2011-10-31

Herman, the mockingbird

To kill a mockingbird. Não haveria melhor conceito para escrever pouco sobre o senhor Hermano, conhecido pelo nome artístico de Herman José, ou é ao contrário? Não se pode. Matar o "mockingbird", isto é. A tradução do pássaro que dá título ao célebre (embora academicamente desprezado) romance de Harper Lee, vencedor do Pultizer de ficção em 1961, pode ser "mimo" ou "pássaro-das-cem-línguas", pela sua capacidade de imitar o canto de outros pássaros. O Herman comove-se com o tempo, e com as pessoas no tempo, mais do que com as pessoas das cem vozes que lhes inventa ou reproduz. Inventa ou reproduz porque ficciona e, se ficciona, diz a verdade - e di-la crua - e a clareza do seu olhar não está alinhada para buscas desesperadas da verdade, essas que geram sempre a mentira. É alemão e nunca o foi. Não é português e sempre o foi. Esteve por baixo das escadas do meu colégio, onde os adolescentes iam fumar, em frente aos lavabos das meninas, anos a fio - às vezes era a única condição do amparo, o funil do desespero de uma geração que ele engoliu em silêncio - dando-lhe o riso. Não o sorriso - o riso. Compulsivo. Esse que os nossos pais não têm, a não ser quando brincam com as tais verdades que os obrigaram a calar durante meio século: coisas banais, estúpidas, um imposto sobre isqueiros. E esse animal, Herman, the mockingbird, nunca foi oficialmente protegido ou enviado para parques nacionais. Ainda anda sob mira, provavelmente sobre andas, coroado pela rua apesar da comenda. E são tantos os que dizem que vai nu, sem perceber que, mesmo que isso importasse, essa geração que o coroou na década de oitenta se está cagando para qualquer senão que um faquir oficial queira fazer reluzir junto aos lavabos, pronto para o descarregar como merda. You can't kill a mockingbird. Por isso, e antes que seja tarde, tire-se o tempo a este. I bow before the king of my laugh.

PG-M 2011

2011-10-30

Enfermaria 2, um ano depois

Passou um ano na segunda-feira passada. A experiência da republicação do texto no facebook disse-nos a todos (e falo de "nós", os leitores, e eu fui um leitor dorido nessa experiência de regresso a um texto que nunca mais relera, e que foi um recipiente para as lágrimas de muitos no velório, porque esteve ao lado dele e foi lido pelos que o visitavam) que ajuda mais do que magoa todos os que passaram e passam por experiências idênticas. Assim sendo, republicam-se aqui os três textos que foram dedicados ao Ilídio, lembrando que a ele foi também dedicado o lançamento do meu livro "A manhã do mundo" no Porto, no passado dia 10 de Julho.

