2014-07-24

Os corpos e os olhares todos (ensaio sobre a praia)

 Por influência de grandes como Emerson, Montaigne ou Sócrates, o avô saiu hoje para vender bolas de berlim na praia com o vigor filosófico do seu próprio corpo.
Consciente dos seus limites aos setenta e cinco anos, as dores crescentes dos quilómetros de areia, as rótulas em pó, mas com a confiança na superioridade gnóstica do seu próprio eu, luz da sua alma, Lolita.
Assim apôs na epígrafe do ensaio sobre a praia:
"O meu sorriso tem treze anos (deixara a estiva há treze anos, com uma reforma por invalidez, e começara a vender bolas de berlim na praia nessa mesma altura), é a minha alegria, a luz da minha alma, Lolita"
Explica-se esta referêcia literária porque eu sou o monitor do município na carrinha-biblioteca-ambulante e o avô passou a ler tudo o que lhe deixo nas mãos, quando torna a casa esgotado da jorna das bolas com creme, depois de esfriar os pés e deixar o peixe ao lume.
A obra-prima do Nabokov marcou-o particularmente.
"Filho, sinto uma culpa insuportável.", dizia-me, no fim de cada um dos duzentos dias que demorou a ler o livro, cujo empréstimo eu fui prolongando por baixo da mesa porque tenho conhecimentos na vereação da cultura.
Não era uma culpa própria, que o avô é, sempre foi e será um santo, mas uma culpa universal, e é por isso que "Lolita" é, sempre foi e será uma obra-prima.
Depois, não se espantem, leu tudo.
Emerson, Montaigne e Sócrates em Platão.
Quando me pediram para explicar, entre tremoços e minis, na tasca do Zeca Eufrates, como era possível que o meu avô lesse tais coisas, eu limitava-me, cuspindo cascas, a explicar:

"Os mestres escrevem simples e são simples de entender. Escrevem ou falam como nós aqui no café, olhos nos olhos. Os outros não são mestres, sequer discípulos. São"

e o pessoal que comia os combinados ao balcão é que completava a frase com os mais variados insultos, são políticos, bestinhas, cagões, etc, com os quais, que fique assente, nunca concordei, mas também é certo que nunca completei ou quis completar a frase.

Vem isto a propósito do ensaio de avô sobre a praia, que ele ditou e eu escrevi depois dos jantares do verão passado, e é tão curto quanto sublime, na senda dos mestres:

"Passo sempre no mesmo passo e na mesma praia, mas o mundo também é sempre tão diferente, e eu escrevo isto porque sempre fui tão igual.
Quando as pessoas se vêm despir do que evitaram o ano todo, a nudez, a gordura, a imperfeição, ficam claras, simples e firmes - pelo menos todas as que não se enterram na areia ou mergulham de vez no mar definitivo.

(há aqui coisas que têm a minha mão, mas juro que as ideias são do avô)
Na primeira idade há uma pureza que não dificulta as coisas. Os olhos e a pele das crianças brilham, têm sorrisos ou interrogações transparentes, implicados, estão no lugar a que pertencem.
Mas se eu avanço na praia e na idade e entre os guarda-sóis a regra são olhos pequenos e testas franzidas e a desculpa é o que alumia e aquece, o sol. O reclamado sol, aifnal, não é vida, e passa a constrangir e a diminuir.
As pessoas não estão bem com os seus corpos, vêm encolhidas e sérias, mesmo que tentem sorrir, com o euro na mão, muitas com vergonha, muita vergonha, e não é de serem vistas, mas de terem de comunicar, que é o que fazer automaticamente o resto do ano - ou parece que fazem.

(para o avô, as redes sociais são uma realidade vivida de ouvido)
Quando eu volto, perto da hora do almoço, e já quase não sou chamado para bolas, vejo centenas, milhares, de ilhas em terra. As pessoas que não esqueço são penínsulas, continentes, são as que brilham como as crianças e, tenham o corpo que tiverem, são sempre elegantes no trato e refinadas no entusiasmo.

(o meu avô não saberia dizer que "entusiasmo" é, etimologicamente, a possessão de deus, mas quando eu lho expliquei ele ficou assombrado, e então, disse ele, tive uma certa esperteza, porque era  mesmo isso que queria dizer)

As pessoas que não esqueço recebem o sol e têm a cor certa, a medida certa, e aguardam pelo curso do tempo e até confessam saudades minhas, eu que me sinto apenas funcional

(o avô escreveu "funcionário", mas eu pedi-lhe para mudar para "funcional", é praticamente a mesma coisa mas muito mais importante)

A adolescente que aparece mirrada e insegura e de olhar fechado é mais velha do que a velha que aparece de queixo erguido e sorriso aberto e olhar seguro e focado, às vezes iluminado.

Embrulho sempre a bola num guardanapo de papel, o meu papel, e eles afastam-se por pecado.

Mas sempre me perturbará, depois dos livros que li, ter visto coisas que nunca antes vira, como se me tivessem lavado a cara, eu que fazia esta praia há anos e todos os dias de todos os verões desde o fim da estiva, o que sempre me perturbará é ter percebido que as pessoas, que esperam o calor para libertarem os corpos e enfrentar o sol e o mar, são meros agasalhos de si próprias, são quase todas demasiado velhas para o seu próprio sorriso, a sua alegria, a sua Lolita, luz da sua alma, têm quase todas os olhos muito pequeninos e os corpos mirrados e estão sem classe ou confiança, o ego inchado e a transbordar a sombra do guarda-sol, e acabam por desprezar, nos três meses sonhados, tudo aquilo que almejaram, e não recebem, porque não se expandem nem reflectem o sol e o mar que procuraram.

(eu acrescentei uma modernice, porque era uma ideia que o avô queria incluir e me tentou explicar, as selfies de verão, que validam e carimbam e tipificam uma felicidade que não é procurada intrinsecamente, nem extrinsecamente, no próprio ou no próximo)

Verão após verão, a praia nem chega a ser teatro.
Os corpos e os olhares são a desilusão.
O mar a ilusão.

E eu sinto culpa. A culpa universal de sempre. E a urgência de ir, com as minhas bolas com creme, de olhos abertos e sorriso claro, corpo confiante e postura transparente, contaminar a praia do meu sorriso, luz da minha alma, Lolita."
PG-M 2014, ele e o avô dele

2014-07-17

mão ANTE mão (Quiz marítimo de férias)

 mão:

Quero viver porta com porta contigo
Contar-te segredos pela parede fina
Como naquele filme do Genet

ANTE:

as pessoas queixam-se tanto de as deixarem desertas, mas nós - que escrevemos ou lemos - temos a doença de estarmos sempre povoados

(com ou sem solidão em anexo) 

mão:

"A vida dos sentidos é um plágio de uma idealização maior. Mas é um plágio legalizado porque sabe bem sentir os cabelos em desalinho." C. Lacerda (ou é Lispector? )
 
 ANTE:

 Ontem - 10 de Julho - o dia fugiu-me dos pés e das mãos, e ainda não consegui responder a todos individualmente. Não o farei publicamente. Há algo de feérico no dia de anos, se acaso indicamos publicamente a data de aniversário no facebook. Todos sabemos que não somos especiais nem particularmente amados porque uma multidão nos parece rodear neste dia. Mas não é mau. Tem sido sempre uma oportunidade de recuperar contactos e, ao longo do dia, aqueles que escrevem quando podemos olhar, permitem que nos lembremos que eles, não nós, existem. Alegra-me ter de devolver mimos e poder recuperar muitos contactos perdidos. Tenho a certeza de que a solidão, no dia dos nossos anos, é a mais intensa de todas. Hoje o mundo normaliza e nós só somos especiais porque sim. Nós todos.

 mão:

Tenho falado deles e delas, e não me vou cansar enquanto nos trouxerem mais do que aquilo de que alguma vez fomos capazes da mesma idade. Ainda ontem dizia a uma amiga que nós, mesmo os maluquinhos por literatura que limpavam concursos literários, não atingíamos este nível, que está hoje acima até de muito consagrados sobrevalorizados. Esta geração, que muitos encaram como regressiva, salvará a nossa, que não tem trazido rasgo à literatura. Trago-vos palavras escritas de forma informal pela Carol, aquela menina de 16 - 17 feitos há dias - que me disse espontaneamente a Tabacaria do Álvaro de Campos num jardim brasileiro:

"Eu não vou dizer que existe só uma verdade e sentido para tudo que é a inutilidade, assim como não vou dizer que cada homem é um crime e que alguns crimes são imperdoáveis, não obstante, devem ser absolvidos.
Eu não vou dizer que a única coisa que nos redime é o amor. Também não direi que é assim que sempre acontece: ele nos liberta da vida maçadora condenando-nos à morte, e dá o veredicto com piedade. Não concluirei que os poemas de amor são, geralmente, tristes, por serem testamentos infinitos. Então, não aproveitarei o ensejo e não direi que o fim é infinito, e que o próprio infinito, às vezes, tem a delicadeza de se fazer de fim.
Assim, não vou dizer nada, porque nada é tudo que eu tenho a dizer."

