2016-11-23

te echo de menos

 te echo de menos

a expressão espanhola para saudade também é bonita.

fiz-te de menos

ontem lembrei-me de como foste dos primeiros a dar-nos uma nova noção de tempo


era um funeral, e havia alegria no ar, e não era só a alegria do reencontro com os homens e mulheres mais importantes da nossa vida, os professores, nem aquele belíssimo pânico de os ver procurar com a memória que alunos éramos

estão tão mais bonitos, os professores.
quando eram os nossos professores, eram velhos por natureza.
agora somos nós os velhos e eles da nossa idade.
bonitos e cuidados, sábios, serenos, sem poder

só conhecimento

a alegria eras tu e o comprimento da tua obra


comentei com o lima​ que nunca tinha visto um funeral tão feliz
estavas a descer à terra e havia gargalhadas
o coveiro a devolver-te à matéria original, que é a mesma que resulta de ti, e abraços entre campas

eu de pé a tomar café e a falar de como a linguagem e o silêncio e o ouvido e a atenção revolucionam o próprio tempo
tu és um dos grandes culpados de, afinal, isto não ser só isto e de
morrer não ser bem morrer

depois ouvi falar de ti, do teu apagamento físico, por quem em nosso nome cuidou de ti e te mimou até ao último minuto
um apagamento físico irrelevante para o mundo, ou só relevante na medida do teu sofrimento: nada para lá do que te doeu importa
não havia choro ou abandono ou pena, as pessoas que contavam o drama da tua doença sorriam, porque, a par de cada perda, havia sempre a tua resiliência, a tua teimosia

talvez seja piedade dizer para não te ir ver, porque estavas pele e osso,
estar deitado dá cabo de nós todos, faz-nos desaparecer fisicamente,
faz-nos assumir a postura da defesa perante a impossibilidade de sermos o que nos ergueu e nos fez evoluir

afinal não parecia ser isso o importante para ti

o alzheimer levou-te as forças, o conhecimento - e é injusto
ter-te cabido uma doença do conhecimento

logo a ti

o alzheimer levou-te tudo, mas não a presença de espírito
nunca desapareceste
foste teimoso até ao fim
ressurgiste muitas vezes
estavas deitado, estavas presente,
não o corpo, já não o corpo,
tu

como agora, afinal

já não o corpo, tu

já não conseguias comer sólidos, mas comias bem
o que podias comer
comeste sempre bem

e continuavas a combater pela tua fleuma, pelos teus hábitos,
ainda lutavas pelos artigos dos jornais que querias ler, pedias  a coluna do rangel e, quando ta davam, sorrias, sentavas-te, punha-la perante ti e não lias

nestes útlimos tempos, já não lias

só replicavas o prazer de ler
o prazer de pensar
replicavas a busca do conhecimento
o arrebatamento do passo em frente
o trabalho
a graça disse que, mesmo agora, no fim, quando regressamos à aparência
da criança que nunca deixámos de ser,
cada vez que ela aparecia ias a despacho

a graça aparecia à porta e tu
puxavas de uma almofada e escrevias com o dedo


assine aqui, senhor padre,
e ali,
e ali,


e tu assinavas

todos pensamos na própria morte perante a morte dos outros

na verdade, não pensei muito na minha, ontem.
pensei mais na eternidade

o teu quarto ficou cheio de livros e papéis
e quem te amou sabe que está aí
a eternidade

não apenas a tua, toda a eternidade

aí e no que levamos de ti connosco
e passaremos aos nossos
e os nossos passarão aos seus
e os deles aos deles
intimamente


infinitamente

dormiste sempre no nosso colégio, morreste onde dormiste

deitado na almofada

já não o corpo, tu

como agora, afinal

já não o corpo, tu



PG-M 2016
foto propriedade do Colégio dos Carvalhos

2016-11-12

Rafaela


Não importa onde se encontra Rafaela,
o que faz e de onde veio, importa apenas
a sólida beleza

que se dissolve em nós

em vez dela

no lugar onde os poetas se exaltam
por culpa dela
não há luz
só Rafaela

está nos móveis e no chão
está nos lábios e nos
dedos, nas
máquinas e no
tempo
está nas falhas, está
nas pedras
nos lilases meio abertos
a que cheiram
certas noites

e ela,
legando os seus olhos claros,
ouvirá em explicação que o poema
é sem amor,  o poema
já cá estava
por escrever
copiado de um clarão
por causa dela