No dia 19-10-21010:
 "Oncologia" está escrito a preto sobre uma placa branca que encima a porta no início do corredor.
Percorro-o atrás da Laura e da Catarina.
Há um tom esverdeado no ar - dizem que é da esperança toda que vem dos olhos dos doentes e sobe as paredes - e eu vou com  medo do sofrimento. Dura pouco. Fico em paz mal o vejo.
Na cama 7 da Enfermaria 2 de Medicina 1 do Pavilhão Satélite do hospital está o meu amigo Ilídio.
A Enfermaria 2 é clara por causa das janelas rasgadas de parede a parede e da luz que ninguém tolda.
Explicam-lhe que sou eu que estou ali, ele chama-me Afonso, e eu, que não me chamo Afonso, sorrio e digo Ele sempre me chamou Afonso antes de qualquer outra coisa. Eu sabia que ia ser assim. Os dois calados. Não era preciso mais nada. Acaricio-lhe a mão forte que aperta uma cruz. Passo-lhe a minha na testa dele e tento que sossegue e adormeça por uns minutos. O Ilídio é demasiado puro para deixar que as drogas lhe turvem o espírito. Está ali comigo e nunca me deixará ir embora sem uma despedida. A Laura, a mulher, é um espanto. Empolga-se com cada pequena conquista, fala com ele, dá-lhe água por uma palha sobre a máscara de oxigénio. Embora já pouco fale e o que diga seja pouco perceptível, levanta o grosso polegar para aprovar , fecha os olhos e cinge os lábios para reprovar. Laura conta-me que ele não quer que ninguém se vá embora sem se despedir. Ou fecha os olhos e cinge os lábios.
- Antes de me ir embora, à noite, acordo-o e despeço-me. Depois adormeço-o outra vez.
Na enfermaria 2 todas as pessoas parecem ser melhores do que nós. A força e a luta dos vizinhos e dos seus familiares inspira os visitantes, que chegam com o mesmo medo que eu trazia no corredor verde, olham em volta e devolvem-nos um olhar quente que nos aconchega como uma manta escocesa. Todos separam a bondade do resto. Todos sorriem, e um sorriso aqui vale mais do que um colar de diamantes. E os companheiros de cama dizem piadas uns aos outros. Estendem a mão - ou os braços, quando não se podem levantar. Há minutos de felicidade autêntica que a vida sem resguardo não tem.
Debaixo da morfina vê-se tudo. O Ilídio já tem várias camadas de sofrimento a pousar-lhe sobre a pele, mas mesmo assim vê-se-lhe para dentro à transparência. Tem um sorriso que me conforta e eu espero ter algo que o conforte a ele. Ele arranca a camisa bordada com o símbolo do hospital. Foi-lhe vestida para as costas e a dignidade nunca foi um detalhe. As enfermeiras não o questionam. São todas bonitas, diz a Laura, como se fosse um requisito para entrar no curso de Enfermagem. Não ser bonita: ser luminosa. Retiram-se fios e tubos que encaixam em catéters e veste-se a camisa do direito. Ilídio sossega. Há muito tempo que os meus heróis são pessoas simples. O Ilídio e a Laura são os meus heróis. A Catarina chega em vez da mãe, que foi descansar para o jardim, sentada num torrão de erva a olhar o Outono. Catarina não quer ver o pai dormir. Deixou a escola para o acompanhar da uma da tarde às nove da noite. Todos os dias. Namora com o Emanuel, que o Ilídio também já consegue amar. Os dois jogavam Playstation 2 noite dentro e Catarina encostava-se à mãe, num sofá ao largo, feliz, a olhar para eles. Foi em Agosto que Ilídio, durante uma caminhada, teve de se sentar com uma dor na perna. Depois surgiu uma dor mais forte nas costas. Passaram o Verão no hospital e o diagnóstico não demorou muito. Parece que começara calado no estômago e abrira os braços nojentos para todo o corpo. Ilídio esteve por cá, foi a casa dois dias e agora voltou. Há quatro ainda atendia o telemóvel aos amigos, ainda falava entre gemidos. Agora o telemóvel está pousado sem som. Catarina pergunta ao pai se tem dores, ele abana a cabeça. Não tem. Nós sabemos que tem. Ilídio ama a filha com todas as suas forças. A morfina sobe. Uma amiga dissera-lhe para se agarrar aos momentos bons da vida, e ele respondera-lhe que não houveram sido assim tantos. Os olhos brilhantes de Laura explicam o contrário. Catarina também. Ser feliz nunca foi ser um navegador desassombrado a descobrir novos mundos. Estive quase três horas ao lado deste rapaz que adoro. Nunca enfiou boné de capitão ou rodou o leme. Não me apercebi do tempo, tal como ele, que vê os dias sucederem-se sem dó. Quando me estou a despedir, agarra-me com vigor e segreda-me: "vive a vida como se fosse a última vez". Não choro. Durante todo o tempo não choro, excepto em alguns minutos em que fico a sós com ele a vê-lo dormir e a fazer-lhe festas na careca. E choro brevemente a ideia de que a vida é injusta, só isso. Não choro pelo Ilídio. Estou a olhar para ele e fico feliz pelo privilégio de estar tão perto de uma pessoa tão extraordinária. Fico impressionado com a Laura e a Catarina e aprendo humildemente a sua entrega. Dizemo-nos mutuamente obrigado. Os AC/DC começam a tocar "Fly on the wall" e o Ilídio sorri. Põe a mão sobre os lençóis e levanta o polegar. Tudo ok. Falamos das nossas futeboladas sem dizer nada. Enquanto ele dorme, aperta-me a mão de novo. Grande golo. Já estou longe e o jogo continua.


