2014-04-14

Nogueira namora Annaick entre Vigo e Praga



O sol é como uma mulher que penteia languidamente os cabelos sobre Praga.
- Neste caso sobre Vigo. - observou Nogueira, polido, deixando incólume a mão delicada de Annaick, que se apoiava no seu braço enquanto subiam a Rua Uraíz.
- Sobre Praga, insisto, Fernando. Porque a formulação - o sol é como uma mulher que penteia os cabelos sobre Praga - não é minha, mas de um checo intrigante que dava por Bohumil Hrabal, e se a digo como ele a escreveu, posso dizê-la em qualquer lugar do mundo que os fios dos cabelos do sol iluminarão sempre Praga.
- Não foi o bom do Bohumil que ainda agora - para aí há uns quinze anos - morreu?
- Foi precisamente ele, morreu e morreu sem Espanha ou Portugal, que nenhuma alma - pelo menos nenhuma alma fora das universidades - fez caso de que existisse.
- O que é pena, porque aquela língua cálida, picante, pura, doce, que, como vê pela adjectivação, não se parece com nada.
- "Eu que servi o rei de inglaterra."
- "A terra onde o tempo parou."
- E veja - disse Nogueira apontando a sombra dividida em vésperas e blocos de sol no átrio de um hostal - como cai a tarde numa hospedaria checa.
Sorriram.
- Ainda temos de procurar o bosque de Karsk no Parque do Castro, Fernando, para que ele sossegue.
- Não me atreveria. Não é desfeita que se faça ao Bohumil. E muito menos aos vigueses.

Nogueira observou que há uma complexidade no viguês que transcende as fronteiras de Espanha e da própria Galiza.

Nogueira observou ainda que, pelo menos ao fim-de-semana, que era quando se deslocava de Lisboa a Vigo, e fazia-o periodicamente entre Abril e Outubro, os espanhóis, não necessariamente os vigueses, não necessariamente os galegos, picavam pinchos entre as rebaixas e os picos do sol. As horas das copas e dos pinchos coincidiam, mais ou menos, com as horas de almoçar e jantar de Nogueira, que antes delas e de Annaick, trilhava as ruas de Vigo sozinho, por causa da sesta dos mundos.
- Os mundos galego e castelão, que estão ambos implicados em toda a Galiza, não é, meu querido?
- E depois, dulce amiga?
- Depois - disse Annaick - nunca mais os galegos conseguem ser portugueses.
- E quem lhe disse que os galegos querem ser portugueses?
Permaneceram ambos em silêncio até entrarem na Crêperie bretã de Annaick.
- Quer o costume, Fernando, com chocolate belga?
- Negro, por obséquio. Com um café solo ao lado.
Annaick levantou um dos braços, desenhou no ar um círculo e uma empregada chamada Amparo, que de manhã fazia as estantes da Librouro, subvertendo-as, acenou afirmativamente.
Nogueira nunca beijara Annaick.
Nogueira nunca beijaria Annaick.
Annaick não era Marcenda. Annaick era uma mulher de negócios bem sucedida, tão bem sucedida que já se pensava que a biografia de Annaick Noblet, como selfmade-woman da Crêperie Bretonne, era pura invenção de franchisados e franchisantes.
Pura ou não, ficção ou não, Annaick, cuja fotografia vintage aparecia na face anterior das cartas de crepes, nunca seria beijada por Nogueira.
Para este português denso e estranho, o privilégio de a trazer pelo braço desde a rua Rosalia de Castro, onde lhe tinha arrendado um quarto com vista para o porto de mar, era o bastante. E Annaick, que falava de literatura de uma forma estranhamente qualificada, não sabia que o lado mais belo da literatura era a morte.
Disse-lho Amparo nessa noite,
sobre Bohumil.
- Afinal sabe de que morreu Bohumil? - perguntou Nogueira a Annaick, de modo que todos os circunstantes da Crêperie pudessem ouvir.
- Não faço ideia, meu querido.
Amparo, pousando à frente de Annaick uma clara com limão, esclareceu:
- Parece que caiu do quinto andar do Hospital de Praga.
- Mon dieu! - exclamou Annaick - Mas ele morava num quinto andar.
- E escreveu várias personagens que se suicidavam de um quinto andar.
Annaick apertou com força a mão de Nogueira.
- Ai a literatura. - disse.
Amparo, que já caminhava na direcção da copa com os restos da degustação,virou-se para trás:
- Mas há pior, minha senhora. Um pior que sabe melhor.
E, como ambos não fizessem menção de a interromper, contou que o escritor checo fora enterrado com a seguinte inscrição no caixão:
"Cervejaria Polná".
Annaick e Nogueira não precisaram de transformar a expectavida em interrogação, porque Amparo, que subvertia as estantes na Librouro, eslcareceu:
- Foi na cervejaria Polná que se conheceram a mãe e o padrasto de Bohumil.

Nogueira e Annaick asfastaram-se um do outro, aliviados, e Nogueira observou, por fim, que nem que fosse vivo pediria para o caixão a inscrição
"Crêperie Bretonne Annaick"

E depois riram-se pelas sestas do mundo até ficar frio e Nogueira ajustar um cachecol cor-de-café que um dia lhe voaria para o mar. E depois riram-se até Vigo anoitecer, ou, se a lua fosse uma mulher, arrumar numa touca branca os cabelos que penteara de dia.

PG-M 2014

2014-04-09

apartamento


 estou triste
disse ela
e passou o ferro na camisa
com vinco na evidência
a consequência
do tempo é o passado
(o vapor foi projectado)
e o problema do passado
é ter a mesma medida
do futuro

(o botão, que é duro,
partiu)

é infinito

ah, não,
respondi
(estava de costas e na mão
o esfregão
de aço)
o passado só é infinito
se acreditares em deus

não necessariamente
treplicou

estou triste,
a minha única forma de vida
é a morte
(mudou a peça na tábua
era uma blusa
transparente)

isso não é razão de tristeza
a morte ao lado facilita
(aquele tacho era o último,
estava limpo)

e pode não haver explicação para a tristeza

(limpei as mãos, virei-me,
ela estava de costas,
estendi os braços junto ao pescoço
dela,
tapei-lhe os olhos

o tronco dos meus dedos ficou
salgado

ela soluçou
colocou o ferro ao alto no suporte
a blusa deslizou para o chão
fiz menção de a apanhar
não deixou
rodou
no meu abraço
beijou-me
encostámo-nos ao parapeito
da janela do apartamento

bastou o ar quente de junho
e os táxis amarelos de nova iorque
a passar na sétima avenida
e eu a passar a caneca de café
nas bocas
e a tristeza,

não a morte,

partiu)

coloquei a pastilha na máquina
arranquei-a nos cinquenta
graus
ela voltou a forçar o vapor
na pressão máxima e disse
vão dizer que agora fazes poemas
banais


deixámo-nos rir algum tempo
o ar quente varreu a sala de estar
em oito
o cabelo dela livre
apaguei a luz branca da cozinha
ela o candeeiro
de pé

a roupa ficou numa pilha mais pequena

tratámos das solidões
em cantos opostos
da casa
eram três da manhã
eu encaixei o meu corpo
e ela, fetal,
dormiu

PG-M 2014
fonte da foto


2014-04-08

apenas oito de abril de dois mil e catorze

 não sei, não sei, espera lá, há uma sede de concisão, não podes escrever o que te vem à cabeça, tens de usar frases curtas, adjectivos seleccionados, expressões claras, palavras escritas com precisão de ourives, escolhe a posição de cada uma na frase, escolhe a posição de cada frase na página, escolhe a ordem de cada página no livro

o resultado não é necessariamente frio, cerebral
é preciso teres a certeza de que queres mesmo escrever o que acabas de escrever, 
de que cerebral é frio,
pálido,
de que febril é quente,
sanguíneo,

agora escreve.

