2016-02-04

Luísa-chão, Matilde-em-absoluta-pureza, Inês-sobre-beleza, Mariana-doce,Teresa-em-rendição e tudo o mais

Luísa-chão, Matilde-em-absoluta-pureza, Inês-sobre-beleza, Mariana-doce, Teresa-em-rendição e tudo o mais. Hoje até no intermúndio há sol. A sessão-supresa do Colégio da Bonança foi na biblioteca e a biblioteca estava cheia de sol. A rua para chegar ao Colégio estava cheia de sol. O pátio do Colégio estava cheio de sol. Os corredores do colégio estavam cheios de sol.

Lembram-se da Matilde? Do doloroso sorriso de Matilde? Já lá vou, já lá vou. A  Matilde há-de ser um amor para toda a vida, por isso já lá vou. Hoje tinha de ver, pelo menos, a Luísa-chão-professora, a Inês-sobre-beleza e a Matilde-em-absoluta-pureza. A Irmã que estava temporariamente na portaria franqueou-me as portas todas, e o pai da Inês, no bar, orientou-me a subida, e uma professora, na sala dos professores, consultou o horário e levou-me onde, nem de propósito, estavam a Luísa e a Matilde. Muito perto do firmamento. A sério.
Primeiro a Luísa, a professora, que impressiona como chão. É uma rocha, precisa de mimo, muito mimo, porque a vida é dura, e ainda assim vem, vem todos os dias para exponenciar o brilho destes meninos maravilhosos. Ó Luísa-que-és-chão, deixa que a desventura te apure a ventura e que essas noites infindas e negras nunca te velem as mãos que dão colo. E que outras mãos te dêem colo a ti. É tão bonita a humildade na Luísa. Tão bonita que nos silencia. Abusem nos abraços à Luísa, por favor. Abusem, meninos. 

Quanto a ti, Matilde, que tudo na vida se interrompa sempre que os nosso abraços acontecerem. Tudo. Ao abraçar-te, Matilde, param as dores todas, as do passado, as do presente, até as do futuro. Não posso usar palavras ou definições rebuscadas para ti. És apenas maravilhosa. Maravilhosa. Absolutamente maravilhosa. Conhecer-te foi dos momentos mais importantes desta minha pobre vida. Reconhecer-te nunca é menos. Porque dás sempre muito mais do que te damos a ti, calo-me, por pudor. Matilde-em-absoluta-pureza.

Teresa Pintão, que comigo pesquisaste o haikai, o haikai que nunca mais aparecia, Teresa Pintão, ouve, estou furioso contigo. Já te disse, mas repito para o mundo: estou furioso contigo. Sabes como os criadores são distraídos. Talvez o único que se livra disso seja o Criador que se escreve com c grande, e mesmo esse - mesmo a esse - fartam-se de perguntar se está distraído. Eu sou. Sou muito distraído. Os tímidos que se escondem nas sombras acabam mesmo por conseguir que eu não os veja. Como tu. Sei bem que sou um homem, Teresa Pintão, e tu uma menina, que talvez as meninas não devessem falar com homens,Teresa Pintão, mas teres estado em todos os lados importantes onde eu vos quis, até no Clube Literário de Gaia com os teus colegas, e não te teres mostrado, deixa-me furioso, Teresa Pintão. Como eu te disse hoje, foi um ano perdido para mim. É um direito que te assiste, Teresa Pintão, mas estou furioso. Não te rias, Teresa Pintão, não te rias. Lê lá o haikai deste que te escreve. Alto, Teresa Pintão. Alto.

Luz do dia, Cotovia
Fundamento dos teus versos,
Doce rima dos teus berços.
Dessa espécie de poema, J (com haikai dentro):
Elas passam no passeio das Cardosas,
Poderosas,
Passam todas em vestidos sufocantes
Estão pedantes,
Estão na praia por esplanadas refulgentes
Diluentes

Menos J,
Que é mulher. (...)
Vá que te rendeste, Teresa. Vi bem, por fora e por dentro, que te rendeste. Agora fica. Stay. :)

E tu; Mariana Emina? E o teu magnífico texto com as cem palavras exactas a ligar sensações e dúvidas, tu a dialogar contigo própria dentro dos parágrafos, a questionares os instintos, esse texto que construíste à minha frente e eu peço licença para passar a limpo, e imortalizar, aqui:
"não sei se as
 rosas vão voar, ou se estou a confundir rosas com
 palavras, ou se as rosas são pássaros ou palavras ou
 flores, sei que esta caneta escreve o que a cabeça lhe disser, e a
 cabeça não tem limite, por isso rosas não são flores aqui, não são
 pássaros aqui...pff! pff! Mas palavras são. E a isso não posso fugir.
 Mesmo em silêncio. Mesmo a pensar. Palavras são. Mas então e a cabeça?
 Penso em silêncio, penso em rosas, penso em pássaros. Penso, e são tudo palavras.
 Serão as palavras o limite. Não sei, vou jogar futebol."

Doce, doce, doce Mariana Emina.