ANTE:
O São João do Porto está a recuperar o vigor. Uma multidão bonita sempre a circular. A festa esmorece mais longe. A magia de romper as barreiras do pudor por uma noite e sorrisos abertos e luminosos do entardecer de 23 ao amanhecer de 24. Único no mundo.

mão:

(Em modo Luiz Pacheco, este é de uma clareza e lucidez difíceis de atingir, com um perfume de liberdade e regionalismo que pode resgatar muita gente de um sofrimento atroz, eheheh. Bom domingo )

DO EXPERTO

Há um crítico de poesia filho
de uma grandessíssima puta
que no entanto vingou
com o dinheiro da mãe
e hoje (sobre todos os poemas)
elabora sempre a mesma dolorosa
e sofrida recensão
(no periódico global)
em que chega sempre à mesma
conclusão
(primordial):
que é, ele próprio,
um animal.

ANTE:

numa deliciosa reportagem da Sic ("O teatro e as serras"), uma senhora de 83 anos dizia: "Quando ele se foi (o marido), o que me custou mais foi fechar a porta e ir para o campo." Porque ele estava sempre em casa e a porta ficava aberta.

Amanhã vou fechar a porta e vou para o campo - às segundas o corpo tem de se habituar a descolar do calor dos nossos e a casa fica vazia logo às oito da manhã.

Eu fecho a porta e vou para o campo.
 

mão:

 No ofício da escrita, sinto sempre que estou em dívida. Devo a quem lê de forma desassombrada, e não tenho o direito de não escrever. E isso é claro a uma segunda-feira pós-eleições, quando quase todos precisam de ser resgatados do guião do país medíocre, e quando a quase todos dói o dia e os nossos espaços e pessoas arrancados ao corpo outra vez. Ninguém me elegeu para escrever, mas isto não é democrático. É a melhor maldição. Prefiro dividi-la com as pessoas que estão e passam. Sou um bardo de solidão na multidão, como diria o Emerson. Tento não ser medíocre, mas como só o tempo largo dá relevância aos textos, é isso que é quem vai mostrando palavras. Em rigor, os poemas e os livros deviam aguardar cinquenta anos em casco de carvalho antes de serem servidos. É essa, pois, a incoerência da contemporaneidade que eu trazia na alma quando me convenceram a deixar imprimir as palavras ainda verdes e anémicas. Mas quero que creiam em mim quando digo que venho por vós, não por mim. Qualquer escritor que usa a primeira pessoa é confundido com um egocêntrico, mas o egocentrismo é uma das ilusões do nosso tempo. Os maiores egocêntricos disfarçam o discurso. Os puros de espírito, das duas uma, ou se guardam em casco de carvalho ou se mostram de vísceras e celebram a arte e acendem a luz de defesa de território nos pobres de espírito. Um amigo disse-me que eu sou uma boa pessoa mas tenho sido uma má personagem. Tem razão. Mas vejo-me cada vez menos preocupado com personagens neste caminho privilegiado dos livros. Sou o que sou, de veias dilatadas e sangue fervente em qualquer parte do corpo, desconfortavelmente inclemente com a mediocridade e a incompetência, tolerante com a insuficiência, perigoso para os maldosos, mas destes há poucos, embora tantos aprendizes involuntários. A noite ardeu num poema que me consumiu e que tenho de deixar amadurecer, desta vez, até ao princípio da tarde. A poesia em que eu creio escreve-se com cem palavras, não mais, e não pode ser críptica. Aliás, a literatura mais fácil de fazer é a que despreza o par e o elemento que lê. Páginas viscerais e crípticas são fáceis de fazer para quem é doente disto. O que me consome é o projecto absolutamente transparente que verbaliza o que era impossível horas antes. Assim "A carne da virgem maria", em que quis incluir uma e todas as mulheres, um e todos os amores, uma, todas e nenhuma fé a partir da figura de maria. Apresento-vos "A carne da virgem maria" ao princípio da tarde. Para fazer frente a esta segunda e depois zarpar, a todo o vapor, semana fora. Obrigado por "ouvirem".

ANTE:


Maravilhoso! - ao jantar, na Lourinhã, a 30 de Maio de 2014. A minha mesa com Zink e Júdice foi o cumprimento de um sonho, e só depois de acordar posso dizer alguma coisa. Já a do Adelino Gomes e Alfredo Cunha, à noite, sobre os rapazes dos tanques, foi memorável (como o livro da Lídia), forte, poética, histórica.

mar:

E para os que ainda não tiveram férias, e para os que já as usaram, tomai uma espécie de aforismo libertador do Cortázar, que devereis usar sem tento e substituindo "argentino" pelo que sois (eu colocaria "tripeiro", por exemplo), quando tiverdes de responder a alguma desfaçatez: "Como bom argentino descomedido na fala, a minha resposta é cortês mas inequívoca: puta que os pariu." ("Papéis inesperados", Cavalo de ferro, 2009, p20)
 
PG-M 2014
(fotos minhas)

2014-07-07

(não) exercício de teatro pleno


Esta crónica
(ou soilóquio ou monólogo ou didascália, o que quiserem, o que vos apetecer)
Esta crónica esteve para se chamar "exercicio a merda!"
(dialogando, de forma intelectualmente desonesta, com o conceito de merda/sorte teatral)
ou, tendo em conta  sensibilidade de alguns departamentos cutlurais, "exercicio o tanas!",
mas, como o próprio encenador lhe chamou exercício, achei que os princípios da boa educação não me permitiam um ou outro.

Permitem apenas dizer e defender ao longo das linhas seguintes que este pode não ser exercicio nenhum.

Falo da peça "Esta noite improvisa-se", de Luigi Pirandello, como encenada, precisamente, por Nuno Carinhas para o fecho de ano dos finalistas do curso de teatro da ESMAE (Escola Superior de Música, Artes e Espectáculo), Porto, e que esteve em cena no Teatro Helena Sá e Costa até ontem, 6 de Julho de2014.
E de como a vou comparar - disparate! - com "Turismo Infinito" e "À espera de Godot".

Depois de ter perdido, em anos anteriores, várias representações do "Turismo Infinito", no Porto e em Lisboa, largamente elogiada e com excelentes críticas e testemunhos arrebatados do público, fui finalmente vê-la quase em ritual (o ritual de quem precisa de alimento) - em Março deste 2014 - ao Teatro Nacional de São João. E, porque as expectactivas eram altíssimas, fui-me desiludindo ao longo da peça, quando percebi que a maioria dos textos não tinham outra carne, outro sangue, outra forma, porque nenhum deles houvera sido escrito para vir à cena, ainda que o próprio Pessoa teatralizasse a própria existência - don't we all? Não quero, não gosto, de magoar quem muito trabalha para dar o seu melhor, e esta é a posição de absoluta subjectividade de mais um urso, entre muitos, mas que tem uma relação profunda com todos aqueles textos de Pessoa e sus muchachos. Com a excepção do (este sim) solilóquio da corcunda Maria José (que alguns classificam como um heterónimo feminino de Pessoa) - excepcional na encenação e na representação inesquecível de Emília Silvestre - e da excelência do João Reis, a tudo o resto faltou força, corpo, carne - particularmente a todo o Bernardo Soares, que é uma luminária lido e foi um fósforo ouvido e visto. Aquilo de que fala o Genet, o Salazar Sampaio, o próprio Pirandello, entre outros, o teatro como respiração, o toque no braço do público, não esteve lá. Levei pessoas comigo, outros levaram pessoas consigo, e não há que ter vergonha de dizer que vi bocejos, enfado, tédio, como já tinha visto no "À espera de Godot", de Samuel Beckett, poucas semanas antes. Não, o teatro não pode permitir isto.

Os entendidos - eu não sou, eu sou um dos que esteve nas pontas dos dedos dos actores ontem, sou apenas público e exijo vísceras - explicar-me-ão (já o li em muitos lados) que Beckett é fundamental pela ousadia de novos modelos, por romper com cânones, e que a encenação de Ricardo Pais do "Turismo Infinito" tem uma quantidade infinita de méritos. Mas cairemos naquilo em que eu próprio caí quando me apaixonei por teatro: li teoria, li peças, li tantas coisas no silêncio e longe do palco, quis perceber como era, como se pensava, como se fazia, para, como autor, não escrever o inútil, e acabei por não escrever nada, fiquei avariado na grelha de partida, até me virem buscar para deixar a pele no texto para quem quer deixar a pele no palco, e escrever, escrever, escrever, experimentar aquele imediatismo, aquela adrenalina de quem visualiza a cena em acção mas depois tem a humildade - tem de ter a humildade - de dizer ao encenador, como ontem ficava claro no Pirandello, que "o autor não interessa", que "isto" (o papel onde estava escrita a peça) não existe.

E falo das grandes e consagradas peças do nosso quintal para explicar como é injusto e ridículo minimizar o que quer que seja pelo lugar de onde vem e por quem o protagoniza quando, no fim da peça, nós, no público, estamos arrepiados e temos a carne a vibrar e o corpo tomado, e experimentamos até outras dimensões. Sejam actores, encenadores, figurinistas, técnicos de luz e som experimentados, sejam actores, encenadores, figurinistas, técnicos de luz e som em tirocínio.