E eu escrevo, apesar do professor e das regras do professor:

Não sei bem. De um certo modo, o que quero dizer é impreciso. E do mesmo modo que é impreciso, é preciso. É impreciso depois de chegar aos outros. É preciso em mim, na ponta da minha língua, na base do meu pescoço, na ponta dos meus dedos, no centro das minhas duas mãos, que agora estão suadas.

O que quero dizer é que hoje parou a chuva e está sol, hoje parou o frio e está calor, e depois o frio voltou ocasionalmente na forma de sol póstumo, que é o significado do vento norte: sol no dia seguinte.

Houve alguns corpos na praia da parte da manhã, corpos com cheiro a creme mas não a roupa, pés na espuma residente. Houve essencialmente a intenção do verão.

 Creio que a intenção do verão dá mais felicidade do que a areia efectiva nos pés.

Um café tomado com ironia também.
Não lhe chamaria ironia pura. É no fundo o engano humano, passe-se a rima.
Um sorriso subtil com o céu totalmente azul à frente da cara, excepto algumas nuvens, poucas, que não constituem qualquer hesitação para o sujeito que prende a chávena entre o polegar e o indicador e, sem o mindinho no espaço - antes na almofada suada da mão a percurtir a linha da vida - sorri ao universo antes do primeiro gole.

Ele está com pressa, mas teve a consciência plena de que devia parar quinze minutos para celebrar o dia oito de abril de dois mil e catorze, independentemente do que passou e do que virá, ou seja, do dia sete e do dia nove

Semicerrou os olhos
(não uses semicerrar, está a ficar batido)

Dizia, semicerrou os olhos, tomou para si uma pausa, inspirou com média profundidade, o suficiente para o diafragma mover o corpo, fazendo o queixo subir e o olhar alongar-se mar dentro, o céu, lembre-se, estava aberto e azul para ele, encostou a chávena aos lábios, afastou-a uns centímetros, exarou aquele sorriso subtil que expressa uma vitória sobre os elementos, o tal
engano
humano

bebeu o café, pagou, levantou-se, estava a maresia a atravessá-lo, fez a melhor pose, olhou obliquamente o mar, e começou a descer na direcção do carro. Não tinham passado dez minutos. Alguns colegas de esplanada, pensou ele, como todos nós quando abandonamos os lugares públicos onde estivemos parados em comunhão com estranhos, levantaram a cabeça de espanto, o espanto pela sua inscrição no dia.

Ele seguiu dentro do carro, derivou para a cidade densa, esteve toda a tarde na sombra do escritório a manejar papéis brancos, mas nunca perdeu de vista a vitória sobre os elementos que lhe tinham alongado o inverno e a curva das costas.

Bastaram, portanto, onze minutos para se erguer.

Foi o primeiro estridente, saboroso, assumido,

engano
humano
do ano

PG-M 2014


2014-04-04

Egoturismo

(esta é a intervenção na apresentação de 3 de Abril de 2014, em Lisboa, na Ler Devagar, que é também uma viagem pelas oito restantes, entre 27 de Fevereiro e 3 de Abril de 2014)

Eu não sou um orador, sou um redactor. E por isso redigi para vocês esta oração, que passo a dizer de improviso, porque sou um daqueles redactores que fala sempre de improviso.


O egocentrismo do escritor é o tema central deste improviso.

Ora, o egocentrismo é parecido com flatulência.

São ambos uma espécie de ilusão que, afinal, incomoda.

E é por isso que, para explicar o que tento fazer nos livros, o descentramento do ego e o centramento no senhor Esteves da farmácia e no mundo do senhor Esteves da farmácia, ou na Sofia da Livraria Ler Devagar, e no Ribatejo da Sofia da Livraria Ler Devagar, sem a qual vos garanto que não estaria aqui hoje, eu falei, nas oito apresentações anteriores deste livro no último mês, apenas dos outros, usando o escritor como o palhaço pobre do espectáculo, que nada vale, essencialmente, sem o que fica fora de si, livro incluído.

O escritor é um icebergue.

Um décimo está fora de água, o outro décimo sustém a parte visível. E a pessoa do escritor está no centro, é a rocha invisível, provavelmente a parte mais pequena de si próprio, mas a que lhe dá estrutura. Não vou comparar a alma com o ego ou com a flatulência, o cabeça muito menos (mas podia, se quisesse), mas são afinal as coisas mais pequenas ou invisíveis que nos fundamentam.


É por isso que as pessoas que deixam a visibilidade suprema do facebook para entrar num livraria e ver cada aparente egocêntrico falar de um livro dele, que afinal não é nada dele, mas das pessoas que apanharam frio e chuva e sol para o ouvir, merecem ouvir a história dos outros nele, não dele.


Porque um décimo de mim são livros, e os outros nove décimos também.

Porque um décimo dos livros são os outros e o mundo dos outros,

e os outros nove décimos também.


Então atribuo escritores e livros aos que, durante o último mês, andaram à chuva comigo.

Começa aqui o egoturismo.


Avisto a 27 de Fevereiro a Beatriz, na apresentação de Guimarães. A Beatriz tem quinze anos e explica-me que tem saudades das noites de verão, quando saíam todos felizes em famíla e o pai lhe explicava as constelações. Agora o pai, com a mesma idade do escritor que a olha nos olhos, não tem estrelas, tem Parkinson. Mas ainda a acorda todas as manhãs com um “bom dia princesa”. Eu digo à Beatriz que esses bons dias podem ser mais importantes do que as estrelas, e é óbvio que, quando chego a Lisboa, a mando com o Saint-Exupéry ao planetário Calouste Gulbenkian, onde não chegarão a entrar, porque o escritor se deterá a explicar à Beatriz, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, precisamente as constelações úteis, as constelações da terra, como as de Saramago.


Avisto a 2 de Março o Manel, da apresentação do Estabelecimento prisional de Setúbal, e o Manel, ao saber que eu sou do Porto diz, com orgulho, eu também sou do Porto, e ao querer comparar-se com os saltadores das torres gémeas do primeiro livro, explica que também ele já se atirou de uma torre. Andava o Manel empoleirado pelos placards gigantes dos outdoors para aceder ao quarto andar de um prédio contíguo e roubar qualquer coisita. Ora, azar do Manel, quando bota o pé na varanda do quarto andar recuado traseiras do setenta e tal da Rua do Fulano, e se sente seguro, encosta o nariz ao vidro da portada, sinal de um aturado planeamento prévio, e divisa um par de polícias já no interior da casa, a atravessar a mesmíssima sala de estar que o Manel ia pilhar. Ora, pergunta-me ele, o que é o senhor fazia? Eu não queria ir preso, por isso saltei. E assim fracturou as duas pernas e a terceira e quinta vértebras, e foi preso na mesma. E ali estava, rijo mas quebradiço, no Estabelecimento Prisional de Setúbal. E esta foi, para o Manel, a experiência literária prévia que o faria entrar de cabeça no livro “A manhã do mundo”. Pois ao Manel apresentei o Alexandre Dumas e soube que eles foram vistos os dois num barquito a remos, hoje mesmo, de manhã, a enfrentar o mar no Bico d'Areia tendo como objectivo o Bugio.