PS: cinco dias depois da escrita deste texto, o Ilídio deixou de sofrer. O jogo, esse, continua para todos nós, e uma parte dele será jogada em nome dele.


No dia da morte, 24-10-2010:
Os sinos choram sem lágrimas

Quase todas as minhas personagens choram sem lágrimas. Os sinos das igrejas choram sem lágrimas. Os da capela da senhora do amparo têm hoje um gemido comprido. As lágrimas têm-nas as pessoas e as casas e trocam-nas por abraços. Não são  personagens. Não são  livros. O Ilídio ligou à Laura às quatro da manhã, disse que se sentia bem e desligou. Depois fechou os olhos e morreu.








No dia do funeral, 25-10-2010:
Adeus então, meu rapaz


A fábrica parou ao meio-dia. Ninguém trabalha de tarde. É muito bonito olhar para a empilhadora que o Ilídio operava. Parada. Ver as grades postas nas portas, como ele as punha. Sentir o silêncio e como este lugar se recolhe em dor. Não se esquece. As tábuas estão todas quietas. Adeus então, meu rapaz.

2011-10-29

"A cona de Irene"

Declarou Vítor Silva Tavares (VST), editor & etc ("única editora do mundo que está na falência desde que nasceu", diz VST), a Joana Emídio Marques, segundo ela "com uma riso gaiato e malicioso" e foi publicado a páginas 46 da edição de hoje, 29 de Outubro de 2011: "Quando publiquei A Cona de Irene, de Louis Aragon, pedi a um rapaz que colaborava aqui comigo que fosse ali à livraria Bertrand ver se queriam alguns exemplares para pôr à venda. Resposta do director (que, comentário nosso, terá lido inicialmente "A Lona de Irene", como se diz no Almocreve das Petas): 'Pensas que isto aqui é uma casa de putas?' Indignada, a minha boa amiga Luiza Neto Jorge pegou ao colo o seu filho ainda bebé e voltou lá. Pediu para falar com o director da loja e,enquanto embalava a criança, disse-lhe com voz cândida: 'Queria o livro A Cona de Irene, têm?'; 'Não, não temos mas vou já encomendar', respondeu logo ele todo solícito.
Vítor Silva Tavares

fontes da fotos: VST e A Cona de Irene

2011-10-27

A filantropia do mentiroso


‎"Prefiro a filantropia do mentiroso à misantropia do sincero. Quando algum antipático se aproxima e alinha um "olha, Javier, eu sinceramente..." atiro-lhe logo a seco com um "alto aí!" e digo-lhe "a verdade é que prefiro que me mintas." 

