2016-07-13

Ode a quem ama quem nós amamos

A tua fotografia, as fotografias de todos os que amam quem nós amamos, serão sempre a composição gráfica de uma pietá.
Vais pensar que é ficção.
Depois vais saber que é verdade, porque eu to vou dizer.
Depois vai ser ficção outra vez, para proteger as vozes claras do mundo.
Depois vais ler aquilo que eu estou sempre a escrever:
que a ficção existe pela verdade e a verdade precisa da ficção, umas vezes para temperar o sofrimento, outras para entender o que a transcende.

O amor é sobre-humano. Não se entende de frente, mas em dinamismos que às vezes o fazem parecer o seu contrário. É banal e simples, como a beleza. Olhas a beleza de frente e podes não a entender, podes vê-la transfigurada. Qual é a diferença entre observar uma obra-prima numa fotografia de altíssima definição no ecrã do teu computador ou ao vivo, num museu, pendurada na parede? Se te aproximas demasiado, não vês o quadro, não vês a beleza, vês o detalhe, vês a emoção da assinatura, vês a forma como foi construído, espantas-te como algo aparentemente tão desordenado como são as pinceladas vistas de perto pode dar-te a ideia da perfeição uns cinco ou seis passos atrás. E, antes de começar a explicar-te porque é que o amor é sempre incondicional e, enquanto existe, infinito - e, quando nasce por dentro das coisas e das pessoas, eterno, como o amor dos pais pelos filhos -, falo-te da beleza e de todas as coisas que nos transcendem, porque o amor é assim: sobre-humano. Ainda que a agitação e a imperfeição da vida, o egoísmo e a maldade, possam tornar um pai ou uma mãe incompleto e ausente para o seu filho, eles só morrerão completos com ele ao seu lado.

Deves estar a tocer os lábios, entre o espanto e a incredulidade. Mas afinal o que é que ele quer? Porque é que não deita esta pretensão de grandiloquência por terra e diz ao que vem, de forma tão crua e simples como a que defende para o amor e para a beleza, porque é que não é mais perfeito, como uma manhã de verão antes de o norte se levantar contra ela?

Então eu digo. Esta é uma oração de devoção a quem ama quem nos amamos. Se amas alguém que nós amamos, corres o risco de ser amada por nós. Se cuidas dele, se te preocupas, se o proteges, se lhe dás colo, se lhe exiges para não sermos nós a exigir, se lhe dizes para tomar cuidado, se o abraças, se és maternal e delicada, se te perfumas e o perfumas, se lhe dás sentido e tempo, corres o risco de ser tanto para nós como ele é.

Todas as pessoas boas são vítimas de uma solidão implacável quase desde o berço, porque essa bondade é uma pureza e uma inocência que são facilmente devoradas pelas multidões, mesmo que essas multidões sejam grupos de cinco ou seis estranhos ao núcleo sagrado da pequena família, que é a família sagrada, quando existe. Quando não existe, estás definitivamente por ti e só por ti. Por isso somos sozinhos na nossa intimidade, por isso nos deslumbramos e espantamos desde pequeninos, por isso temos medo de tudo, temos medo de dar aquele passo maior, de assumir aquele risco: porquê sair da concha, porquê sair do ovo, se aqui ninguém nos magoa e ali todos nos podem magoar? Eu respondo:

porque, se não saímos de vez em quando, não nos encontraremos.
E já viste a emoção de encontrar pessoas de bem, que amam quem nós amamos?

Deixa o pequeno risco ser a musculação do corpo para os embates da vida, mesmo que, de vez em quando, corra mal.

O que não corre mal, o que já é palpável, real, o que já aparece na minha mão quando a abro, é o teu amor pelo meu amor. Por isso te digo agora, pela primeira de muitas vezes, obrigado. Obrigado a ti e aos teus que tocam na mesma orquestra ou compõem a mesma sinfonia.

Finalmente, deixa-me acabar com a simplicidade que raras vezes sou capaz de atingir, e por isso é que sou bem pior do que tu:

sabes qual é, para mim, a característica principal deste amor incondicional - o amor é sempre incondicional - pelos que amam quem nós amamos? É ele ser livre e não exigir vínculo, compromisso, correspondência. É uma espécie de monólogo. Serás protegida e amada sem que isso dependa de ti.

Dar-te amor porque o amas e dar nome a isso nestas palavras é uma decisão apenas de quem ama, não de quem é amado.
É um imperativo de justiça nomeá-lo num determinado ponto do tempo.
Mas não depende de o teu amor por ele ser eterno ou passageiro, não te vincula, não admite interferências nossas, podia até já ter acabado, podia ser passado, e eu dir-te-ia que, se o amaste e cuidaste dele, nós passamos a amar quem amou quem nós amamos, porque nunca se passa por dentro dos outros incolumemente.

Basta o vosso amor ter acontecido. Pode acabar, pode aumentar, pode mudar, mas aconteceu.
Assim o nosso.

E, se eu sou pai, é tão paternal como o que lhe devoto.
E, se eu sou mãe, é tão maternal como o que lhe devoto.
E, se eu sou irmão, é tão fraternal como o lhe devoto.
E, se eu sou alguma coisa, é igual para ti, é tanto por ti.