Avisto, na tarde desse mesmo 2 de Março, a primeira apresentadora deste Livro sem ninguém, numa Évora chuvosa, a senhora procuradora e poetisa Maria José, de cujos atributos físicos não vou falar, porque não devo, ou, dito num napolitano cerrado, não vou falar di doje perfeti gammi e uno magnificu abito aranciu, mas falo da belíssima prelecção, e a quem atribuiria, não um livro napolitano, porque, como certamente perceberam, o napolitano era só para disfarçar, mas a companhia do Brian de Palma num passeio de descida do Príncipe Real até ao Jardim de São Pedro de Alcântara, onde perorariam, claro, sobre o Vestida para Matar, com uma incidência especial na ideia de que a senhora procuradora Maria José poderia facilmente ter sido uma Angie Dickinson morena.


E, como vinha a senhora procuradora para Lisboa, para Évora mandava a tia Graça com o livro do João Rebocho Pais. E, prontos, tá bem, com um cachecol do Benfica, que toda a gente já sabe que eu sou um portista tolerante, e até gosto do Benfica por causa do Boleibol e do Professor Jardim.


Não me posso esquecer de contar que em Évora encontrei uma experiência literária e política instantânea numa excelente pessoa que é marido da minha amiga Isabel, juíza de Execução das Penas do Manel das pernas partidas e demais companheiros. Bastou perguntar o nome ao marido da Isabel, que, como vão ver, uns levam para a literatura outros para a revolução que, não tarda, completa 40 anos. E assim foi durante toda a vida do rapaz: ou bem que és revolucionário, ou bem que és apaixonado pelo teatro. Eu só achei nobre. Chamava-se, claro, Otelo.


Em Leiria, o meu apresentador foi o Gil Vicente. É um profundo amigo de infância e, como eu costumo dizer, o génio mais singular que conheci. Tinha pouco mais de dezasseis anos e aprendia holandês numa semana, o suficiente para suportar uma conversação, e eu isso só bêbado nas queimas das fitas de Coimbra, a rolar pelas monumentais abaixo, mas já lá vamos. Para o Gil Vicente, atribuo, claro, o Gil Vicente. Um duplo Gil Vicente na Rua dos Douradores, com o guarda-livros Moreira entalado entre eles e o Bernardo Soares a espreitar do janelão do livro de razão.

Em Ovar quem apresentou foi o Afonso Cruz e o professor Carlos Granja, ou, mais propriamente, vinho tinto de Pias e morcela e ovos com bacon e bacalhau de cebolada. Aqui figurei uma cena mais intrigante, era o professor Cleto, director do Museu de Ovar, o Quixote, o senhor Silvério um Sancho Pança mais elegante, seria o primeiro o Rei de Alcântara e o segundo o seu ministro, eu o cavalo, o Afonso Cruz o redactor da corte para as aventuras que ambos desenvolveriam entre o Calvário e a Casa dos Bicos, e, finalmente, o professor Carlos o encarregado de contar tudo às crianças.

Em Gaia, como as coisas se passaram, tinha de aviar a jovem actriz e redactora Catarina Lacerda com um livro do Miguel Miranda, que, de viva voz, plangendo, chorando mesmo, se queixou à Rosário de que o Livro sem ninguém devia ter um aviso de poesia inserta, como nos maços de tabaco, e que pode matar, pois claro que pode matar, pode matar qualquer prosador desprevenido, mas não passa disso, a poesia que estupidamente não se auto-denuncia a escorrer pelos estendais não é culpa do autor, era o que faltava.

E como eu hoje não trouxe o meu blazer Ermenegildo Zegna, não digo, nem que me cortem este dedo, que depois de eu ficar gordo e num caber no fato do casamento, que era efectivamente Ermenegildo Zegna, mudei a etiqueta, caríssima, para todos os casacos que trago quando benho a Lisboa e digo assim, Bera, troca-me a etiqueta, e ela troca.

(A Bera é a minha mulher, para o caso de não terem percebido.)

Aliás, coitada da Bera, e o que ela passou numa mesa da confeitaria Arcádia, na abenida dos Aliados, onde eu lhe declarei amor de uma forma muito estranha, ora bê lá se percebes o que está escrito aí, era o livro de introdução ao direito do batista machado a falar de hermenêutica e ela disse num entendo e eu disse também eu num entendo, e depois beio o empregado da Arcádia e eu disse quero um café e ele, aqui só servimos lanches, e eu...

quero um café e um lanche, entom.
Em Coimbra, claro, para as duas dessões, o In Illo Tempore do Trindade Coelho, a antítese da solução de continuidade para os grandes professores, porque o que eu vi, nos dois momentos, na Bertrand com olhos jovens a brilhar, e na velha faculdade com olhos jovens a brilhar, ainda que de outra idade, foi grandes professores implicados no mundano onde os livros crescem e entre quem os livros crescem, e se o professor Seabra Pereira falou da essencialidade do Estranhamento em literatura, o professor Ferro falou apaixonadamente da Linda Hutcheon, e de como ela me poderia informar a mão posmodernista que, disse ele, escreveu o Livro sem Ninguém, mas vibrou, como todos, quando, num texto sobre o Solomon Burke e o sexo em Coimbra, este antigo aluno de Coimbra lembrou com saudade a noite do Bar Dom Dinis em que o Al Berto, entre poemas viscerais, nos mandou a todos, mesmo a todos, e literalmente, para o carvalho. E hoje todos vibramos. O Torga dormia em paz na Rua Luís de Camões, a um quilómetro em linha recta do hospital velho, onde o Al Berto pôs o dedo em riste e a voz funda.

E por Lisboa tantos mais, literatos anónimos e improváveis, tantas vezes sem livros, que passo a citar com nome, como representantes de todos vocês, se não se importam, e eu já falei ao princípio da Sofia Ribatejana da Ler Devagar, não falei? Está falado.


Pois não falei da personagem Alcaso, a que atribuiremos temporariamente o nome de Sónia, paradigma do espanto literário, para quem eu transformaria o Tejo em Rio Mekong, numa viagem de barco até ao Montijo, e traria o coração das trevas do Conrad, que já não mais se descolam do apocalipse do Copolla e da sombra visceral do Brando, prestes a decair, e fá-lo-ia porque a amizade também fala de vísceras.


À personagem Bettencourt, temporariamente com o nome de Elsa, paradigma do ombro literário, jardineira e doceira do inverno e da primavera na Rua do Arco Celeste, eu dava a companhia, obviamente, do George Perec, mas sem aquela pera assustadora e aquele cabelo desalinhado, portanto fazia-lhe a barba e cortava-lhe o cabelinho à tesoura, e queria-te ver, Elsa, a fazer os doces todos sem a letra “e”.


À personagem Lucas, temporariamente com o nome Pedro, nuns dias, e Isabel noutros, paradigma do chão literário, que é um exemplo de estudo e trabalho sem vida à larga, vejo, numa manhã submersa, a entrar na UAL com o Vergílio, de onde seguem para uma qualquer conferência europeia e representam orgulhosamente Portugal sem tradução simultânea. Ou então, quando é Isabel, Nova Iorque, só Nova Iorque, como personagem, livro e escritor e tudo.


À personagem Nucha, temporariamente com o nome de Ana, paradigma do colo literário, lembro-a em bicos de pés para as pautas de entrada em Direito. É rapariga tutelar, como tantas mulheres que são mães, mas tomam conta de nós todos, são companheiras do marido e amigas mais velhas do resto do mundo, e por isso precisa de calma e ordem, pelo que a mandava aviar calmantes à farmácia da Calçada do Combro, que é do Esteves sem metafísica, e para meio entendedor.

