2014-10-18

Porch


Regresso ao amplo alpendre de madeira para fumar um narguilé
ou uma cigarrilha ou qualquer coisa que um velho cowboy americano fumasse
o terreno perto da casa é seco
há um pequeno bosque a separar-me da estrada
os fumos são comestíveis
o da minha cigarrilha e o das árvores que o velho que eu sou tem a certeza de se moverem
todas as noites de outono, de se encolherem
todas as noites de inverno, de abrandarem
na primavera e de pararem
no verão
o fumo é o segredo do bosque, fica entre copas
com um sopro, levanto a tempestade
é fim de tarde e no interior da velha casa acende-se uma luz
a tinta branca estala sob os meus dedos
no meu modo americano não há mulheres visíveis, a não ser aquela luz da casa
ao fim da tarde
às vezes dedilho as duas cordas que restam na guitarra e lastimo uma canção do oeste
com a voz côncava que o tabaco me devolveu
o canto fica distante da estrada onde vão parando amigos que não sabem que sou eu
há lágrimas moucas
identidade
o fumo comestível dissipa-se nos braços do arvoredo
o do meu charuto encobre-me a cara
estrelas enfim
a luz no centro até depois do jantar
ninguém sai da estrada
ninguém vem
antes de me deitar ainda volto ao alpendre para cheirar o tempo
estendo os braços com a palma das mãos voltada para cima
o mundo pousa
a última passa nunca chega ao fim

PG-M 2014

fome

 
há no mundo, fora dos corpos, uma fome incurável que nos cerca e isola
e nos faz ilhas e se quer matar quando em solidão e depois se teme e deixa crescer como se fizesse parte de nós e nos impede de sermos gregários: é a fome de não sermos ilhas e de não estarmos sozinhos e o mar, em volta, como ilusão absoluta da multidão que não nos vê, mas que nós, de vez em quando, vemos,
altura em que pensamos que há no mundo, fora dos corpos, uma fome incurável que nos cerca e isola e nos faz ilhas e se quer matar quando em solidão e depois se teme e se deixa crescer como se fizesse parte de nós e nos impede de sermos gregários: é a fome de não sermos ilhas e de não estarmos sozinhos e o mar, em volta, como ilusão absoluta da multidão que não nos vê, mas que nós, de vez em quando, vemos, altura em que pensamos que há no mundo, fora dos corpos, uma fome incurável

que nos cerca e isola e nos faz ilhas e se quer matar quando em solidão e depois se teme e se deixa crescer como se fizesse parte de nós e nos impede de sermos gregários: é a fome de não sermos ilha e de não estarmos sozinho e o mar, em volta, como ilusão absoluta da multidão que não nos vê, mas que nós, de vez em quando, vemos. (...)


PG-M 2014
fonte da foto

the real secret story


estava aqui a pensar fazer o Grande Curso contra os cursos de escrita criativa, mas desisti logo. Pensei que mais vale catedráticos sem cátedra andarem a ensinar o que não sabem a desesperados fora de ofício do que a pedir na rua, porque isto está mau, mesmo mau, mais vale prémios literários fantasma com short lists de taberna do que governos que pensam que a cultura é um luxo. deixá-los, então. prefiro divertir-me com isto, a sério que prefiro. ainda tenho a honra de encontrar e abraçar alguns que admiro mesmo, e os outros, os que admiro pouco, às vezes cheiram e vestem-se bem, é um prazer, mesmo um prazer. e não quero ser o magoadeiro. beijinhos, sim. esta sim, é a secret story.


PG-M 2014
 

calendário perpétuo




Temporal.
É isto que te recuso. Que sejas tempo.
Mas, se também te recuso a morte, o desejo entra em colapso.
E não posso recusar-te o efémero e o eterno.
Então vem com os detalhes que passam e eu troco a imortalidade da memória pela finitude do corpo.
Temporal.
Já podes ser eternamente temporal.

Este (*) por todos.

*
dia/ mês/ ano/ ano bissexto/ século/ milénio/ universo/ sábado/ domingo/ janeiro/ fevereiro/ março/ abril/ maio/ junho/ julho/ agosto/ setembro/ outubro/ novembro/ dezembro/ dia 1/ dia 2/ dia 3/ dia 4/ dia 5/ dia 6/ dia 7/ dia 8/ dia 9/ dia 10/ dia 11/ dia 12/ dia 13/ dia 14/ dia 15/ dia 16/ dia 17/ dia 18/ dia 19/dia 20/ dia 21/ dia 22/ dia 23/ dia 24/ dia 25/ dia 26/ dia 27/ dia 28/ dia 29/ dia 30/  dia 31

ou

Esta
vida
dimensão
loucura
segunda
terça
quarta
quinta
sexta


PG-M *
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2014-10-15

Fernando Alves? "Amo-o"


Depois de uma velha eternidade em que, dia após dia, Fernando Alves me deixava assombrado, arrebatado, das madrugadas de rádio à beira do colapso, afastei-me e cortei os pulsos da escrita, e tenho de escrever para não me esvair em sangue, ou para me esvair, sim, devo escrever para me esvair em sangue, e deixei de ser capaz de parar de escrever ou de ler, apercebi-me de que me esperavam Camus, Kafka, Vergílio, Vieira, Torga, Saramago, Lobo Antunes, e deixei a rádio, aqueles febris dias de uma rádio que eu próprio fiz, e a rádio faz-se - nos idos de noventa.

Este é um motivo, provavelmente um motivo falso, uma explicação conveniente.

A verdade é que muito Fernando Alves pode matar, o corpo comove-se e o olhar ergue-se para brilhar insuportavelmente mais do que os astros, os que brilham ou reflectem a luz dos outros, e queremos estar com ele na caverna onde não existe nada que comunique com o exterior para lhe dar uma palmada nas costas, um gole de tinto que repousa num copo de três entre o polegar e o indicador, e dizer-lhe: "é isso, companheiro, é mesmo isso,"

ou, a sorrir, "esta vida é uma merda"
ou, a chorar, "uma merda maravilhosa".