Estavam mais quatro meninos que estão na foto e aqui, mas sem nome. O Pedro, que já conheço, e a quem devo, o Eduardo, que não conheço mas ainda vou conhecer, a Diana e a Ana - que certamente me conhecerão. Hoje sem nome, porque nome é a parte de dentro, e a parte de dentro eu tento sempre contar: passam a chamar-se aquilo que são. E vieram muitos mais.  E virão muito mais. Hoje, no entanto, e acima de tudo, Luísa-chão, Matilde-em-absoluta-pureza, Inês-sobre-beleza, Mariana-doce,Teresa-em-rendição e tudo o mais. Hoje até no intermúndio há sol.
PG-M 2016




2016-02-02

Samanta, Rita, Cláudia, Viviana e a literatura como transporte público no tempo (Douro, Oliveira do)

Gosto muito do nome Samanta. E gostei muito da menina que o trouxe. A Samanta tem silêncio. A Samanta tem força. A Samanta arrumou-se na margem, na cadeira mais distante, mas esteve toda a sessão implicada. Essa dignidade, essa profunda dignidade, tem de ter vencimento contra "bullies" e infantes cuja sensatez demorará mais tempo a entrar no corpo. Porque a Samanta tem beleza e vê quem quer. A Ana Rita Vieira e a Diana Pinto apareceram no fim de tudo. Não estiveram na sessão, porque não são das turmas contempladas e porque a aula de Filosofia coincidia com a letra do escritor. Apresentaram requerimento de forma à professora de Filosofia, que indeferiu liminar e fundamentadamente. Tentaram no intervalo e apanharam o auditório vazio, com o escritor ao fundo a assinar livros, acompanhado das duas professoras organizadoras, Isabel, professora-blibliotecária, e Eugénia, professora de português. "Podemos entrar?". "Claro", responde o escritor, e
logo de seguida pede desculpa às professoras pelo atrevimento. "Não se lembra de nós, mas nós lembramo-nos de ti" - diz a Ana Rita. A Diana fala no casaco do FC Porto, e o escritor lembra-se imediatamente, a menina irrequieta e simpática da melhor sessão de sempre das 102 escolas percorridas até ontem: Anes de Cernache, Vilar de Andorinho, terra do bisavô escultor, não teve leitura prévia dos livros mas teve o professor-bilbliotecário Abel, empenhadíssimo, e comprou quase quarenta, e os meninos cercaram o escritor até ás 17h e foi tudo magnífico. Aliás, está descrito aqui: "Os putos de hoje não valem nada";

A Diana e a Rita foram as primeiras, de 102 escolas, a voltar no ano seguinte. E, como a sessão estava no fim e se recolhiam as varas dos foguetes e já tinha tocado para a aula de português do professor Francisco, eu comecei a escrever um pedido de desculpas e uma justificação para o atraso delas, mas o professor Francisco deixara dois livros para serem autografados e as meninas tiveram a ideia de me levarem junto, como surpresa.
A surpresa e a emoção foram absolutas, porque reencontrei muitos dos que tinham estado na tal sessão notável. O professor Francisco falava de Camões e pediu-me para falar da poesia contemporânea. Eu falei da forma como, por ora, me excluo o mais que posso dos incluídos e expliquei porquê. Tive uma nova estrela a comentar o Prémio Pina: a fantástica Cassandra (faz-me sempre lembrar o filme homónimo do Woody Allen). Depois retirei-me, para que ele ficasse com cinco minutos de aula livres para dizer o pior possível de mim. Estávamos todos comovidos. Depois a Viviana Ferreira, que com o olhar me lembrou como foi das que esteve presente até ao fim, finalmente, voltou, e ao voltar surgiram ideias que nunca antes tinham chovido e podem ser maravilhosas para me curar do pânico e das ressacas de afectos que tenho depois de todas as escolas. A Viviana, que tem um desses olhares que dizem tudo: os olhos que gritam e dizem estou aqui, fala comigo, volta comigo, ouve-me, quero dizer coisas.

Antes tínhamos tido uma sessão épica, dominada pelos mais rebeldes e malandros, pelos "manos", pelos gangues barulhentos do humor, que ainda assim tiveram momentos de compreensão e silêncio profundos e que foram (escreveram eles em quatro páginas A4, à mão, que serão agrafadas aos exemplares de autor que circulam nas escolas) fantásticos. Como o Albino, O Ricardo, o Diogo, etc, etc. Fiquei na Escola Secundária de Oliveira do Douro, com duas turmas do 10º ano, entre as 11h e as 17h, com intervalo para um almoço excelente com as professoras. Tinha começado com um café servido pelo Ivo Martins, com o máximo profissionalismo, no Restaurante Biológico da Escola, que será inaugurado por estes dias. Poemas ditos de forma brilhante pelo Gonçalo Soeiro (Eugénio de Andrade), Tiago Ramos, Luís Manuel (Manuel da Fonseca), Hugo Sousa (Ruy Belo), entre outros, alguns meus, que a professora Andrelina incluiu nuns marcadores belíssimos que me foram oferecidos no final.
Também me foi oferecida uma colectânea de poesia, "Poesia V", do Agrupamento de Escolas Gaia Nascente. Como o leitor transversal que me sou, entrei no autocarro da literatura como transporte público no tempo e abri o livro e li os poemas. O primeiro, um poema de uma menina de dez anos chamada Daniela Cardoso, começava assim:

"pintei um sol
 e apareceu um ovo
 desenhei um barco
 e apareceu um arco"

O livro é de 2001. Fui procurá-la e, virtude dos tempos que vivemos, encontrei-a e falei com ela. Já licenciada, não fazia ideia, nem podia, que aquele poema de génio precoce podia tocar tanto um escritor publicado quinze anos depois. Literatura é isto. É isso que lhes digo e comunico. Literatura é isto. Mesmo mortos, eles, os outros, os grandes escritores, mudam-nos a vida, mudam-nos a nós, por dentro. E é um pouco isso que lhes quero levar: uma experiência intensa que não se apague pela vida fora, mesmo sendo um pequeno escritor.

Mesmo sendo obrigado a chamar o "mano" Gonçalo ao palco para lhe perguntar o que achava ele da própria atitude que ia tendo manhã dentro, ele que era naturalmente o melhor e o mais poderoso "dizeur", e tentava afirmar-se na sessão como se estivesse no recreio, não pelo melhor de si. É raro, mas acontece: a maturidade ser destrutiva, em vez de construtiva. E estes jovens homens acabam por entender e perceber e - espero - agradecer, o lado musculado, quando a sessão o exige. O que importa é que ele perceba que eu, os professores e quem lhe dá um lar, se o fazemos, o fazemos por amor.