Então eu digo outra vez:

Esta é uma oração de devoção a quem ama quem nos amamos. Se amas alguém que nós amamos, corres o risco de ser amada por nós. Se cuidas dele, se te preocupas, se o proteges, se lhe dás colo, se lhe exiges para não sermos nós a exigir, se lhe dizes para tomar cuidado, se o abraças, se és maternal e delicada, se te perfumas e o perfumas, se lhe dás sentido e tempo, corres o risco de ser tanto para nós como ele é.

Hoje é o dia perfeito para te dizer isto e te agradecer pela primeira vez.

Obrigado, menina.


PG-M 2016, dedicado a (e disponível para) todos os que amam quem nos amamos

2016-07-05

Falta-me o ar (Filho)

Filho, acho que é a primeira vez que fazes anos, 17, e não te tenho comigo. Escrevo-te em público porque eu podia ser reduzido a nada e existiria em ti. O meu mundo és tu, esgota-se em ti, não é nada sem ti, é tudo contigo. Deixa-me ser assim mais uns anos, até deixares a nossa casa e seres a tua. A tua mãe, ao meu lado, sente o mesmo. O resto vem a seguir, mas com o resto podemos morrer. Espero morrer com o resto e tu ficares para sempre e então todo eu ficar. A vida voltou a ser dura nos últimos dias, mas perante a notícia de ti nada dói. É a primeira vez que passo a meia-noite do teu dia e tu não estás aqui, é a primeira vez que nasce o teu dia e tu não estás aqui. É uma preparação para o futuro. Por isso é que eu já sei o que quero de prenda de anos, eu que os faço dentro de poucos dias. Se não te for insuportável, quando voltares a fazer anos, sempre que voltares a fazer anos, dá-me um abraço às primeiras horas do dia. Estou em crer que cura tudo. Assim talvez não sinta este embargo no peito nem abismos nos passos, como se o corpo evoluísse sem membros ou não evoluísse de todo. É uma sensação de afogamento. Falta-me o ar. Por isso esse abraço, para ficar à tona. Para respirar e seguir em frente. É tudo o que te peço, se estiveres perto. Podes até dizer à menina, ou então não digas, à meia noite de cada 5 de Julho, olha, vou ali à porta abraçar o meu pai; mas ele ligou-te?; não, mas vou ali à porta abraçar o meu pai, demora só uns segundos, ele está velho e chato, mas nestes dias fica em silêncio, dá-me o abraço e vai-se embora e depois é um dia normal e começa tudo de novo. Se puder ser, meu filho. Se puder ser. É uma sensação de afogamento, este amor. O amor que sempre foi maior do que os homens onde mora.

PG-M 2016
Foto de Paulo Almeida

2016-07-02

55 anos de Voleibol (Pedrosas Moreiras)



 A vida pode dar muitas voltas, mas esta noite não vai desaparecer. 28-06-2016: três gerações de Pedrosas Moreira jogam lado a lado pela primeira vez. Emocionante. O avô começou tarde a jogar, tinha uns 17 anos, mais ou menos a idade dos mais novos nesta fotografia. Mas deu aí início a 55 anos ininterruptos de voleibol nesta família. Três gerações de internacionais. Agradeço aos meus companheiros de treino do CAM, Flávio,
Eduardo, Marco, Pitrez, Lucas e Pedro Vasco, terem proporcionado esta noite tão especial, como adversários (e amigos, claro). Jogar ao lado do meu filho em pavilhão pela primeira vez foi a cereja. Houve momentos em que olhei para o lado e pensei como era maravilhoso estar ali e ter o privilégio de ver o avô de 72 anos passar para os netos de 16 e 18. Na foto que abre este post, que é de Paulo Lucas, da esquerda para a direita de quem vê: em cima, Marco 41, Pedro 46, Guilherme 72, Paulo 46; em baixo, Guilherme 16, Simão 18, António 16
 Foto de Paulo Almeida
 Foto de Paulo Almeida
 Foto de Pedro Guilherme-Moreira
  Foto de Paulo Almeida

 Foto de Paulo Almeida

2016-06-17

(Não é o Voleibol, nem somos nós) São os trapos


No meio da literatura, o que é melhor do que ela: Voleibol, claro. Para uma equipa quase de geração espontânea, chegar ao pódio na Taça Masters AVP não esteve nada mal. Mas, acima de tudo, foi uma experiência incrível de regresso à competição oficial e federada, quando à maioria de nós, eu incluído, isso nunca passaria pela cabeça; creio que nem sempre jogámos voleibol do reumático e houve excelentes jogos(lembro o CAM-Ginásio de Santo Tirso), embora o público não seja o forte neste escalão tardio; é por isso que merece um destaque especial o Desportivo da Aves, que foi a equipa que conseguiu arrastar mais público consigo, quer em casa, quer fora. Quanto ao CAM (Clube Atlântico da Madalena) e aos meus companheiros de aventura, valeu cada ponto. Obrigado pelas várias ressurreições e viva o voleibol! Para o ano há mais, que até aos 90 ainda falta. 

PS: para provar que ainda se fazem coisas inovadoras nos Masters, no primeiro jogo, com o ALA, fiz mais de uma dezena de serviços seguidos (recuperámos dos 13-19 para os 24-19, coisa que nunca houvera feito enquanto mancebo. Ora toma, PG-M, e depois queixa-te da anca! :)Anexa-se prova de avistamento do superman - o número 3, claro :)

2016-06-15

Braço Armado

Talvez o meu regresso à fotografia amadora a fingir que é a sério, mas sem levar a coisa muito a sério, sendo que este é o primeiro dia do resto dessa vida, depois de abandonar essas lides lá pelo princípio do milénio, quando ainda fotografava analógico. O meu álbum público de fotografias (têm de ser meus seguidores) pode ser seguido no Flickr em PG-M Photo (há outros álbuns).