A mim nunca me tinha acontecido chorar enquanto aplaudia de pé, e chorar na cara da emoção dos actores e nas próprias lágrimas de uma das actrizes, a Leonor. Aplaudir de pé está banalizado, ouvia eu ontem quando as muitas palmas se calaram. Tenho visto, sim, pináculos humanos a erguerem-se quase automaticamente quando o pano cai, mas não nos devemos esquecer de que estamos a falar do lado positivo do arrebatamento e até de uma certa forma de comunicação que tem uma tradição de séculos. Deixá-los erguerem-se por aqueles que nos saudaram e "morreram" em palco.

Como há semanas o "Nós somos Rolling Stones", encenação de Gonçalo Amorim que me levou às lágrimas dos dois lados do planeta, noite e dia, choro e riso, com a fada que, depois de estar dez minutos a bater à porta, perguntava "porque é que demoraram tanto tempo a atender, caralho?" e nos brindava com esse libertador "foda-se!" quando não gostava de alguma coisa (era uma fada barbuda, foi um grande desempenho do Paulo Moura Lopes) até tudo o que todos os actores nos deram no limite do esgotamento físico, agora este "Esta noite improvisa-se" deixa-nos colados à cadeira: não por ser um exercício, mas porque, depois de nos excitar os sentidos (principalmente a ironia, que deve ser um dos sétimos sentidos) nos coloca num túnel regressivo de emoções e vem da cor para o cinzento - talvez preto e branco - corpulento, e nos apresenta muitos actores de nervo e (já) maturidade, e abre a oportunidade ao brilho da Maria Quintelas.

Como autor, estou convicto de que Pirandello falou em exercício por duas ordens de razão: porque uma das necessidades da comunicação da arte é tipificar intenções, principalmente à comunicação social, que era bem mais exigente e sabedora ao tempo em que a peça foi escrita; e porque não tem problemas em ironizar consigo próprio. No incício da peça, como já ficou dito supra, é claro quando escreve que "o autor não importa" (ou não interessa) e o põe na boca do encenador. Essa humildação primordial, tal como a contenção, é essência da arte, de qualquer arte.

Mas o que Nuno Carinhas encena é uma peça brilhante de Pirandello e uma declaração de amor ao teatro, não propriamente experimentação ou exercício. Quem viu sabe que, subitamente, a sala é um corpo único e o público um dos seus órgãos. Não é a primeira vez, não será a última, mas é uma das melhores vezes. O tirocínio de todas as funções teatrais corre maravilhosamente, da figurinista às luzes, dos protagonistas aos secundários, da encenação ao próprio público, que é chamado a tomar decisões, é questionado e criticado em cena e na plateia e dialoga directamente com o actor/ encenador. E a peça tem tudo, tem todas, as emoções, todas as vísceras.

E o colectivo, a turma finalista, não tem um único elemento mais apagado ou escondido, funciona como uma torrente que quase nos afoga de emoção - de todas as emoções, todas as vísceras. São cerca de quarenta e um só. Às vezes uma só.

Mas quero destacar dois, e espero que todos os outros saibam que foram olhados individualmente e estiveram brilhantes sempre que foram chamados (gostei muito do Alejandro, gostei da Catarina, da Mafalda, da Márcia, da Gabriela, gostei de tantos, tantos, gostei especialmente da humildade que transpirou e é rara no meio tão egocentrado do teatro - tantas vezes se fala de público, mas tão poucas o público sente que é o primeiro; tal como na literatura, de onde eu venho, tão poucas vezes o leitor sente que é, e deve sempre ser, o primeiro):

Destaco o Pedro Macedo, como corpo da comédia no colectivo. Desde a entrada em cena com o subtil e "sensível" "Volver!" até à assunção do leque.

E, claro, a Maria Quintelas, nos ossos de Momina. Foi ela a culpada por algumas lágrimas despropositadas, e não lhas perdoo, ai, não lhas perdoo mesmo, eu, que sou um homem, e os homens não choram (é essencial mentir, como o teatro, porque a verdade fica sempre clara - e simples - perante máscaras). A Maria teve o seu triunfo e destacou-se mesmo antes de restar no palco como protagonista. O que ela tem, teve ou terá não sei ao certo. Não sei ainda, embora pudesse perorar inconsequente e arrebatadamente. Seria inútil. Não é nada de físico, é algo de luz e posição e palco. Oh, mas isto é físico, não é? É pelo menos física. Química. Físico-química. Maria é físico-química. Vi outras encenações em que a Momina nem sequer cantava particularmente bem. O Nuno Carinhas, presumindo que tenha sido decisão dele (ou terá sido indicação do colectivo, ou de outro professor?) soube escolher a voz mais pungente, mais bela. E quando ela canta, e cada vez que ela canta, chora-se por dentro - e se ela não se detém, se prolonga aquele martírio branco, chora-se por fora. E, no terço final do espectáculo, ela protagoniza aquela inversão violenta que nasce no arco-íris de abordagens e estilos e desce ao pardacento espesso do drama, o Pirandello a manietar-nos (não sei se ele deixou didascálias ao encenador: "que Momina cante maravilhosamente, que Momina seja visceral, que seja Maria, que seja Maria!"). Para um autor, perante Maria Quintelas, há logo aquela deformação da diva retórica, teórica , ideal, que queremos para os nossos textos. Para o homem no público, tudo jorra, tudo verte, tudo se fixa no fogo de artifício de um ídolo que não se quer que desapareça. E o mais difícil está do lado do ídolo, quando desce: voa, aterra, apaga renasce? Bravo, Maria.


Não aceito, nenhum público aceita (e posso mesmo tornar-me um verdadeiro nortenho, com o execício pleno do calão, como este - não - exercício pleno de teatro) que me (lhe) digam, perante a minha (dele) máxima emoção, perante as minhas (dele) lágrimas, perante as minhas (dele) vísceras, que isto é uma peçazita e aquilo uma peçazona. Para mim, "Esta noite improvisa-se", encenação de Nuno Carinhas para o grupo de finalistas do curso de teatro da ESMAE 2013/2014, é, foi (que pena não voltar) a peça do ano ("Nós somos Rolling Stones" é capaz de empatar num plano tão alto), e eu vi Godot, e eu vi Turismo Infinito. Não importa. Não senti. E esta ferveu-me. Malvados.
Ainda estou a aplaudir. Malvados.

E a rir, que raio.
Que raio, Pedro.

E a chorar, que raio.
Que raio, Maria.

PG-M 2014
fonte da foto


2014-07-04

Tentativa de tradução da poesia (CL apresenta PG-M)

Catarina Lacerda apresenta Pedro Guilherme-Moreira e os seus dois livros publicados, "Livro sem Ninguém" e "A manhã do mundo"
(a única foto que saiu está desfocada e, literalmente, um "espanto" :) )

"Quando o Pedro me falou do diálogo entre escritores de diferentes gerações disse-me que o amor e a amizade se traduzirão sempre, no que à literatura diz respeito, por inclemência, inconveniência, e nenhuma contemporização. O que me me trouxe aqui hoje foram, essencialmente, o amor e a amizade, nunca a sua tradução. Confesso uma tentativa de tradução mas avistei, em pleno processo de moer a beleza e a eternidade, o meu fracasso. Traduzir seria escola, teoria, letra morta. Nunca poderia ter pressentido um convite destes. Nunca poderia sentir-me preparada para uma coisa destas. Não eu. Disso tenho a certeza. Viver é nunca nos sentirmos prontos para nada. Estamos no sistema cinzento, temos de estar, mas não há sistema cinzento dentro de nós. Como o Winston, protagonista de 1984, de Orwell. Mas como é que se explica a poesia a alguém? E estando aqui, como falar de um ser inefável, translúcido, que não quebra? Dizer que me ele me falou da medida certa das coisas. Que a humildade não é tão comum assim. Ele, que é um autêntico vulcão de poesia. Um vulcão sempre activo. E um leitor, no verdadeiro sentido da palavra. De pessoas, da poesia que está em todo o lado, do recanto, do café, do quotidiano. É um amante dessa banalidade que permite que o excepcional seja sempre inesperado. O escritor deveria estar bem perto de quem o lê. Este poeta de que falamos prontifica-se a uma autodesmistificação e é tão implacável como tem de ser. Foi ele que me disse que os eremitas são um mito, porque já todos o somos. Estamos sempre sozinhos. Mas é preciso um sítio onde pousar a cabeça, como procurava Manuel António Pina e tantos outros.

Pedro Guilherme-Moreira não é um ser circunstancial. É um homem alto, mais alto do que a média. A altura tentou ilustrar para fora o peso que carregava dentro. Sabia que a sabedoria não serve para nada se não somos capazes de esticar o corpo e desafiar as leis da gravidade para espreitar a literatura, que quando é louvável nasce por dentro e nunca para fora. O corpo do poeta rejeita com todas as forças a literatura pura exteriorizada. Ele está aqui, estão a vê-lo. Mas vejam com mais atenção como se agita na cadeira, como vos olha, primeiro desconfiado, mas frontal. Quando o conheci, não lhe percebi a poesia. Mas está lá, nele, essencialmente nele.