E a personagem Almeida, temporariamente com o nome de Carla, paradigma da grande leitora, finalmente com as mãozinhas fora da minha camisa. É que ela, que hoje já passou dos trinta, estava com uns seis aninhos sentada no meu colo não literário e descobriu no bolso da minha camisa um maço de SG Lights. A gaiata fez a costumeira pergunta retórica: tu fumas? E eu: Eu não, isso é do meu pai. E ela, de um pincho, como se diz no Porto, correu escadas acima e reportou o facto a toda a família: o Pedro anda com os cigarros do pai. Pois a essa pérfida criança eu atribuiria a companhia do Lobo Antunes, e a mesma missão que dois bombeiros voluntários lisbonenses me atribuíram num dia de quarenta graus, na esquina da Duque de Loulé com a Camilo Castelo Branco: o senhor, para chegar ao cimo rua do Conde Redondo, não corta para lado nenhum porque não conhece, desce esta até ali abaixo, e depois vira à esquerda e sobe tudo até lá acima.E eu, a olhar para o fundo da rua e fazer contas aos graus, pergunto, Não posso continuar aqui pela Duque de Loulé, e depois....Não senhor! O senhor não conhece. Faça como nós dizemos, não seja teimoso! E eu fiz, mas fui sempre a pensar, Depois és tu, querido bombeiro, que espremes o que sobrar de mim. E a Carla também. Mas com o António Lobo Antunes à ilharga e, claro, Os Cus de Judas na mão.


Last, but not the least, não se explica a ilusão do egocentrismo, e, aceito, não vale a pena insistir em comparações soezes com flatulência, porque fica, no mínimo, deselegante, a não ser que a flatulência fosse, por exemplo, uma americanice para a condição ou o achaque dos viciados em procura de apartamentos. O FLATulente compulsivo procura agora um apartamento em alcântara, e, enquanto o não encontra, vive, come e dorme na Ler Devagar, onde toma café e escreve assim, porque se quer egodescentrar:


“Abrando aqui quase todos os dias, neste café, nesta livraria, à espera de alguém que depois levo para casa e assim fica o dia dividido em dois: o lado de cá, de separação e solidão, o trabalho, e o lado de lá, o regresso aos meus, a reunião. Gosto de vir a este sítio, gosto de passar pelas pessoas e de vê-las passar por mim, gosto de me encostar aos vidros e de entender os corpos num esforço de adequação ao espaço e os olhares num esforço de adequação ao silêncio, chego e peço sempre um café comprido com adoçante e um copo de água e abro o portátil e arranco a música nos ouvidos e, quando não tenho tempo para trabalhar mais um bocadinho, escrevo coisas assim. Tenho andado com a literatura à cintura, como uma daquelas bolsinhas fora de moda, tenho andado mais calado do que falante, mais com os dedos em suspenso sobre o teclado do que caindo sobre ele, tenho lido tanto, ouvido tanto, olhado tanto para as pessoas que passam para as cidades delas, para os momentos delas, tenho conhecido tanta gente sem livros e de rebarbadora e de cana de pesca e de chave de parafusos na mão a quem falo sempre de livros, elas perguntam o que é que eu faço e se eu digo que sou advogado sou consultado, se digo que sou escritor sou olhado de lado, uns sorriem, outros continuam como se eu não tivesse dito nada, e eu vou falando do que está dentro do livros e depois à noite aproximo-me da mancha do meu filho, que é o bastante para o reter, e penso que sempre que ele escreve, e é quase nunca, escreve melhor do que eu e então pergunto pela literatura para ajudar a levantar aquelas rebarbadoras, aquelas canas de pesca, aquelas chaves de parafuso, porque eu sei que há livros para nada mas tenho a certeza de que há livros que são tudo e sei, hoje sei, cada vez mais sei, que tenho de comunicar a literatura para dentro daqueles olhos duros e daqueles corpos doridos, fazê-los parar e escrever no ar para eles, pegar nas frases que já estão feitas e os confortam e tirar-lhes um verbo, aplicar-lhes uma luz, um cheiro, um botão, um barulho que os faça acordar durante alguns segundos e depois voltar à função e levar na boca, para o café, para este café, umas horas mais tarde, a inquietação que eu lhes dei, como eu trago tudo deles para aqui, que nunca nenhum me provocou o tédio que me provocam as pessoas importantes todos os dias. Estamos perto,

estamos perto, filho. ”


E terminaria com a avó Júlia, porque foi com ela que comecei há três anos na Bulhosa de Entrecampos, quando lhe chamei minha editora privativa, ainda mais exigente do que a Rosário, e porque é o nome dela que este Livro sem Ninguém inaugura para as azedas, isto foi o que este icebergue lhe disse no primeiro almoço depois de ela, com oitenta e oito anos, oitenta nove quase perfeitos, morrer:


Hoje almoçamos sem ti, e eu quero que a manhã

siga lenta, e nunca chegue

a hora de contar

os pratos


Hoje almoçámos sem ti, e eu tentei disfarçar

a tua ausência, mas a mão

ia sempre descansar

no lugar onde comias.

A altura do naperon ao chão

e o fingimento

e a tristeza na boca

e a vida,

tudo parecia

igual


E levantou-se a mesa e o teu lugar

estava limpo, mas eu

vim sacudir as migalhas

que fingi

dentro do punho fechado


Hoje o sol deteve-se nos telhados e o frio veio

das ombreiras, porque almoçámos


sem ti.

Obrigado!

PG-M 2014
Fotos de Mónica Joady, João Manso, Carlos Granja, Maria Porto, Elisa Costa Pinto, José Florim, Biblioteca Avelar Brotero e Margarida Nunes

2014-03-11

Livro sem ninguém - Apresentações de 13 (Ovar) e 15 de Março (Gaia) - e as já decorridas

Aqui vão os cartazes das apresentações de

13 de Março, Museu de Ovar, 21:30h, por Afonso Cruz



15 de Março, Fnac Gaiashopping, 18h, por Luís Miguel Rocha e Miguel Miranda, com Maria Rosário Pedreira e Clarice Lispector (por Catarina Lacerda):


Já decorridas:

2 de Março: Leiria, por Gil Vicente


 1 de Março: Évora, por Maria José Lascas
 
27 de Fevereiro: Guimarães, destacou-se a Beatriz

2014-03-04

Entrevista à Smooth Fm sobre livros

Para ouvir, clique sobre a foto, pf
http://www.smoothfm.iol.pt/player/flash_player.html?t=audio&id=59881