dissoluta
absoluta

Rafaela


PG-M 2016
fonte da foto







2016-11-05

Acta de abertura de um livro sobre a imortalidade


António, bisavô: sempre cri que o veneno que tenho no sangue (que há quem chame arte) é culpa tua. Sempre cri que era uma maldição, uma maldição sublime, mas uma maldição. Que nos tortura, porque exige, para bons resultados, o sobre-humano ou a negação do humano. Exige silêncio e minimalismo, como se fôssemos edifícios (diz que somos), tantas vezes geometria e cálculos, mas em nós é carne, é uma torrente descontrolada, um rio a galope fora das margens, olho para as tuas mãos e para as minhas e são iguais, tu davas ou tiravas forma ao nada ou ao tudo, desenhavas, esculpias, modelavas, eu não faço diferente com as palavras, às vezes, quase sempre, tenho de as deixar quietas, os blocos intocados, posso morrer sem nunca mexer em algumas frases. E quando, subitamente, o objecto da arte és tu, toma-me esta obsessão que me leva para perto de um estado que me parece a loucura, essencialmente posso defini-lo como uma solidão intraduzível e no entanto barulhenta, tão barulhenta que posso ser um artefacto pirotécnico em pleno céu de são joão, expludo e ilumino as nossas cidades durante breves segundos e depois caio no douro - às vezes tento ser um balão de papel, posso divagar, subir, mas caio sempre. Caio em chamas, caio sempre em chamas, e depois apago-me. Olho-te profundamente nesses olhos quase frios em que preservas tudo de ti e, claro, vejo-me a mim. Como se estivesse a comer o meu próprio corpo sem a metáfora, bela metáfora, de cristo, embora os teólogos digam que não é metáfora nenhuma. Vai ser assim nos próximos cinco anos, estarei gravemente doente de ti, afinal como tenho estado a vida toda, há sempre um sobressalto quando passo na boavista e fico fixado no leão do alto ou na mãe que morre afogada com o filho nos braços ou na tua campa ou na tua rua ou nas fotografias que guardo. Mas tu seres o objecto das minhas mãos é perverso. A sensação é a de estar sempre a chorar e a cara seca. É uma fraqueza titânica. Uma força transcendente. Componho o teu corpo de volta como uma espécie de frankenstein. Sei que vais falar a qualquer momento, que me vais tentar travar, talvez até devorar, mas os nossos olhares têm sangue e é o mesmo sangue. Estás a ver? Como podem olhos frios ser sanguíneos e explosivos? No fim, vai ser um abraço, um abraço definitivo que provavelmente não mais se desfará, tomamos um copo e rimo-nos deste século doloroso que nos separa - não podias ter morrido - e, então sim, retirar-me-ei para que possas viver o que sobrou. E sobrou muito, tanto que vai desaparecendo para nunca mais ser lembrado. Como se não existisses. Como se não existíssemos. Como se não me doesses e eu não gritasse de dor desde a primeira vez que apontaram a estátua da boavista e me disseram: "foi o teu bisavô que fez" e eu ouvi "aquilo és tu"

2016-10-31

I love Volleyball (and him, of course)


We are animals.
 

We are powerful and rise above what's expected from us. In you all the strength, all the power, all the belief, all the work.


Already born and freed. Between both posts, the most beautiful story a man can handle before he perishes. The screen, with the right tension, it's the symbol of work, balance, the proper height.

The net is the string of life, apparently untouchable, but volatile. And the court is empty, and then you arrive full of light and rise up, with all inscriptions engraved in the body.
 

We are animals. We are powerful and we rise above what's expected from us. 
Somos assim, bichos. Somos poderosos e elevamo-nos acima do que esperam de nós. Em ti toda a força, todo o poder, toda a crença, todo o trabalho. Já nasceste e já te dei carta de alforria. 

 Castêlo da Maia - Sporting de Espinho, seniores, Outubro de 2016, idem para as fotos 2 e 5

Entre os dois postes ficou a história mais bonita que um homem pode suportar antes de sucumbir. A tela, com a tensão certa, é o símbolo do trabalho, do tempero, a altura certa. A rede é o fio da vida: aparentemente intocável, mas volátil.
Itália-Portugal, U18, 15-07-2016, Holanda, idem para as fotos 1 e 3

Fica o court vazio, sombrio, até apareceres num jorro de luz e te ergueres, com tudo inscrito no corpo. Somos assim, bichos. Somos poderosos e elevamo-nos acima do que esperam de nós.



