais fáceis, nunca desejara as mais difíceis porque, ele sim, gostava de ser o mais difícil e nunca. Nunca.

Nunca tocara em ninguém senão em Ida.

Pensara em tocar. Nunca tocara.

A sua confissão era, pois, sobre pensamentos e convicções íntimas, muitas delas imperscrutáveis. A sua confissão era sobre o inconfessável.

No fim da confissão, Solomon falaria dos reencontros com velhas amigas de escola, e de como aos quarenta tudo parece possível e, principalmente em Nova Iorque, nenhum pecado o é intrinsecamente. Tal qual aquele mito de que a infidelidade no estrangeiro não é, verdadeiramente, infidelidade, também levar para cama amigas que ficaram por levar para a cama aos dezoito e dezanove anos por mero desconhecimento das regras e dos equilíbrios sociais e sexuais, não pode ser proibido, bem pelo contrário, deveria ser permitido e até estimulado como medida sanitária dos casamentos e das vidas em geral.

Mas quando um tipo que apenas ao espelho se sente santo vê um verdadeiro santo remontar Nova Iorque como a arcada do mundo, qualquer confissão se torna, se não impossível, inútil, verdadeiramente inútil.

Quando deu por si, estavam já os dois sentados ao balcão com uma cerveja à frente e o padre acabava uma história qualquer sobre aquele lugar e o tal do Hopper:

.. é por isso que há uma polémica entre quem situa o Nighthawks do Hopper na West Village Florist, no 70 da Greenwhich Avenue, e quem diga que é exactamente neste lugar, o antigo Classic do 679 da Greenwhich Street, precisamente Nighthawks, hoje. O próprio Hopper referiu que se situaria na Avenue, mas mais tarde também disse que pode ter sido uma criação da sua cabeça, aumentando o espaço do restaurante para que a solidão urbana fosse flagrante, visível.

Ah, entendo.

Eu acho que foi aqui. Não sente, Solomon?

Sinto, pois.

Mas não sentia. Não o preocupava Hopper nenhum, preocupava-o apenas validar os seus últimos vinte anos com aquela confissão.

Então contou ao padre, ali mesmo, Hopper ou não, perante o espectro dourado das cervejas, tudo aquilo que o tinha atormentado, primeiro a vida inteira, depois o caminho inteiro, e que queria agora ver validado, ou seja

confessou-se.

No final, o padre disse que era o que esperava.

Era o que eu esperava, Solomon, e provavelmente você também:

Não há penitência possível para a normalidade de um homem e de uma vida. O Solomon fala em luz e sombra, mas quem expõe a luz é luminoso, e quem expõe a sombra não a retém em si. O que me confessou é uma vida normal, impoluta, se quer que lhe diga muito perto da santidade, tivesse o meu amigo entregado mais de si e do que não precisa ao mundo, não só bens materiais, mas ideias.

O seu único pecado, Solomon, é nunca ter corrido o risco de defender as suas ideias.

Essa ideia das Lolitas, por exemplo, assumida com coragem, podia realmente proteger muitas delas, porque muitas meninas e meninos sentem-se de tal forma no domínio da estética e da beleza que partem para reinar, para dominar o mundo, antes de serem príncipes ou terem aprendido as regras da corte, querem ser eles próprios uma espécie de predadores, e depois acabam, rapidamente, predados. E o Solomon, melhor do que eu, sabe que os frustrados e os fundamentalistas, pensando que protegem os meninos dos sinais dos predadores – e então passam a suspeitar de tudo e de todos e tornam impossível o colo às crianças –, acabam por lhes tirar armas e de os empurrar para os covis.

Armas e Alma, sussurrou Solomon.

Porque não há dois homens em dez como você, Solomon.

Concluiu a terceira cerveja e perguntou-lhe se queria outra, antes que acabasse a do barril.

Ah, sim, pode ser, mais uma para o caminho, mas a cerveja nunca acaba.

As confissões sim, a cerveja não, mas sem confissões não temos mais pretexto.



Riram. Voltaram a rir. Pediram pelo menos mais duas ou três fresquinhas. O lugar, se não fosse já isso, passaria a mito da sua própria vida, pensou Solomon.

E depois acabou, assim, bruscamente.

Acabou.