A última noite de óscares


Está bem, está bem, Academia. Não é preciso esfregar-nos na cara com requintes de malvadez. Eu, pelo menos, já percebi. A noite de 2013 já tinha sido, televisivamente, a pior de sempre - sendo que o meu "sempre" começa em 1985, quando as comecei a ver todas em directo, para só parar em 2015, quando "celebraria" 30 anos, e é razoável presumir que as anteriores a 1985 não terão batido em sofisticação e glamour as posteriores -, mas a de 2014 bateu todas os recordes de gosto duvidoso, quer no cenário, quer no alinhamento de bocejo, quer nas escolhas, com a honrosa excepção da inevitável consagração de "Gravity", aliás merecida, à face da fraca concorrência. Um dos pontos bons, óptimos, da noite foi Ejiofor ter perdido (como podem instir nesta consagração de actores medianos - já não basta a menina Jennifer Lawrence?) e "12 anos escravo" ter ridicularizado a própria Academia com o óscar de melhor filme, quando a Academia lhe negara tudo ou quase tudo (Lupita é um caso à parte, não se venha o filme gabar disso:) durante a noite.
E depois Frozen, e o lobby Disney, ao arrebatarem o óscar da melhor música com a pior música (não é possível!) e a melhor longa metragem de animação ("The Wind Rises", obra-prima absoluta e supostamente a última de Myazaki, não podia ter perdido para..."Frozen", porque vê assim boicotadas todas as hipóteses de estrear nas salas de cinema portuguesas). De resto, Ellen, nem superior nem inferior ao que faz no seu programa, colocou as coisas in situ quando nos mostrou que os óscares já não são bem sobre televisão, mas sobre tudo o resto, ao bater o record de tuitadas com uma boa ideia: a selfie da década. E é isto. Os óscares estão a apoucar-se a si próprios, a desprezar o directo peçonhento que hoje são, e o conteúdo que veiculam na célebre madrugada é tão escasso que o compacto do dia seguinte dura cada vez menos. Foi ainda doloroso ver Kim Novak congelada em todos os cantos menos na boquita. Bom, bom, foi ter sido um dos convidados "especiais" (boa, Ana Margarida) do Final Cut, o abnegado site de cinema da Visão e do JL, onde o Fernando Alvim passou a noite a dormir e a rematar todas as cenas com "estou a chorar" e o próprio intervalo da TVI ganhou autonomia e adeptos, nomeadamente repetindo até à exaustão imagens da, para mim, vencedora da noite, a Margot Robbie, que nem candidata era (mas já ganhou, e todos ganhamos com ela). A Cate Blanchett pode ser fria, cirúrgica, mas é finalmente o óscar de melhor actriz. O Matthew McConaughey tem a melhor música torácica do ano, mas noutro filme. Sempre foi um actor competente: está quase bem entregue. O Bruce Dern é que era. A própria passadeira vermelha tem estado aborrecida e formatada para as promoções e para os comentários sobre vestidos em todas as televisões do mundo. E até me podem dizer que isto era previsível, e era, e que óscares não são cinema, e não são, mas, pelo menos durante estes vinte e nove anos de directos, a Academia sempre soube disfarçar. A melhor destas vinte e nove noites nem aconteceu há tanto tempo assim, foi uma há quatro ou cinco anos, estilo retro, belíssima. Com as duas últimas, a terrível decisão ficou tomada: a partir de 2015 deixarei de ver em directo. Deito-me cedo, levanto-me pelas quatro e uso o milagroso timewarp para poder saltar toda a mediocridade. Os tempos mudaram. Esta foi a minha última noite má de óscares. Agora, como a própria Academia sugere, farei os meus próprios conteúdos.

PG-M 2014

2014-03-03

Viagem por dois livros e por duas ruas (por Rosário Ferreira)

Professora Rosário Ferreira sobre "A manhã do mundo" e o "Livro sem ninguém", apresentando a sessão de 27-02-2014 à Escola Francisco de Holanda, em Gumarães:


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Nunca estive em NY mas já fui muitas vezes a NY, … não isto tem som de repetido e, para isso basta o “Sino da minha aldeia”.
Recomeçando: continuo sem nunca ter ido a NY a não ser nas viagens que lá fiz com os atores das minhas séries favoritas (pronto! Confesso que também já la fui com a Tyra Banks e o America’s Next Top Model – é verdade. AH! E com o masterchef Austrália na terceira edição!)) com a música de Sinatra e com o livro do Pedro Guilherme-Moreira (com hífen!). E esta semana regressei lá pela mão de PGM: e encontrei outro livro, outra história, outra magia. Não sei porquê, mas quando reli, logo nas páginas iniciais a descrição do The Falling Man, pareceu-me vislumbrar um vulto numa cabine telefónica que, apressadamente mudava de roupa para o apanhar na sua queda vertiginosa. Depois, quando Thea tentava escalar os corpos amontoados nas janelas, pensei que um gorila gigante apareceria no topo das torres gémeas para salvar a sua Ann Darrow…. E estes “loucos suicidas”, como tão facilmente Ayda lhes chamou, transformavam-se em seres frágeis a serem resgatados por heróis incompreendidos. (Saltei páginas, porque já conheço a história, sei que os bons não aparecem, não há finais felizes, e tenho medo que surja voando, qual “Mostrengo que está no fim do mar”, nesta imaginação traiçoeira, uma Alice em forma de Lex Luther ou que a Teresa se metamorfoseie em Jack Black).
Não resisti a reler o número dois: a ironia – ou não- do destino – ou da sorte – de um homem que não ousa contrariar a mulher, que se levanta quando o instinto – ou a preguiça, ou o sono – lhe segredavam que ficasse na cama – mas que ousa contrariar o destino - ou a preguiça, ou o sono – porque se demorou nuns olhos verdes. (Acho que foi aqui que me lembrei do Master Chef).
Foi então que reencontrei a minha personagem favorita – Millard, que, tal como eu prefere as alamedas às avenidas - e com ela regressei à casa de chá com papel de parede bordado com beija flores.
E Alice, a tímida – ou não – secretária que, não fosse o humor negro de Deus, não deveria estar ali, na torre norte do WTC, mas na sua pequena cidade natal.
Redescobri Solomon, não o rei mas o advogado, a alcançar a janela do seu escritório no 106º andar, que teimou em não fazer um check-up, em continuar a conduzir o seu Cadillac por Brooklin Bridge e completou o seu ciclo iniciático nesse dia em que fazia sete anos que se reformara. “Ao contrário de muitas das histórias do 11 de setembro (…) a [história] de Solomon era límpida e sem espaços para lamentos, descontando o sinal vermelho.”
Voltei a página, e lá estava Thea outra vez, aquela bela rapariga de “olhos verdes” (qual Joaninha de Garrett, também ela destinada à desgraça) que vai “partilhar com Millard os piores momentos desta fatídica manhã”, ambos se sentem sufocar – pelo fumo e pela vida – e ambos resistem a afundarem-se no desespero. Thea apercebe-se de que mesmo que as suas “conversas tenham sido mais pensamentos do que diálogos (…), apenas o símbolo da resistência, da vontade e até da coragem”, houve muito mais do que solilóquios entre esta repórter gastronómica e este conciérge obcecado por um beija-flor.
Depois, bem, depois, já o disse e redigo-o pois acho que não há outra maneira de o dizer, depois virei a página e já era “o dia que Ayda pensava ser 12 de setembro de 2001”. E das páginas do livro soltaram-se notas, compassos, pautas inteiras que teimavam em calar os gritos de dor e os espasmos de raiva: acordei com Lopes Graça; ouvi o coro dos escravos de Verdi, o Pedro e o Lobo de Prokoviev… e depois um interlúdio de Taikovsky quando Romeu e Julieta (entenda-se Darius e Teresa) celebram o seu amor, afinal tão tragicamente possível. Entretanto, soavam-me ao ouvido as palavras de Eugénio de Andrade: Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio.
A mão segura de Pedro ensinou-me que qualquer suicida vê “a morte desmaiada. O verdadeiro suicida conquista um destino que não lhe está naturalmente reservado”, e isso fez-me ver o suicídio como algo ainda mais cruel do que eu já o entendia.
E a morte estava ali: “no azul do céu, bela.” Sem “foices ou vestidos negros”, apenas “um horizonte que encurta”.
E foi aqui que precisei de voltar atrás no livro, regressar ao apartamento de Daruis e sentir, de novo, aquela força revitalizada por um sol que se espraia no apartamento da River Terrace e voltar a sentir a mão de Pedro Guilherme-Moreira a dar voz à força de Ourique, de Aljubarrota, do 1º de Dezembro, do 5 de Outubro ou do 25 de Abril, que resistiu ao opressor: na imagem de Darius que resiste ao cheque de 6 dígitos para vencer a batalha do filho; nos olhos de Teresa que resiste ao adultério em prol da amizade; na força de Ayda que resiste ao destino para salvar destinos.