Deixei-o por sobrevivência, pois, e agora encontro-o igual, sem tirar, nos mesmos Sinais, e, com a modernice das playlists em podcasts, pedalo por aí com um sinal atrás do outro, Fernando Alves não cansa, vai-se pelas ciclovias a rir e, às vezes, a chorar, abranda-se ali na marginal do Douro, logo depois de passar por baixo da Ponte da Arrábida, embargado. Tiro ali, precisamente e quase sempre, os auscultadores. Trata-se de ouvir um novo som do rio, uma nova cor veneziana, os rabelos crescem e multiplicam-se, agora têm motor e levam turistas, e fica um som que se reflecte nas escarpas que me recorda o que eu ouvia na cidade silenciosa de Veneza, só lá há passos e vozes e motores de barcos, e, em dias bons, com o norte pelas costas e a subir o rio connosco, é só o que se ouve: o sol a amarrar as pálpebras, vozes, passos e motores de barcos. Esse programa - emitido no meu dia de anos - contava a história do gasolineiro Manecas, de Vila Real, que tirava o número de sapatos só de olhar porque tinha tido várias sapatarias, e num passo, numa voz, num motor, dizia assim o Fernando

"Porque onde eu quero chegar, do pé para a mão, é ao momento em que, falando nós dos homens transmontanos, perguntei a Manecas pelo Torga, e Manuel Mourão (Manecas, como o conhecem em Vila Real), antes de responder, levou a mão ao boné e destapou a cabeça. Não vergou a cerviz: destapou simplesmente a cabeça. No dia seguinte, parei na Galafura a contemplar o poema geológico, a beleza absoluta de que falava o Torga. Fui ao carro buscar o Portugal do Torga, porque é justamente nesse texto, sobre trás-os-montes, que ele fala dos "homens de uma só peça, inteiriços, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão (pausa funda - ou de Fernando Alves), e pensei, claro, em Manecas, o homem que sabe medir os pés alheios só com o olhar, muito chão firme terá ele pisado para viver as histórias que me contou, tão firme como o aperto de mão que trocámos. A minha mão, esta que escreve com caligrafia incerta, a dele, aquela que usou para destapar a cabeça quando respondeu à pergunta que lhe fiz (pausa de Fernando Alves) sobre o Torga"

sobre o Torga

Soube, desde esse dia, que tinha de erguer o pedestal que o Fernando nunca aceitará, apesar da merecida comenda, e nunca mais me cansei de ouvir e reouvir (eu que sou tão pobre releitor) os Sinais do Fernando, porque ele, como os grandes livros, diz uma coisa diferente a cada repetição, o do Manecas foram umas quatro ou cinco vezes, e de sentir, sempre de forma infantil, com uns quatro anitos e agarrado às calças dele, vontade de lhe dizer, cada vez que ele fala de um escritor, tal como sentia há mais de vinte anos, senhor Fernando! senhor Fernando!, eu agora também sou escritor, mas sou tão pequeno que o senhor Fernando, habituado aos grandes, como o Torga e o Manecas, não me consegue ver.

senhor Fernando! senhor Fernando!

Pensei, garoto,  imberbe, quando "O livro sem ninguém" foi "Livro do dia TSF" e eu cumpri o sonho de ouvir aquela voz comprida e encantada do Carlos Vaz Marques falar de um livro que me tinha nascido debaixo das mãos mas nunca houvera sido meu, como não é nenhum, que o Fernando, nesse dia, ia finalmente reparar ao que vinha aquele tipo que usa um hífen, o mesmo hífen que, em alguns dicionários, é um insuportável sinal burguês.

E, meses passados, cruzei-me com ele nos corredores da Escritaria da Lídia Jorge e pensei, caramba, ele está sozinho e gosta de abraços firmes, é desta!, esta é a oportunidade de me render ao meu ídolo, mas, tal como fiz cinco longos e tortuosos anos em Coimbra, naquele percurso do trólei três entre o Teatro Académico Gil Vicente e o cruzamento da Avenida Dias da Silva com a Luís de Camões, tive o Torga sentado à minha frente, cara fechada, meu deus, meu bicho, e nunca fui capaz de o incomodar ou de arriscar o que me garantiam: ele vai responder-te mal.

Eu não podia arriscar o desprezo do meu Torga.
Como não podia arriscar a indiferença do meu Fernando.
Mesmo sendo o pequenito de quatro anos agarrado às calças do senhor e seja justa a trapalhice do arrebatamento.

E depois tive este texto de homenagem em suspenso durante tanto tempo, nunca me senti merecedor de o assinar - porque ouvia o Fernando que, sendo dos homens, parece acima deles. Um dia ouvi-o num dos Sinais e tive uma ideia: vou pegar num texto de homenagem de dois amigos que lhe aquecem o coração (por mais banal que seja a expressão, é mesmo isto), e adaptá-lo a nós, com o devido respeito e distância no que a mim me toca. E então glosei:

"Não sei quando é que o Fernando chega aos setenta (nem quanto tempo sou mais novo - ou se até serei mais velho - do que ele). Portugal é capaz de produzir um Fernando Alves: todas as nossas fantasias de autodesqualificação se anulam. Seu talento, seu rigor, sua elegância, sua discrição são tesouro nosso. Amo-o como amo a cor das águas de Fernando de Noronha, o canto do sotaque tripeiro, os cabelos crespos, a língua portuguesa, as movimentações do mundo em busca de saúde social. Amo-o como amo o mundo, o nosso mundo real e único, com a complicada verdade das pessoas. Os arranha-céus de Chicago, os azeites italianos, as formas-cores de Miró, as polifonias pigmeias. Suas canções - porque cada "sinal" é uma canção - impõem exigências prosódicas que comandam mesmo o valor dos erros criativos. Quem disse que sofremos de incompetência cósmica estava certo: disparava a inevitabilidade da virada. O samba nos cinejornais de futebol do Canal 100, Antônio Brasileiro, o Bruxo de Juazeiro, Vinicius, Clarice, Vieira, Torga, Pessoa, Saramago, Eusébio, Pavão, Oscar, Rosa, Pelé, Tostão, Cabral, tudo o que representou reviravolta para nossa geração foi captado pelo Fernando e transformado em coloquialismo sem esforço. (...) A Revolução Cubana, as pontes de Paris, o cosmopolitismo de Berlim, o requinte e a brutalidade de diversas zonas do continente africano, as consequências de Mao. Fernando está em tudo. Tudo está na dicção límpida do Fernando. Quando o mundo se apaixonar totalmente pelo que ele faz, terá finalmente visto Portugal. Sem o amor que eu e alguns alardeamos à nossa raiz lusitana, ele faz muito mais por ela (e pelo que a ela se agrega) do que todos nós juntos."

É só a declaração de amor do Caetano ao Chico, que deixei quase igual, e que, quando eu ouvi pela própria voz do Fernando, me fez pensar, caramba, é mais ou menos isto que te quero dizer. Basta-me, com supremo atrevimento, plagiar o génio do Caetano e colocar Fernando ao lado, não sobre, Chico, como se trauteássemos uma cantiga ao desafio como o meu pai fazia, nas noites da minha juventude, e depois o Fernando completava, e que até o Caetano um dia fez em conluio com o Almodóvar, mas não em Almodôvar, que era onde o Fernando o teria feito:

"Dicen que por las noches
No más se le iba en puro llorar
Dicen que no comia
No mas se le iba en puro tomar
Juran que el mismo cielo
Se extremecia al oir su llanto
Como sufria por ella
Que hasta en su muerte la fue llamando"

E assim foi.

Fernando Alves? Amo-o.


PG-M 2014

2014-10-07

se ao menos, mãe


se ao menos me voltasses
toda no sorriso

se ao menos eu andasse
solta nos teus passos

se ao menos te dourasse
luz nos meus cabelos

se ao menos te guardasse
voz neste silêncio

se ao menos te pudesse
ter mais um minuto

se ao menos me tomasses
toda no teu colo

se ao menos, mãe, no tempo comprido que eu conto daqui
à eternidade,
os homens soubessem que os teus beijos doces
estão dentro do carro e na estrada que percorro,
na música dos meus ouvidos
nos passeios
nos cafés

nas montras onde te peço
tudo

se ao menos os homens soubessem
que ainda cuidas
de mim
que eu te pergunto da vida
e ouço cada palavra

se ao menos eu pudesse
ter como te queria

numa cadeira sentada
e a minha cabeça
nas pernas e as tuas mãos
na cabeça

se ao menos,
mãe, se ao
menos, mãe


PG-M 2014
fonte da foto

livremente inspirada na canção "If only", da Dave Mathews Band, aqui:

2014-09-27

Dia 27


O dia vinte e sete é o último
em que te escrevo poemas
para que me poupes

nesta madrugada
chegarás de novo
com punhos em vez
de dedos
dentes em vez de
lábios 



e, com sorte,
(tu tens é sorte, cabra)

desmaias

dentro de mim

nunca me perdoaste a sombra disforme

do teu corpo pequeno 

 nunca me perdoaste o silêncio apagado

na arena,
nunca me perdoaste a luz transparente

dos filhos


nunca me perdoaste
o fingimento
nas legendas
do facebook


("maravilhoso fim-de-semana
com os meninos
em Formentera"
Click.)

fingia
sempre
a vida de sonho
com o homem
que me havia de
consumir até

à última
gota



se fosses vampiro, se ao menos fosses
vampiro

os sorrisos e as corridas
pelas promessas de
sexo
são hoje gritos e cercos
por
promessa nenhuma


há um quarto vazio em cada lágrima



ainda posso remendar os ossos
ainda posso remendar a cara
ainda posso remendar no tempo
o sangue que me estala sob a pele

já apaguei os vídeos
e as fotos felizes que,
depois de te matar,
não suportarei rever

agora vou apenas transformar
o choro dos nossos filhos
abraçados aos meus
joelhos

pela mãe ferida

em choro dos nossos filhos
abraçados aos meus
joelhos

pelo pai morto



PG-M 2014
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2014-09-26

Dia 26



O vigésimo sexto é o amor,
mas o amor, oh, o amor, de momento,
é o universo infalível da matéria e da constância e do tempo e da
temperatura

do pensamento



lembras-te da imagem no espelho
os meus lábios cheios
o meu corpo nu?


lembras-te como a vias
nos olhos dos outros?


agora

leva por favor os reflexos

não me empurres
para os vidros
dos carros


"já olhaste bem para ti?"


nem me mimes
com o peso dos anos
e das rugas e das
molas e do tachos
e das camas
que serviam


e das pernas que

e das coxas que

te serviam


"é o que vales aqui dentro que me importa"
dizias
o punho fechado sobre
o coração
tum-tum,
tum -tum,
e eu
a ouvir as sombras
tum-tum,
tum-tum,
do futuro


e agora
lembras-te da menina sem corpo
e da mulher 
só por dentro?


oh, o amor, de momento,
são delírios que começam
lá fora.
não aqui.

não agora.