Esta confissão acabou.

Será ampliada quando o autor chegar aos 60 e receber informações do que aconteceu a Solomon PaloBlyK quando regressou à Holy Innocents Church, se o padre ainda estava vivo e, na afirmativa, o que lhe confessou.

PG-M 2016

2016-12-13

Moça

Eu vivi há dois mil anos no princípio do mundo e no fundo da encosta de um monte com seis casas e uma escola.
Eu tinha oito anos quando, na casa do meio do monte, nasceu bebé Jesus e o monte e a vida nunca mais repetiram os dias, como até lá, e eu gostava dos dias iguais aos dias e a partir daí a tristeza tomou conta de mim, me deu de comer e de beber e me botava para dormir e me acordava de manhã tapando a manhã com corpo. Eu sei que Jesus foi um acontecimento bonito e é de muita vergonha que falo das pedras, mas eu gostava dos dias iguais aos dias, de não perceber a luz antes da noite e de adivinhar os campos em frente.
A escola ficava no topo do monte e no topo da escola ficava uma figueira que eu subia mas não descia e onde todos os intervalos brincávamos às caçadinhas, excepto quando as moças iam na macaca e os moços diziam que não, porque era jogo com alma de moça. O lencinho também era, mas o lencinho dava a chance de um beijo e todos os moços sempre se venderam pela chance de um beijo.
Eu tinha oito anos e todos os dias descia a encosta com a moça e com a mocinha.
A mocinha não parava de brincar e me fazia rir como os velhos do vinho com lágrimas no tempo, a gente passava na estalagem e ficava espantada com as mãos grossas dos velhos e a felicidade em canecas de barro que entornavam coisas bonitas cor-de-sangue e eles bebiam, desculpa eu falar assim forçado, mas sempre vi as coisas como elas são e não como parecem.
A mocinha se atirava a mim e me batia e os meus ossos a levaram tempo fora para combater a tristeza pelas cidades onde eu fiz este eu que sou hoje e te conta a história simples das moças e dos moços como são, não como parecem.
A outra, a moça, alta como as árvores do caminho, descia toda calada e com os olhos mais doces do monte e talvez de toda a pátria, e eu falo isso não porque os via com olhos de ver, porque eu era pequenino e ainda não tinha livros, mas porque ficou escrito no meio do peito.
Os livros dão vista e armas e antes dos livros, ou um ancião nos chama à estalagem e nos conta o que eles dizem, ou tu és cego e não sabes ver as coisas como são, mas só como parecem.
A moça era só alta como as árvores do caminho e calada como o silêncio e o que me ficou escrito no meio do peito foi para debaixo dos pêlos e do barulho desses dias que deixaram de ser iguais.
Jesus nasceu e um dardo gigante marcou a manjedoura como o centro do mundo e à volta da manjedoura fizeram muros e à volta desses muros mais muros e à volta destes muros mais muros e à volta do muro maior fizeram um ainda maior e as pessoas do monte começaram a ver os estranhos antes dos amigos e as coisas como parecem, não como são.
E todos deixaram de adivinhar os campos em frente.
Desci com elas a encosta umas quinhentas vezes e depois fiquei crescido e disse adeus à mocinha - que ainda vi se afastando no carro de bois do avô e pensei já não a vejo mais e de hoje em deante só a levo nos ossos - e à moça - que já não vi por causa dos pêlos e do barulho, mas sei que levou a minha tristeza com ela.
Passaram dois mil anos e eu tive de fazer um electrocardiograma e então raparam os pêlos do meu peito e eu vi a vida toda a passar pelos olhos doces de uma moça que eu já tinha esquecido há mil novecentos e noventa e nove anos, mais ou menos.
Fui ao topo do monte e subi à figueira da escola e vi, pela primeira vez, os meus caminhos como eles foram, não como pareciam. Vi várias cidades concêntricas e as luzes de natal no centro. Desci para confirmar que o centro das luzes do centro era a manjedoura. Nunca me afastei muito da manjedoura e do monte e, no entanto, voltei mais vezes a sítios distantes do que à minha própria casa.
Entrei no café em frente e pedi um café.
Sentei-me e senti a mocinha nos ossos, já não a moça, e senti a solidão também.
A moça parecia estar nas vidraças e na luz que entrava e então o espanta-espíritos tilintou duas vezes a milésima vez e eu, de mão no peito, reconheci os olhos doces através dos quais me revira todo, e então a moça entrou no café.
Apertámos as mãos e eu pensei que nunca tinha visto uns olhos tão doces nem tanta altura numa pessoa que afinal não era tão alta como as árvores do caminho, era maior ainda.
Falámos das nossas vidas inteiras e de como sem livros ou velhos que os ensinem ou poemas puros que nos mostrem como as coisas são, não como parecem, nos podemos perder uns dos outros quando as cidades ou nós próprios começamos a crescer um crescimento que não é o que é, mas o que parece.
E no fim eu não lhe disse uma coisa banal que queria ter dito e fiquei em silêncio:
- Moça, ver de novo os teus olhos doces a partir do meu peito e ver-me a mim todo a partir deles foi das coisas mais bonitas que me aconteceram na vida.
Eu não disse isso, porque não é literário, como o silêncio.