Javier Gomá Lanzón

melancias guerreiras, o solzinho de volta e pedaços de outras crónicas

É. O tempo como mentor. Hoje o dia inverteu-se. A violência do vento veio para noroeste, e o noroeste é mais temperamental e muito menos doce do que o sul. E está determinado, de tal forma que, mesmo com o cenário feio e o céu carregado, é evidente que o desespero do vento quer dizer que o sol volta, em força, dentro de algumas horas, lá para o meio da tarde. Entretanto, oferece-nos uma raridade ainda maior do que a chuva de norte em dia gelado, algo que acontece uma vez por ano, quando acontece. A chuva de norte sem frio. Na corrida junto à rebentação, a magnífica melancia e a magnífica pipa. A melancia de há dois dias permanece na praia, agora mais perto do mar. Está intacta, o que é inquietante, porque anda há dois dias e duas noites para cá e para lá num mar em fúria. Talvez daqui possamos tirar uma lei, como a de que a gravidade abranda o tempo, ou de que ele passa mais devagar nos pés do que na cabeça, que é a lei de que as melancias são as amazonas das praias de outono. A pipa deu hoje à costa, é da Sandeman, e é a primeira vez que vejo uma coisa daquelas por aqui. Fiquei cheio de vontade de mandar vir um camião e cinco homens para levar aquilo para casa. Mas vou deixá-la como notícia e com mapa do tesouro: aproximadamente cem jardas a norte da praia de francelos, junto à rebentação, se estiver vazia bastam quatro homens, se estiver cheia o dobro. Bom sol de outono, em vigor mais logo.
PG-M 2011

Rosamund Pike

Já decidi. Vou ter de arranjar um pedestal.
(toca piano e violoncelo)
(fala francês:)

Palavras ligeiramente mais racionais e origem da foto podem ser lidas aqui.
:)
PG-M 2011

2011-10-26

- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?


- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?
Andava o magoadeiro assim posto na treva da noite e o temporal na vila e ele por entre as ondas, as ondas do povo quando diz
- Isto está mesmo mau.
e olha assustado, o povo, o verso das persianas e o vento bater, já vai, já vai, que não me venhas buscar esta noite, e se encolhe na cama e cinge os cobertores e sorri, "que bom estar aqui no quentinho", o povo.
- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?
Um homem normal não veria nada, qual quê, o que se pode ver para lá da névoa, da chuva, do vento, do egoísmo e do conforto?, mas este até vê os que não precisam, aqueles cujo o desespero é apenas a tentativa de explicar o belo absoluto e deixa-os, deixa-os a chorar de peito grande, a beleza virá sob a forma de um abraço ou de uma música, os olhos fechados o silêncio o cheiro as costelas mais estreitas, ah, desses não curo, pensa ele, não curo dos que choram por causa do tamanho da vida.
- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?
O magoadeiro sabe calcular o sofrimento pela vibração das paredes, pela inclinação dos muros, pelas cortinas impolutas se as portadas não cerraram. Porque é em silêncio que lhe respondem
- Mágoa vai.
E a janela abre-se e o magoadeiro estende o braço cá de fora, ao encontro de outro braço lá de dentro.
- Mágoa vem.
As mãos apertam-se e ficam, forte, forte, cada vez mais forte, como os homens faziam antigamente para confortar os outros homens. Agora não se toca nas pessoas, nasceu o magoadeiro.
E a mágoa vem, recolhe-a o magoadeiro na dobra do braço e quando o retira segue estrada abaixo noite acima e o seu grito é como a flauta dos amoladores, oitava acima, estrada, oitava abaixo, noite.
- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?
Os violinos já gemeram tudo no concerto do teatro minerva, a multidão sai em gabardina e sobretudo, lágrimas  pelo cisne simbólico que morreu, e sobretudo, sobretudo o magoadeiro anda pelo lado escuro da vila porque estes não precisam e morrerão como todos, sorrindo, não com a asa quebrada sobre o bico, não negros nem brancos, quem não tem o direito a sorrir na morte?
- Ah quem de mágoa vem quem de mágoa vai?

PG-M 2011

parece que sempre veio a chuvinha é assim a vida e a mãe está melhor?

Garanto que, se atravessar a minha aldeia para executar alguma tarefa, ouvirei a frase em título, assim mesmo, sem vírgulas - a pausa pode significar interrupção, e a dor da vida pela manhã, por causa do peso das noites e do trespasse da solidão entre os vizinhos, é grande e tem de sair antes que o outro abra a boca - , umas cinco ou seis vezes. Eu próprio a direi. Mas deixo o registo dos vizinhos para me isolar na experiência não circunstancial do tempo, aquela em que ele é o centro e não a muleta:
o tempo é, há anos, o meu maior mentor. A corrida diária faz de mim uma espécie de cata-vento, com uma percepção aguda do tempo na cara e no corpo das pessoas, na forma como elas se encolhem ou se levantam, e a vinda da corrida para dentro da praia, para cima da areia, agravou esse inefável estado de pureza - correr os trezentos e sessenta e seis dias do ano sob todas as condições meteorológicas não é uma experiência que se possa desprezar.