sai de dentro
dos lugares
onde eu

restar

sai de dentro
dos lugares
onde eu
estiver

vaga o tempo que ainda finges
na cidade

eu sou a mulher
eu sou a verdade



PG-M 2014
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2014-09-25

Dia 25

Ao vigésimo quinto
dia decreto
que o mês acabou

e, desmedido e visceral, no pé direito da casa novecentista,
ouvindo o piano do nosso filho do outro lado da parede
longe de ti e do som da televisão, sumido, dolente,
as bolas de cotão da manta escocesa a vogar
no rasgo de sol que sangra da lucerna,
como se fosse domingo
e sem medo,

sem medo nenhum

amo-te

amo-te do outro lado da casa
amo-te do outro lado do mundo

hoje é dia de fingir que não existes
no lugar pequeno onde não estás
apesar de seres vista lá

foge da quadrícula laboral e do ardil dos amigos
para quem és toucado e
indumentária
função e plano
objecto e
critério

devolve
o teu corpo à mala, as roupas
ao pensamento
e volta
retira o meu cheiro do arquibanco
tapa-me a boca, cala-me as ominosas
disquisições

ai, ergue-te na esplanada
levanta o copo de cola
com gelo
e limão

e chove

espero mil anos por ti

não vês que o amor não são
dias
em janeiro esperas
fevereiro
em março abril
em maio junho
em julho agosto
em setembro

temes outubro

aceitas novembro e
em dezembro finges

no primeiro dia da semana
pensas no último
no último
no primeiro

no dia um
não aceitas o fim
no dia dois dói-te
no dia três, quatro, cinco começa o
imperativo
no dia seis, sete, oito, nove, dez,
estás no centro,
estás dolente

(recorda o sol na lucerna)

poucos sabem que o Plátano
é o ginásio do mestre
o lugar onde se ensina
o lugar onde  se cresce

e a plateia

lembras-te do meu Plátano
erguido à cúria de poetas?
a dizer-lhes que a plateia
és tu, não eles,
que nada, meu amor
te dê a dúvida
de que te pertenço e fico
para lá do fim da noite
e que até no tempo infindo

só os teus lábios me abrandam
só os teus beijos me calam

onze, doze, treze, catorze, quinze,
só os teus lábios me abrandam,
dezasseis, dezassete, dezoito,
só os teus beijos me calam,
dezanove, vinte, vinte e
um

amo-te do outro lado da casa
amo-te do outro lado do mundo

vinte e dois, vinte e três,

hoje é dia de fingir que não existes
no lugar pequeno onde não estás
apesar de seres vista lá

vinte e quatro

foge da quadrícula laboral e do ardil dos amigos
devolve
o teu corpo à mala, as roupas
ao pensamento
e volta

vinte e cinco:

ergue-te na esplanada
levanta o copo de cola
com gelo
e limão

e chove


espero mil anos
por ti


PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-24

Dia 24


No vigésimo quarto
amo a mulher sem corpo
a névoa leve e clara,

oh,

o vigésimo quarto
está vazio
não tem cama
não tem boca
não tem língua
não tem cheiro

não tem nada

tem só um pequeno roupeiro
com a mulher pequenina
que só se vê

por dentro

PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-23

Luís Miguel Rocha, claro


Digo o teu nome.
Muitos de nós conhecemos este lugar, ou porque por lá passámos, ou porque por lá passaram aqueles que amamos e até alguns que não amamos.
Talvez a única diferença seja a indiferença.
Importarmo-nos realmente com o outro é transferirmo-nos para dentro dele. Não devemos tentar adivinhá-lo à nossa imagem, não devemos dizer para nós próprios, convenientemente, que talvez seja melhor não incomodar. Vale muito mais a pena arriscar uma resposta dura ou um pedido de não interferência do que, pura e simplesmente, passarmos a ideia de indiferença ao herói que carece da nossa diferença.
Não há melhoras externas, há melhoras íntimas. Não há estranhos nos momentos maus. Não há inimigos ou inconvenientes à vista de um olhar claro, tímido, temoroso, de uma pessoa que se preocupa connosco.
O cancro não é uma doença do passado, mas do futuro. A boa vida e a vida melhor farão com que nos cruzemos nestes corredores e nestas florestas em maior número e muito mais vezes do que no passado. A boa notícia é que a maioria vai poder dizer que venceu. Mas para isso é preciso lutar - e para cada batalha temos de constituir o nosso exército. Cada um escolhe seu. Há quem o queira feito de poucos soldados, outros apenas de silêncio e livros, outros dos seus amores, outros ainda de solidão, para que possam declinar a doença no passado e nunca no presente.
Esta é a árvore que faz sombra (para trazer luz) ao Luís Miguel Rocha, meu par das escritas e meu amigo de algumas viagens únicas. E eu tinha de escrever publicamente no mesmo dia em que ele torna público este sofrimento e este combate. As coisas boas não se guardam para depois. Não somos amigos acríticos um do outro - as primeiras perguntas que lhe fiz foram sobre o passado que eu não conheço. Ele, mais voluntarioso, aceitou-me tal qual. Tive sempre o cuidado de lhe pedir para nos atermos à matéria, à essência, não à aparência ou à forma. O tempo em que alimentamos esta amizade foi curto, denso e intenso, cheio de coisas significativas. E, ainda que me repita - prometo que não insistirei mais, Luís - e ele me proíba os superlativos e os comparativos, o Luís Miguel Rocha é o meu escritor do ano, tanto foi o que aprendi com ele na relação prática, real, com leitores e livreiros. Ele será sempre mais sábio do que eu nesse departamento. É a ele, mais do que a qualquer outro, que se deve a coragem do protesto de escritores (um acto raro no meio literário) pelo fim da feira do livro da Apel no Porto. Ironia, teve de faltar à primeira feira livre - que, mesmo com alguns tiques de elitismo que todos os tripeiros dispensam, é uma festa que também tem de ser dele -. Não vigora entre nós o critério do "peso" da literatura, mas apenas a seriedade da relação com os livros, os leitores, os livreiros. Vocês deviam ver a adoração pelo Luís no Brasil, a festa que lhe faziam no Teatro da Urca - o aperto dos abraços. O Luís não quer um pedestal, nem eu lhe vou dar um, que esses ficam para as nossas mulheres, para os nossos amores. Mas eu não sei mentir - tenho essa infantilidade primordial - naquilo que escrevo, e só escrevo o que quero e porque quero. E escrevo sobre ti neste dia, Luís, porque tenho medo. Talvez não o medo específico da tua doença e destes químicos agressivos que te podem salvar. O medo de não te dizer as coisas devidas no tempo devido. Nenhuma homenagem é um cheque em branco, mas poucos homens me pareceram maiores do que tu neste ano. És franco, prático, directo, disponível, certeiro. É bom ver-te escolher as palavras. E o humor e a ironia. E cresces, e deixas-te crescer. E vais ganhar, por nós. E, ainda que tenhas direito a eles, os espaços vazios de ti ficam sem sentido. Porque foram fundados por ti, ó bestseller português no New York Times, ó rapaz bravo.