PG-M 2016
fotos de PG-M, excepto a penúltima, que é creditada a Claudio Panciocco, e o grande plano do número 12, de camisola laranja, creditada a André Gouveia. Todas são do atleta Guilherme Moreira, filho do signatário, excepto esta última, da bola como mundo a girar sobre o dedo do Kiko Silva

2016-10-22

finalmente o inverno chegou ao teu cabelo


finalmente o inverno chegou ao teu cabelo

tens outono nas mãos
folhas nos dedos
braços nus cheios de verão
já primavera

sempre foram os teus olhos

PG-M 2016
fonte da foto

às vezes é preciso chorar para dar força aos rios


às vezes é preciso chorar para dar força aos rios
outras calar

para os acalmar


PG-M 2016
fonte da foto

figueira


na altura da minha escola
a tristeza era mais branca
e eu ficava na figueira

a outra figueira do recreio

e tinha saudades
sozinho
o barulho era distante
os ramos erguidos
sem sombra
o recreio aberto
o sol imortal
a bata da mesma cor
da tristeza
eu feliz
e moreno
a olhar

a olhar


PG-M  2016
fonte do desenho

2016-09-12

vem tempestade


os dias já se notam
e sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha
penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest

vem tempestade

corro para dentro do café que ainda não suporta as portas fechadas,
o vento assobiará e entrará de qualquer maneira.
por causa da Herta,
compreendi o silêncio na nuca e como se distingue do que trazes na boca
agora sim, é outono
só é outono quando muda de face e te mostra o inverno e a sombra,
a chuva de manga curta

já te expliquei como na negação da minha velhice me sinto violada por todos os escritores?
nenhum homem entrou em mim assim
nenhuma mulher ficou perto
não esperam nem contemporizam

entram, partem ossos, laminam órgãos, bebem o sangue, secam a água e executam a alma

já entendi que me enterraram para uma empreitada nova
uma fonte em vez de um aterro
já entendi o contrário. ou nunca entendi. nunca soube

os livros
andam lá como tufões. levantam voo no outono,
migram no inverno, regressam na primavera
e no verão estão sob as palmas das mãos

são as últimas flores, as primeiras árvores nuas
ou ao contrário, tudo ao contrário

tudo

matam, ressuscitam, sobem e descem degraus
os dias já se notam
e sempre que tomo na cara a chuva que o mar cinza atira como gravilha
penso no Ahab do Herman e no Fuentes do Ernest

vem tempestade


PG-M 2016
foto idem

2016-08-19

nós, vencedores (epopeia)


posso situar o princípio da glória
nos versos daquele amigável com a noruega
no estádio do dragão no fim de maio

mas isto não é um poema
é uma espécie de choro
impulsivo e desconexo
como o canto de alaúde
dos bardos da irlanda antiga
ou as odes de alexandre  
afonso e nuno matos
na antena um

é talvez,
no princípio e no fim
de tudo, uma simples
canção de amor

cantarei o que vi e ouvi no mundo inteiro sobre uma vitória portuguesa para que os netos
da nação, e mesmos os outros, os que estão antes e depois de Portugal,
os que pensam que estão acima e os que se lamentam abaixo,
tenham acesso ao detalhe das sombras e das luzes que transcendem
a pertença exígua a um jardim, somos em vez disso o pomar
do firmamento, somos isso porque somos a emoção toda e
a emoção toda está no mundo inteiro e talvez
além

serei redundante nas emoções e nas expressões,
não farei literatura, muito menos cultura, 
apesar de nenhuma literatura ser possível
no deslumbramento grave em que peco
desde o dia dez de julho

por isso convém sanear
toda a razão e
escrever
não aspirarei
a génio nenhum, apenas
ao universo

para tal, e por já não governar El Rei e esta crónica ser em nome do universo,
como estipulado supra,
cuidarei de usar linguagem corrente, para que seja entendida até
nos poros da miséria humana, onde a dor é tão profunda
e o abalo do ódio tão intenso,
que só se percebe a palavra golo e só a palavra golo
une

posso situar o princípio da glória naquele amigável com a noruega
no estádio do dragão no fim de maio
ganhámos três a zero sem ronaldo e com um golo do quaresma, outro
do raphael guerreiro
e um último do éder
e chamaram aos que seriam campeões no segundo e terceiro acto do dia dez de julho
versão beta

e eu estive lá fisicamente e depois com alma e depois a alma
saiu do corpo para pairar sobre Paris e depois ficou tomada
de estrelas e voltou para dentro, acredito que,
pelo menos neste caso,
os milhões que ganharam e os milhões que
perderam o fizeram fisicamente

mas eu estava lá quando os cavalos selvagens
cor-de-menta fizeram um círculo no extremo
oriental do dragão, a crina rebelde que é um
poema sem rima para que a substância se propague
líquida pelo corpo dos outros e de todos nós,
a crina do potro renato e o galope errante
do mustang, eu não vos consigo explicar a diferença que senti
no quaresma que é nosso, do porto, há tanto tempo,
a diferença entre a displicência artística naquele último jogo
do fcp com a académica em catorze, talvez o primeiro deste período negro,
e o mergulho mágico e a fusão com a relva daquele animal
imperial
que começou com um golo lírico no dragão e
se ergueu épico como uma espécie de brilho no olhar de todos nós
nos sete a zero da luz

não digam a idade nem contem o passado do quaresma
quando se vê na pose do mustang o ente sem amo que
vai conquistar tudo por nós, nem que seja
mais um metro dentro da cerca
que o tenta domar