E, urgentemente, precisei de conhecer um outro espaço, tão diferente e tão igual a Nova Iorque.
Já tinha ouvido falar do Sítio do Pica-Pau Amarelo, da Rua Sésamo e até mesmo do Parque da Mónica, mas juro que nunca ouvira tal coisa como a rua do arco celeste. Bem, parece que:
Na rua do arco-celeste há sete casas, cada uma de sua cor; e também um café, uma horta, um jardim, uma florista, uma sucata, um infantário e uma escola. Mas, embora lá vivam pessoas – que frequentam o café, trabalham na horta, lêem no jardim, compram flores para oferecer a quem amam, se desembaraçam dos seus podres ou jogam à bola no recreio –, (…) durante este ano extraordinário, acontece de tudo na rua: há quem se apaixone e quem se separe, quem nasça, quem morra, quem mate e até quem, depois do trauma, consiga uma vida nova. Mas, como em todas as ruas, havemos de encontrar nesta preconceitos, dúvidas, alegrias, segredos e desgostos.
Antes mesmo de ler a obra, li esta sinopse e, quase de imediato – não sei se por andar às voltas com a Mensagem ou se é mesmo a minha paranoia pela simbologia – o número sete começou a elevar-se das entrelinhas: 7 casas, sete espaços comuns, sete atividades, sete acontecimentos (porque considerei o trauma como um acontecimento). E depois, apareceram cinco nomes que retratam esta rua do arco-íris.
Sete e cinco: círculo perfeito, sacrifício,… Isto promete!!!!
(esta parte foi escrita no dia 11 de fevereiro, quando ainda o livro não tinha sido publicado e já a minha curiosidade pulava freneticamente)
Dia 24 de fevereiro
Finalmente tenho comigo o livro. Abro- o, leio a dedicatória, oiço Caetano Veloso, atento no mapa (sempre gostei de mapas, fazem-me lembrar os livros da Enid Blyton), leio o prólogo. Novembro chegou.
Estou eu sossegada na minha leitura quando o narrador ma interrompe: “Um momento. Não era melhor apontar isto?(…) só assim, tomando notas, se poderá ter cá alguém, que o livro é de ninguém”. E subitamente, nos papeis que estão no meu pensamento, a rua do arco celeste transformou-se na rua vila flor. E o livro sem ninguém povoou-se das pessoas da minha infância que habitavam a rua da minha infância.
A rua chamava-se assim por causa de um palácio pertença da família Jordão que, à época, ainda não sabia que viria a ser centro cultural.
Na rua vila flor também havia um café: o Danúbio (quer dizer, não era bem lá, era em frente, a morada oficial era Av. D. Afonso Henriques, mas nós tínhamo-lo tomada de assalto e agora era nosso). Era lá que a muidagem e a “graúdagem” se juntavam para ver televisão, no tempo em que esta era muito mais rara do que um ipad, um iphone 5 ou até mesmo uma 4L cor-de-rosa.
Na rua vila flor não havia um jardim. Mas havia-o no palácio Vila flor, que comunicava com a rua por ruelas secretas que foram, nos tempos quentes de 75, a saída salvadora daqueles que por lá haviam brincado e que naquele dia tinham sido feitos prisioneiros num comício por terem cometido o crime de participarem num comício que não era das forças democráticas.
Na rua vila flor as casas não tinham as cores do arco-íris, mas as nossas brincadeiras, as nossas corridas de carrinhos de rolamentos, os nossos “esconde-esconde”, as nossas peças de teatro no sótão dos meus pais, davam-nos mais felicidade que um pote de ouro.
Na rua vila flor as casas era quase todas brancas, mas a mistura de gentes, de culturas, de partilha de bens e de sorrisos, fazia-nos mais diversos do que as cores do arco-íris.
Na rua vila flor não havia escola. Mas havia uma tipografia – a tipografia Maia – onde eu aprendi a mexer em letras, a formas palavras sem o saber, muito antes da D. Inês mo ter ensinado.
Na rua vila flor não havia uma horta, mas havia o quintal da D. Primavera, com laranjeiras perfumadas que nós teimávamos em transformar em alvos preferenciais das nossas fisgas, mesmo que, depois a boa senhora no-las oferecesse quando nos chamava da sua janela.
Na rua vila flor também havia quem amasse (e quem odiasse), quem se desembaraçasse dos seus podres e quem não conseguisse fazê-lo, quem jogasse à bola, não no recreio mas ao fundo, junto ao rio de Couros. Mas não. Chega! vou voltar ao livro que as memórias são infindas e o tempo está a esgotar-se
E depois disto, voltei ao livro. Ainda não o acabei. Vou em janeiro. Prometo que em outubro darei notícias.

AH! Espero que já tenha aprendido a fazer contas de dividir!
É que, para quem não esteve cá no ano passado, este senhor aqui sentado ao meu lado, teve um problema a resolver com as frações. Este senhor, que advoga, escreve e estaciona carros nos poveiros, também foi em tempos, uma criança dada mais às letras do que aos números. Vai daí, quando finalmente a professora D. Laura conseguiu ensiná-lo a dividir, o Pedrinho presenteou-a com uma bela redação! Foi o princípio de uma perfeita relação, nem sempre calma como convém em qualquer relação, com os papéis: hoje conta já com um palmarés digno de atenção, a saber:
Aos 11, entre rapazes de 16 e 17, empatou o primeiro lugar dos jogos florais da escola com um rapaz de 12, hoje um conhecido político. Aos 13, perdeu para o mesmo menino, mas levou o 2.º e o 3.º prémios. Aos 16, ganhou (finalmente sozinho), porque o menino político entrou na Universidade. No ano seguinte entrou ele, na de Coimbra, e andou com Torga no trólei 3, mas nunca se falaram. Profissionalmente, foi dos primeiros advogados a ganhar o Prémio Lopes Cardoso, com um artigo publicado, primeiro, na prestigiada Revista da Ordem dos Advogados e, depois, em livro. Decidiu publicar apenas aos 40, porque queria saber, e escrever, mais. Em 2012 foi agraciado com o prémio de poesia do Museu Nacional da Imprensa. A Manhã do Mundo aparece a meio do seu «dia», sendo o seu primeiro romance.
(isto fui copiar à net. Vantagens das novas tecnologias!
Pedro Guilherme Moreira podia não saber fazer contas de dividir, mas soube multiplicar o seu dom de contar a História com sabor a história, de somar os factos da História à brisa da ficção, de subtrair os olhares uniformes deste facto, fracionando-os em vários avos de diferentes olhares.

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Relacionado: A viagem d'a manhã do mundo segundo a professora Rosário Ferreira

2014-02-24

Uma "Manhã..." macedónia

Saiu no final de Dezembro de 2013 no país do grande Alexandre, o país sem mar onde foi quase impossível traduzir o "Paredão" (nome do café onde foi escrito "A manhã do mundo"). A tradutora foi a académica e poetisa Nataša Sardžovsk. Aqui está:

2014-02-01

O Salinger nunca me deu tesão

 
Eles vão dizer, mal descubram quem escreveu um título absurdo como este, que eu sou uma escritora americana menor. Reparem: não uma menor escritora como a própria Joyce ao tempo que o JD a viu ser parida pela imprensa e não conteve as erecções - tema do dia - sucessivas que o artigo lhe provocou, a Joyce estava bem na fotografia e varreu a América, ainda hoje é uma mulher atraente mas quem varre a América - o mundo, aliás - é o JD e está morto. Ou não. Eu serei apenas uma escritora menor, aparecerei numa coluna do New York Times como titular de um ódio de estimação pelo gigante. Que sou conterrânea de morte, que terei vendido um milhar de exemplares do segundo livro na mesma editora do mito, que fora já caridade, certamente proporcionada por alguns amigos da cena literária décadas atrás, por eu ter um palimnho de cara, que caí para umas centenas no terceiro, e do quarto já ninguém falou. Que sou uma pessoa não existente, que mereço o tratamento que me deram os meus pares depois desse livro falhado. E a coluna concluirá assim: "Já nem as saias mínimas que passou a levar aos lançamentos de livros dos seus pares nos anos sessenta ou o consentimento das mãos dos escritores consagrados na sua exemplar cintura de pin-up adiantou. O tesão de Salinger passa bem sem esta senhora."