Hoje tornaste pública a tua luta. Num círculo mais restrito - que é um círculo onde, creio, cabem todos os que vierem por bem -, já tinhas feito saber o que sofrias há algum tempo. Quem conhece estas florestas, sabe bem o que ganhamos em estar perto dos que sofrem, e como ali nos esquecemos de que somos um deles. Eu gosto de saber que vais agora colher os abraços de todos os que gostam de ti e te respeitam. Tantas são as coisas dos nossos dias que ficam pequeninas à vista disto. Somos muitos a sofrer, mas assim fica mais fácil. E agora todos perceberão e respeitarão se tiveres de levantar a cortina outra vez. Mas não é inútil a torrente de amor que te vai chegar. Ainda que o essencial seja a pessoa, aí ao lado, a quem podes apertar a mão quando magoa a sério. E quando tens medo.
 
Sim, caminha entre essas árvores, agora. Mas não demores.

Entretanto, aqui, dizemos todos o teu nome, Bazinga.

PG-M 2014
fonte da foto: Luís Miguel Rocha, o próprio

PS: Toma lá, BAZINGA!

 

Dia 23

O dia vinte e três
é de quem mirra
ou recua no mar
antes da vaga

derradeira


de quem está planta
sem vaso
pião sem giro
mulher sem
tempo
menina

(plim, plim, plim,
mulher sem tempo,
menina)

tem longos e frisados cabelos
negros
corpo seguro
boca lisa
olhos
tristes


dança, salta, canta,
actua, encena
ensina

(plim, plim, plim,
menina)

gira, afinal,
numa caixa
sem corda
será sempre o esplendor
em cada volta
terá sempre o pedestal

(plim, plim, plim,
menina)
terás sempre o pedestal

do nosso amor


PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-22

Dia 22



No vigésimo segundo dia
lembras-te que o mês
passou por ti
sem saberes
guardas os grandes
projectos
os grandes
poemas
os grandes
poetas

debaixo do
tapete
e no dia das limpezas
(com a estrofe italiana)

assombras



PG-M 2014
fonte da foto 



2014-09-21

Dia 21



No vigésimo primeiro dia
seremos duros,
secos, planos,
lá fora, "pelos espaços
da noite nua, uma
memória grande
de paz"
temos sede de
Vergílio
queremos beber palavras
sem tempo

não por culto
ou redenção,
rejeito o elemento
doce da tabela
periódica

tomo-lhe a mão que dilui


agora a frase
onde te amo

é orgânica e voraz





PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-20

Dia 20



Ao vigésimo dia amo-te nua
como no décimo
segundo,
mas desta vez
em silêncio
estás imune ao meu corpo
não aos meus
poemas
gemo-te as didascálias

(o não de Eurídice é contido, sumindo-se
como um sim)

não? não? não?
e ao meu lado à meia-luz
hesitas, e eu
gemo outra vez
as disdascálias
desta forma subtil e doce que te leva
pelas paredes
do firmamento

(o não de Eurídice é contido, sumindo-se
como um sim) 


os lábios redondos
os olhos cerrados
ris-te outra vez
ah ah ah ah ah ah ah
e as línguas destes
poemas

em fogo
Oh, Orfeu.
Oh, Eurídice.
Cala-te, dizes

 tu.

 

PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-19

Dia 19

Ao décimo nono dia 
o título olímpico 
nos olhos 
de um cão 

rendo uma vida por ti, 
diz o cão, 
onde não há palavras, 
só ordens e sons 
só fome 
e detalhe, 
só medidas infinitas 
de virtudes
e abandono
e pequenez
em ti



diz o cão
 

PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-18

Dia 18


Ao décimo oitavo dia
concordamos
que nem tudo é sobre o amor
que não se escala um mês
sem frieza
que não se vive a vida
sem vidro nos olhos
e sombra
na alma



ao fim da noite percebemos
nas dobras dos lençóis
nos braços sobre pernas
sobre braços
sobre pernas 
que este poema

é mentira





PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-17

Dia 17


Ao décimo sétimo dia
serei o brilho
do príncipe
o fisionomista
coreano
que valida os reis
o verbo curto 
na obra-prima:

disse ele
disse

Cummings
e depois 
disse ela

disse ele
permite

que sinta?