(eu já lhe canto os golos)

todas as sílabas de um mustang começam
na europa e culminam no eixo do cigano feito
ceptro, e eu não sei se foi a taça se foi a
descrença e a presunção e o dislate e a
arrogância que sempre fundou os medíocres
e, em contraponto,
os cavalos

é que, pensem bem, a vitória do medíocre
é sempre frívola e passageira e egocêntrica,
é sempre apenas a vitória do medíocre
e a vitória de mais ninguém,
mas a vitória do humilde perdedor que toda a vida e toda a História
fez das derrotas músculo e ora se ergue virtuoso e vigoroso apoiado nas patas de
trás e relincha e depois parte a cerca
não é só a glória do mustang

é a glória do universo

(como estipulado supra)

não, compatrícios de alma
(de alma, não de fronteiras),
não temos de viver à sombra de gigantes,
reis, infantes, navegadores, adamastores ou
ídolos inventados, não temos sequer
de inventar ídolos novos,
mas devemos ao pudor deixar nota de grandeza
devemo-lo
aos que não sabem de Portugal, e portanto 
não sabem que somos capazes e perfeitos
nos detalhes e que o nosso peito
ferve desde a pele
e vence

em carne viva

e, que ainda que o país se apresente mirrado de tudo
e se envergonhe e pedinche aos burocratas pequenos e
aos anões amigos deles,
cada português é maior do que o mundo
e que a cerca que o mustang quebrou
se abriu às estrelas
e é maior
o universo

(como estipulado supra)

mesmo que arda agosto e entre os papéis e as glórias
não se salvem as casas e as florestas,
está na mão firme de cada português
a velocidade e o poder da luz

o golo de quaresma no dragão no fim de maio contra a noruega e,
mais do que o golo, o galope e a raça que fez
de todos nós heróis
foi o fecho de um século de descrença
e o desplante do santos
e a forma bela como compôs a imagem do feio
aos olhos dos outros e dele fez feito


e é tão grande o feito que luz nos olhos dos outros
como os feitos dos outros luziram nos nossos,
alemães, brasileiros, espanhóis, italianos, argentinos, dinamarqueses, checoslovacos,
soviéticos, holandeses,
franceses, gregos,
e todos os outros, para lá do futebol e até do sistema solar, como
a suíça gabriela andersen-schiess, que acabou a maratona
de los angeles em último e quase morta
ascendeu ao olimp


e as nossas lágrimas tomaram finalmente sentido quando
vimos
o nome de Portugal ser gravado na taça,
e todos os vencedores, como ela, luziram - ou deviam ter
luzido - em nós,
porque essa é a essência dos campeões

esse é o universo
(como estipulado supra)    

não quero que pensem que somos absolutos
mas somos

somos absolutos

há, efectivamente, uma reflexão que parte de factos e de um olhar subjectivo sobre eles, mas esta elevação ao eterno é objectiva, matemática, lógica, filosófica, cultural.  
um axioma. uma proposição euclidiana. um teorema. um algoritmo. um erro.

nas contas portuguesas
somos absolutos
e as contas portuguesas

não aspiram a mais nada.
não é importante, é só essencial
há sempre, em todos os lados de todos os tempos,
todo um grupo que se acha mais importante do que os sábios e os cientistas, um grupo que se esforça no limbo – ah, o limbo! – e a radix sobre a qual a palavra pode avançar com mais luz e serenidade, a escola, a universidade, estão esquecidas: 
há uma cúria “leve”, muito enérgica, muito “viva”, que ocupa o espaço todo
mas que novidade vos conto?
cervantes já o mencionava no prólogo do quixote.
querem lê-lo antes de avançarmos?  