Hoje temos um vento violento pelo lado sul. Este vento tira-me doçura à chuva, que fica aguda, colando-se ao cliché dos canivetes. Mesmo assim, quando olhei pela janela de manhã, tive a sensação de que esta primeira chuva era consistente e previsível, apesar da violência do sopro. Virá cadenciada durante todo o dia. Se as rajadas não forem excessivas, o dia passará suave. Na praia, o vento também bule no mar. É raro o mar apanhar-me os pés, e hoje fê-lo três vezes. Está brusco e imprevisível, ao contrário da chuva. Mas é bom passar junto dele e ouvi-lo rugir, é bom sentir-me pequeno, ter a certeza de que uma mera distracção me levaria para a sua garganta. Ali por altura do senhor da pedra entrar na goela do mar seria morte certa com este vento - não me esqueço de como as marés de cruzam e como ia sendo apanhado nos meus quinze anos em plena maré vaza de Verão e sem vento nenhum. Quando começo vou para sul e não há como sorrir por correr no mesmo sítio em cada rajada - às vezes até se recua. Mas com o vento pelas costas sou trazido ao colo. Com esta chuva, a areia fica perfeita para correr, não afunda como junto à rebentação nem se expande como no topo da praia em dia secos. Foi uma corrida perfeita. Chegado a casa ainda antes da ordem do dia é sempre hora de lavar a roupa cheia de chuva - e cheira tão bem a roupa cheia de chuva - e de a estender no alpendre para que sirva noutra jornada. 

parece que sempre veio a chuvinha é assim a vida e a mãe está melhor?

PG-M 2011

2011-10-25

"Jurado chora com esta apresentação" (a morte de um cisne de rua)

Um cisne a morrer em "street dance". Que arrepio. Como tanta coisa que aparece no facebook e no youtube, quando eu li a expressão em título entre aspas pensei que era mais um exagero. Verdade que não perco nenhuma oportunidade de, podendo, ir ao encontro do que faz chorar outros, acreditando, como acredito, que aí reside a natureza dos homens, no que finalmente lhes quebra tudo até se renderem. Mas depois tudo contribuiu para um momento especial, um encantamento especial, mesmo a "parvinha do meio", como lhe chamei, que não consegue tocar no sublime que o rapaz, John Lenon da Silva, constitui. Em vez de abençoado, apetece-me que alguém tributário dos poderes do divino lhe diga baixinho: "benedictum". Da primeira vez, vi representados todos os mortos da rua. Agora magoa. Magoa só.



PS: ao contrário do que muitos leigos - como eu - possam pensar, a música não é do "Lago dos Cisnes", de  Tchaikovsky, mas d' "O Carnaval dos Animais", de  Camille Saint-Saëns, mais propriamente o movimento XIII, "O Cisne"