Curioso o André Silva, a forma como começou quase a ter de se mostrar forte para os "manos", como até recusava dizer um dos poemas por receio do ridículo e depois emergiu como o rapaz valoroso que é. Como os silenciosos colaboradores Joana Caravela (com uma lesão no braço que a impediu de assistir ao início), Ivo Martins, Márcia Reisinho, Luís e os mais activos Cláudia e Hugo. O Hugo estava com uma indisposição e aguentou o que conseguiu. Vê-se que é um rapaz implicado, como a implicação que eu detectei na Samanta. A Cláudia, como eu esperava, continuou activa. Acabei por não ler o texto em que agradecia aos que comunicaram antes, e passo a fazê-lo aqui: 

"uma palavra especial para a Cláudia Santos, Márcia Reisinho e Hugo Sousa. Li-vos a todos e importei-me, mas, como desta vez o plano foi colectivo, não vos trabalhei. Mas li as tuas chamadas do céu, Cláudia, li os teus piqueniques, Márcia Reisinho, li a perspectiva lúcida que tens da tua geração, Hugo Sousa, mas hoje a intervenção foi mais pública, mais geral, os perfis individuais exigem um interesse e uma dedicação muito especiais e uma adesão mais forte de todos. Espero que isso aconteça na próxima visita e espero voltar aqui muitos anos para isso poder acontecer, convosco ou com quem vos suceder."
A educação e a delicadeza, a classe, do João Nuno Ferreira, fizeram-me pensar como é injusto que ele, provavelmente, viva o que eu vivi na primeira classe, no lúgubre (ao tempo) Colégio de Gaia dos padres Leão e Pinto de Sousa, o inferno de não conseguir traduzir para  o mundo o universo interior. Mas tenho a certeza de que isso vai acontecer, que o vais traduzir, João, mais cedo ou mais tarde. Continua com essa paciência. Ficaste-me marcado, profundamente marcado, tu e o João Simão, parecido contigo.

A Diana Batalha foi outro fenómeno, como o André Silva: começou no registo que dela deve conhecer  o mundo, histriónica e assertiva, vistosa na comunicação, e foi-se dobrando sobre ela própria e terminou tão dentro da sessão que impressionava, a atenção, o foco, os olhos. Obrigado, Diana. Especialíssima Diana.

O Rudolfo venezolano foi impressionante na sinceridade. "Gosto de livros, não gosto de escritores". Perguntei-lhe se nem de mim, ele pediu-me para não lhe fazer aquela pergunta e todos nos rimos. São estes momentos que ficam na pele. De alguma forma, pareceu-me um doce impostor, um rebelde no melhor sentido, mas o que ele trouxe ao debate foi muito relevante, porque, realmente, a pessoa de nós, autores, é e será sempre irrelevante, mas, de alguma forma, há uma marca, um estilo, um tempo, um cheiro, uma imagem que comunicamos às gerações contemporâneas e elas às vindouras. Alguma coisa dirão de nós. Eu digo apenas que temos todos a mesma idade no mundo e que somos todos irrelevantes, menos eles, os putos em crescimento, os putos a chegar-se à montra, ao balcão dos pedidos, e, como eu disse ao longo do texto, somos todos Paris, e Paris somos nós, mas não somos Paris por causa da moda do facebook ou dos atentados, somos Paris porque Paris é o mundo e foi feito pelo mundo, não pelos franceses, não apenas pelos franceses. E como Paris tantos outros lugares. Mas Paris, acima de tudo. Que entrou e já não saiu da Escola Secundária de Oliveira do Douro. Mais uma. E lá vou eu com a ressaca de afectos, até a Viviana Ferreira cumprir o seu plano.

PG-M 2016





2016-01-27

Alpendorada, Alpendurada, portanto AlpendOurada

Vê-se na foto, que aliás é uma parte muito pequena das três turmas que me devolveram em atenção, escuta e entendimento a minha dedicação. Com efeito, mais uma vez, a foto ia sendo esquecida. Só nos lembramos no momento dos despojos da sessão. Mas veio a tempo. Verdade que os nossos sorrisos, sendo sinceros, são plásticos, e que ao fim de algumas fotos, como disse uma das meninas, com piada, a cara já doesse.