mas eu só deixo
palavras com o teu
limite
e tu não tens
sexo
nem fronteira
e o corpo aninha
sem medida


o amor
é sobre-urbano

o amor
é sobre-humano


PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-16

Falta de humildade, falta de competência, falta de respeito


Há anos que não escrevo sobre isto.
Mas esta inenarrável história de incompetência do Citius e quejandos faz-me sair da toca. Fiz parte da concepção da justiça moderna, estou nas fundações dela e levarei esse orgulho para o túmulo - sem falsas modéstias ou assombros. Em 1999 já andava a dar entrada de peças por email, mas o Estado ainda não tinha meios, sequer, para os receber, ou não tinha dado formação aos funcionários. Mas já tinha feito as leis. Em 2004, um trabalho integrado com o Bastonário José Miguel Júdice e, imaginem, o ministro Aguiar-Branco e o seu chefe de gabinete João Miguel Barros, fez com que uma equipa curta - com alguns carolas a ajudar por fora, sem receber um cêntimo - projectasse uma modernização rápida e funcional: um decreto-lei que sempre esteve para não entrar totalmente em vigor - o que obrigava a que todas as peças entrassem por email - impeliu os advogados a comprarem computadores e a aprenderem a usá-los. Foi um momento bonito, puro, mas onde rapidamente foi também possível observar no que se torna a actuação cívica pura: tudo o resto seguiu o seu caminho à nossa margem e na habitual teia de intereses. O sistema de vídeo-conferências, totalmente inadequado e caro (custou muitos milhões, quando já havia meios para o fazer a baixo custo), a treta do MDDE e o próprio Citius foram entregues a empresas e a consultores que obviamente algum político conhecia, mas não nós, os pioneiros da modernização. Alguns consultores e empresas receberam milhões, não nós. Andei dois anos a dar conferências - sempre gratuitamente e a expensas próprias - em nome da OA a audiências universitárias de estudantes de Direito, Economia e Contabilidade, a dizer que, embora houvesse legislação que aprovava a certificação digital, ela não era legalmente possível, porque a lei previa uma entidade certificadora que não existia. Nessa altura, um político ligado à modernização da justiça, e que não vou nomear, com funções no governo, explicou que uma assinatura digital era uma digitalização da assinatura manual, hein? Tornei-o anedota das conferências, claro, embora sempre lhe tenha poupado o nome, elegância que ele, certamente, não teria comigo, porque a política actual é canalha. Entretanto afastei-me, desde 2007, como sabem, para me dedicar à literatura. Fechei o meu site gratuito de informação jurídica que, e eu sempre estanhei isto, dava as informações mais rápido que alguns sites muito profissionais ligados aos Estado. Mas nunca deixei de exercer a advocacia, que ainda hoje me põe o pão na mesa. Agora aconteceu isto. Fez-se tudo aos pontapés e à pressa- e principalmente sem concepção qualificada. Se tivesse havido competência e humildade política, a senhora ministra tinha pedido ajuda a toda a gente. A OA enviaria os seus pares mais qualificados (se me pedissem para ir uma semana trabalhar de graça, a bem do país, eu fá-lo-ia sem pensar, como fiz sempre no passado), os funcionários judiciais idem, os magistrados idem, e nós púnhamos sozinhos esta merda de reforma de pé. Aliás, nem eram precisas deslocações. Bastava que todos os agentes forenses tivessem sido chamados a ajudar, e fosse possível a actualização cruzada do sistema com validação pelos mandatários, magistrados e funcionários de cada processo. Simples. As mudanças iam acontecer à medida das necessidades e o sistema nunca pararia. Ia haver notificações específicas para validar a mudança nos processos - e, claro, mais trabalho, mas isso é o que andam os funcionários a fazer, processo a processo, caixa a caixa, e é muito mais fácil de fazer digitalmente - mas a verdade é que todos iam participar e ajudar e mexia-se primeiro nos processos vivos, quando agora se tratam da mesma forma os mortos, moribundos ou vivos. Claro que isto só acontece porque os políticos, os decisores, não fazem ideia do que está a ser feito e de como as coisas funcionam e mentem às pessoas e aos profissionais com todos os dentes que têm. E, sim, a OA, os funcionários, os magistrados e até o povo, através da acção popular, deviam accionar o Estado e pedir-lhe contas - por exemplo, a começar pela devolução das taxas de justiça, porque o bem/ serviço fornecido tem graves deficiências. Algo que a senhora ministra, onde eu não reconheço uma advogada, tinha de ter tido humildade e competência de fazer. Ainda as pode ter. Chame-nos, peça-nos ajuda. Eu ajudo, ainda que lhe chame pacóvia na cara e na hora que mo pedir. Mas ajudo. Não finja que está tudo bem ou vai ficar perfeito rapidamente. Isto é tão grave, tão grave, que os movimentos políticos se têm dirigido a tapar o sol com a peneira. Aliás, a oposição também deve perceber pouco disto, porque não tem dito ou feito nada que se veja. Talvez consigam enterrar este escândalo, mas nós sabemos o que está a acontecer: em vez de envolverem todos, estão a rebentar com meia-dúzia de rapazes e raparigas que trabalham à unha 24 sobre 24. De forma perfeitamente amadora e impensável no ano de 2014 e em pleno século XXI. Como eu costumo dizer, não PG-M, mas PQP!!!