Mas foi das coisas mais bonitas que me aconteceram na vida de que a moça não fez parte durante, pelo menos, mil novecentos e noventa e nove anos.

Desde aí até morrer, todos os natais, todos os meses, todas as semanas, todos os dias, vou à vida com tempo e sem desculpas, como vamos aos funerais, sempre pelos olhos doces de uma moça.

PG-M 2016
fonte da foto: Autora: Thaynne

2016-12-06

O Padre Freitas está quase morto

O Padre Freitas está quase morto, é só deixar passar a missa de mês e pronto, morreu. Recebi, na volta do correio, dos jornalistas de excelência que interpelei sobre a vergonha que se preparava - o país mediático não ser capaz de combater a rotina instalada e ignorar este grande homem (na verdade, só o PR teve a decência de emitir uma justa nota de condolências) - alguns testemunhos que me comoveram: houve mesmo um que era um genial atestado de lucidez e consciência da camisa de forças. Na própria instituição que o Padre Freitas dirigiu e o acolheu uma vida, o Colégio dos Carvalhos, e exceptuando a memória individual, temo que não se faça o que é devido e comecem a desaparecer as palavras e os murais de homenagem. Há pouco, também eu me comovi ao ler estas palavras no mural do Eduardo Pitta, "A primeira coisa que aprendemos no Facebook é que estamos rodeados de eruditos. O neófito mais
humilde lê Artaud ao pequeno-almoço e sabe de cor a obra completa da Lispector. A maior parte das vezes não conseguem alinhar duas frases mas isso é uma minudência que nunca os preocupará." Não gosto muito de me exlcuir destas inanidades que o Eduardo caracteriza, mas comovo-mo com esta clareza. A mim pode acontecer-me o mesmo, se não estou atento, vigilante e me mantenho em combate. É um problema global. É por isso que, para saber precisamente aquilo pelo que vou lutar, fui à Biblioteca Municipal do Porto ler a que, provavelmente, é a única obra do Padre Freitas que foi dada ao prelo, "A pedagogia do léxico", de que muitos devem ter ouvido falar, mas poucos realmente conhecem. Fiquei assoberbado com a minha ignorância. Vergado a tanta sabedoria. Sendo um livro eminentemente técnico, ele levou-o à prática quando ensinou português. Pelos testemunhos, foi um professor brilhante. Era sempre. Deixo-vos a capa e o índice geral, importante para terem uma ideia do trabalho que este livrinho encerra. Há também outros índices, no final, que só obras de excepção têm, porque nos permitem um acesso mais simples e directo ao conhecimento. A excelência e o génio dão muito trabalho.
 