Mas o que se vê na foto é a luz de AlpendOurada. A luz de fora e a luz de dentro. À centésima escola ainda é bom poder replicar e reiterar a evidência: há sempre coisas novas, há sempre coisas diferentes, e, quando denominamos as sessões por eles, pelas maravilhosas pessoas mais jovens que somos levados a contaminar e influenciar, nada pode correr mal, assim haja tempo, mesmo no meio do barulho, de ver os que querem ser vistos e de descobrir os que não querem, pelo menos para os ouvir. E isto também se aplica às professoras que aparecem, cujo nome, por não me lembrar, vou ser condenado a saber - sei que a da ponta era a de português, a Emília, mas a de Matemática, de cócoras, em pose de futebolista (pena não termos aprofundado a utilidade da Matemática na literatura!), não, nem a do meio, que era uma ternura. A menina do centro, e vocês sabem logo qual é a menina do centro, mesmo sem medir com uma régua, foi também a menina do centro na sessão e, por falarmos de uma pessoa de qualidade superior, sabe também, ela própria, que por já ser excepcional aos dezasseis anos, não é melhor do que os outros, os que não são tanto como ela: porque nós somos demasiado complexos para sermos definidos assim, e é esta, sempre, a mensagem que lhes levo.Uma menina que seja má aluna e pouco culta pode ser o pilar, em casa, de uma mãe doente, de quem trata e com quem consome todas as suas forças, provavelmente faz o mesmo a vizinhas e até apoia no lar da vila. E não será esta tão ou mais valorosa do que a menina do centro? É, mas a menina do centro é fenomenal e chama-se Ana Catarina Alves. Aquilo que ela nos deu de novo não é muito comum: a forma como está atenta às etapas da vida e as vai processando em termos práticos e até filosóficos e intelectuais. A visão da morte. Neste passo, custa-me não ser imenso. Verdade que - e ontem foi-me dado o que peço sempre: tempo -, quando tenho tempo, observo a postura corporal e o olhar de quase todos, para perceber se alguém quer dizer ou mostrar alguma coisa que não disse ou mostrou antes, e não diz ou não mostra por falta de coragem ou timidez, que é normal e até recomendável, por ser um exercício de humildade. Por isso, custa-me a ideia de ter partido e que algum menino ou menina não tenha tido coragem de dizer ou mostrar o que há tanto tempo queria dizer ou mostrar. Mas uma coisa que eles me devolveram, ontem, foi a gratidão, e fizeram-no de forma expressa, com as dedicatórias que deixaram escritas ou com a atitude, com o olhar de agradecimento: disseram, de forma expressa, que o que fiz, escrevi e disse, foi importante para eles. Que se sentiram vistos onde eram menos visíveis. Ontem de manhã não houve fugas nem colegas que, para mostrar coragem e rebeldia, questionaram os que colaboraram comigo. Ontem o meu pedido foi totalmente atendido: todos se consideraram parte daquilo, todos se consideraram alvo dos mimos e dos aforismos e dos princípios, mesmo os que não viram o seu nome mencionado. Por isso é que Ana Catarina serve, por exemplo, a qualquer Patrícia ou Paula ou Milene. Que o Zé Lemos pode ser o Henrique, Nuno ou José Pedro ou Leandro ou Marco. Que Diana pode ser Anabela, ou Margarida pode ser Fátima, que Sara pode ser Ana Isabel, que Samuel pode ser Ricardo. Mas os que vieram para junto de mim, os que o fizeram expressamente, dirão se valeu a pena. A Fatinha na orquestra de Berlim a tocar a primeira nota na sua flauta transversal. A Pereirinha e o elogio da insegurança ou da fragilidade. A tia Lúcia a aterrar de helicóptero no H do São João para o primeiro dia como enfermeira. A Rosário e a aprendizagem da imperfeição. A Inês que canta e quase ninguém sabia. A Ana Lopes, o closet e a espessura e o poder das palavras (e da pessoa). A Fátima Ferreira e a visibilidade e força dos invisíveis. A Inês Bouça e o nosso Prémio Nobel duplo. A Inês Sousa e os dentistas e o cinema e a Kika. A Joana Vieira e a veterinária da Common Wealth. A Bebiana do cantinho e as histórias secretas e poderosas. A Mariana Luís, oh, a discretíssima Mariana Luís e a beleza e a subtileza e o tamanho interior. A Elisabete homónima e as férias de Verão com ele dentro. A Mariana Correira Carneiro e o Einaudi e o Forrest Gump e o Johnny Depp e avó "francesa". A Rita Caetano e o abismo do futuro. O Zé Lemos, o Tino de Fandinhães, a sensibilidade, a ambição política e o sono da avó, que passou a ser a avó de todos nós. Depois disto tudo, claro, devíamos colher os tais despojos da sessão todos juntos. Mas não é assim. Abre-se o Douro e o Tâmega e já não há ninguém. E, mesmo que volte, mesmo que fique, eu já estou entre-rios.

PG-M 2016

PS: à sessão da tarde, dos 7ºs anos, e sendo uma estreia, dedico este Post Scriptum, e é deliberadamente um Post Scriptum. Serviu-me de profunda reflexão e far-me-á retirar lições e afinar o modelo. Não que tenha sido inútil. Retenho o olhar daquela professora loira de que não retive o nome e que tinha um grupo fantástico bem juntinho a ela, que veio e partiu sem que tivéssemos tempo de ser elemento uns dos outros. Lembro-me das meninas que sobreviveram ao barulho dos colegas do 7º e que até levaram mais livros do que as três notáveis turmas da parte da manhã (do 11º). Lembro-me do professor e dos entusiasmadíssimos meninos do 5º ano, que apareceram e ficaram de forma ordeira e me cercaram para autógrafos em cartolinas coloridas que contam emoldurar e pendurar no quarto, imaginem a honra. A minha reflexão não vai no sentido de exlcuir os 7ºs anos das sessões, poque são, tipificadamente, impossíveis de controlar. Mas o que é isto, meus senhores? Chegámos à Madeira? Da minha reflexão resulta que só deve estar quem quer, mesmo que seja pequenino. Que eles se apercebam de como a falta de ordem pode ter consequências. Eu gabo-me de conseguir controlar todas as sessões escolares, e, como disse, esta era a centésima escola. Nunca tal tinha acontecido (o barulho e a desordem, porque a sessão até se fez e nem correu mal de todo). Gosto e dou espaço ao burburinho que se segue a questões  que geram debate entre eles: é positivo. O que me custa é a desordem e o desinteresse que impede os que são ordeiros, interessados e querem mesmo estar ali de desfrutar, que foi, aliás, o que aconteceu no final: ficaram os que queriam e desfrutaram. Defendo que, não por castigo, mas por selecção lógica, o sistema seja oportunidade-abdicação. Ou seja, depois de terem sido preparados pelos professores em aula, de pesquisarem e de tomarem contacto com a literatura, a imagem e o curricculum do autor presente, depois de a sessão ter início e eles peceberem o que estamos ali para lhes dar, se ainda assim não for possível penetrar nas epidermes de alguns, que abidquem, que lhes seja dado espaço para sair. Esses poderão ser arrumadores de carros, se for isso que escolherem - aliás, há muitas profissões relevantes e úteis que, não dispensando a cultura, acabam por se conformar com os que a rejeitam a vida toda. Uma coisa deve ficar claro: porque nunca tinha acontecido, não quer dizer que a culpa seja da Escola. Pareceu-me claro que a Escola é boa, tem mesmo muita qualidade. A culpa é minha, só minha. Não acontecerá de novo. Não nas próximas cem. O acidental e o negativo são parte da experiência. Mas nem sequer foi negativo o resultado, bem pelo contrário, como expressei aí em cima. Além da doce e empenhada professora loira e da sua turma e do fantástico professor do quinto ano e dos seus fantásticos meninos, destaco as meninas resistentes, a Marina Monteiro, Sofia Bouça e Maria Vieira . Uma palavra especial para a Alexandra: estás bem a tempo, gostei de ti: tu pensas que estás nas margens, mas és inteligente, estás bem dentro e contas. Eu vi-te bem. Luta por ti, pequenita. Desculpem se esqueci de alguma. Obrigado a todos. - Ah, e a delegada Paula Chaves, a minha estreia com apoio, foi incansável e inexcedível! Obrigado :)