Vida e morte das (nossas) coisas


Hoje estava uma melancia na praia e a palmeira que me devia ter sobrevivido está morta.
A melancia parecia uma instalação artística, mas sobre a palmeira tenho de vos falar melhor.
A bem dizer, hoje a praia contava a tempestade e o poder do mar. Onde eu ontem tive de ziguezaguear entre rochas, hoje estava apenas areia molhada. As rochas tinham desaparecido, embora houvesse outras novas, a descoberto, um pouco acima do nível do mar. Eu sei que quando o mar faz isto a coisa esteve feia durante a noite. Não é quando vejo mais detritos, passando a correr, que o tempo esteve pior. É quando a praia está limpa e nem à rebentação o lixo vem. É nestas manhãs que nos visita, e muito bem, a pequenez e nos é lembrado o poder dos naturais. Nem numa semana um empreiteiro dedicado executaria a tarefa que um mar furibundo entrega numa noite assim. Não se pode correr - apenas patinar - nas estradas marginais porque a lama veio de montante e só parou na areia.
Mas a palmeira.
Ao visitar a casa que me viu crescer e ouvir queixas de uma carta do Ministério da Agricultura sobre aquela árvore que está lá fora fui espreitar.
A palmeira está cinzenta e com os braços caídos. Morta de pé. A palmeira que me devia ter sobrevivido.
Foi a marca da família durante muitos anos: viras na rua tal e é a casa verde, agora branca, com a palmeira.
Chegou a estar decorada com luzes no Natal, e a comunidade sorriu, agradecida.
Era bonita e, apesar da origem tropical, bem portuguesa.
Chegou a casa num vaso levado por mim. Tinha sido o meu pai a comprá-la no Jardim Zoológico de Lisboa, numa das viagens mais memoráveis da minha vida. Tinha dez anos e, para acompanhar o pai nessa viagem de negócios só fiz uma exigência: cinco livros dos Cinco. Li-os todos nas salas de espera das empresas que o meu pai visitou.Cheguei a ler um e meio numa tarde longa, e penso que me vem daí o vício de me munir de livros para qualquer situação de espera. Ficámos no Hotel Capitólio, que tinha três estrelas, e fomos às galerias Ritz comer a que seria a primeira pizza da vida de ambos. Nessa altura já tinha esquecido o acidente que não tivemos por muito pouco na recta da Tocha, à ida para baixo. O pai adormeceu, acordando a tempo de travar antes de nos enfaixarmos num camião TIR. A carrinha Citröen CX FN-20-71 imobilizou-se a centímetros do reboque. A vida continuou.
Na última tarde antes do regresso ao Porto fomos ao Jardim Zoológico, e dessa tarde só me lembro do sol no horto e do vaso com a pequena palmeira, que cumpriu escrupulosamente o seu destino: um anel por ano, até passar o telhado da nossa casa, e depois os telhados de todas as casas vizinhas, durante trinta anos. Viu quatro rapazes crescer, outros tantos cães que também viu morrer, assistiu aos jogos olímpicos da casa verde, aos campeonatos de caricas, às primeiras festas e a alguns primeiros beijos, deu sombra aos velhos e ao baloiço.
O Ministério da Agricultura quer que o proprietário a remova por representar um perigo.
Sei que não vou lá estar. Mas quero repetir
"a palmeira que me devia ter sobrevivido está morta"
e acrescentar "de pé" e "paz à sua alma", que foi a nossa alma.
E a melancia ainda está no centro da instalação da praia de hoje, sozinha, sem nada à volta, e foi a única a resistir à tempestade, porque a praia está lisa e molhada.
Só amanhã o resto das coisas vem à maré.

PG-M 2011

2011-10-24

Estranhos

Ela, uma estranha: 
"És-me mais íntimo do que eu o sou a mim própria."
Eu, um estranho:
"Não íntimo. O problema é que, desde o primeiríssimo momento, me situo sempre dentro. E tenho de reconhecer que a minha maior dificuldade com as mulheres é passar-lhes para lá da pele sem lhes tocar."

PG.M 2011

2011-10-23

KISS na espécie do homem de letras

"A espécie do homem de letras não é uma das maiores entre as espécies humanas" Jean Guéhenno (1890 - 1978), escritor e crítico literário francês

A citação, que colhi num dos brilhantíssimos artigos de António Muñoz Molina, "La fiesta interrumpida", no Babelia, excepcional (mesmo excepcional - e isto não é coqueteria:) suplemento literário do El País de Sábado, serve de mote a uma curtíssima reflexão.