 Braço Armado

 
 Americana


Íntimo Carcereiro

Vai passando Hannah

vai passando Hannah com a sua pele impoluta e nívea,
vai parando Hannah, vai parando Hannah,
um carro contendo um rapaz jovem e bonito abranda no zebrado
para a deixar passar

Hannah está aparentemente velha
velha como os corpos que se preparam para estiar

desta vez o rapaz jovem e bonito repara em Hanna
e sucede na sua cabeça uma cena que raiaria o ridículo se se passasse
fora da sua cabeça
desliga o carro
sai do carro
intercepta Hannah a meio do percurso que a levaria
ao outro lado da rua
toma-lhe as mãos para ter a certeza
daquele olhar ancestral
que a contém toda
e todos
desde o princípio dos tempos 

o adjectivo macilenta é muito usado para definir a pele de um velho
mas a pele de Hannah é impoluta e nívea
as rugas não definem ninguém e não definem Hannah
a rendição do olhar e do corpo sim
mas Hannah usa sempre os melhores vestidos para passar
que na primavera são estampados com a primavera
e quando se esquece do perfume é capaz de
fazer todo o caminho de volta só para
passar

Calha Kevin, assim se chama o jovem rapaz que intercepta Hannah
a meio do zebrado,
tomar as mãos dela em frente a um descampado que hoje funciona
como depósito de lixo e outrora
era o jardim dos amores
que rompiam a regra da soleira
e da vista dos pais

e ter sido nesse jardim que Joseph, o amor da vida dela
entre o final da guerra da Coreia
e a véspera do próprio funeral,
quando se despediu da vida com delírios românticos transformando
a desventura da morte no altar de uma vida e Hannah beijou o seu soldado
deitada ao lado dele na cama
como fizera naquela lixeira que fora jardim e dizendo
nunca mais partes para longe de mim sem eu te poder perder
perante o mundo

e foram de si próprios, ali mesmo, no jardim, no mais sublime
desespero atrás de uma faia centenária
que eles cortaram pelos pés para abrir
o aterro

é por isso que quando Hannah vai passando
o zebrado se vê sempre inteira e infinita
e é por isso que sucede na cabeça de Kevin
a cena ridícula

ele toma Hannah pelas mãos e já não há
cinquenta anos a separá-los
e beija-a na boca e os lábios
dela, só ligeiramente mais finos
do que no tempo da faia,
respondem sem pudor

Vai agora passando Hannah
do lado do aterro
e em fundo todas as tempestades
e venturas das mulheres elegantes
vai erguida e agradece
ao rapaz que parou

não segue imediatamente em frente
porque repara que para ele, desta vez,
como acontece quase sempre quando
cruza aquele zebrado, ela não está
transparente

mantém a classe do seu corpo delgado
no vestido estampado
o rímel e o lápis com o exagero certo
da sedução eterna
o perfume intenso, importante
para os abraços e para
passar
como se o corpo impoluto e níveo
se replicasse por todos
os lugares
em que passa Hannah

Vai passando Hannah e Kevin
sorri-lhe e Hannah
hesita
olha para trás, mas a faia
não está lá, Kevin
estica o braço e toma-lhe a mão
e todos os homens e mulheres esticam os braços e tomam as mãos deles
e retomam esta cena dos seus dias
o momento em que pararam e repararam
em Hannah ou em Kevin ou em Joseph
antes de morrer

nem a sedução nem o desejo
têm um tempo ou um corpo
evidente
nem Hannah engana os tempos
ou os corpos evidentes
só passa erguida 
no vestido estampado e
o rímel e o lápis com o exagero certo

vai passando Hannah com a sua pele impoluta e nívea,
vai parando Hannah, vai parando Hannah,
um carro contendo o mundo inteiro abranda no zebrado
para a deixar passar