2016-01-03

ManelAAzevedo

Não há nada de deslocado no tempo, sequer o próprio tempo, quando o que o move é o corpo, nem há nada de deslocado no pensamento, sequer o próprio pensamento, quando o que o move é o mesmo corpo, muito menos há o que quer que seja de desconexo no corpo quando ele se move apesar do tempo e do pensamento.

A culpa é da vontade.


Uma ideia me ocorreu quando o corpo fervia de pulsão para passar ao ecrã pelas teclas o que, provavelmente, reside nas profundezas da alma de quase todos os seres humanos menos dos escritores, que dificilmente são humanos e provavelmente não são seres, talvez sejam entidades diabólicas amaldiçoadas pela inquietação de nomear o que pertence ao domínio do silêncio, e talvez a mais sublime literatura seja aquela que diz tão pouco que o não desaquieta, ao silêncio, pelo menos a literatura que usa um braço para entrar nas cabeças, nos corpos e no intermúndio, ou seja, os corpos e o espaço entre eles.

A ideia ocorreu-me nesta semana de intenso convívio familiar em que estamos bem simplesmente calados ou no conforto de família e amigos, olhando em volta sem grande agitação cerebral: eu gostava de vos dizer, irmãos, primos, filhos, pais, mães, tios, o tanto que quero escrever sobre tantas coisas e pessoas, mas o mais certo é vocês estarem-se marimbando

(na minha mente nortenha estava outra expressão, mas uma cura intensa de "Dowton Abbey" fez-me ver que o tempero quente do nortenho pode ser servido com certa elegância, e que uma coisa é ter orgulho no verbos largos, que são do bem, não do mal, outra é vulgarizá-los, pelo que evitei usar a expressão "estarem-se a cagar" ou o "vão-se foder", que mais à frente também omitirei )

o mais certo é vocês estarem-se marimbando para tudo o que eu queira dizer sobre o que quero escrever. E tenho aquela ideia de que os que me estão mais próximos só me descobrirão morto. Talvez seja por isso que tantos escritores se matam: quando têm produção suficiente para a poder mostrar à família, têm de se matar para serem lidos em profundidade dentro de casa. Para a família, o gajo que escreve é apenas mais um. Se já não é normal ouvirmo-nos, realmente,  em família, e daí o espaço para os amigos e para as redes sociais, menos normal é apreciarmos os ofícios uns dos outros, a não ser quando coincide com o nosso ou nos interessa por qualquer razão operacional. É normal que eles já se estejam todos marimbando para o que eu escrevo. Que fará para o que eu quero escrever.

E foi assim, com este pensamento suicida, que me encontrei no canto mais remoto da sala grande de ano novo, empenhado em não ler e em parar de consultar as redes sociais e disponibilizar-me para alguma actividade colectiva como ver um mau filme na televisão, que é uma saudável tradição. Como o comando da televisão estava em mãos epilépticas e não havia maneira de a proposta televisiva estabilizar, tomei nas mãos uma "shotgun" Nerf  que estava em cima do aparador e experimentei alguns disparos, primeiro com alter-alvos humanos, que não acharam grande piada, depois apontando-a ao céu da boca e à própria têmpora direita. Se aquilo magoa moderadamente à distância, é uma descarga de adrenalina sobre o próprio corpo. E aí surgiu o pensamento. Vocês não querem saber dos meus projectos de escrita e têm a razão toda.

A culpa não é do vento
se a minha voz se calar

Então, num acesso de tédio que é raro, mas saboroso, quando ocorre comigo, tomei outra coisa nas mãos, que também estava pelo aparador, pousada ao acaso: a edição dos espectáculos ao vivo dos "Humanos", um grupo formado em meados da primeira década deste terceiro milénio para celebrar o génio do António Variações. Eu tinha sido comprador do cd de estúdio de 2004 e estive no concerto ao vivo no Coliseu do Porto do dia 4 de Julho de 2005, que foi um de três concertos únicos desta superbanda. Aquilo interessava-me. Interessava-me voltar a ouvir versões que me haviam arrebatado ao vivo e que eu nunca mais voltara a ouvir. Na altura, arranjei apenas dois bilhetes para a plateia, mas, como o meu filho, prestes a fazer apenas 6 anos, era o fã número um da banda, deixei-o ir com a mãe. Mais tarde, consegui um bilhete para os galinheiros, e estive nessa estranha posição de observar, quase na vertical, "os meus", e eles a ter de olhar para o "céu" para ver o pai, prenúncio destas ideias suicidas. Isso também me permitiu ver o concerto à minha maneira, ou seja, de uma forma profundamente intimista. E, embora os cds e os dvds sejam, cada vez mais, retro, encontrei um computador para os ver e ouvir (é um cd áudio e dois dvd - dos concertos nos Coliseus e do concerto no festival do sudoeste, além de um documentário onde descobri algo de notável, que já vos conto).