Um título para atrair todos os pérfidos, que aparecem sempre unidos, plenos de energia, e qualquer mulher que se atreva é enterrada nisto: uma puta.

Agora também estou com a mão estendida, a secar o verniz das minhas unhas afiadas, no terraço da penthouse de um hotel de praia em San Diego, eu também tenho um roupão branco aberto para o sol e mais nada além do azul do céu. E eu também tenho um marido deitado sobre uma toalha na primeira linha de água, lá longe, na praia dos albatrozes, que a esta hora está cheia e vibrante. E eu também tenho do outro lado do ecrã do computador portátil que me ferve nas coxas um escritor de dezanove anos que, provavelmente, me dá mais tesão com uma frase do que nove histórias do Salinger que podem ser tudo o que qualquer homem livre quiser, e normalmente quer. O homem livre quer odiar o sucesso e questionar o mito. Não há uma página escrita neste planeta que não tenha do recensor medíocre o tratamento dos humores, dos arrepios, das constipações. Porque do Proust se dispensam madalenas de dez páginas. Porque o Joyce não conhecia a beleza linear. Porque o Sherwood Anderson é escandalosamente etiológico, como se o país estivesse órfão de um novo modelo - e os simbolistas, esses pecadores? Porque o Saramago veio a ser uma espécie de adamastor que despegou da rocha e foi cantar grandiloquência, deixando o narrador omnisciente a falar sem parar, e que isso se pegou aos discípulos, porque o Lobo Antunes faz um mapa-múndi de cada pastelaria e não resolve o pai. E a própria voz banal do narrador do "Centeio" do Salinger pode ser dizimada. Porque os pares estão todos doentes de cosmopolitismo. Eu posso ser só isto, o meu putativo amante escreve que tenho bons genes, que sou a sessentona mais sensual de New Hampshire a passar férias na Califórnia, eu limito-me a comer uma banana, a comer não, a chupar, deixo que se desfaça na boca, gosto do sabor, não aspiro à evidência do fálico, à violência da linguagem, ligo a webcam durante us segundos, observo de fora as minhas próprias fraquezas. Estou há tanto tempo online, sou tão primitiva, tão pioneira, que sinto que a minha sexualidade já se liga por ventosas à rede. Basta uma frase que possa transportar segundos sentidos e eu incedeio. Mas o meu putativo amante-escritor de dezanove anos nunca sobre edifícios, leva-me sempre ao extremo no primeiro sentido de quase tudo. Nele basta o alinhamento das frases, as ideias que mais ninguém tem, os nossos sintagmas em fusão, como se o corpo fosse irrelevante, como se o que somos se solvesse ao mesmo tempo e no mesmo copo de água e já não fosse preciso fazer amor, porque está feito. Não digo que o Jerome David não me dê tesão. De facto, o título que dei a esta carta não é a minha verdade, mas já lá vamos. Cinjo o roupão porque passam aviões publicitários, depois penso melhor e volto a desatá-lo, deixo a púbis exposta, sorrio, tenho uma tez fixada na tentação, limpo os lábios dos restos de banana, bebo da palha o resto do batido e tiro do ecrã tudo o que sobrava, deixo a mão escorregar.

Só porque estamos a discutir o que é ou o que pode ser sublime na escrita de diálogos, ele diz-me que os grandes (o que são os grandes?) nunca deixaram de usar o "disse". "disse o homem", "disse a mãe", "disse o pescador", ou,

como o JD Salinger naquele conto maldito,

"disse a rapariga"
disse a rapariga, disse a rapariga, disse a rapariga, disse a rapariga

- Isso é bonito, Howard? (o meu miúdo chama-se Howard)
- Provavelmente não, mas o Bloom dir-te-ia que os melhores não inventam.

E, aí sim, fico para morrer de prazer. Os dedos dos pés em descontrolo, os joelhos a avançarem um para o outro, primeiro, depois a afastarem-se outra vez, a linha franca das pernas, deixo a mão chegar, as pernas fecham, atiro a cabeça para trás.

- E este desejo que surge das ideias, como é que se resolve? - perguntei eu.
- Resolve-se como tudo. A sós. - disse o Howard, acrescentando o sinal gráfico de um sorriso.
- E se um dia, num café, no fim de uma conversa em que as palavras andem livres, cheias, intensas, os nossos olhares sem sair de dentro um do outro, eu te pedisse um beijo seco, simples, um beijo que seria uma espécie de ponto final porque qualquer palavra estaria a mais, tu davas-mo? - perguntei eu.

O meu marido apareceu de mansinho por trás, fechou-me o ecrã, o meu coração saltou do eixo, teria ele lido alguma coisa?, não, não leu de certeza, está a beijar-me, a beijar-me profundamente, a puxar-me para o chão, a deitar-me sobre o peito, a dispensar o meu roupão, as unhas já estão secas, cravo-as nos ombros dele, começamos aquele cê basculante da penetração, ele senta-se e encosta-se ao muro do terraço, eu sento-me sobre ele, como os cavalos livres em supinação. Começo a sentir-me culpada por escrever um conto que não filtra o sexo e pode ser lido pelos miúdos das escolas que eu visito quase todos os meses, eu, a escritora menor de New Hampshire, mas sei o que eles vão escrever à margem, no final deste pensamento de ângulo recto. WTF? Várias vezes WTF. Não estás no movimento basculanwte da penetração, o que te deu para pensares nisto? Imediatamente antes do orgasmo, o meu marido afasta o livro do Salinger e aperta-me a mão que estava sobre ele - o livro.

O conto do peixe-banana do Jerome David Salinger sempre me atormentou. Não aceitava aquela mãe pérfida a afastar o marido da filha. Esse marido, o Seymour, eu teria amado. Bom, não sei bem se amado. Ele precisava de salvamento, não da pequena Sybil. E como eu tinha ciúmes da pequena Sybil, como eu cheguei a odiá-la como ela nunca odiou a concorrente do colo do "see more", a Sharon Lipschutz, de três anos e meio, que tinha mais liberdade no hotel à noite e podia saltar para cima do "see more" que, não só via mais, como lhe achava o nome erótico. Sharon Lipschutz. Sharon Lipschutz. Como eu quis o fato-de-banho amarelo da Sybil, como desprezei que não precisasse da parte de cima por tantos anos. A tormenta era ainda maior quando lia as críticas e recensões, perfeito, genial, JD escreve como se a realidade se desenvolvesse sempre em dois ou mais planos. E não desenvole?
O meu marido estava a fumar nu, eu ainda suspirava na cadeira articulada do lado, quando ele fez aquela pergunta retórica:
- Então agora pedes beijos a miúdos de dezanove anos?
Eu devo ter fica lívida, branca, e não me saíam palavras, provavelmente não havia.
- Não te preocupes - disse ele - A sério, não te preocupes. - Sorriu e pegou no livro do Salinger - Percebo essa curiosidade toda. E ficava muito mais preocupado se andasses desvairada com este gajo, como a outra que se perdeu aos dezoito anos e resolveu contar a história quando já estava mais morta do que ele.