PG-M 2016
fonte da foto

2016-06-13

Os meninos e o livro do dia

há momentos do caraças. Provavelmente, quando o Carlos Nuno Granja escreveu no mural que um dos detalhes mais saborosos do sábado dele na Feira do Livro de Lisboa foi o facto de ouvir e ver que "A manhã do mundo" foi livro do dia, não sabia que me estava a activar uma multiplicidade de sentimentos (todos intensos); reflecti muito na alegria que senti por saber disso; não posso esconder que o facto "Feira do Livro de Lisboa" me traz sentimentos dissonantes que convergem num só sentimento consonante de gratidão aos leitores e aos pares; mas quando a FLL começa, todos os anos, vai para quatro anos, eu lembro-me da aflição em que andei para que ela não acabasse no Porto; lembro-me da chamada do rapaz Luís Miguel Rocha para nos unirmos a norte e levarmos à praça dos momentos mais bonitos das nossas vidas e das vidas dos leitores que lá estiveram na primeira semana, ainda sem imprensa e mediatismo; lembro-me quando o menino Luís me escreveu para fazermos um vídeo do Happy na FLL com os leitores e com os pares e depois, pianinho, às primeiras horas do dia, foi morrer; lembro-me de quando era um leitor pequenino que, pela mão do meu pai, percorria o parque com os olhos a brilhar e ficara apaixonado pelos escritores atrás de mesas, sozinhos, à espera dos leitores por ofício e honra; lembro-me de ter desejado estar sozinho atrás de uma mesa dessas e de ter cumprido esse sonho precisamente na penúltima feira do livro da Apel no Porto; pensei em colocar aqui a notícia de que "A manhã do mundo" tinha sido livro do dia no sábado, e isso quer dizer que o nome do livro foi propagado pelos altifalantes do parque através de uma voz bonita e que esteve em destaque nos pavilhões da minha editora; provavelmente já aconteceu outras vezes, mas esta foi a primeira em que soube, por aquele que é hoje um dos meus maiores amigos e que, nesse dia bonito do protesto dos escritores no Porto, se aproximou de mim com os olhos a brilhar tanto como os meus brilhavam pela mão do meu pai, e me pediu um autógrafo com uma humildade desconcertante; hoje é o responsável pela programação do festival literário mais livre e independente do país, o de Ovar (FLO); pensei vir dizer, com alegria de menino, precisamente, que o meu querido livro, um filho, como sabem, que eu adoro e cujas memórias em projecto me comovem sempre que o vejo, tinha voltado à vida ao sol de Lisboa, no último sábado; como se vê, porque hoje é segunda-feira, não o escrevi. Pensei noutras coisas, pensei em continuar sossegadinho e calado no meu canto, se me entendem; mas, caramba, como provinciano que sou, a emoção voltou hoje, logo pela manhã, e eu pensei que há tantas coisas nesta partilha que podem fazer bem aos outros - como estas pequenas memórias do menino Luís, que nos falta -, que não tenho direito de as guardar só para mim. E, no improvável acaso de a expressão da emoção me fazer bem só a mim, aqueles que me amam, mesmo com estranheza, vão sentir esse orgulho e esse arrepio por mim. Bom dia. A começar assim, só pode ser uma grande semana.

2016-06-07

Muguruza

 Muguruza. Nova rainha de Roland Garros. Bateu a eterna Serena na final, há pouco. Desde que esta campeã espanhola bonita e elegante perdeu a final de Wimbledon, no ano passado, que a sua base de fãs alargou. Eu incluí-me logo entre eles, abandonando a minha favorita até ali, Kerber, que acabou por ganhar o Open da Austrália. Ah, talvez seja para vocês uma surpresa eu ser doido por ténis. Há poucas coisas que me dão mais prazer do que ver um jogo de ténis com os excelentes comentadores portugueses da Eurosport, e olhem que não é por haver identidade com o meu voleibol (são desportos muitíssimo diferentes, quase como a água do vinho - o futebol acaba por ter mais identidade com o voleibol do que o ténis) ou por saber jogar, porque não sei (joguei algum ténis de mesa, que também é muito diferente do ténis). Já gostava de ténis quando li o ensaio do Foster Wallace sobre o Federer, mas a partir daí passei a ver cada jogador como uma personagem romanesca. Muguruza, nascida na Venezuela, tem algo de branca-de-neve e rainha má ao mesmo tempo. É uma miúda, tem 22 anos, mas observar os atletas de excepção, mesmo os muito novos, traz sempre lições. É meu costume demitir-me de fã depois da glória dos meus ídolos, mas é muito cedo para debandar deste. Certo, o deslumbramento e o excesso de atenção depois de Wimbledon afundou-a por alguns meses e parecia que estávamos a perder aquela pancada violenta e assertiva para a linha de fundo, aquela raça espanhola, aquele sorriso permanente que não é um sorriso, mas uma cara de poker, e a forma como dedilha e acaricia a raquete gisando o próximo ponto ou controlando os momentos de euforia e decepção da mesma forma. E hoje, ao vencer o seu primeiro "major", Muguruza também começou o percurso da humildade. Foi claro, para quem quis ver, que ela só aceitou que tinha ganho quando já não havia hipótese de o sonho ruir ou os deuses confirmarem que tinha sido tudo mentira. Caiu no chão de costas muito depois de o árbitro confirmar que o último desenho, um grande arco, que fez passar sobre Serena como se lhe devotasse essa catedral, tinha caído dentro. Serena chorou como uma menina pequenina, falando em francês - que bonito foi ver isto em quem já ganhou tudo e agora só colecciona recordes - e a menina Muguruza aguentou a comoção como uma senhora. Que ela e a sua raça latina fiquem no topo por muito tempo. Porque Serena, essa, aterrará sempre de pé.

2016-05-27

O meu campeão

De anos a anos, o meu campeão tem de passar no blogue, até porque ele cresce e fica homem e quem lê apenas o blogue também merece saber - e ele, não sendo, é meu, como não sendo a minha vida toda, é tudo na minha vida - e ainda há o voleibol, que está acima de uma paixão para os dois. 
Em blogue, falo pouco ou quase nada da paixão absoluta que tenho pelo Voleibol, desporto que está há, praticamente, 60 anos na minha família, atravessou três gerações de internacionais e tem agora como intérpretes máximos os elementos da nova geração, Guilherme, 16, (o meu filho), Simão, 18, e António, 15 (sobrinhos). Esta é a oportunidade de deixar aqui algum lastro: um vídeo e algumas fotografias do rapaz que fez toda a sua formação no Clube Atlântico da Madalena e, no último ano, na selecção nacional, com quatro treinos diários por semana, projecto que ele abraçou com paixão naquele que é, provavelmente, o ano mais duro na escola - e tem trabalhado tanto e com tão bons resultados, escolares e desportivos, que é neste ponto que merece o destaque aqui. É uma excepção à regra, mas é um boa excepção. O meu Guilherme, pois, o 3 no clube e o 8 no último Europeu Wevza na selecção nacional de Sub17, que agora passa a Sub18, apresentado ao mundo.  Em primeiro lugar, o vídeo:



Bilateral com Espanha Dezembro de 2014,começo do projecto da selecção nacional:


Partida para estágio
No estágio das selecções de praia, em Castro Verde, 2015
Já em Itália, com Joaquim Pacheco em fundo
Itália-Portugal, 24-07-2015 (aqui é o 8)
No início da época 2014-2015, ainda com 15 anos, Pavilhão Municipal Póvoa de Varzim





Fase Final Nacional Juvenis, 2016, Pavilhão 2 da Luz






2016-05-16

O segundo alpendre

 Ao olhar os outros através do fumo da noite
estimo os que não olham para cá e temo
os que reparam na mancha do meu corpo curvado sobre o cigarro a tomar sentido de amanhã

deixem-me em paz, direi
deixa-me em paz, dirão
Vai um cigarro?

Não me levanto no alpendre. Não sorrio.
Inclino a cabeça atrás de outra baforada. A vénia.

E a semana entra de laço
com estranhos



PG-M 2016
fonte da foto

2016-05-14

para ser poeta


para eu ser poeta para os poetas
podia dissolver a pele
na rua
deixar o sangue em vez das casas
o cheiro em vez
dos carros
mas eu sou só poeta
para ti
e a poesia é a linha de luz
do teu corpo
ou o sábado de
manhã ou
o escritório vazio

e nós aqui


PG-M 20016
fonte da foto

Sábado-madrugada


meu amor, o dia nasce

os galos replicando a aurora
o derrame das ursas nos quintais celestes
copiam breves pautas pequenos pássaros em vastas copas de pomar
e há um só risco de luz no fundo dos olhos, primeiro de maio, depois de ti,
que de mim nasces numa volta da cama
os lençóis quentes puxados para cima dos ombros, bom dia, 
que horas são?, é cedo, dorme,
voltam-se os corpos no espaço sideral
e o dia nasce e a revolução está feita

nós não
nós ainda não

ainda se dorme dentro da casa










PG-M 2016
fonte da foto de Vin Scott

2016-04-27

(o apuro das estações) da instalação da primavera


reparei a descer um caminho de barro entre campos que os animais
presos a um ponto fixo para pastar entregam todos
ao fim do dia um círculo perfeito
que subtraem ao campo
e pus-me a pensar que aqueles círculos que se vêem do espaço
podem não ter sido obra de civilizações extra-terrestres,
mas apenas de civilizações atadas a pontos fixos
sem liberdade a entregar círculos perfeitos
depois do almoço
e, para não me parecer tanto com o Eme Tavares,
tenho forçosamente de escrever que não foi só nisto que
reparei durante a instalação tardia
da primavera

embora eu tenha a certeza de que, se estivesse frio e chuva e mar
alteroso, não teria reparado nos animais a pastar,
eram cavalos, póneis, burros, um bode e
eu, sigam em frente, não há metáforas

aqui

eu próprio, com o dano do corpo e da vida na praia,
tinha marcado o início da primavera para domingo,
mas só desci o caminho a pé quando fui trabalhar,
agora eu vou trabalhar a pé todos os dias,
os sapatos ficam cheios de pó, os olhos
não, o povo estranha que o advogado
saia calçado e de pasta e passo,
quando o mundo anda todo descalço e de telefone
móvel nas patas e a correr, mesmo parados
dentro de carros ou de cabines
telefónicas que já não existem

a chorar

buzina-se menos nos invernos modernos
estar parado é bom, podemos ver os mails,
os likes, as declarações
amigáveis, sorrimos ao dia todo
sozinhos, temos saudades
de um olhar, talvez do
nosso próprio olhar, e depois,
nos funerais, fixamos o chão por
respeito, suplicamos o céu por
agonia

e a vida esvazia por
desventura

foi aflitivo descer o caminho de barro sem saber
nem querer saber
o nome das flores

e eu peço desculpa por não ser importante
de facto,
só abri este poema para fixar
os círculos perfeitos dos
seres imperfeitos
e explicar um detalhe da primavera:

à hora do almoço, porque o vento é
liso e o resto do silêncio quente,
já se ouvem os gritos abafados
dos miúdos no recreio da escola,
como os ouço da varanda sobre a praia
antes das sestas de verão

e essa indolência
essa inocência abafada e longínqua

é,
sempre foi,

toda a primavera que há
em mim


PG-M 2016


2016-04-11

este atraso da primavera


não me lembro de uma primavera tão atrasada a norte, já fui a sul
e vi-a lá curvada a pedir alimento, porém nas caixas
torácicas das mulheres e dos homens do norte
não está

não é tanto

o frio ou a chuva ou até
a temperatura, mas o
elemento; eu vivo
junto ao mar e pelo menos esse sinal,
de o mar continuar nervoso e agitado mesmo
em dias exultantes,
basta. o sol
não faz o verão,
a chuva não tem no corpo
o inverno e o corpo
não sobrevive sem
outonos

é uma operação matemática basilar dizer
que a primavera é o outono do inverno
e que o verão é o outono da primavera
e que o outono somos
nós
também já sabemos das nossas aulas de álgebra
que o algoritmo do amor perverte as estações

seria forçar o poema dizer que a primavera está atrasada porque toda a gente
vive com máquinas na mão e sob iluminação artificial entre a casa onde o
medo tem pausas e o carro onde transita entre estados de raiva e o trabalho
onde por vezes mirra, porque isso é assim de norte a sul e a primavera
só se atrasou a norte