Claro que o que mais me perturbou e arrebatou foi a senhora que dá título a este post.
A Manela-Azevedo-dos-Clã, como quase toda a gente a trata, foi minha colega no curso de Direito 88-93, na Universidade de Coimbra. Mal me lembro dela, como ela mal se deve lembrar de mim. Sei que era pequenina e discreta, sempre afastada dos olhares primários dos adolescentes tardios que começam um curso universitário. Era, por isso, mais fácil eu não a admirar e anunciar aos amigos, como aliás faço, sempre que posso, que a "Manela-Azevedo 
-dos-Clã" foi minha colega de curso, e aí se esgotaria a "Manela", numa abordagem egocêntrica deste que vos escreve. A "Manela" sou eu, eu é que sou importante.

Acontece que aquela menina discreta dos Gerais da Faculdade de Direito era agora uma mulher brilhante com uma capacidade ímpar, não só de dominar o espaço do palco e a emoção da plateia, mas de se comover com o corpo todo. Não só de dominar o espaço do palco, mas o intermúndio, o espaço entre os corpos. A culpa é da vontade. Que, no caso da Manela, nem com a idade morre. Além de profundamente sensual na reacção à música, quase nos arranca a pele na forma como no-la mostra, como usa a voz toda e a faz sumir e reassomar, como é humilde e, ao mesmo tempo, olímpica e intrépida, insolente e audaciosa. A forma como ela se moveu e interpretou, nessa noite de 4 de Julho de 2005, "A culpa é da vontade", dançando "visceralmente" (não há palavra melhor) no mesmo lugar e afastando e aproximando de si o microfone sem que a base do suporte saísse do lugar, voltando e baixando a cabeça em veneração à música, mas o torso sempre voltado para o público, fez-me perder o ar e pensar que afinal era possível, que a entidade-intérprete era tão ou mais diabólica como ou do que a entidade-escrevente (que, contudo, raramente se exibe fisicamente, embora seja cada vez mais requisitada para tal). O cabelo curto e as linhas gregas da "Manela", a forma como, sendo mãe, move naturalmente e com uma leveza extrema o próprio corpo, faz da experiência de a ver em palco uma experiência religiosa.
Não é quase-religosa. É religiosa mesmo.

A "Manela" é, para mim, a melhor intérprete do Pop-Rock português dos últimos vinte anos. Vê-la deste lugar e ter chegado a este ponto é mais uma lição de vida. É evidente que as coisas são mesmo assim, que nós não iremos hoje a correr para ninguém a quem amanhã, no funeral, pediremos o impossível, ou seja, que não nos morra e que viva mais um dia para que o possamos abraçar ainda quente. A experiência da perda é fundamental, às vezes endógena, à valorização do perdido. Há uma existência vital na morte - como há uma evidência mortal na vida. Mas a culpa aparece quando nos construímos a vísceras, como aquele ou aquela que admiramos e, depois de termos estado tão perto, nos tornamos distantes e pouco acessíveis ou, pior ainda, indiferentes. Fica o lamento pelo que não se conversou, debateu, viveu, bebeu, ouviu. Está bem que os nossos se estejam marimbando para o que fazemos e construimos para nós à margem da vida deles. Já não está bem que nós, os de vísceras, nos percamos constantemente uns dos outros.

E a vida, a estética e até o tempo dão-nos belas lições.
No final do documentário sobre os concertos dos Humanos aparecem imagens do delírio no Coliseu do Porto. A câmara volta-se para o lado direito da plateia, esquerdo de quem olha a partir do palco. No colo de uma bonita rapariga que eu identifico atónito - porque era a minha mulher - está um rapaz de quase seis anitos que eu e ela fizemos na condição de voltarmos ao nada para ele ser tudo. Uma inesperada e intensa viagem no tempo, já nem tanto a nostalgia dos Humanos. Depois de a ManelAAzevedo me ter relembrado a comoção de ver como é genial a "Manela-Azevedo-dos-Clã", ali, em frente à Manela-de-pandeireta-a-bater-ritmadamente-na-anca, o sentido da minha vida. Lembro-me que a Manela interpretou o "Anjo da Guarda", que a minha miúda me disse, no final do concerto, ter de lhe arranjar:

"Tens de me arranjar esta".
Está aqui. Dez anos depois, mais uns trocos.
O rapazito de quase seis anitos, vestido com umas jardineiras vermelhas, é hoje conhecido como o rapaz voador e está do meu tamanho. A minha mulher olha brevemente para os galinheiros. Nunca é tarde para escrever isto, muito menos para exaltar a ManelAAzevedo dos Gerais. Embora o que sempre tenha sentido por todos eles  nunca tenham sido coisas confusas. Nem problemas de expressão.

Sobre ela, sem mais palavras, eis:


PG-M 2015

2015-12-27

Galeguita


(letra de unha cançom sem música)

conheci unha galega
binha em gestos de cetim
e um bestido de jasmim
com um botom mesm´ó centro
e o mar todo por dentro.
 

tinha rochas de tristeza
que passabam no olhar
"e atopaban a beleza"
d’um sorriso a naufragar

nom me chores, Galeguita,
traz a alma e o fole em pranto
canta encanto Galeguita,
canta o meu país aos pés
na metade do que és
nunca ficarás sozinha
Galeguita

e se nos olhos penedos
e no coraçom degredos
pinta as unhas de um berniz
que traz frases do passado

nom me chores, Galeguita,
traz a alma e o fole em pranto
canta encanto Galeguita,
canta o meu país aos pés
na metade do que és
nunca ficarás sozinha
Galeguita



PG-M 2012
fonte da foto

2015-12-18

Conto invertido de natal - Parte VI, VII e VIII (final)

(não comece pelo meio: anterior aqui)

VI - O ÚLTIMO NATAL
 Entre o segundo e o último natal, Otnas, Oinotna e Narce
juntaram-se às carrinhas de apoio e foi só
o que passaram a fazer às vésperas,
e o que pensou fazer Airf,
em vez de em casa cultivar a solidão e o
desprezo por todos os que trilham a linha
média das coisas
Então Airf saiu à rua pela primeira vez em três
anos, e dirigiu-se ao bairro sem casa de onde
saíra Narce, e o que viu foi muito estranho,
um grande cartaz que se replicava pelos
lugares onde costumavam comer e dormir
as pessoas sem casa, e dizia assim