PG-M 2016

Bem-vindos ao Norte

Bem-vindos ao Norte. No último mês tem estado mais sol, menos frio e quase chuva nenhuma a norte. O contrário a Sul. Até o rei de Espanha reparou nisso. No entanto, todos os serviços noticiosos gritaram alertas amarelos e muita chuva sem nunca excluir o Norte. É sempre assim. É ainda com centralismo e megalomania que nós, nortenhos, temos de lidar, em tantos detalhes imperceptíveis a quem vive em Lisboa que nem vale a pena enumerá-los. O tempo (não o clima) tem temperado isso, e a diferença é que agora se lida aqui, a Norte, com essas manias com complexo de superioridade e caras de gozo típicas desta nossa massa. Faz 20 anos que a Unesco reconheceu uma parte do Porto como património da humanidade, e fê-lo numa altura em que o que um tripeiro mais ouvia de um português do Sul era que "o Porto é muito cinzento e está sempre a chover". Esta última ainda se ouve muito, o que, sendo parcialmente verdade (que chove mais, em média) é uma parvoíce de se dizer de uma cidade temperada do Sul da Europa, como é o Porto, que fica apenas a 300km da outra, o que, à escala do Mundo, tem pouca relevância. Em 2013, por exemplo, choveu mais em Lisboa do que no Porto (fonte: PORDATA). É por isso que quando estoura a chuva na cena do filme francês com o nome da primeira frase deste post, qualquer nortenho se sente redimido. O Porto não mudou há vinte anos. Isso foi político, apenas político, e o Porto, quando mudou, foi pela mão de cada um de nós, sem interferência ou ajuda de nenhum político. Esta é a história extraordinária, não dos últimos 20 anos, mas 7 ou 8, desta cidade sublime onde nasci, e que ainda está por contar, porque as reportagens são sempre de espanto bacoco pelo que hoje existe e nunca vão ao fundo de nós. Dispensam-se paternalismos: desses, os que não estão no centro estão cansados até ao vómito. Humor sim, humor do bom, forte e à bruta, sem cedências nem a piadinha parva do costume. Têm estado dias maravilhosos por aqui, muito sol e até algum calor e não, não choveu - mas, hélas!, quem quer saber disso? Valha-nos o Rei de Espanha. E este não é um post dissidente. É um post do deixem-se de merdas com isso do chove muito e sempre vocês, sempre vocês, sempre vocês, e venham conhecer a nossa luz e as nossas belas sombras.

2016-12-05

Comoedus (ou Joana Pais de Brito)

Joana Pais de Brito. A excelência em comediante lato sensu, que ela não gosta que lhe chamem isso stricto sensu. Ela diz que é apenas actriz, não humorista ou comediante ou imitadora: na verdade, nada de redutor pode ser dito sobre Joana Pais de Brito. Apenas que ela é a maior dos maiores no momento em que escrevo, o ano da graça de 2016. De uma perfeição e percepção assustadoras. O "estado" anterior, sobre o bobo, é para ela. Para o silêncio que ficaria na cidade sem génios como ela. E se acaso ainda a não conhecem, nem se riram nem se espantaram tudo. Pronto, este é o meu poema de hoje. :) Como é vasto o material em que ela se torna o centro, mesmo não sendo essa a intenção inicial, no youtube, vão por lá. Não falha. Ela nunca falha. Digamos que, sendo um ser humano, e por natureza falível, é perfeita, e por natureza deusa.

PG-M 2016
fonte da foto
 PS: apenas alguns exemplos.
Respectivamente, como "chef" Filipa Gomes, como Cristina Ferreira e como Sandra Felgueiras:

A muralha

o bobo construiu uma muralha dentro da muralha e nessa muralha
só ele cabia

ninguém soube

o pequeno edifício era estranho aos do fazer e afronta aos do poder
estes ordenaram que aqueles trespassassem a parede
com lanças afiadas e o bobo morreu
calado

ninguém soube

até que a tristeza cercou a vila e se enfiou nos pátios
que haviam nascido para levar o sol
a vila veio a morrer


mas ninguém sabe
 


PG-M 2011


fonte da foto

2016-11-23

te echo de menos

 te echo de menos

a expressão espanhola para saudade também é bonita.

fiz-te de menos

ontem lembrei-me de como foste dos primeiros a dar-nos uma nova noção de tempo


era um funeral, e havia alegria no ar, e não era só a alegria do reencontro com os homens e mulheres mais importantes da nossa vida, os professores, nem aquele belíssimo pânico de os ver procurar com a memória que alunos éramos

estão tão mais bonitos, os professores.
quando eram os nossos professores, eram velhos por natureza.
agora somos nós os velhos e eles da nossa idade.
bonitos e cuidados, sábios, serenos, sem poder