é verdade que desligar tudo menos os olhos e os pêlos dos braços e
caminhar na rua faz sempre com que a essência do outono que somos
perverta as mesmas estações que o amor, porque o amor e o elemento
são o chão dos homens e das mulheres todas, mesmo dos frios
como invernos polares ou abrasadores como verões
tropicais

(estar no feminino o plural
de homens e mulheres não foi
lapso, mas porque chove a
intenção não apressa a
primavera)

este atraso da primavera, contudo,
mudar-me-á menos como pessoa
do que continuar a ler Sebald

e caminhar nas ruas com
o telemóvel desligado

é mais estranha a sensação de, trinta anos depois,
ter a mesma música como primeira da playlist,
cuja repetição envolvia, não um toque, mas a operação de
fast rewind e play, fast rewind e play, fast rewind e play,

ou voltar a um jogo oficial de voleibol

antes escrevesse um livro sem ninguém
onde em silêncio a escutasse chegar
e dissesse aos homens e mulheres
todas
que estar encerrado num beijo
é o agasalho certo

os lábios ligeiramente secos a mostrar a solidão
as línguas com o tempero da espera
as salivas mornas do adeus do
ano passado e depois os
círculos e semi-círculos
as elipses e as tangentes
dos beijos bem dados
e o tempo, o tempo longo,
o cheiro como as magnólias
a abdicar das folhas

pode já ser verão quando as bocas
descolarem

há abraços, sim, mas nem todos
com a consistência certa

os beijos não mentem
o mar também não
o vento às vezes
Sebald nunca

e a primavera a norte só se atrasa
de vez em quando


PG-M 2016
fonte da foto

2016-04-10

Frey e a memória daquele verão

Não é que me importe que a morte do Glenn Frey - não apenas o guitarrista dos Eagles, como vi por aí dito e escrito, mas um dos génios de um grupo genial, como são os Eagles - tenha ocorrido quase à sombra do silêncio, até porque não condeno o barulho que hoje se faz quando um grande - como David Bowie - morre. É assim mesmo, estamos no tempo em que todos nos podemos expressar e ser visíveis publicamente e, desde que não pensemos que o que dizemos é mais importante do que diz o vizinho do lado, desde que não disputemos o nosso protagonismo nem sejamos frívolos, acho muito bem que os grande se celebrem, forte e feio, à partida, já que raramente o são à chegada. Mas, dizia, não me importo que a morte do Glenn Frey tenha ocorrido quase em silêncio. Sou egoísta. Parece quase íntimo. Pois se o cultivo assim mesmo há tantos anos, porque haveria de morrer em histeria? Entre as muitas composições brilhantes de que foi autor, instrumentista e vocalista nos Eagles, devem achar estranho que anexe a esta celebração uma música menor, como Sexy Girl. Eu até concordo que é uma música sem uma qualidade supimpa, mas acontece que, se eu tivesse de me despedir do Glenn Frey, esta seria a banda sonora. Lembro-me perfeitamente: Corria o ano de 1985, eu estava na sala grande da casa dos meus pais, onde tínhamos uma aparelhagem de qualidade que eu estava proibido de utilizar, mas que utilizava todos os dias, desde que o meu pai não estivesse em casa. Às 14h, hora em que o Adelino Gonçalves arrancava com o power play da "Discoteca", na Rádio Comercial, eu estava sempre a postos com os dedos no pause do leitor de cassetes. Quando o Adelino se calava, soltava o botão e gravava. Eram cassetes e cassetes assim, com "misturas" quase psicadélicas. Imaginem então um dia de Verão na casa da praia de Francelos, a janela da sala aberta para o ar quente da rua onde, a cerca de cem metros, víamos deliciados passar as raparigas com as saídas de praia e as seiras com tolhas, cremes e lanches. Nesse preciso momento, as primas da Rua da Alegria, três belíssimas mulheres - uma com quase um metro e oitenta, uma com isso, outra com mais do que isso - acenam da rua e o Adelino Gonçalves fala da carreira a solo do Glenn Frey e da grande música do verão que naquele dia tinha a sua estreia na Comercial: e arranca o Sexy Girl. Não sei porque é que sempre a liguei mais à Cristina, que das três primas era a do meio. Talvez porque no meio esteja a virtude. E à notícia da morte do Glenn Frey, foi, claro, o sexy girl que ouvi na minha cabeça. She moved in next door to me, and she showed me the world. Então até já, Glenn. Para nos vingarmos, não está mal cultivar o irmão de Eagles, Don Henley, que lançou em 2015 um grandíssimo álbum: ouçam o "No, Thank You" e digam-me alguma coisa. Até lá, you are all sexy girls.
PG-M 2016

I am not to speak to you

"I am not to speak to you", stranger - Walt
Whitman. E o dia começara
com a Susana a postar que não ia ver o vídeo
de Natal que põe em imagens o síndrome dos
funerais, aquele do termos sempre tempo para
funerais e para dar ao polegar - que agora é
comunicar, não pedir boleia -, mas não para um
"desconfortável" café com aquelas coisas antigas
como olhares, toques, cheiros, até algum tédio e
desconforto, e logo a seguir a Maria João posta
este poema do Whitman que diz ao stranger que
lhe foi íntimo na memória e na solidão toda uma
vida:

I am not to speak to you

Ah, como duas boas amigas descarnam,
sem saber, meridianas,
a minha missão, que me foi íntima
na memória e na solidão toda uma
vida. 