Os livros, agora dois, são as pernas que se estendem até aos leitores e que lhes acompanham as sombras dos dias. Uma rua sem saída estende-se pelo espectro de cores do arco-íris, com todas as casas iluminadas por dentro e com o escritor a caminhar pelas divisões de cada uma sem nunca tocar nos objectos, mas não os deixando intactos quando sobre eles escreve. E, como um ladrão que entra silenciosamente em lares alheios, fala sobre cabelos fugidios, roupa interior a secar ao sol, seringas esquecidas num beco. Um livro sem ninguém, um título matreiro que promete a eternidade das coisas e do pó que cai mais rápido sobre nós do que sobre elas. Mas há vida onde há corpo e toque e olhar debruçado. A cadeira onde se senta o poeta e estas de onde o olham têm tanta vida como os corpos que recebem. Antes de toda esta humanização através do objecto, já o escritor se tinha decidido a falar de vidas ceifadas, nunca pelo exterior, mas levando pela mão um leitor confortado pelos corredores de dois arranha-céus. Mostrou-lhe a asfixia e estranhos a falarem pela última vez. E nós apercebemo-nos de que podemos partir os vidros para respirar mas acicatar as chamas ou podemos deixar-nos morrer lá dentro ou saltar. Telefonar a alguém, arrependermo-nos. Tudo isto numa manhã que nunca ficou perdida no tempo, mas se tornou a manhã do mundo.

Ele esteve nas torres gémeas e numa rua sem saída e descobriu em ambos os lugares a poesia na luz torrencial dos dias e na noite inquieta daqueles que não dormem. A imagem do poeta é exactamente essa: uma luz acesa na noite. Em qualquer noite há um poeta que não dorme. Este, o Pedro, que pelo primeiro nome parece um filho nosso, disse uma vez assim:

tenho a cabeça cheia de poesia
mas nada nos dedos
os olhos a conter rimas
as mãos nos joelhos
e tudo
o que não se diz

A poesia que ele carrega é como uma deslocação dos ossos, que nunca mais lhe permitiu a total verticalidade do corpo. Não há menoridade aqui nem é coisa de nascimento ou de sangue. A mim, a poesia apanhou-me desprevenida num corredor que ia de uma divisão a outra. Nunca mais me livrei dela. Ele escreve desde sempre. Tropeçou em câmara lenta nela, em câmara lenta porque nos filmes todos os momentos marcantes merecem um abrandamento do tempo. Essa foi a primeira finta que ele conseguiu fazer à impermanência das coisas. Depois ganhou uma paixão total e aí nunca mais parou. Para nunca mais. O problema é que há muito poucos a ver. A cegueira é intemporal. Mas há mãos que chegam e ficam. Há eternidade. A limitação do corpo pode ser desmentida por uma música dos Sigur Rós. A vida é incluir. Incluir, incluir, incluir. A morte é rebentar. A morte devia ser rebentar, de lágrimas, de amor. E os textos deviam implodir e arremessar palavras contra a parede. E as palavras nunca morriam.

É difícil tirar de dentro
todos os pequenos poemas
encravados.

Mas a questão é esta: quem nunca se engasgou com a vida? O dia corre como qualquer outro mas de repente há uma deslocação, uma maré abrupta que inunda o rochedo em que nos achávamos, tão sossegado na paisagem. Não há sossego aqui. Além, o poeta continua a agitar-se na cadeira. Ele sabe que não há sossego. Conhece as marés mas mergulha fundo, não se abate por um céu cinzento. O abatimento só deveria existir se fosse arrebatamento, se a beleza fosse tanta e pesasse tanto que o peito não aguentava mais. Uma vez pedi aos céus que eles não me pressionassem o peito contra a terra, que o abrissem, que o rasgassem e deixassem entrar a primavera e o verão de todas as coisas, com o sol a tocar a pele seca do corpo. O amor não deixa a poeira do tempo varrer as encostas do peito. Morre-se, ainda assim. Morre-se. A poesia não. Nem o poeta, nem o homem que está dentro do poeta. Nem a agitação que carrega. Só o indizível é que tem tanto valor que pode ficar por aí. E há uma leitura superficial das coisas e outra marítima, que é a inatingível e que a escrita só deixa passar vislumbres. São as convulsões e as paragens cardíacas que ficam. A poesia é uma tentativa de guardar tudo numa pequena mão em forma de concha que é a memória. A memória é um dos maiores altares que edificámos sem querer. E o amor também, esse que é incluir até não existir mais espaço. Mas há sempre espaço.

À parte isso, guardamos em nós todos os sonhos do mundo."

Catarina Lacerda

2014-07-03

Lispector por Lacerda sobre PG-M

 
"O meu nome é como uma flor de lis ao peito: Lispector. Essa flor desabrochou era eu menininha, brincando à roda das palavras. Quando cheguei ao Brasil, chamaram-me de Clarice, nome enfeitado pelos medievais, que acharam que Clara não bastava. Então fiquei Clarice, uma figura com alguma claridade e um lírio dentro do peito. A mais nova da família, eu chorava a minha mãe e acolhia os gatos vadios. Foi aí que fui entrando dentro de mim, mas nunca me fechei. Têm dito que sou hermética mas eu estive sempre sangrando pelo mundo. A poesia explodiu em mim como uma onda pela primeira vez no Recife, quando tomava banhos no mar. Levantava leques de água no ar e sorria. Eu não mudei, não fiz concessões. Sou criança ainda, menina do mar e da areia branca. Ele também foi menino de praia. O menino crescido, agora já homem, já vacinado e ditador das viagens a tomar. Assina os poemas com três letras altas, que parecem fazer parte de um acaso, como se colhesse, sem pensar, maçãs de uma cesta. Ele é o conjunto das letras com o hífen a atravancar a harmonia do conjunto. PG-M, estranha forma de assinar poemas. Somos semelhantes, quase nascidos dos mesmos nervos, da mesma seiva. Porque eu me recuso a ser chamada de escritora e ele se desmistifica enquanto escritor. Eu não assumo, quero a liberdade de quem não tem nome. Ele vem e está ao alcance de um braço esticado, não foge, não se refugia na falsa eloquência do fato e gravata. Já o conheço há muito tempo. Antes de ter existido andava a ser sonhado por quem rasga o mundo e suja as mãos de terra para encontrar a verdade. A febre refugia-se em nós e as vísceras, apesar de habitarem corpos diferentes, também são gémeas umas das outras. E os pontos de interrogação sangram-nos as costas e lembram a urgência das respostas que tardam em chegar. Eu nunca esperei que alguém me entendesse ou que chorassem por causa de eu existir. Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca. E sempre houve tanta inteligência e tão pouco toque. Toque como a confirmação do eco, o grito que vem do lado de lá e que nos acalma o vazio. E escrever é o meu eco, é a confirmação da minha vida. Eu acho que quando não escrevo eu estou morta. Só depois posso renascer, tomar o espírito de algo novo que se anuncie pela manhã. Mas é tudo muito incerto e escrever não é nada um prazer. Sempre senti que escrevia como se fosse para salvar a vida de alguém, só mais tarde vim a entender, numa luz do fim do mundo, que me resgatava a mim dos escombros do caminho. Tinha feito a travessia o tempo todo com um fogo cá dentro e estava em meu poder provoca-lo ou deixar que se desvanecesse. Para trás já tinha ficado muita palavra. Este escritor, com um nome que se enrola na língua como as vagas do Atlântico, também balança entre a luz clara das palavras de todos os dias e aquelas que não saem nunca. O mais simples é dizer que advoga, escreve e estaciona carros nos Poveiros. O resto só a poesia explica, aquela que ele traz desde menino e não sabia explicar de onde vinha. Talvez falasse para dentro ou subisse aos cumes das palavras. E aí, no cimo delas, atira-se das torres gémeas, de mãos dadas com os jumpers. Imortaliza-se em verso. Agora escreveu um livro que não tem ninguém, ou que tem ninguém, ou que não tem alguém. Talvez, se o livro estiver mesmo deserto de gente, possamos encontra-lo ao fundo da rua do arco-celeste. Mas o poeta está em todo o lugar, em toda e qualquer disposição dos objectos, nas sombras, na intensidade da luz. O poeta terá reparado na poesia das coisas ainda muito cedo e a ela se rendeu, à falta de outra hipótese. Também eu acabei por saber, que eu tinha poderes que eu não entendia nem queria entender, mas a vida em mim os havia retido para que um dia enfim desabrochasse essa matéria desconhecida e feliz e inconsciente que era finalmente: eu!, eu, o que quer que seja."

Monólogo escrito e lido por Catarina Lacerda
(vídeo com vislumbre dessa leitura abaixo)

Catarina ao mundo


Ao mundo, importa que a Catarina aspira a entrar na universidade com 19 valores, que foi e é uma aluna exemplar e tem sido uma promissora actriz amadora.
A mim, o que me importa na Catarina é o nada. A consciência do nada - de onde se nasce e onde se pode morrer, por onde se pode passar. A humildade de travar as pulsões de arrebatamento que frequentemente a cercam, por ser quase sempre encantadora, quase sempre muito boa, muitas vezes genial. Com 18 anos, poucos têm essa consciência do nada. Ela tem.