A lucidez do meu marido não era uma atitude que tivesse cabimento num conto sobre uma família americana sem estrutura, um marido nunca poderia achar natural a intimidade com uma rapaz inteligente de dezanove anos. Pensei perguntar-lhe, quase orgulhosa, se ele tinha lido a resposta do miúdo, de lhe contar as virtudes do rapaz, mas era tudo, evidentemente, disparatado. Profundamente disparatado.
Por isso menti e disse aquilo, e disse-o da forma mais americana que consegui:

- O Salinger nunca me deu tesão.

Ele sorriu, tirou mais uma passa e serviu-se do bourbon.

PG-M 2014

2014-01-31

Da luz da Avelar Brotero às asas do Pessoa


1884.
1884 é da minha vida porque é o ano de nascimento deste meu bisavô.
1884 é da minha vida porque é a data de fundação e o nome do livro com que dezenas de alunos me comoveram na Xico d'Holanda.
1884 é o ano de fundação do Estabelecimento Prisional de Coimbra, onde hoje estive eu e agora está outro Pessoa, que já teria chegado a este parágrafo montado em números cabalísticos.
1884 é da minha vida porque também é a data da fundação da Escola Secundária de Avelar Brotero, em Coimbra - Félix de Avelar Brotero, o grande botânico português cuja primeira publicação, em 1793, é o curioso "Princípios de Agricultura Filosófica" -,  escola onde, no dia 30 de Janeiro do ano da graça de 2014, recebi a luz coada pelas vidraças da bilblioteca e pelo sorriso e empenho das professoras Carla e Isabel e pelo entusiasmo controlado, mas eficiente, de duas corajosas turmas.

À chegada tinha a Ucrânia, a Rússia e o Uzbeqistão corporizados por três belas meninas chamadas, respectivamente, Oleksandra, Ksenia e Sasha (Shahrobonu), que, tendo Portugal como casa, estão a tentar reforçar o seu português. Eu é que aprendi. Aprendi que o agá, em uzbeque, se lê como em hebraico, com o céu da boca, e mostrei a capa d'"A manhã do mundo" em Macedónio, pelo menos para que todas pudessem reconhecer o seu alfabeto, o cirílico, porque o meu nome, Педро Гиљерме-Мореира, escreve-se da mesma forma em todos os lados do cirílico.
Nesta altura já a responsabilidade da luz deixara de ser apenas das vidraças para se virar para as pessoas. Foram as primeiras três dedicatórias.
Havia uma exposição muito bonita sobre "A manhã do mundo" - excertos em fotografias, alguns pedaços de prosa de que me esquecera. Um sobre a beleza da morte, a morte azul. Vieram as turmas e a Rafaela começou por aí. Eu não me poupei aos detalhes e aos passos que me levaram lá. Voltei a entrar nas torres imortais. O Bruno, coitado, tinha a cabeça tapada pelo projector, com o Ângelo voltámos à morte azul, a Joana leu a primeira parte da senda que leva Teresa a quase descobrir o corpo em queda, a Ana falou do momento da morte dos saltadores, o André trouxe-me de volta o meu amigo o Solomon.
Nessa altura perguntei o nome à Margarida. Margarida, ela disse. A ideia era explicar aqui que há sempre um centro, uma cara a receber a maior parte das nossas resposta no público, e ela teve hoje esse papel, o centro do público para o qual eu falava. Minutos depois percebi que talvez houvesse um fundamento: a Meggy fora o 1º prémo do concurso de leitura. O André, que me trouxera o Solomon e tinha um ar-de-deixa-me-estar-quieto-no-meu-canto, foi o 2º, a Telma o 3º. Ainda vieram a inês, a Rita - com a segunda parte da "Criação e Adão" -  e um André-espantado com a expressão mais deliciosa da plateia. A inês era vibrante e fez-nos sorrir várias vezes, porque, sentindo a sessão a esvair-se, saltava na cadeira para que percebêssemos que não se ia dali sem dizer ao que viera. E não foi, e disse, e fez aliás parte da turma que ficou para lá da ordem do dia, e eu deixei a mesa e fui-me sentar no meio deles.

A Micaela - o caso especial. O tipo de caso que eu não perderia por nada, que eu temo tantas vezes poder ficar nas cordas, não dar o passo em frente por timidez, por pudor, por sentir que não pertence ou não tem lugar. O livro marcado de forma meticulosa, o livro lido, passagens que marcaram, despedidas. A primeira que a Micaela leu - a da mãe que se despede do filho pequenino - pareceu comovê-la particularmente, mas tudo na Micaela, o mapa gestual, o sorriso humilde, a candura, essa vergonha bonita de se expôr, gritava leitora exemplar. Escritora exemplar. Por baixo d'"A manhã do mundo" tinha (posso dizer, Micaela?) "O Boneco de Neve", de Jo Nesbo, que algumas vezes nos serviu de refúgio durante a conversa.

E no ar aquele perturbante sentido do "Dream on girl" para o drama de Alice no livro.

Vem o almoço nas mesas corridas da escola, bacalhau à gomes de sá, o café e é hora de, tantos anos depois, eu passar para dentro dos mais altos muros da prisão de Coimbra, muros que rondei durante anos enquanto cursava direito, da dias da silva para baixo, da universidade para cima, pelo jardim da sereia ou por outro lado qualquer, ainda mandei encadernar muitos livros na cadeia, mas isso acabou. O EP de Coimbra é imponente, arquitectonicamente belíssimo, a biblioteca difícil de explicar, porque é sumptuosa, algo que não se espera ali. Como esse poeta Mário Pessoa, que estava sempre a voar dali para fora, fosse das páginas d'"A manhã do mundo", fosse do seu próprio peito. Ele leu o meu "Dominó", que a Isabel trouxe e eu lhe ofereci, eu abri a absoluta excepção das leituras públicas para ler - quase me obrigava a cantar - o "convento do vitral" dele, que ele me ofereceu e eu tenho aqui entre as páginas de um projecto de poesia que me impressinou profundamente pela qualidade: o Zé Eduardo vem de fora, da liberdade, como nós, para lhes dar ferramentas para construir poemas, e conseguiu chegar a um compromisso estratosférico. Não vale a pena fazer revistas, eles, pela mão do Zé Eduardo, saem dali. Maravilhoso. E fica o sorriso desarmante do Lelo, cigano bonito, do riquíssimo Pessoa, do incisivo Roberto, do doce Bruno, do Silva, do Oliveira, do Nogueira - somos quase um pomar -, do Marques e de tantos que estão sempre desassombrados e de coração aberto: nunca há mentira numa conversa sobre literatura de atrás de grades. Há uma dignidade inquebrantável para lá dos ferros, uma sensação de verticalidade, não de engano, que nos inunda. É quase irónico que cá fora se sinta mais volatilidade do que lá dentro, mas é assim, e essa liberdade áspera, dura, faz bem à alma.

E descemos e subimos Coimbra por tantos lados que eu subia e descia há vinte anos.

Minutos depois estou no comboio de regresso ao Porto, eléctrico, entrecortado, suado, difuso, tusso, a menina no bar ofercece-me dois rebuçados, eu peço-lhe o penúltimo café do dia e, da luz da Avelar Brotero às asas do Pessoa, a vida mais alta, tão interior e intensa em cada um dos sujeitos do dia que sim, mais alta, maior do que os homens, do tamanho dos poemas que deixamos por dizer ou, maior ainda, do silêncio da Micaela e da agricultura filosófica, mais do que de um Brotero, do Pessoa.

PG-M 2014