só conhecimento

a alegria eras tu e o comprimento da tua obra


comentei com o lima​ que nunca tinha visto um funeral tão feliz
estavas a descer à terra e havia gargalhadas
o coveiro a devolver-te à matéria original, que é a mesma que resulta de ti, e abraços entre campas

eu de pé a tomar café e a falar de como a linguagem e o silêncio e o ouvido e a atenção revolucionam o próprio tempo
tu és um dos grandes culpados de, afinal, isto não ser só isto e de
morrer não ser bem morrer

depois ouvi falar de ti, do teu apagamento físico, por quem em nosso nome cuidou de ti e te mimou até ao último minuto
um apagamento físico irrelevante para o mundo, ou só relevante na medida do teu sofrimento: nada para lá do que te doeu importa
não havia choro ou abandono ou pena, as pessoas que contavam o drama da tua doença sorriam, porque, a par de cada perda, havia sempre a tua resiliência, a tua teimosia

talvez seja piedade dizer para não te ir ver, porque estavas pele e osso,
estar deitado dá cabo de nós todos, faz-nos desaparecer fisicamente,
faz-nos assumir a postura da defesa perante a impossibilidade de sermos o que nos ergueu e nos fez evoluir

afinal não parecia ser isso o importante para ti

o alzheimer levou-te as forças, o conhecimento - e é injusto
ter-te cabido uma doença do conhecimento

logo a ti

o alzheimer levou-te tudo, mas não a presença de espírito
nunca desapareceste
foste teimoso até ao fim
ressurgiste muitas vezes
estavas deitado, estavas presente,
não o corpo, já não o corpo,
tu

como agora, afinal

já não o corpo, tu

já não conseguias comer sólidos, mas comias bem
o que podias comer
comeste sempre bem

e continuavas a combater pela tua fleuma, pelos teus hábitos,
ainda lutavas pelos artigos dos jornais que querias ler, pedias  a coluna do rangel e, quando ta davam, sorrias, sentavas-te, punha-la perante ti e não lias

nestes útlimos tempos, já não lias

só replicavas o prazer de ler
o prazer de pensar
replicavas a busca do conhecimento
o arrebatamento do passo em frente
o trabalho
a graça disse que, mesmo agora, no fim, quando regressamos à aparência
da criança que nunca deixámos de ser,
cada vez que ela aparecia ias a despacho

a graça aparecia à porta e tu
puxavas de uma almofada e escrevias com o dedo


assine aqui, senhor padre,
e ali,
e ali,


e tu assinavas

todos pensamos na própria morte perante a morte dos outros

na verdade, não pensei muito na minha, ontem.
pensei mais na eternidade

o teu quarto ficou cheio de livros e papéis
e quem te amou sabe que está aí
a eternidade

não apenas a tua, toda a eternidade

aí e no que levamos de ti connosco
e passaremos aos nossos
e os nossos passarão aos seus
e os deles aos deles
intimamente


infinitamente

dormiste sempre no nosso colégio, morreste onde dormiste

deitado na almofada

já não o corpo, tu

como agora, afinal

já não o corpo, tu



PG-M 2016
foto propriedade do Colégio dos Carvalhos

2016-11-12

Rafaela


Não importa onde se encontra Rafaela,
o que faz e de onde veio, importa apenas
a sólida beleza

que se dissolve em nós

em vez dela

no lugar onde os poetas se exaltam
por culpa dela
não há luz
só Rafaela

está nos móveis e no chão
está nos lábios e nos
dedos, nas
máquinas e no
tempo
está nas falhas, está
nas pedras
nos lilases meio abertos
a que cheiram
certas noites

e ela,
legando os seus olhos claros,
ouvirá em explicação que o poema
é sem amor,  o poema
já cá estava
por escrever
copiado de um clarão
por causa dela