Be afraid. Be very afraid. 


PG-M 2015

2016-04-09

Verdade. Truth. Mary. Cate. Nós.

Verdade.Truth. O que aqui escreverei não é sobre o que aqui escreverei. É mais amplo, mais meu, mais mundo. Talvez uma redenção. Cate Blanchett novamente deslumbrante. Não é só obrigatório para jornalistas. É para todos os que gostam de viver com verdade, mesmo que a verdade comporte riscos de nos pegarem fogo, de a frustração, os complexos, a vista limitada, nos arrastar para o lodo e nos mudar para sempre, não porque duvidemos de nós próprios, mas porque ficamos cansados e não queremos isso. Queremos paz e silêncio. Não seria um spoiler repetir aqui o momento mais marcante do filme, em termos de conteúdo e mensagem, mas prefiro que vejam e sintam directamente. É aquele em que ela fala da verdade e do barulho, dos factos e da aparência. É isso mesmo. Está bem: nunca gostei muito daquele da mulher de César, não basta ser honesto, temos de o parecer. Mas isso não é verdade, é habilidade. Se fores hábil toda a vida, serás canonizado. Se fores apenas tu, se amares e acolheres e seduzires e fores seduzido e te confessares, mesmo que respeites os teus princípios sagrados, não sairás incólume. Portanto, a vida ensina os verdadeiros a serem hábeis. Mas em que parte é que esse investimento na habilidade não vos soa a falso? A mim soa. Mas é assim mesmo. Hoje, para descredibilizarmos algo ou alguém, basta fazermos barulho. Em público ou em privado. Faça-se barulho e tudo e todos se apagam e pagam o preço que tiverem de pagar por serem inábeis. Com a jornalista cujo livro inspira este filme - e nele é retratada pela Cate -, Mary Mapes, conseguiram. Anularam-na para sempre. Verdade. Truth. Ainda assim redime vê-lo dito assim: basta fazer barulho para destruir a verdade e os verdadeiros, a honestidade e os honestos, o colo, o afecto, a luta, o sexo, o cheiro, a pele, o amor, o presente, o futuro. E até o passado, até o tempo.

PG-M 2016

2016-04-06

Granítico-poeto-murconhe


(sou eu)

.apenas.

Granítico-poeto-murconhe

(também se pode admitir a forma
 Granítico-poeta-murconhe

mas tem menos individualidade, sendo apenas respeitável como formação gramatical. A areia na barba e no lábio inferior não é relevante, é só verão; eu escolheria esta última forma para escrever na calçada e as pessoas calcarem, porque causaria menos estranheza e mais prazer a um colectivo. Temos de ter esse respeito pela sensibilidade média.
Ao formar a palavra nova - que sou eu, mas podem ser outros, portanto, não sou só eu - ambas são compostos não-sintagmáticos por coordenação, mas aquela primeira deformou-se em prol da própria personalidade do tripeiro apaixonado por livros e por escrever, podendo ser substantivo (se me tratarem um dia, como desejo, como "o" granítico-poeto-murconhe"), ou adjectivo, (se disserem que eu sou isso;), e deformou-se em derivação por sufixo zero do substantivo poeta (que também pode ser adjectivo), para o lado esquerdo e para o lado direito; esta gramática é carnal, feita e sentida em jorros, não tem nada de estruturalismo ou perdas de sangue até o corpo da frase ficar exangue, que é o que querem fazer à minha gramática verde-acinzentada (sou algo daltónico, não liguem) do Lindley Cintra e do Celso Cunha, que é linda e pela qual eu me apaixonei tardiamente; não me vou pronunciar sobre o que aconteceu tecnicamente à palavra "murconhe", porque essa não é nova, é de cá, está cá dentro, e nunca poderia ser murcão; nunca

nunca

Se acharam isto complicado, destrocem (no sentido intransitivo) e fiquem por favor apenas pela parte não-em-itálico.

PG-M 2016

2016-04-02

sinfonia os meus lábios queimados, o meu corpo ultrapassado e o fim da partícula-herberto-funcional


Já há muito tempo que não me fazia isto. Uma amiga um dia numa tarde numa hora
imprópria, quer dizer, essa amiga e eu estávamos na prática a viver as nossas vidas
com os amigos e os filhos e as mulheres e os homens em volta, estávamos na prática
com uma rotina de tédio de fim-de-semana e na verdade a
rede social em que subíamos e descíamos as primeiras escadas sendo
rigorosamente nada um ao outro era em si o núcleo desse tédio, eu disse
visceral, ela disse que era uma palavra odiosa, eu disse que a palavra nada
tinha de odioso, talvez ela quisesse dizer a ideia para que remetia, vísceras,
mas que mesmo assim frequenta a minha própria expressão, não poucas vezes