Conheci a Catarina Lacerda - ou melhor, os olhos infinitamente indagantes da Catarina Lacerda, porque nada mais recordei depois desse acontecimento - num encontro do grupo de teatro amador de que ela faz parte, o contra-regra, residente na Escola Inês de Castro, em Gaia. Ela já me vinha sendo apresentada pela sua professora de teatro, Joana Félix, como um caso sério na abordagem à arte cénica e literária. Esse encontro pretendia apresentar-me aos actores que iam representar o prólogo que eu tinha escrito para a peça "As Criadas", de Genet, aos actores que iam actuar na própria peça (a Catarina estava entre estes) e aos professores. Foi, como eu costumo dizer, daqueles momentos que marcam, uma hora material, não formal, e que eu abordei no texto "Da beleza", que li antes do espectáculo que esse mesmo grupo viria a construir em torno do "Livro sem Ninguém".

A professora Joana vinha dizendo que ela mostrava pouca coisa do que escrevia, que se resguardava muito, e eu não fiz mais do que pedir directamente à Catarina que me mostrassse alguns textos, primeiro devidamente seleccionados por ela, e depois muitos outros, quase todos em bruto. O que li assombrou-me. A Catarina escreve sobre o imaterial (que não se opõe ao "material" supra) como tenho visto poucos escrever, e aqui não tenho qualquer dificuldade em trazer todos a jogo, os nossos grandes, os de sempre. Os textos de amor da Catarina, por exemplo, continuam reservados e por trabalhar, mas são tão bonitos que quase assustam, significam uma vivência elaborada, madura, um crescimento e ponderação serena dos conceitos, e muitas, muitas, muitas e boas leituras.

Ora, a Catarina fez 18 anos no dia em que saiu o Livro sem Ninguém, e fica por isso indelevelmente ligada a ele.

E eu, como sempre fiz aos meus estagiários de advocacia - ela talvez seja a minha primeira "estagiária" de literatura - coloquei-lhe desafios conscientemente ousados.

O primeiro foi personificar uma figura literária à escolha dela, que apresentaria o autor e o Livro sem Ninguém na sessão da Fnac do Gaiashopping, onde teria parceiros de peso (como a Maria do Rosário Pedreira, o Miguel Miranda, o Luís Miguel Rocha e uma assistência exigente) com a "agravante" de ter de ser ela própria a escrever o monólgo. Só quem lá esteve sabe como ela tocou todos. É isso que ela faz. Podemos até discutir a qualidade literária e a capacidade de comunicação da Catarina, mas o que é indiscutível é que ninguém lhe fica indiferente e todos, invariavelmente, me falam daquela menina encantada e encantadora. A Catarina é, essencialmente, de uma rara profundidade: como é actriz amadora, parte do trabalho dela é conseguir comunicar essa profundidade. Mas literariamente ninguém lho pode exigir. Mas o trabalho de transformação do conteúdo literário puro em texto dramático foi, creio, estimulante para ela, e o resultado foi este: Lispector por Lacerda sobre PG-M (vislumbre da leitura da Catarina neste vídeo)
No espectáculo da Noite sem Ninguém, a Catarina reformulou e adaptou o mesmo texto e o resultado foi ainda melhor, como pôde testemunhar o muito público presente nessa noite mágica.

E agora, na Feira do Livro de Braga, quando o grande Bruno, dessa instituição cultural quase benemérita (para tantos escritores) em que se está a transformar a Antunes Livreiros, me deu a ideia de levar à apresentação de 2 de Julho "aquela rapariga encantadora", eu complementei com uma inversão das normais regras do jogo nestas coisas: e se, em vez de uma leitura dramatizada, fosse ela própria a apresentadora? - algo que me era particularmente grato, depois de andar a ouvir há algum tempo comparações de "estatutos" de quem pode apresentar quem, como se estas coisas fossem lá pelo tamanho, e como se houvesse alguma instituição para aferir da grandeza de cada artista. E foi então essa a originalidade: foi a Catarina que me apresentou em Braga, como este texto: Tentativa de tradução da poesia

O efeito foi parecido. Encantamento. Respeito de todos os quadrantes.
Porque a Catarina leva muito a sério estas coisas e aproveitou as oportunidades que lhe foram postas na mão.

Temos pois os debutantes - como escritores, que normalmente são grandes leitores -, os consagrados (onde são claramente minimizados os professores universitários, e há tantos recensores de pacotilha que têm a aprender tanto com eles) e os "in-between" (esses, que pululam, que andam em todo o lado).

A Catarina, para mim, são palavras, mais nada.
Leitora exemplar, escritora que pratica diariamente o exercício da humildade.
A publicação em papel, e ela sabe-o, não é o mais importante. Há um crescimento - dela e de todos - que é mais importante e se faz com suor e trabalho diário.

A publicação é um acidente do tempo, é o compromisso com a contemporaneidade, com os que nos querem espreitar hoje, mas só o tempo julgará e decidirá. Publicar é o casco de carvalho onde se coloca a envelhecer o néctar (a matéria literária).

Em Braga, a hierarquia do livro foi invertida: se é liderada pelos hipermercados, a que se seguem os supermercados, os minimercados, os postos de abastecimento, os distribuidores, as casas editoras, as livrarias de grandes grupos, os editores, os recensores, o autor (finalmente!), os amigos do autor, os livreiros, as universidades, os leitores e as escolas, foi totalmente invertida em Braga para aparecerem em primeiro lugar a escola (que me trouxe a Catarina) e os leitores (que nos compram, nos lêem e nos apoiam ao vivo em troca de uma assinatura, às vezes nem isso); e grandes livreiros, como, por exemplo, esta Antunes Livreiros e este Bruno que me enche a alma.

E depois da Catarina ao mundo, um pouco de silêncio e descanso.
Ou o que ela é para mim: nada e depois tudo a cada frase de cada dia.
Palavras e silêncio, bom silêncio.

Como eu li em Braga, rezava o Emerson há duzentos (!) anos (p22, "A confiança em si, a Natureza e outros ensaios, Relógio d'água 2009, que Walt Whitman diz tê-lo colocado a ferver e Matthew Arnold disse ser a mais importante obra em prosa alguma vez escrita:)

"(...) O tempo e o espaço são apenas cores fisiológicas fabricadas pelos olhos, mas a alma é luz; onde ela está é dia, onde estava era noite. (...)
O homem é tímido e temeroso; já não caminha direito; não se atreve a dizer "eu penso, "eu sou", mas cita alguém, santo ou sábio. Sente vergonha perante o rebento da planta ou a rosa que se abre. Estas rosas sob a minha janela não fazem qualquer referência a rosas anteriores ou mais belas; são aquilo que são; (...) Não existe tempo para elas. Existe simplesmente a rosa, perfeita a cada momento da existência. (...) na flor desabrochada não há nada a mais; na raiz sem planta não há nada a menos. (...)"

PG-M 2014

2014-07-01

Chico, Carol, Vinil (sem ninguém)

Esta cena fica a oito mil quilómetros de distância e estava no mural da menina que disse a Tabacaria espontaneamente e rezava assim:
"Os bons dias se passam assim..."
Orgulhoso. Infinitamente orgulhoso. By the way, o Chico tem "A Manhã do Mundo" devidamente autografado . Falta chegar-lhe este "Livro sem Ninguém" às mãos. 

2014-06-25

Victoire et l'Immortalité


Victoire, escuta,

as vísceras são água

olha para mim

tenho a boca fechada e o queixo
imóvel, isto no mundo não são
lágrimas

um homem não chora
os olhos dos cães vagabundos de Paris também não.

ficam à tua espera, Victoire,
para serem lidos

como não choram os cisnes
do bosque de Bolonha
ficam à tua espera, Victoire,
para se dobrarem

como o Orfeu debaixo das minhas mãos,
cuja dor eu moldo surda e seca,
os cães vagabundos de Paris e os cisnes
do bosque de Bolonha são só

movimento

(c'est à toi, Victoire, l'immortalité)

e o cão olha-te
enquanto te dobras para o alimentar
e o cisne dobra-se
enquanto o olhas para te alimentar

e, como eles,
o homem não chora,
Victoire,
o homem

move-se 


PG-M 2014
foto do Orfeu, do escultor Alves de Sousa, não exposto, mas doendo naturalmente à entrada de um pavilhão da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Como bisneto, gosto muito que ele lá esteja, assim, como está. Victoire foi a mulher que ele amou.


2014-06-20

os autos de interdição de maria

Excelentíssimo senhor juiz de direito:
não alcançado o poema,
ofereço o merecimento dos autos
de interdição de maria
legitimando o abraço
tão alto e
tanto,
tão alto e
tanto, tanto, tanto,

do seu marido
carlos

(podem ser lágrimas ou um momento
na sombra, o carlos
a limpar a boca
a maria,
o seu amor,
a afagar-lhe o cabelo ralo
e branco,
a falar do que ela foi
ao senhor professor perito
e ela ali, ausente,
com o olhar nas
faias,
digo-lhe adeus, espreito
o fundo das pupilas,
ela nas faias subindo
até mim,
a mão a assomar da
estola
está quente na minha
faço-lhe festas suaves e sei
que amarei o meu amor como o carlos o seu
maria foi decretada nada e está toda
na minha mão
na copa
das faias

choro

o carlos diz poesia na entrada de psiquiatria e a afilhada
catedrática de histologia
ainda se deslumbra

não redigirei o relatório
da diligência

quando a poesia é tão alta
e tanta, tão alta
e tanta,
tão alta e
tanta, tanta, tanta,

toca o silêncio
e não se diz

PG-M 2014
fonte da foto

2014-06-12

Começo hoje a adolescência e tu não existes





Começo hoje a adolescência e tu ainda não existes.
Por não saber nada de ti, mas aspirar a ti, invento-te e faço-te o culto como se pudesses ser real.
Assim, se compareceres, saberei que és tu.
Não precisarei de te fazer perguntas.
Posso estar no leito da morte e tu no curso da vida, saberei.
Se me deixares ler-te o olhar ou divisar-te a sombra ao longe, numa determinada inclinação. Saberei.