dissoluta
absoluta

Rafaela


PG-M 2016
fonte da foto







2016-11-05

Acta de abertura de um livro sobre a imortalidade


António, bisavô: sempre cri que o veneno que tenho no sangue (que há quem chame arte) é culpa tua. Sempre cri que era uma maldição, uma maldição sublime, mas uma maldição. Que nos tortura, porque exige, para bons resultados, o sobre-humano ou a negação do humano. Exige silêncio e minimalismo, como se fôssemos edifícios (diz que somos), tantas vezes geometria e cálculos, mas em nós é carne, é uma torrente descontrolada, um rio a galope fora das margens, olho para as tuas mãos e para as minhas e são iguais, tu davas ou tiravas forma ao nada ou ao tudo, desenhavas, esculpias, modelavas, eu não faço diferente com as palavras, às vezes, quase sempre, tenho de as deixar quietas, os blocos intocados, posso morrer sem nunca mexer em algumas frases. E quando, subitamente, o objecto da arte és tu, toma-me esta obsessão que me leva para perto de um estado que me parece a loucura, essencialmente posso defini-lo como uma solidão intraduzível e no entanto barulhenta, tão barulhenta que posso ser um artefacto pirotécnico em pleno céu de são joão, expludo e ilumino as nossas cidades durante breves segundos e depois caio no douro - às vezes tento ser um balão de papel, posso divagar, subir, mas caio sempre. Caio em chamas, caio sempre em chamas, e depois apago-me. Olho-te profundamente nesses olhos quase frios em que preservas tudo de ti e, claro, vejo-me a mim. Como se estivesse a comer o meu próprio corpo sem a metáfora, bela metáfora, de cristo, embora os teólogos digam que não é metáfora nenhuma. Vai ser assim nos próximos cinco anos, estarei gravemente doente de ti, afinal como tenho estado a vida toda, há sempre um sobressalto quando passo na boavista e fico fixado no leão do alto ou na mãe que morre afogada com o filho nos braços ou na tua campa ou na tua rua ou nas fotografias que guardo. Mas tu seres o objecto das minhas mãos é perverso. A sensação é a de estar sempre a chorar e a cara seca. É uma fraqueza titânica. Uma força transcendente. Componho o teu corpo de volta como uma espécie de frankenstein. Sei que vais falar a qualquer momento, que me vais tentar travar, talvez até devorar, mas os nossos olhares têm sangue e é o mesmo sangue. Estás a ver? Como podem olhos frios ser sanguíneos e explosivos? No fim, vai ser um abraço, um abraço definitivo que provavelmente não mais se desfará, tomamos um copo e rimo-nos deste século doloroso que nos separa - não podias ter morrido - e, então sim, retirar-me-ei para que possas viver o que sobrou. E sobrou muito, tanto que vai desaparecendo para nunca mais ser lembrado. Como se não existisses. Como se não existíssemos. Como se não me doesses e eu não gritasse de dor desde a primeira vez que apontaram a estátua da boavista e me disseram: "foi o teu bisavô que fez" e eu ouvi "aquilo és tu"

2016-10-31

I love Volleyball (and him, of course)


We are animals.
 

We are powerful and rise above what's expected from us. In you all the strength, all the power, all the belief, all the work.


Already born and freed. Between both posts, the most beautiful story a man can handle before he perishes. The screen, with the right tension, it's the symbol of work, balance, the proper height.

The net is the string of life, apparently untouchable, but volatile. And the court is empty, and then you arrive full of light and rise up, with all inscriptions engraved in the body.
 

We are animals. We are powerful and we rise above what's expected from us. 
Somos assim, bichos. Somos poderosos e elevamo-nos acima do que esperam de nós. Em ti toda a força, todo o poder, toda a crença, todo o trabalho. Já nasceste e já te dei carta de alforria. 

 Castêlo da Maia - Sporting de Espinho, seniores, Outubro de 2016, idem para as fotos 2 e 5

Entre os dois postes ficou a história mais bonita que um homem pode suportar antes de sucumbir. A tela, com a tensão certa, é o símbolo do trabalho, do tempero, a altura certa. A rede é o fio da vida: aparentemente intocável, mas volátil.
Itália-Portugal, U18, 15-07-2016, Holanda, idem para as fotos 1 e 3

Fica o court vazio, sombrio, até apareceres num jorro de luz e te ergueres, com tudo inscrito no corpo. Somos assim, bichos. Somos poderosos e elevamo-nos acima do que esperam de nós.



PG-M 2016
fotos de PG-M, excepto a penúltima, que é creditada a Claudio Panciocco, e o grande plano do número 12, de camisola laranja, creditada a André Gouveia. Todas são do atleta Guilherme Moreira, filho do signatário, excepto esta última, da bola como mundo a girar sobre o dedo do Kiko Silva