PQP 2014

Dia 16


Ao décimo sexto dia
percebo
o poema infinito
do amor

passámos o meio de
nada
e ainda se escreve igual

se o amor está no silêncio
na mão que subtrais
em público
para ninguém saber
de nós
na ponta dos dedos
que seguem o meu
cabelo
no cheiro das manhãs
sem ti



o amor
estará sempre
o amor
estará todo



calado


PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-15

Plátano, Madeira e o Prémio M.A.Pina 2012



O Prémio M.A. Pina 2012 foi um prémio de poesia que tive uma imensa honra de vencer  com o poema Plátano - Manuel António Pina já não fez parte do júri desse ano, em que ainda se chamava "Concurso nacional de Textos de Amor", do Museu Nacional da Imprensa, e veio a falecer no dia 19 de Outubro, precisamente de 2012. Um ano marcante. Fui o primeiro éditor a vencer o Prémio Pina, e essa foi uma das principais razões de ter concorrido: não haver éditos que o tivessem vencido, até à data. É um prémio promovido por uma instituição da minha terra natal, o Porto, e senti-me obrigado a contribuir para que crescesse e alargasse o espectro de participantes. Desde essa data, lutei por este prémio, cujo gozo finalmente me foi permitido, com uma maravilhosa viagem à Madeira. Esta fotografia simboliza-o. Gosto muito dela. Se eu vos dissesse que tinha uns cinquenta anos, poucos duvidariam. Mas tem uns dias, apenas - é já de 5 Setembro de 2014. É no Monte, na Madeira. Os moços despegam lá pelas 13h, e vem um autocarro para carregar estes e despejar mais uns cinquenta - turno da tarde. Deles ouvi as mais inspiradas declarações às mulheres bonitas de todo o mundo. O turismo madeirense está incorporado em todas as almas, temos muito a aprender com elas.

Dia 15



Ao décimo quinto dia
amo-te outra vez
no mundo
na cidade
nos mercados
nos comércios
nas comidas
nas bebidas

ao café

amo-te
nos hotéis
se a recepção guardar
o pê
ou no jardim
se o amor guardar
você


Maria
e preclude o verbo

a proposta vai de pé
o desejo
vai deitado
ou vai de lado,
complemento
enviesado,
nome

paixão
vocativo

Maria

Maria e preclude o verso
e tudo em todo o lado e em qualquer tempo é
(como este dia)
de

Maria

a proposta já caiu
nós de joelhos
mais novos
mais velhos
com deus
sem deus

(e ao décimo quinto dia
 somos)

Maria


PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-14

Dia 14


Ao décimo quarto dia
és uma ilha
de levadas e de rios
bravos
de calhaus e de escarpas
doces
não há dureza nos medos
nem desespero na
queda
não há defeito no que está
antes de nós 


no amor que é sobre-
-humano


como a terra onde nascemos
como o ar em que medramos
e podemos cair juntos
em abraço
sobre todas as fajãs
ou distantes
como ilhas 

como aves

ascender



PG-M 2014
fonte da foto

2014-09-13

Homo Literatus XXI (e a feira-do-livro-mesmo-do-Porto)


Primeiro ponto prévio: só o meu leitor me é hierarquicamente superior na literatura - o acto de criação só responde perante aqueles para quem cria.

Segundo ponto prévio: o meio literário não foge aos tempos que vivemos, os da mediocridade nos vários poderes. Os tipos de mediocridade no meio literário são de várias ordens e feitios: estão também em alguns que já deram muito à literatura, e que não resistem a ser arrastados, de vez em quando, para os níveis rasteiros e a fazer juizinhos ou a adoptar atitudezinhas; estão em alguns escritores que se vão munindo de certezas parvas e as vão difundindo por aí; estão em alguns organizadores de eventos literários que começam a achar-se importantes por conviver com alguns grandes; estão nos que citam grandes nomes e criam cultos, tornando-se animais acríticos dentro dos cultos e descontroladamente histéricos fora deles - alguns até usam as redes sociais para exaltar moderamente e apoucar furiosamente; estão nos que se aproximam dos pares para os apoiar no frontispício e trair pelos fundos; estão nos, poucos, medíocres desonestos, ou nos desonestos de qualidade, a que não podemos fugir, sob pena de nos tornarmos eremitas; estão nos que dão opinião apenas à sombra dos outros, ou depois de lhes perceberem a inclinação; estão, pois, nos que querem estar de bem com deus e com o diabo; estão em todos os que perdem a curiosidade e o encanto.


Mal nenhum em simpatizar com medíocres - há pessoas verdadeiramente simpáticas que nem sequer têm consciência de o ser, tal como mal nenhum em odiar génios (o problema talvez esteja no "odiar", não no "odiar génios"). Há sempre casos práticos contemporâneos desta evidência. Neste preciso momento o ódio a Saramago vai-se esbatendo com a sua não existência física, mas persiste viva aquela "impressãozinha" do costume ao Lobo Antunes. Aliás, eu tendo a simpatizar com os medíocres, ou porque sou um deles, ou porque há sempre uma animação pungente na forma como se olham e se aplaudem, como se têm em boa conta e como defendem o espaço que ocupam, encarando-se como concorrentes. E até acham que estão certos, que a literatura é apenas isso: mais um comércio.

Esta gente raramente estima os maiores entre os seus contemporâneos.
Mas, mesmo quando se quer matar ou considerar morto um consagrado, há um erro ético na crítica. Outro filosófico. Outro social: não devemos desassossegar os mortos.

Há também quem escreva que tem saudades de uma boa polémica literária à moda antiga que, dizem, quase deixou de existir. À distância, o ataque pessoal é motivo de sorriso. Na contemporaneiade, nem por isso. Mas até isso se contraria: um bom debate de ideias não tem de incluir o ataque pessoal, não precisa, os grandes, os mesmo grandes, sabem ser elegantes. Claro que houve e haverá sempre grandes que eram e são também grandes bestas. Mas deve investir-se mais na ciência, menos na vaidade, no narcisismo e no egocentrismo.

Não advogo que desprezemos sumariamente os que consideramos errados ou fora de foco - mal nenhum em discordar. E não o advogo, em particular, na Feira do livro que renasce na cidade onde nasci e que acarinho com todas as minhas forças. Não quero bichanice entre as pedras do Porto, embora saiba que ela é, na prática, inevitável. Mas para tal devemos enfrentar esses maus hábitos e tentar trabalhar com quem os transporta, em vez de lhes virar as costas.