digo

estou de vísceras

na verdade não fazia isto há muito tempo, escrever para remendar o tempo e o espaço,
foram uns três meses de labaredas e nem por uma vez nesses três meses eu mergulhei em
mim próprio e fiz piscinas rompendo o líquido amniótico, como faço desde a barriga da
mãe, na verdade faço-o desde a barriga da avó, na verdade faço-o desde o princípio dos
tempos, como aliás fazemos todos, era a matéria negra e depois era a lava e depois,
subitamente,
o mar,
é mais ou menos um cliché que o mar tem praticamente a mesma constituição
química do líquido claro que envolve o feto durante a gestação, é uma balada,
toda a gravidez é uma balada com pelo menos uma alma em suspenso,
já ninguém discute, verdadeiramente, a dimensão etiológica dessa alma ou sequer a sua
existência em sangue, voltemos acima ou atrás, estamos de vísceras, somos vísceras desde
fetos, sejamos ou não viáveis, viremos bebés rosados ou abortos, somos isso, não tem mal
nenhum ser sensivelmente-violento num poema, ainda agora o Herberto dizia
coisas maravilhosas numa lira entre dois cornos,
o Herberto, a bem dizer, é uma rima fácil,
provavelmente vou ter de me inibir de usar o nome e alguns versos dele como me inibo
de fumar, embora eu goste muito de fumar e até esteja convicto de que um ou dois cigarros
não fazem mal e não me levariam de volta ao vício, a verdade é que os casos documentados
dos outros dizem que as excepções voltaram a ser regra,
e é por isso que, não havendo nada mais fácil do que impressionar citando Herberto ou mesmo
manietando-o em metaliteratura, vou ter de te dizer, Rocha, que vou deixar de usar Herberto com
esta transparência e, vá, já mencionei que tu, com a tua gargalhada que valia tanto quando
estavas vivo como vale agora que estás morto e me fazes uma falta do caralho, ouve,
não é uma falta do dia a dia, até porque éramos tão diferentes que não queríamos saber dos nossos dias, só de vez em quando soava o alerta e tu vinhas ter comigo ou eu ia ter contigo ou nos encontrávamos no El Corte Inglês de Gaia, onde chorámos de parte a parte,
ou isso ou em frente ao mar, mas aí não vou dizer onde, porque
eu cometi o erro de levar lá um fdp e agora aquilo está inquinado e, embora eu goste do cheiro
dos fdps mais molezinhos e até da textura das suéteres de malha muito grossas, tricotadas pelas avós santas desses diabos, que cheiram a perfume misturado com vida e gás metano, porque raramente são lavadas na máquina e à mão tem de se saber porque só para torcer cada uma é preciso uma tarde, ainda assim eu vou lá de vez em quando, sem que uma rotina me denuncie, mas tu dizias-me versos do Herberto com aquele enlevo de menino tripeiro, talvez porque precisasses que eu te aceitasse e soubesses que eu tinha a mania de que não era um best-seller e tu, coitado, eras

o poema já vai muito comprido
eu quero que o poema se foda
até porque chamar poema a isto
fará voltar nos túmulos os membros
vivos que são mesmo escritores,
e quando digo membros digo os
membros sexuais dos membros,
na verdade, se há algo de vibrante
nesses génios são os membros
sexuais, porque realmente muitos
festivais literários com pernoita e
sem controlo são um desafio à
sanidade e à ordem conjugal,
fazem eles bem, como sempre
fizeram os coelhos, eu também
queria, mas não sou capaz porque
sou um neovirgem imaturo
que se apaixona por tudo
o que mexe e tem forma
humana feminina
e sem querer estou
velho e já não
me enxergo


oh pá, oh páááááááá, na verdade não posso acabar o poema sem
trazer para dentro dele isto da natureza tripeira e da classe pura,
que desconsolado fico quando vejo nos olhos dela o brilho do orgulho
e ao mesmo tempo como ela gostava de me ver refinar como um
cavalheiro distinto que dispensasse absolutamente o calão para
vincar uma certa identidade, mas sempre vos digo que em momento
algum o menino inseguro e trágico que eu sempre fui sentiu que o calão
tripeiro fosse uma forma fácil de se afirmar ou uma bandeira
prostituta de uma certa forma de se ser livre
que virou popular no primeiro vinco do terceiro
milénio, eu acho que, como o Bocage,
devemos e podemos
(falo dos tripeiros)
devemos e podemos
não ter limites entre nós
mas ser distintos perante
mouros ou celtas
e sempre com a devida vénia

quem tem classe tem classe

na verdade, eu não queria escrever um poema,
mas este texto não era este texto sem respiração espacial,
então formo-o na cabeça e deformo-o na tela, como
qualquer pintor incompetente,

o que eu precisava mesmo era de ouvir outra vez os Kitty, Daisy and Lewis e sonhar
que ainda os vejo em Portugal, sendo que pressinto que serei acometido por um ou
dois desmaios e falarei, antes de desfalecer, como um tripeiro,
com os olhos molhados e os lábios mordidos e chupões no pescoço e
hálito a minis dizendo em todos os tons e densidades de todas as fases
de todos os sistemas termodinâmicos em equilíbrio nos sistemas fechados,
ou seja,
dizendo ortobárico e muito baixinho
tão bons!, tão bons!, grandessíssimos filhos
de uma grande puta, tão bons!, na verdade
eu não queria ter escrito nada disto

o leitor saiba que, cada vez que eu, PG-M,
quero voltar ao mundo como autor depois
de uma fase incicatrizável e sem encíclica
para meu governo, ou seja, cada vez que
eu me quero salvar

escrevo assim, com a playlist nos ouvidos
e sem dó
          
             só

de vísceras
e sinfonia

os meus lábios queimados, o meu corpo ultrapassado e o fim da
partícula-Herberto-funcional

PG-M 2999