foi uma armada humana, não sobre-humana,
a responder com o bastante ao esplendor,
a tornar tremenda a vitória natural
e vice-versa,
tremenda a coragem com que suportou o penálti falhado com a áustria
tremendo o desespero com que não consentiu o aleatório à hungria 
tremenda a resistência à croácia e o mustang
a três do fim
tremenda a resposta ao golo imediato da polónia e a crina do potro
a facturar
tremenda a superioridade e maturidade sobre a gales que perdeu por
deslumbramento interno, como houvéramos na final de lisboa
tremendo o silêncio com que suportámos a pressa francesa e o azar do gignac e
soubemos todos, quando o poste devolveu a bola sem convicção
ao minuto noventa e um,
que podia ser o dia, que podia ser o dia
 
o golo de quaresma no dragão no fim de maio contra a noruega

e um princípio quase igual a um final:
no dragão o raphael guerreiro marcou um livre perfeito apontando ao lugar
onde a aranha faz o ninho
e o éder também, quase-perfeito, logo a seguir,
e o dragão a dizer, afinal o éder e tal,
o andré silva devia ir, mas afinal

o éder e tal

na final foi mais-que-perfeito
porque o guerreiro bateu na trave
e o éder absolut
o éder absoluto

o éder absoluto

o golo de quaresma no dragão no fim de maio contra a noruega, o animal
recebe a bola perto da quina da grande área, balanceia o corpo para a frente e
conduz a bola como se fosse para a linha de fundo,
flecte para trás e anula o defesa norueguês que o acompanha,
aproxima-se da área e em cima da linha exterior pontapeia em arco para o poste mais distante

grande golo.

uns dias depois ainda mais arte e técnica e magia para fazer o mesmo à letónia,
bem dentro da área dá um efeito maior ao arco para que a bola dispare em frente e não passe demasiado perto do guarda-redes e descreva o círculo à esquerda
para dentro da baliza 

grandíssimo golo

o estádio da luz levanta-se e o povo sorri. é nosso. o mustang é nosso. nessa noite faz dúzias de assistências e mais um golo, quase dois. o país em peso sente que ele vai resolver em frança.

na qualificação
tínhamos caído e depois resistido à albânia
que viria a encantar mundo
e resgatar a infância
de biasi  

e apanhámos aqueles que seriam vice-campeões
logo no primeiro jogo
não a frança, a islândia,
só a islândia se pode reclamar como o mito do torneio
para cá de nós 
o golo de nani é natural, o do islandês não,
o do islandês é uma estrofe de uma Edda moderna,
na vitória sobre a inglaterra luziram os olhos do universo (como estipulado supra),
na derrota com a França o mundo era indissociável dos vikings e da celebração com os braços abertos ao ritmo da alma do povo,
ganharam mesmo perdendo,


eis a alma física

e como a levámos 
até ao fim

e da alma física passamos ao movimento, o professor manuel sérgio dizia algo assim, 

no jogo com a áustria,
ainda que a síntese universal diga apenas "penálti falhado por ronaldo",
apareceram os nossos guerreiros para escrever os próprios cantos,
não um sistema de jogo mas uma mente comum
pequenos peões intercambiáveis e indestrutíveis
paciência e resiliência
e o adepto a pressentir
que sofrerá pela vitória,
não pela derrota  

e o santos diz
só volto no dia onze

e o ronaldo afunda microfones, mas
continua o barulho e a dor
da liberdade

e vem a hungria e o fernando alves,
na comoção,
que nele é o mesmo que rádio,
lembra o poeta húngaro attila józsef
"Confiei em mim desde o primeiro momento
 custa muito pouco
 ser dono do vento"
  
e vem o vento
e vem a hungria
e o príncipe ronaldo, que até aí fora sustento e chão na sombra
brilhante dos soldados,
e os braços ao alto e os murros no ar pela irritação,
ficaria oito a oito se durasse três horas,
o que faz um campeão é voltar sempre
como nós voltámos,
e haveria ressaltos infinitos
e golos dos húngaros 
e nós voltaríamos sempre,
como poucos alguma vez fizeram,
mas também houve isto:

farda menta. junho vinte e dois. zero um por gera, aos dezanove. 
aos quarenta e dois assistência de ronaldo
pouco à frente da linha do meio-campo
para a corrida de nani
cinco jogadores húngaros ficam anulados só com o passe
e nani corre dentro da área pelo lado esquerdo do central
remata para o poste mais próximo de király
e marca 

um dois por dzsudzák por ressalto aos quarenta e sete. aos cinquenta
joão mário corre junto à linha e passa para nani
este devolve a joão mário que cruza para a área
ainda antes dela
ronaldo deixa passar a bola e bate com o calcanhar
ao poste mais distante de király
grande golo
aos cinquenta e cinco
dois três outra vez por dzsudzák
outra vez por ressalto
aos sessenta e dois
quaresma marca canto para joão mário
à maneira curta
nani devolve a quaresma, que centra do cume da área
um dos arcos da arte pura
ronaldo eleva-se, juhász nem por isso,
e marca de cabeça

então o engenheiro manda abrandar
e quatro minutos depois do fim o islandês  traustason
marca à áustria
e tira-nos do lado mau,
disseram,

e coloca-nos nos oitavos
com a melhor equipa
depois de nós:

desse jogo a crónica é respeito, primeiro,
e resistência, depois,
respeito não é medo, santos,
a croácia a cercar-nos no prolongamento,
quase marca, lembro-me de que
o vida tentou tantas vezes,
e tinham o modric e o srna e o perisisc, tinham quase tudo,
mas nós tínhamos mais
a três do fim o potro renato conduz a bola pelo centro do terreno
com linhas de passe para o ronaldo e para o nani
nessa altura quaresma passa pelo lado direito do renato e, sempre sem bola,
corre para o centro da área,
o renato mete no nani, à esquerda, que,
da quina da área, do lugar onde o mustang faz os arcos,
passa para o ronaldo, que, à entrada da pequena área,
remata para o centro da baliza

a bola tinha passado à frente do quaresma, que continuava
uma espécie de corrida até ao infinito 

grande defesa do subasic com o pé

a bola sobe ligeiramente, em vez de partir
para o infinito, ou talvez o infinito
fosse ali,

não foi sorte, senhores,
quaresma estava lá porque tinha procurado,
dizem que anda com a cabeça nas estrelas

pois anda

a bola foi direita à cabeça do mustang
e ele empurrou para dentro

e portugal estava em todo o lado
e portugal começou a pensar
no impossível
no infinito

com a polónia lewandowsky, mesmo sem um pé,
encurta os nossos sonhos logo aos dois minutos,
mas aos trinta e três potro renato ergue-se e
galopa para lá da cerca 
de fabianski

estamos nos penaltis mais ou menos a rezar
mais ou menos cientes dos fados
frágeis e raro inquebrantáveis 
vê-se de cá a força. a garra. aquela acidez - não o cinismo, esse é sulfúrico -,
aquela lucidez não pacífica - a que nos leva à guerra e nos faz vibrar. perdemo-nos
do "Old England", dos Waterboys, como nos perdemos de pessoas que nos fazem falta. justificamos sempre com a vida e com o comodismo, com um certo pudor, um certo tento, que isto do amor está gasto e se tornou perigoso
perdemo-nos da música e quando a voltamos a ouvir ficamos outra vez furiosos,
não furiosos como a rocha cinzenta que ocupa a repartição de finanças para sempre, mas furiosos como o mar que bate todos os dias nas escarpas há milénios e pacientemente nos moldou o terreno. é vibrante
constatar que algo está a morrer quando nos sentamos para a transfusão.
por isso esse grande português que disse ao moutinho
no dealbar do grande círculo
"vais tu marcar, tu marcas bem, se perdermos
que se foda" 

cristiano dá três passos atrás, arranca, bate a meia altura para a direita de fabianski, que voa para a esquerda. dois um
lewandowski atira para a esquerda de patrício, que cai para a direita. dois dois
potro sanches bate para o canto superior direito de fabianski, que volta a atirar-se para a esquerda três dois
milik para a direita de patrício, que se atira outra vez para a esquerda. três três
moutinho (tu bates bem), pela terceira vez, para a direita de fabianski,
que pela terceira vez se atira para a esquerda. quatro três
glik para a direita de patrício, que volta a escolher a esquerda. quatro quatro

ronaldo vira-se para trás, esconde-se atrás dos colegas, sofre
mas há uma determinação nova no sangue
e uma estranha leveza no ar

nani escolhe a esquerda de fabianski, que desta vez se atira para a direita. roleta polaca. cinco quatro
e agora o primeiro momento do céu: patrício vai insistir na esquerda novamente, a bola vai baixa, patrício estica-se todo, está paralelo ao chão, todo no ar, e estende o braço, a mão, a luva, e defende o remate de blaszczykowski. a polónia não marca.


amanhã aparecerão crónicas sobre detalhes da vida de blaszczykowski
as crónicas costumam ser sobre as vitórias morais dos portugueses

está tudo no corpo do mustang. desta vez não é só empurrar de cabeça,
é menos do que um arco de arte desde o cume da área,
é só um remate, a escolha de lado e altura, alguma precisão e sorte
e raça
roleta polaca
quaresma e fabianski escolhem o mesmo lado
fabianski toca na bola de raspão
não chega
as redes vibram e o cigano suspende o tempo para pescar
peixes imortais
dilui-se a metáfora do mustang
na poeira cósmica
seis quatro

estamos nos últimos quatro:
nós, gales, frança e alemanha

de gales mediram-se outra vez os comprimentos
de ronaldo e gareth bale
mas deles apenas um abraço
que os tornou indistintos e
infungíveis 
não é sequer costume que os dragões não instiguem
medo, mas iam os cavalos galopando, 
discutiu-se o salto do astro no golo imperial
de cabeça, a assistência a nani,
o primeiro jogo ganho em
noventa minutos
estamos na final de paris