Fui ao Brasil com dois best-sellers, tantas vezes ostracizados nos meios provincianamente elitistas, e aprendi a simplicidade e a essencialidade da relação com os livreiros. Aliás, a experiência brasileira foi única, e escreve quem está presente e observa os festivais literários, como utilizador e leitor, há muitos anos, e gosta menos deles como escritor. É raro encontrar um espectro alargado e diversificado como o que levámos a este festival brasileiro, em que todos aprenderam com todos e nem por um momento se perdeu tempo a falar de personalidades. As conversas, incessantes, foram, aliás, surpreendentemente ricas. Acontece que os festivais literários nacionais estão a ficar planos, normalizados, estão a perder intensidade e densidade, e momentos como os que o Rubem Fonseca protagonizou na Póvoa são cada vez mais raros. E aconteceu porque era o Rubem Fonseca, não porque foi na Póvoa. Sem desprimor para os nomes que estão sempre em todos os festivais, muitos deles de pessoas com valor, outros nem por isso, e para o trabalho meritório de criar artistas pop na literatura, que é bem preciso, já era altura de nos deixarmos de manias e de tiques de elitismo.



A verdade é que falta Porto ao Porto. E Porto sem Porto é que não. Pelo menos nunca mais. É com alegria que recebemos todos, mesmo os que o ano passado tiveram medo de apoiar a mais pura iniciativa literária que conheci, um momento histórico de protesto de escritores contra os tiques de uma Apel que, recordo, interrompeu uma sucessão histórica de 83 feiras do livro com uma motivação espúria e, lá está, mesquinha: punir politicamente a equipa camarária de Rui Rio. E eu sei porque fui uma das centenas de pessoas que ofereceram à Apel alternativas sólidas e irrecusáveis. Muitas dessas centenas de pessoas tinham apoios que superavam largamente os 75.000 Euros pedidos pela Apel. E garanto-vos que a presunção e o pedantismo nem sequer quiseram ouvir. Quiseram apenas punir. Motivações tão pequeninas que o Porto não pode perdoar. A não ser que lhe peçam desculpa. Ao Porto e a nós, tripeiros.



 Verdade seja dita: expus estas preocupações à organização da actual Feira do Livro do Porto. Apesar dos muitos defeitos que lhe podem apontar, ouviram e acolheram. Estavam mesmo dispostos a promover um debate que eu considerava essencial entre homens e mulheres de pêlo na venta como são os nortenhos, e que tinha de contar com os protagonistas do protesto livre de 2013. Dificuldades de agenda já não permitiram esse debate, mas uma livreira e escritora desassombrada acabou por ter uma atitude à moda do norte: fez constar todos os nomes no programa, embora o meu fosse dispensável, porque tenho fraca presença e trago pouco para lá da palavra escrita. Mas vou lá estar, isso vou, e com muita honra, na última tarde do último dia de feira, dia 21, a conviver com os leitores no meio da Avenida das Tílias.


Há uma falta, sim, há uma falta importante, e eu vou trazê-lo aqui e agora: o Luís Miguel Rocha.
Este rapaz, estre tripeiro, esquecido e olhado de lado pelo meio literário durante tantos anos, e que um bom trabalho de livreiros e agentes tem trazido mais para perto de nós, é só o escritor com quem mais aprendi neste último ano. Entre nós, e naquilo que posso divulgar, ele sabe que eu sei que ele sabe (uf!) escrever mais do que o necessário para best-sellers - basta tomar contacto com o primeiro de todos os seus livros - e estou ansioso que ele entre por outros campos. Mas ele ensinou-me tanto, a mim e a outros. Ensinou-me a relação essencial com os livreiros. Ensinou-me a atitude correcta, e tenho até a certeza de que nesta altura me corrigiria todos os superlativos. E basta olhar para a forma como ele construiu o seu percurso para perceber a lição que deu a tantas editoras que ainda não sabem vender livros ou chegar mais perto do leitor.

E, sobre este ano, o último raciocínio que fiz foi muito simples. Ainda que seja preciso mais Porto, porque todos os escritores portuenses gostavam de estar presentes para receber e festejar os seus pares - e não estão -, ainda que se dispensassem os tiques elitistas,  se eu vou à feira lisboeta da Apel por respeito aos meus leitores e à minha editora, vou ao meu Porto.

Tenho pena, muita pena, que a principal editora da minha cidade, e que tem o nome dela,  a Porto Editora, provavelmente o maior grupo editorial português do momento, não esteja presente na feira. Entre a PE e a CMP, há certamente gente menos iluminada, não faço ideia se de um ou de outro lado - ou se de um lado estranho a ambas, um qualquer outsourcing moderno -, mas que não podem nem devem afectar o prestígio de ambas as instituições, desiluminados que ainda não perceberam o que está em causa, tal como tantos no ano passado. É triste quando a História tem de contar com esta gente que dá cabo dela. A verdade é que, "até ao fecho desta edição" ainda não tinha sido possível apurar porque é que a PE não estava na feira. Mas era o mínimo que a PE e a CMP podiam fazer pelos leitores: explicar porquê. Não explicam porque, disso não tenho dúvidas, nenhuma motivação é maior do que o leitor. E, para explicações pequeninas, pensam eles, mais vale estar calado. Era bom, no entanto, ver mais coragem.

Já poucos conservam aquela sabedoria que já quase não existe na nossa geração. Talves seja impossível voltar. Mesmo entre os mais cultos. Não há tempo. Mesmo que haja muito mais tempo do que o que dizem. Mas ficam as saudades dos que verdadeiramente sabiam e sabem disto.

Onde ficam os livros nisto? Não ficam. Verdadeiramente não ficam. O Homo Literatus XXI tem pouca literatura e sabedoria em si. Salvam-nos os leitores, os que estão no topo da hierarquia. Mesmo que vos custe.


PG-M 2014
fonte da foto: jornal Público