Começo hoje a adolescência e acordei com o quarto cheio de verão, porque neste tempo ainda há verões, os melhores das nossas vidas. A mãe, como sempre, abriu a persiana cedo, depois a janela. Habituei-me a não acordar quando o quarto fica com a cor leitosa e firme das dez da manhã. Como a praia é perto, começam a entrar os sons abafados que, daqui a alguns anos, identificarei como sinais do resgaste da leveza à existência. Ou felicidade: os gritos das crianças e das gaivotas, os motores dos barcos na água, o pregão das senhoras das batatas, o cheiro a óleo de coco e a creme nívea, o iôdo, a maresia que sobe as casas da primeira linha e nos cai no jardim.
A mãe abraça-me e dá-me os parabéns, diz-me que finalmente sou um homem, eu escrevo duas coisas no diário de bordo, engulo o leite achocolatado com pão com manteiga, visto os calções e a t-shirt do naranjito, e, ainda antes de os irmãos se levantarem, porque é dia dos meus anos e no dia dos meus anos levo a manhã para solidão, saio à rua. Levo a toalha, mas não levo a bola de voleibol. Hoje não quero grupos, quero distância.
Porque tu ainda não existes.
Caminho cinquenta metros e derivo da entrada principal, subo a duna maior e lá está, o mar daquele azul que os olhos nunca mais terão - esgotada a inocência e a pureza, a areia daquele bege aveludado que os pés nunca mais sentirão por causa do peso dos dias, o ar com aquela humidade salgada que os lábios nunca mais provarão depois de serem beijados sem corpo.
Estendo o braço direito para que o sol te mostre a minha pele dourada.
Tu beijas-me a dobra do braço sobre a artéria radial, está quente, cheira bem, é o lugar onde a cabeça encaixa quando os abraços se transformam em colo, é o lugar onde dormes e, ainda que não existas, há uma certeza na minha pose acocorada na duna, nos olhos semicerrados que absorvem toda a luz que as pálpebras e as pestanas não filtram.
Que eu já te amo.
Os amores profundos não são difíceis.
O amor que existe em todas as partes do corpo quando as perguntas começam a ser feitas é um sereno e solitário monólogo onde ela se vai encaixar quando chegar.
Se ela chegar.
E se ela chegar, reconhece-se. Reconhece-nos, porque fez a mesma vida.
Teve-nos nos braços no recesso das dunas ou numa montanha lunar.
E o amor prossegue em monólogo, mas troca de sujeitos.
Nós somos ela. Ela somos nós.
Começa o caminho da imperfeição, desce do absoluto, passa a residir nas coisas simples, nos detalhes, no efémero, deixa de ser uma aspiração, é apenas a fragilidade da existência protegida pelos braços dos ventos e das marés que, afinal, se observavam sem ninguém, muito antes do combate.

Às vezes o detalhe é um pormenor gigante.
Fica-se feio de parte a parte e o amor absoluto, que não é possível ser vivido nas falhas dos ossos e da carne, mas não tem necessariamente de morrer, tende a esgotar-se nas dores musculares da treva. Há os que cuidam de o manter, mesmo depois da separação, de forma maternal ou paternal e sob a incredulidade dos novos intérpretes. E então, nas costuras intestinas dos panos das barracas, nas praias, subsistem, por irreverência, amores absolutos sob todos os ventos e marés.

Começo hoje a adolescência e tu ainda não existes.
Certos miúdos e miúdas pensam nestas coisas.
Na praia, lá em baixo, ainda não consigo ver os amores absolutos que sobraram dos verões. Só naquela hora do abandono, quando os banheiros começam a levantar os panos das barracas, consigo perceber o que sobra. Às vezes sobra só sexo. Outras apenas ternura. Outras uma empatia suave e externa. Raras vezes vi nas torres de panos de barracas recolhidas no casebre de madeira pintado de vermelho e branco aquele que pode vir a ser o nosso amor, abandonado à míngua da vida, espécie de antecipação de outono.

Hoje à noite, vestido de gala com as minhas Levi's novas e uma camisa bordô às estrelas que o pai não usa, as fotografias vão suspender vários sorrisos abertos que os rolos de trinta e seis não mostrarão de imediato, abre-se o bolo, sopram-se as treze velas, serve-se o bolo, corre algum champanhe, tang e coca-cola sem variações, pudim boca-doce, o bolo de bolacha da mãe e as notas de dez contos dos avós, por isso não posso, não posso até que seja muito de noite, a mãe vá fechar a janela e a persiana e eu venha, sem ninguém perceber, à porta da lavandaria, ao pátio das traseiras da casa, levar-te aos lugares que eu inventarei para ti, certamente uma avenida em nova iorque ou um sotoportego veneziano, um acampamento no topo da fuente dé ou uma planície amarela para cavaleiros de triste figura, um bosque de abetos no liechtenstein ou então apenas uma boca de incêndio mais recatada no alto de um bairro social onde não nos beijaremos, sequer nos tocaremos, não daremos as mãos ou passeios um ao outro, porque cuidaremos primeiro do amor absoluto.

Começo hoje a adolescência e tu ainda não existes, continuo a morte e tu tardas, prefiro pensar, no último suspiro, que afinal te conheci, do que ter uma vida de dias bonitos e tormentosos como o de hoje.
Tinha-te dito que o mar está azul e é um verão antigo.
Como os melhores.

PG-M 2014



2014-06-08

Da Beleza







Agora bou explicar o que se passou este ano entre mim e a escola Inês de Castro e o que se ia passando ao mesmo tempo entre mim e o resto do mundo.

Mais ou menos quando eu falei pela primeira bez com a professora Joana, defendi no tribunal um rapaz de 17 anos chamado Hernâni, que era daqueles um bocadinho atrasados e já num estuda e tem a compulsão de conduzir carros. Pega nos carros dos pais e dos amigos e anda até esgotar a gasolina. É preso porque abastece sem pagar, mas num tem uma berdadeira noção do que faz. Ele só quer rolar, rolar, ber as luzes da ribeira, do rio, da abenida, o mar da marginal, os meninos a sair das escolas de onde ele sempre fugiu, e a ponte, claro. No fim do julgamento, ele, quase da minha altura e ainda mais gordo e um bocado bruto, agarrou-me por um braço, a mãe tentou impedi-lo e eu disse para ela deixar,

deixe, deixe, não faz mal.

Então o Hernâni abraçou-me, deitou a cabeça no meu ombro e disse assim, agarrando a minha grabata às riscas:

Nunca ninguém tão bonito me ajudou.

Ele queria referir-se ao fato, não a mim, porque eu agora só uso fato em tribunal quando bou defender os pobres. Num é que eu num seja um rapaz jeitoso, num é que não me tenha começado a arranjar quando comecei a ser chamado para estar com mais pessoas, pelo menos depois de perceber que me expunha menos se fosse mais normal, e mais normal é mais belo para o Hernâni, mas não para a maioria de nós.

Nunca sabemos de que lado está a beleza que nos interessa.

Se por fora, se por dentro, se de lado, se a fazer o pino, se num sorriso ou numa lágrima.

Ainda agora, aqui, neste auditório, os que me estão a ouvir estão a pensar sempre em dois lados: se bai ser fixe ou se bai ser uma seca, se bai comover ou entediar, se bai ser bonito ou feio.

Mas a beleza já cá está, e não é minha.

Por exemplo: eu num mereço ter uma mulher tão bonita, e ela insiste em ser a mais bonita do pedaço, mas que nem pense que lhe bou fazer aqui uma homenagem estúpida qualquer, se no primeiro libro eu lhe expliquei porque é que nunca lhe faria uma dedicatória, e num é que lhe fiz uma neste? E é tão exagerada que ela num pense que bai ter outra.

Claro que a mulher pode ser musa, claro que muitas bezes é, mas o que importa, acima de tudo, é o cheirinho que está no ar de todas as casas às oito da noite, e que é quase sempre obra das mães. É muito diferente quando é feito em solidão, quando se cozinha para ninguém. E esta mãe que é a minha mulher, tal como a mulher que é minha mãe, são destacadas neste ebento literário para dizer que, tal como o Hernâni, transcendem e superam a literatura, e afinal são o fundamento dela, como todos e cada um de bocês. Eu num quero ser um artista atormentado, e já lá bão os dias em que precisava de sofrer para escreber, agora escrebo melhor se tiber colo e abraços e uma mulher que me faz sopa de agriões e me muda a etiqueta dos fatos. E muitos já sabem: nós, os parolos do norte, num bestimos fatos Armani, roubamos as etiquetas dos fatos Armani nos outlets e pedimos às nossas marabilhosas mulheres para as coserem nos nosso blazers horríbeis e baratos que passam a ser caros e blasés.