e em Paris Portugal  evolui pelos séculos
em Paris renasce nos cafés ateliês pedra e vidro e grand palais e, fernando, 

nos campos de trigo de silva porto,
nas mãos de barro de alves de sousa
e nas sombras, mais do que na luz 

e Paris (claro) somos nós 
e Paris (negro) também 


a torre eiffel de quinas  
a respiração a cidade e o coliseu perfeitos
os elísios verdes e vermelhos
distintos como nunca
as fan zones o metropolitano as correntes dissonantes
do universo a convergir
na relva
o primeiro acto são os dominadores gauleses
mas nenhuma caravela vacila
ou muda de azimute
no segundo acto 
ronaldo é varrido por payet
e a mariposa pousa no astro e diz-lhe
parte, deixa-os ao destino

e eles erguem-se e nivelam o combate

o terceiro acto é éder
girould tinha saído aos setenta e oito
éder entra aos setenta e nove, sai o potro, e é sobre éder que se reimprime a metáfora dos cavalos
agita, corre, salta, cai, recupera, devolve, fixa,
remata, cabeceia, tira faltas,
cai aparatosamente de cabeça na relva,
levanta-se

portugal passa de dominado a dominador,
gignac roda sobre si, pepe cai,
e ao remate dos noventa e um
patrício faz a mancha
tira o ângulo
a bola bate no poste e passa à frente da baliza
quando chega o fim do tempo
patrício sorri
e no tempo que se soma aos noventa
somos nós outra vez

o árbitro engana-se e marca mão a koscielny,
livre perigoso
quaresma ao lado de guerreiro
quaresma insinua e guerreiro
marca, trave

e por momentos o pensamento português
foi quase

e éder e o moutinho continuavam o combate
sobre a linha lateral 
a bola sobra para moutinho, que,
perseguido por gignac,
passa de primeira,
a bola ressalta e sobe,
moutinho vai disputá-la num trevo
com gignac e griezmann,
sobra para griezmann, que dá vários toques no ar
e dispensa a bola,
que volta a moutinho

moutinho passa para trás,
william carvalho para a frente,
quaresma recebe e devolve a moutinho,
moutinho dá dois passos adeante e passa a
éder             

éder recebe
puxando koscielny pelas costas da camisola
e este éder pelos calções
é um combate corpo a corpo
éder dá um passo com a bola para o interior
adianta-a com outro passo
agora é koscielny que o puxa pelas costas
e éder puxa-o a ele na zona da omoplata
é um combate corpo a corpo
éder olha em frente com uma expressão quase vazia
como se sonhasse
koscielny descola e corre por trás de éder
éder tem matuidi pela frente
quase tropeça e

finalmente

arma o remate
e chuta
suspendemos a posição de éder depois do remate
os braços abertos como em bailado
a perna direita esticada e o corpo inclinado
como um canhão de alma lisa
como eusébio descido sobre ele 
depois do livre de guerreiro, lloris ficara
magoado, andara a coxear pela área
enquanto se combatia junto à linha
lateral
ao ver a ameaça de éder
posicionou-se mais próximo
do poste direito, onde a bola
entraria

a bola bate uma vez no chão,
já na pequena área,
lloris estira-se, mas este povo
já não se cala
a rede vibra

e é golo

minuto cento e nove

éder tem de fugir
joão mário não o apanha
éder arma o colo como se tomasse um filho
nos braços
quaresma vem eufórico da linha de fundo
nani da intermediária
moutinho toca-lhe de raspão
raphael sorri
william tenta placá-lo
o árbitro observa
não vá haver falta  
fonte atira-se e falha
pepe faz muro
os suplentes com o colete respect
(respeito não é medo)
- danilo, andré gomes, rafa -
cercam-no
falta tirar a luva da meia,
éder liberta-se
eliseu persegue-o

griezmann ali no meio,
prostrado

éder cerra os punhos
para o banco
emídio vale responde
de punhos cerrados 
chega eduardo e abraça-o
chega ricardo carvalho e fecha
o círculo, chega cédric,
ergue-se a montanha pela pátria

o povo festeja nas bancadas
tapam-se as caras com pudor
as cabeças com as mãos

vamos mesmo ganhar isto? 