"hoje somos príncipes sob telha nPalácio X"

e dizia o nome do palácio,
onde, por acaso, Airf costumava ir a exposições
e conferências e a um ou outro jantar formal
da companhia que a empregava,
e caminhou para lá, abraçando-se a si própria
para afastar o frio
mas não o azedo na boca nem
incurável tristeza

À porta do Palácio X paravam carruagens
e um mordomo encartado anunciava
os títulos e as pessoas que saíam e
entravam para o baile de gala real
como se lia na faixa de vinil gigante
qutapava a fachada,
"I Baile de Gala Real de Natal",
e não dizia em lado nenhum
que era das pessoas sem casa,
mas era; Airf falhava uma
certa sensibilidade, e então
deixou que a raiva tomasse
conta de um lado de si que ela
pensava ser um modelo de altruísmo,
mas não passava de um espelho liminar
onde todos os teóricos vivem, como a
Alice num país sem maravilhas,
onde a música é sempre a menos ouvida
e o livro sempre o menos lido
e as pessoas sempre as menos parecidas
com as outras

Primeiro Airf tentou entrar no Palácio X
e foi vedada pela segurança
Depois Airf dirigiu-se à primeira princesa
e tentou arrancar-lhe a peruca
e foi vedada pelo príncipe,
a saber, um homem obeso,
que ouve tudo o que Airf diz
quando lhes tenta destruir
o sonho, e lhe agarra  o pulso e diz
"Menina,
ainda ontem eu era apenas
um homem obeso 
que ouve tudo o que os outros dizem,tinha apenas uma camisa azul às riscas com os botões
rebentados em baixo e a barriga à mostra
apesar do frio, e cedia sempre refeição
aos que chegavam de novo e dormia
na soleira do Banco Z até o pessoal me
enxotar às sete da manhã, mas, sabe,
nas nossas soleiras não se conversa
sonha-se, e eu,
que me chamo Osso,
deixei-me sonhar e hoje vou de
white tie cortado à medida e trago ao baile
de gala real a princesa Emof, que até ontem 
era só uma mulher magra com uma tristeza
incurável e vários trapos
sofisticados a sorver
a sopa ruidosamente
(mas sabe-lhe bem comer a sopa assim)
e hoje vem formalde brinco de camafeu
clutch

Airf, envergonhada,
deixa-se cair na escadaria e
Emof passa por cima, cobrindo-lhe
o corpo e o rosto com cetim
azul  
 Narce, o mordomo,
aponta para um homem cego
com óculos escuros azuis
marca Ray-Ban,
trajado de gala, nomeadamente
casaca em vermelho veneziano com paramentos
brancos do regimento de infantaria de sua
majestade, mas com um rádio de pilhas
nas mãos, que lhe pergunta
- Há rabanadas no baile?
(certamente, sua senhoria! - e faz-lhe
uma vénia) e o cego 
Zedicul ampara o seu par e dizhoje não há notícias,
mas pela mão traz
a mulher sem dentes e cabelo vermelho
que ganhara uns dentes novos
num patrocinador
e foi à televisão mostrar o antes e o depois
e diz discretamente ao ouvido de Narce
- adoro cabeças de bacalhau
(tê-las-á, Milady, tê-las-á),
e também gosto mais  
da minha saia em patchworkassim alinhavada: um quadrado com um menino sentado à carteira da escola cose-se a um quadrado com dois meninos de pé à porta da escola e este cose-se a um quadrado com um menino sentado à carteira da escola e faz o padrão que se repetiu pelas colchas em certos anos de certas modas,
mas chamo-me Arugrama e hoje sou rainha
e trajo uma estilista conhecida
cujo nome direi a todo o
repórter, vestido longo salmão
com brilhos e pedrarias, luvas e
sapatos de salto alto forrado a tecido
cujo andar treinei com as noivas de
santo antónio, colar de pérolas
sonhei a vida toda com
este colar de pérolas  

e assim por diante entrarão no baile de gala trinta
pares de príncipes e princesas ou reis e rainhas
Airf quis testemunhar a beleza,
mas o mordomo não tinha ordens e
e Otnas achou-a
apagada, mesmo cinzenta,
para abrir a excepção
Oinotna, contudo, não conseguira
convencer Ana a vir e veio ele
à escadaria tomar Airf
e acender-lhe os olhos,
habilidade que tomara
de uma menina de cadeia
no segundo natal
saiu no pasquim de vinte e seis,
porque o baile só terminou depois do
fecho da edição de natal, que no I Baile Real
de Natal se dançou
toda a noite e com propriedade
música de reis
nomeadamente todos os clichés de baile que Airf
teria condenado horas antes, mas era vê-la
evoluindo no soalho imperial do baile real
conduzida por Oinotna ao Danúbio Azul
na verdade, Airf,
estava tão macilenta que
quase não tocava no chão
ou seria elegante, na verdade
não levara vestido apropriado
e era a mais pobre da festa,
e eis que Arugrama e Emof lhe cederam
duas peças de estilo que a cobriram
para sobreviver, depois de Strauss,
à Valsa do Imperador, de Rieu,
que fez todos rir e crescer e no fim
eram mesmo príncipes e princesas,
reis e rainhas,
até Airf,
a quem Oinotna contou que,
pela primeira vez em três anos,
o peito tinha menos dor e não
sentia os círculos das pálpebras
como cursos agudos de sangue
abertos a navalha
   