Ora, há um ano eu era um terórico do teatro, um putativo Armani, até conhecer este grupo de blazer, o contra-regra, e esta escola, que já admiraba de trás, quando entre os escritores se comentaba que nenhuma escola trabalhaba tão bem como esta. É por isso que a noite de hoje é um sonho antigo, espécie de globos de ouro da literatura. E já é bom estar nomeado. Pois eu lia teoria do teatro e tenessee williams e tchekov e o diabo a sete quando me perguntaram: nós num queríamos abusar, mas habia alguma possibilidade de escreber o prólogo de uma peça? O morro teórico ruiu, eu escrebi, percebi que não habia escrita mais imediata do que a dramática e um dia bim conhecer o coração do grupo: numa roda no meio da sala de ensaio, o comando da professora Joana e do professor Pedro, os olhos da Catarina, os lábios da Mafalda, o sorriso da Daniela, os cabelos da Rita no meu ombro, os beijos que a Maria não queria e eu dei, o Gui, o Daniel e o outro Pedro. Tudo me pareceu, também, a corporização da beleza. E eram todos Armanis.

E nós somos sortudos porque ainda podemos tentar ser bonitos, porque o Hernâni nunca se interessará por etiquetas em fatos, e só quer conduzir infinitamente.

Eu a tentar fugir para os cafés de praia para surpreender em palavras o rasto dos objectos no mundo das pessoas e o Hernâni a roubar gasolina para nunca mais parar.

E afinal, na cara destes puros, regressámos em toda a arte ao primordial, ao simples, que em contexto é tudo o que é preciso, como nas redacções da primária: Eu tenho uma casa amarela e gosto muito da minha casa amarela. Eu passo as férias em frente ao mar e por isso gosto das minhas férias. Eu gosto do mar porque é salgado. Eu gosto da areia e de fazer castelos na areia.

A Bera é bonita. A mãe é bonita. O filho é bonito. O pai é bonito.

Os irmãos, os sobrinhos, os cunhados são bonitos. A madrinha e o padrinho são bonitos.

A professora Joana é bonita. A Mafalda, a Daniela, a Catarina, a Rita e a Maria são todas bonitas.

Os Pedros e o Gui e o Daniel são...engraçaditos.

O Hernâni, que não cheirava particularmente bem, tinha uma tshirt curta a deixar ber a barriga, um casaco cheio de buracos e o cabelo despenteado, o Hernâni é agora, para todos nesta sala, o mais bonito.

E eu também sou, mas só por isto:

Porque nas aldeias remotas deste país, sem facebook, ainda dizem que eu sou um rapaz jeitoso,

E porque a Margarida de uma delas, de Trancoso,

a rapariga tetraplégica que eu num conheço pessoalmente e é minha amiga no facebook (e bão ber como é falso o facebook!) e apaixonada por literatura porque, como ao Hernâni, a deixa conduzir sem parar, escreveu aquele comentário público num dia em que conseguiu estar desligada dos ventiladores, porque ela diz que é tão feliz quando o corpo lhe dá descanso e respiração e ela consegue escrever calmamente no facebook com aquela caneta de boca, e nesse dia resolveu dedicá-lo a mim, e não foi o comentário sobre o meu primeiro livro, A manhã do mundo, "Pedro, senti-me aquelas pessoas todas e morri feliz com elas a saltar das Torres, acreditas?", e eu só dizia "acredito, Margarida", mas só pensava, "como é que esta menina sem sorte decide que o bocadinho da semana em que não se sentiu sufocada é para me fazer um elogio a mim?", nem foi um comentário ao segundo, o Livro sem ninguém, quando me disse

"Agora cala-te, Pedro, passei o livro todo em lágrimas por me mostrares a vida normal do mundo e o meu corpo inexistente não aguenta mais poesia", e como eram bonitas estas palavras, e ela a insistir que só as conseguia escrever bem, não as conseguia dizer bem, porque a língua se arrastava e ela ficava feia no esforço e não se queria sentir ainda mais feia, até fechava os olhos quando passava os espelhos ao colo da mãe,

não, não foi nada disso, eu sei que sou bonito por causa do piropo mais simples, o que ela me deixou a uma fotografia que me tiraram na última Feira do livro do Porto, a última de todas, em que ela escreveu, entre fôlegos: “Ai, Pedro, tu tiras um pessoa do sério” (estão a ber como é falso o facebook?)

E eu, que sou uma menina, chorei que nem uma Madalena.

E pra num dizerem que o facebook são só likes e links, vou contar-bos o que é que a Margarida de Trancoso fazia quando num podia. Pedia à mãe para, invariavelmente, lhe colar uma ligação para uma música no facebook.

(original de James Shelton)
interpretada pela Elkie Brooks, mas neste caso inspirada na versão cantada pela Nina Simone, aqui resumida.


Quando aquilo aparecia no mural dela, nós já sabíamos que ela estava piorzita, e nessa música ela dizia sempre a mesma coisa, no mesmo tom, na mesma voz, segura, olímpica, visceral, emprestada pelo Jeff, e em que a mulher amada e perdida passava a significar apenas vida. A vida dela. E a embriaguez da árvore lilás o alívio do corpo pelos medicamentos.

E a ladainha era mais ou menos assim:

I lost myself on a cool damp night
I gave myself in that misty light
I Was hypnotized by a strange delight
Under a lilac tree
I made wine from the lilac tree
I put my heart in its recipe
It makes me see what I wanna see
and be what I want to be


When I think more than I wanna think
I do things I never should do
I drink much more than I oughta drink
Because it brings me back you...

Lilac wine is sweet and heady, like my love
Lilac wine, (...)
Listen to me... I cannot see clearly
Isn't that she / coming to me / nearly here?

Porque a literatura não vale um tostão furado se não der braços e pernas e sensualidade e música a todos as Margaridas de todos os Trancosos.

E porque me chegam todos os dias histórias de Hernânis e Margaridas e todos os artistas e profissionais aqui presentes sabem que basta um destes pra dar força / e resisitir à neblina dos dias, que todos sabem como são privilegiados e esgotantes e bonitos, e aqui não há tédio, só beleza e riso.

Obrigado e biba o contra-regra, a Inês de Castro e bocês todos.

PG-M 2014
 

2014-06-05

Noite sem Ninguém

Todos os leitores deste blogue estão convidados a assistir gratuitamente ao espectáculo que será montado pelo grupo de teatro contra-regra em torno do "Livro sem Ninguém" - e que terá uma única apresentação amanhã,sexta, 6 de Junho de 2014, pelas 21:45h, no auditório da Escola Inês de Castro (parte nova), em Canidelo, Vila Nova de Gaia (em frente ao Golfe da Quinta do Fojo). O primeiro desafio é Luís Filipe Menezes falar de livros, e não de política. O segundo é o autor improbisar. Depois regressa Clarice Lispector e entra o contra-regra. A partir de pequenos excertos do livro haverá pretexto para cantar bossa nova, dançar tango (dançarinos profissionais)
e ouvir música e ver imagens que o livro só costuma mostrar para dentro de cada um. O contra-regra, sendo um grupo amador, não brinca em serviço. Ensaia uma peça de Genet - talvez a mais intensa de todas as peças de Genet - (que tem prólogo do autor) desde Novembro de 2013, para a apresentar apenas em Outubro de 2014. Pedro Manana, Joana Félix, Catarina Lacerda, Rita Querales, entre outros, concendem ao autor o privilégio de darem vida a um Livro sem Ninguém numa Noite sem Ninguém, que terá venda de livros e Porto de Honra com comes, no final. Apareçam.
Este espectáculo contará com a colaboração especial do próprio pai do autor, Guilherme Moreira, que interpretará - diz ele que pela última vez em público - A Lenda das Rosas, o belíssimo poema de Linhares Barbosa. É, pois, oportunidade única, e provavelmente irrepetível, de ter três gerações de Guilhermes Moreira no mesmo espaço público, já que o mais novo também estará presente. Abaixo podem ver o cartaz do evento, e ouvir, desde já, A Lenda das Rosas, por Guilherme Moreira:





2014-05-29

O meu leitor paulista Francisco e a minha leitora carioca Irlane

Começo pela Irlane carioca, porque a comoção do Francisco paulista vai ser contada toda por imagens.
A Irlane segue-me em ambiente de blogue e facebook,  e descobriu um post do ano passado que era uma ironia em tese política e social sobre o advento das redes sociais, olhando para o futuro e questionando o esvaziamento da palavra amigo, propondo, precisamente, "Inamigo". Ora, a Irlane pediu-me uma definição de inamigo para remessa ao projecto do Dicionário Informal, o que fiz. O notável neste duplo encontro (que aconteceu no mesmo dia por causa da pasta "As Outras", abaixo explicado) é a exigência, sabedoria e disponibilidade destes leitores. Como eu lhes disse, eu, mais do que escritor, sou servente de leitor. É o privilégio máximo ter pessoas assim perto de nós. E claro que isto acontece a muitos mais: mas, se acontece, que se celebre. Admiro muito leitores exigentes e dinâmicos, que não se deixam ficar no seu posto, que tentam chegar até nós: é a vantagem da contemporaneidade porque o resto são desvantagens. Como já muitas vezes disse, o textos deviam todos ficar a maturar cinquenta anos em casco de carvalho. Aqui fica a justa homenagem. A história do Francisco paulista vai contada pelas imagens do encontro, começando pelo meu post de hoje no facebook. Imagens com palavras, em vez de apenas palavras, para o coração aguentar :).