dizia-se que depois do figo
era o deserto
e afinal é o mar

o mar de sempre            
  
quando éramos superiores e espectaculares  
quando éramos o brasil da europa
dávamos e recebíamos goleadas
nunca taças 

não vão agora reclamar por sermos tão

simples, por sermos do tamanho
do universo 

(como estipulado supra)


banal e aborrecidos, disseram, como aquela itália
de oitenta e dois, começou a final a perder com a Alemanha
e depois Rossi, Altobelli, Tardelli
e depois quaresma, renato, ronaldo, nani, éder


e depois de sermos campeões 
já nem o hino soa ao mesmo 
não fragiliza nem faz chorar
como último reduto

ou solidão


("ai como dói a solidão
  quase loucura")*

ou voz de párias 
é uma espécie de ladainha

da alma física 
a cantilena 
do universo 


nos dez minutos seguintes
todos sofremos
os segundos caíam que nem punhais
ou gongos ruidosos
uns cortavam, outros

ensurdeciam 

ronaldo junto ao banco agredia o treinador
por amor
e comandava
e escondia-se
e chorava


não queremos mais platinis
não queremos mais meias sem finais
nem vitórias morais
não queremos lisboa
nem grécia     

 e então

aos olhos de todos aparece o mundo inteiro

a sónia, depois de uma vida de voleibol, é intérprete de português num hospital de toronto, mas ao golo do éder não foi preciso ninguém traduzir o que ela estava a fazer de joelhos e com as mãos a velar a cara, não as lágrimas, junto ao desfribilador,

em brampton, havia uma bela morena com um coração verde numa camisola vermelha, 

o puto colombiano, xander, que não tirou a camisola sete durante um ano e recebeu de prenda de anos o dinheiro para imprimir o nome e mandou escrever ronaldo, não xander, e atacou a televisão a chorar quando o primeiro acto da final, ronaldo no chão, teve epílogo e a mariposa lhe pousou na cara e ele arrancou a braçadeira para a dar ao nani,

kant, disse adorno, postulou a imortalidade para fugir do desespero

o locutor chileno que, à conta de ter visto a sua própria selecção numa situação-espelho, se emocionou mais do que, disse, era devido ou suposto um chileno emocionar-se com uma vitória de Portugal,

o povo de marcoussy, que viveu dormente durante um mês, exaltando nas ruas aquilo que, ou cala, ou diz baixinho, ou só exalta no café ou no intervalo da bucha,

a empregada fabril de Lille que é leal ao seu empregador francês há trinta anos e que, num só dia destes trinta anos, precisamente o dia da meia-final com a frança no mundial da alemanha, dele ouviu a esmagadora reprimenda: não te concentras por causa do futebol, já sei, mas escusas de estar ansiosa, porque a tua equipa perde sempre nos grandes momentos, aliás o teu povo, o teu povo perde-se sempre nos grandes momentos,

laín entralgo, ainda sobre a morte ou a imortalidade, escreveu que "certo é sempre o penúltimo; o último é sempre incerto"

na roadhouse de macau, na rua de madrid, vários portugueses com apelidos chineses e chineses com apelidos portugueses cerravam os punhos pela vitória sobre qualquer coisa maior,

maria, a "bonne" de Saint-Denis que tinha ao seu cuidado o pequeno Jean-Charles e ouviu o golo do quintal e refulgiu quando o rapazito de onze anos apareceu amuado no horizonte da cozinha, que também está a seu cargo, e soube logo o que se passava, porque a explosão fora mais plana do que o são as explosões dos golos dos bleus,

e em trafalgar square em contramão abraçaram-se um executivo e o dono de um fish and chips,

martunis, o menino "náufrago" encontrado à deriva nos despojos do tsunami, posto numa escola de futebol portuguesa a tocer pelo país que não fez de conta, fez caminho, sentiu o peito cheio,

fernando pimenta, o remador, estaria na sua ponte de lima entre a glória do ronaldo e a sua própria, que não é menos brilhante na derrota, quando o desportista é distinto

mathis, o menino luso-descendente que conforta Anthony, o adepto francês, paradigma da universalidade, mais do que do desportivismo, esses que, por serem celebrados, vozes que são pagas à crónica e ao comentário temeram virar caricaturas, e afinal mathis é o francês quanto português e escolheu vibrar por portugal porque portugal tinha menos e era mais pequeno - já anthony era só francês, qualquer coisa italiano, e agora português porque foi devorado pelo meio,

media

respeitar o adversário derrotado é olímpico, o contrário
é nada 

para habermas, não estaremos tão vazios doravante, por causa desta imortalidade: "a esperança perdida na ressurreição sente-se amiúde como um grande vazio"


tomás roncero, o polémico jornalista do as, que andou aí a sofrer pelas quinas e pelo seu ronaldo,

todos os povos africanos e americanos e de timor que sentem esta equipa como sua,

todos os atletas sem medalhas que dão a vida por todos e são pagos com insultos,

todos os campeões que cedem pontos ao adversário,

todos os campeões que perdem, 

arthur, bombeiro no estado de nova iorque, é português e, na margem do combate político entre clintons e trumps, percebeu o que, acima de tudo, importava, e escreveu no facebook "