VII - O ÚLTIMO FIM
Deve o conto abrir, porque é invertido, e não
fechar, como o texto clássico. Abrir como a vida,
que às vezes é como nos contos, fechada e
resolvida, e outras não é;
Nem Osso, nem Emof, nem Zedicul, nem Arugrama,
saíram do bairro sem casa,
mas nas soleiras deles continua a sonhar-se mais
e a conversar menos,
até porque casarão aos pares,
eles com elas,
e os bailes reais do bairro sem casa
se repetirão pelas eras;
Narce, sim, saiu, mas ainda não tem emprego,
tem esperança, e Lós também,
foram morar para o topo
junto ao chão,
porque Aleb lhe explicou
porquê;
Oinotna já não sente culpa por expressar
as emoções positivas, nem obrigação de
cultivar as negativas, mas,
por muito que isso fosse querido,
não podemos mentir no fim deste conto que se abre
ao infinito,
Ana, cujo nome está ao contrário,
abandonou Oinotna e não esteve em mais lado nenhum
deste conto, ou talvez num
só, que já recordamos;
No primeiro Natal, Ana era feliz
com Azeralc, mas no seguinte
começou a devolver Azeralc
à terra, arranhou Oinotna
e não saiu de junto da cama
articulada da enfermaria
o natal todo;
deu muitos beijinhos à menina,
que ainda se riu a ver televisão
e a ver os palhaços e as festas
com confetis e a sentir o mimo
dos homens e mulheres de sorte;
mas, como nem todas as tragédias têm de ser tragédias
o tempo todo, também nem sempre é possível seguir
em frente; Ana não seguiu.
Quando Azeralc lhe disse que estava tão cansada
era  dia de reis, Airf diria que a estrela de belém,
como corpo de crianças sem sorte,
é um insuportável cliché,
mas este conto fechará a transbordar dessa
matéria, a dos homens e das estrelas de que
falou Herberto,
Azeralc estava sentada na cama a receber um mimo
de reis; quando Ana lhe estava a explicar
o que ela podia fazer com uma lanterna
de leds com uma bateria extraordinária
a estrela de belém, no enfiamento da janela
da enfermaria, quase a cegou, porque
acabara de incorporar
Azeralc; quando Ana
olhou para a filha,
viu-a dormir sem sinais de
desfalecimento ou apneia;
quando percebeu a morte,
ela sim, desfaleceu,
e, durante os natais seguintes,
onde tudo para ela foi insuportável e
sem recuperação possível,
Ana
sentiu a culpa de cada minuto que
perdeu de Azeralc, cada momento
ao acordar, cada segundo a mais que
demorou a responder às chamadas
da filha, cada momento que passou
a fumar na varanda dos fumadores
da enfermaria, e isto não era só nos
natais, era sempre;
então morreu Ana
"talvez por delicadeza" ou de
uma incurável tristeza      


 VIII - EXÓRDIO
E este conto de natal é invertido porque acaba com uma
inversão de vida, felicidade e até de tristeza,
no sentido mais profundo das estrelas, cuja substância é a mesma
dos homens e da
própria tristezaque,
como todos os sentimentos maiores,
podem bem estar acima daqueles;
e se não escondemos as crianças sem sorte
é porque elas, ao serem a maior de todas as
perdas, as simbolizam a todas,
todos os que já partiram e voltam à mesa de
natal, ou só voltam para os que não a querem
fazer e sobrevivem a todas as festas com esta

tristeza incurável

não há nada de desumano no incurável,
talvez só na consciência da morte, que é talvez
a mais humana de todas as manifestações; 

Oinotna guardou o arranhão de Ana
como marca de uma eternidade
não física  


A finitude do corpo e a infinitude
do pensamento e do
sentimento. Ou a rotação e a translação.
Sabemos que o nosso corpo acaba. Não sabemos
se o pensamento acaba. Sabemos que o sentimento
pode acabar ou propagar-se entre corpos e mesmo
para lá deles. Sabemos que o pensamento e o sentimento
transcendem a morte. O corpo não. É por isso que tentar
encolher o pensamento e o sentimento no espaço limitado
dos corpos será sempre mal sucedido. O que pensamos e
sentimos, parecendo contido nas nossas paredes,
vai muito para lá delas. O natal é um esforço de consciência
colectiva, todos os corações de um certo mundo
centrados no transtorno do egoísmo travestido
temporariamente de altruísmo. Um travão na rotação,
para que o pai natal cumpra, uma flexão na translação
para que o planeta desalije o peso da ilusão.
Os corpos, que acabam, não são reais. Voltam os mortos
mais queridos e o pensamento vai descendo e subindo
montanhas russas. Há abraços em todas as suas formas.
Alguns inimigos cessam. Os amigos prosseguem,
menos ignorados. Há mais luz, há mais acessórios,
são flagradas todas as manifestações do supérfluo.
Até chegar um momento em que todos mirram
e o mundo dobra reduzindo o espaço entre as casas.
Pairará sobre as mesas de natal, sobre o bacalhau,
sobre o molho fervido, sobre o vinho quente com canela
e açúcar, um só sentimento. Que é um calor raro
ao centro de peitos potencialmente
infinitos. Diz-se bom natal e a estrada segue,
vagarosa, no regresso a cada planeta. 

 P R I N C Í P I O

Personagens e respectivos Actores,
por ordem de entrada em cena:

Mark Kozelek - Mark Kozelek
Dickens - Dickens 
Herberto Helder - Herberto
Oinotna - António
Ana - Ana
Azeralc - Clareza
Ojna - Anjo
James Earl Jones - James Earl Jones
Nat King Cole - Natalie Cole
David Prowse - Darth Vader
Airf - Fria
Shhhhhhhhhh! - Enfermeira
Otnas - Santo
Narce Oizav - Ecrã Vazio
Emof - Fome
Zedicul - Lucidez (Sr)
Arugrama - Amargura
Osso - Osso
Menina dos olhos acesos - Menina dos olhos acesos 
Lós - Sol (menina)
Aleb - Bela  
Alice no país sem maravilhas - Alice 


 PG-M 2015