O meu post de hoje:


O post do Francisco, em 15 de Maio, no seu mural:
As palavras em privado - que me comoveram, mas que me escaparam ao tempo, e eu li quase duas semanas depois - e que o Francisco autorizou a revelar:

E depois do grato encontro:
  

Maravilhoso, no mínimo. Agora a gente já não se perde.
Obrigado a ambos. A todos.

PG-M 2014

2014-05-26

a carne da virgem maria


maria serve na perfeição
os ossos
de todas as mulheres
e dá de beber
à fé

ou nada

maria é
franca e assombrosa
tem uma luz branca na pele
e um segredo na boca
e um vinho a correr
na voz
e o firmamento
no rosto

e tudo

música e
o sangue nos astros 
o curso claro de um rio
nos olhos
o mar nos braços
o mundo na palma
das mãos

voltadas para cima

maria tem o colo formado
por tempo
e quando
tu surges no átrio
(tu e todas as mulheres)
ou nos planos da noite
ou nos beijos marginais
ou correndo menina
no pátio
ou mãe no espelho
ou sobre o meu corpo
nua
ou primordial

em todos os lugares
e a todas as luzes

e o amor é tão
insuportável
e tu tão admirável
e bela,

eu lavo-te os pés
e choro por transcendência
e digo que és

(por causa da figura divina
 sobre a credência
e do lamento insanável
dos dias)

a carne de todas
as virgens marias


PG-M 2014




2014-05-17

Que nunca se cumpra um silêncio


 Não há um espaço nem um tempo para ti.
Vi-te dissimulada num fiorde, incrustrada numa gôndola a fluir silenciosa num canal menor, como estátua efémera nas puertas del sol, a dançar num coreto mineiro, enrolada num xaile num prostíbulo lisboeta, inclinada da janela de um táxi amarelo na quinta avenida, a fumar uma cigarrilha na Closerie des Lilas. O facto é que na plateia do La Fenice não há mais ninguém. Só tu de cabelo dourado e ombros descobertos e ainda não sorris nem usas máscara.

És, como eu supunha, perfeita e intemporal, e por isso a mais bela mulher do mundo. Também não há ninguém no palco. Ninguém, portanto, só tu e eu. Seis de março de mil oitocentos e cinquenta e três, mas, ainda assim, nunca serás a mulher caída*. Podes ser Violetta, não importa, podes ser tudo, eu serei Alfredo ou outro qualquer.

Escorre o sangue do espectáculo no fim de todas as cenas e não haverá acto, nunca haverá acto, só desejo, Violetta Valéry. Quando o pano cai tu estás no centro da plateia e eu estou no centro do palco. Ainda não chegou o momento. Por ora, insinuas-te por trás da multidão e chegas ao backstage como todas as mulheres, indistinta e colectiva, sem cheiro e sem cor, sem imagem nem brilho. Na mais bela mulher do mundo nem tudo é regular. Começa com o movimento do corpo, que não é óbvio, cujo desenho se instala como o quadro mais desejado da exposição e que esteve para não ser exposto e irrompe no vazio ou no ar, que começa agora a encher-se, rompe com todas as barreiras e não precisa de estar sob luzes dedicadas. A mais bela mulher do mundo brilha por si, mesmo que transporte a alma no corpo frágil, anjo pálido. E então reparo em ti. Reparo nela. Reparo em ti. Ela és tu. Talvez a tua universalidade não me perimita este tratamento íntimo. E no entanto és única, és a visão de um noite e mais tarde, no estertor que me conduzirá ao templo da eternidade, a visão de uma vida. És a mulher mais bela que alguma vez pisou a terra. És a mulher mais bela de todas as que estão por existir. És um absoluto e és completamente relativa, específica, detalhada, bela.

Não é a beleza uma imprecisão do que está composto, uma imperfeição?

Violetta dos cabelos dourados, fica para o fim, deixa-os sair.
Deixa sair o teatro inteiro, a ópera toda e não caias.
Não fiques caída, Violetta Valéry.

Ainda antes do nosso momento, de seres a última de todas, portanto a primeira, foste a primeira e correste o risco da derradeira.
Vinhas com os braços alçados e um sorriso demasiado transparente. Causaste-me um certo espanto, mas trazias contigo o encanto e pelo menos mais duas mulheres que estavam junto dele. Depois apenas a vulgaridade, o barulho indistinto, gritos de maestro, maestro, ou mestre, mestre, não sei, nessas noites de celebração, êxtase e sucesso eu sabia que me esperava a solidão da minha Villa, o manto negro da noite que na minha sala de fumo é vermelho enquanto estão todos e azul depois, no nada, gelada madrugada em que fumo sucessivamente todos os sentimentos por ordem descrescente até amanhecer miserável.

Muitas horas depois de terminar a mulher caída, Verdi partira na carruagem sem sequer pernoitar em Veneza, e sem a multidão perceber porquê, eu Alfredo mantivera-me no espaço da ópera e tu Violetta estavas detida, como eu pedira. Assim o leras no meu olhar suplicante: quantos homens e mulheres deixaram de se amar pelos séculos por silêncio? A causa do silêncio não é uma causa nobre, ou talvez o seja apenas depois de instalado o amor.
Amem as pessoas em lados opostos das casas, sim, Violetta, é possível que sim, que o silêncio possa ser uma causa maior, uma causa de amor. Tu ficaste, intemporal, os ombros descobertos, a pele alva, os cabelos dourados a cair em flocos até metade das costas.
E Eis, Violetta, o que não fiz:

Não te cingi a mim para que o cheiro nos percutisse.
Não encostei a minha cara à tua nem te provei nenhum dos ombros.
Não te corri a cortina dos olhos para te beijar candidamente, primeiro, e, conforme a cadência dos beijos e a continuidade das bocas e a temperatura dos lábios e a implicação das salivas e o compasso das línguas, te quebrar a resistência sem nunca te deixar caída e te paramentar nos braços e nas pernas e no colo e no ventre e a fluir.
Em vez disso aproximei-me de ti e do teu olhar a interrogar-me se tinha sido mesmo por ti que esperara, e eu sim, claro que sim, esperaria uma vida inteira por este momento em que te vou dizer, Violetta, anjo pálido, corpo frágil, sem silêncio,
que te desejei profundamente como nenhuma outra nessa noite ou em todas as representações de "La Traviata" até ao fim dessa semana, ou que todas as mulheres em Veneza, ou, provavelmente, todas as mulheres do mundo até ti, e que em todas as noites cheguei ao Cipriani e imaginei o que terias sido em mim nos meus aposentos faustosos com tudo o que o dinheiro pudesse comprar, ou então num beco pobre, sem nada sobre o corpo, na linha mais simples de uma folha não pautada e no infinito que a define,
que te desejei profundamente mas que vou partir de Veneza e regressar à minha Villa sem te tocar e sem nada te dizer.

E deixo escrito este monólogo para que to profira o maior amor que tiveres na vida e se lembre, ao declamà-lo, do que terá de abdicar para ter simplesmente o teu respeito, que de nada vale na cotação dos sentimentos e das falhas humanas mais sofisticadas.
E que é mais relevante a minha imagem real no centro da plateia muitas horas depois do fim da ópera, fraco, pálido como tu mas de figura negra, sombria, alto e inclinando-me para ti, Violetta, a beijar-te as mãos e a pedir-te perdão pelo que não fiz nem farei, mas sem silêncio nenhum,
do que uma de milhões de noites de amor apaixonado em que o teu corpo ardente, como outros corpos ardentes, se dissolveria no meu, como se dissolveram tantos noutros que não eu.

Fica sabendo, anjo pálido, mulher intemporal, que me teria bastado um beijo teu, e que nesse beijo se condensaria, não o mais desesperado desejo que me trouxe até aqui, mas a tua beleza, que é o que o desejo, quando cumprido com urgência e egoísmo, confina em qualquer mulher e no homem que a cumpre.

E no final nem um beijo chegaria a ser preciso, bastaria a tua declaração não juramentada de que me desejaras tu e que, quando no cume da mais bela ária eu Alfredo te comovi ao ponto de fechares os olhos e seres feliz em meus braços pela eternidade, tu mulher te dissolverias para deixares apenas incólume a essência da beleza de todas as mulheres.

Que nunca se cumpra um silêncio.
Que sempre se cumpra um desejo.

(cumprir não é concretizar ou praticar; cumprir é dizer, aprofundar e conter)

PG-M 2014

* data de estreia de "La Traviata" ("mulher caída" em português) no La Fenice