Na arte, em qualquer arte, ser absolutamente elitista e ter um discurso em tom visionário conduz sempre ao mesmo resultado: o equívoco. Foram mais os escritores desprezados e ignorados ao longo da sua vida do que aqueles que foram amados e tiveram sucesso. Avassaladores os exemplos dos que, não há muito tempo, passaram fome e morreram na miséria, abandonados pelos seus pares - é, aliás, próprio da natureza humana abandonar o que não tem uso imediato (mesmo Rosseau relefctiu sobre isto) ou nos parece ameaçar o posto que pensamos deter. Isso ainda hoje acontece: a singularidade garante quase sempre o desprezo imediato.

Daí a atitude sanitária de negar o génio na literatura, pelo menos o de hoje: mesmo que ele exista, não pode ser avaliado pelos contemporâneos. Devemos reduzir-nos à nossa opinião, e fazê-lo, sim, com coragem, mas acima de tudo com humildade. Mas a opinião não é o mais importante. O mais importante é a consideração e esse conceito em desuso - essa palavra que enjoa os "grandes" entre nós - : a bondade.

No presente, o meio defende-se elegendo um ou dois génios, cada um representante de uma geração, por trincheira. Há sempre duas trincheiras, no mínimo. E o meio abusa tanto que na geração seguinte são os mais ignorantes a exaltar primeiro esses eleitos: não que os eleitos sejam maus, mas são uma simplificação e quase sempre sintoma de que o que os destaca não sabe mais nada - e mesmo deles sabe pouco.

O que não se faz nesta espécie menor entre as espécies humanas é olhar o outro com benevolência, desejando-lhe o bem e celebrando o seu sucesso. Mesmo os tais eleitos são denunciados como não sendo caso para tanto. Os que lideram "politicamente" a pérfida "cochicice", como em todos os sectores da sociedade, são normalmente os medíocres, os que efectivamente perdem tempo com o pormenor mais irrelevante, os que fazem do centro do seu dia o tique do seu amigo, que é sempre anunciado como "boa pessoa, mas". Os melhores ficam reduzidos ao seu sossego, à sua paz, mas, precisamente por causa daqueles, não se chegam para os conhecermos. Às vezes só vimos a saber deles quando é tarde demais, pelos obituários. Mas mesmo os maus entre nós têm sentimentos: de facto, não são tão maus assim, só se distraem com a sua lupa zarolha e trocam as prioridades a um ponto em que pensam que o seu caminho é, inequivocamente, o correcto. Há um sintoma para saber que não é: quando não parece simples, está mal. Já lá dizia o outro: keep it simple stupid. Kiss*. Beijo. Não é irónico?

PG-M

* acrónimo atribuído a Clarence ("Kelly") Johnson (1910 - 1990)

Lenda das Rosas II

Esta é daquelas histórias que sempre pedi para me contarem. Outra vez. E outra vez. E outra vez. Ouço-a na voz do meu pai desde que me lembro. Era pequenino e vivia no mundo do voleibol dos anos setenta, grandes jantaradas e guitarradas depois dos jogos. Habituei-me a ver o meu pai, com uma carreira por cumprir, a agarrar na guitarra e a dar concertos. Os amigos reclamavam sempre o "Cucurrucucu, Paloma", mas nem sempre a voz não queria lá ir.
Esta "Lenda das Rosas" raramente falhava. Sempre foi a minha preferida.
O drama daquele casal que morre sobre a campa e se eterniza em duas roseiras que se beijam toca o mais empedernido. O sublime poema do Linhares Barbosa (Lisboa, 1893 - 1965), que abaixo transcrevo, é dos mais bonitos pedaços de texto que alguma vez li ou ouvi, dito ou cantado. Tem uma simplicidade intocável.
Foi finalmente possível "aprisionar" o bocadinho que eu pensava  perdido para sempre no tempo: a voz do meu pai a dar-nos a sua versão da lenda. Esta sempre foi a minha versão - ele partira da versão do José Pracana -, a única que ouvi até ser crescido, a que me emocionava no meio das pequenas multidões que se reuniam à volta da guitarra. Aqui fica:


"A LENDA DAS ROSAS

Na mesma campa nasceram

Duas roseiras a par,

Conforme o vento as movia

Iam-se as rosas beijar



Deu uma rosas vermelhas,

Desse vermelho que os sábios

Dizem ser da cor dos lábios,

Onde o amor põe cem ideias



Da outra, gentis parelhas

De rosas brancas vieram,

Só nisso diferentes eram,

Nada mais as diferençou



A mesma seiva as criou

Na mesma campa nasceram



Dizem contos magoados

Que aquele triste coval

Fora leito nupcial

De dois jovens namorados,



Que, no amor contrariados,

Ali se foram finar,

E continuaram a amar

Lá no além, todavia



E por isso ali havia

Duas roseiras a par



A lenda, simples, singela,

Conta mais, que as rosas brancas

Eram as mãos puras, francas,

Da desditosa donzela



E ao querer beijar as mãos dela,

Como na vida fazia,

A boca dele se abria

Em rosas de rubra cor



E celebravam o amor

Conforme o vento as movia





Quando as crianças passavam

Junto à linda sepultura



Toda a gente afirma e jura

Que as rosas brancas coravam

E as vermelhas se fechavam

Para ninguém lhes tocar



Mas que alta noite, ao luar

Entre um séquito de goivos,

Tal qual os lábios dos noivos

Iam-se as rosas beijar. "



 PG-M 2011

2011-10-21

multidão

quero aprisionar os olhos dela
no verso
possuí-la longe
do corpo
o sorriso tímido
o passe
os dedos finos
no livro


o cheiro a tangerina


não somos ninguém
passa no passeio do caminho
botão cinzento
na massa


(perco-a todos os dias no cais
três)

PG-M 2011
fonte da foto

2011-10-20

Lytro - passo adiante da humanidade?

Deixei de me deslumbrar com tecnologias, mas nunca deixei de ser obcecado pelo futuro próximo. Gosto de adivinhar a tendência e sou um comprador a frio. Gosto de comprar a tecnologia eficaz e barata, não a bonita e social. Gosto de comprar qualidade. Mas isto é outra coisa. Ou então é um gigantesco golpe de marketing. O que esta maquineta faz é próximo do olho humano. Fotografa (ou olha) o momento sem atraso - é literalmente instantânea. Aprisiona o espectro de luz que pode depois ser trabalhado de um número infinito de maneiras: tem-se falado muito na possibilidade de se focar depois, mas isso é o menos. Um passo adiante na história da humanidade? Dizem-no algumas publicações de referência, e não falo de tecnológicas (falo do New York Times, por exemplo, entre muitas outras), e nós começamos a pensar que pode ser verdade. Os loucos por gagdets (como eu) são os primeiros a tombar de encanto:). Mas que vale a pena deitar um olho, isso vale.

PG-M 2011
fonte da foto

2011-10-19

Caseirinho

 
Eu tenho aqui em casa uma horta onde se cultivam os outros - e nenhum de nós.


PG-M 2011


PS: a uma amiga este aforismo trouxe Elis - talvez traga sempre a quem só resta a bondade dos outros dentro da bondade da arte

Cathlyn


- Deixa-me dizer-te, Cathlyn, que ao ver-te fumar a ouvir blues às três da manhã no bar azul fico convicto de que saberias, com toda a doçura e mestria das mulheres que não se alcançam, dar-me intensos momentos de infelicidade, pelo simples facto de uma mulher como tu não se dissipar na intimidade. E sei também, Cathlyn, à luz dos teus olhos verdes já toldados pela névoa do malte e do fumo das Partargas Club, que foi graças a ti que percebi que cada breve sentimento de infelicidade que assoma em certas noites recatadas na sombra da minha mulher é só o custo de uma vida justa e feliz, como o custo de uma vida contigo seriam as noites felizes e alienadas erguidas sobre suporte vago. Como uma diva, Cathlyn, não és ninguém. E és tudo no tempo de cada cigarrilha.


PG-M 2011
fonte da foto

2011-10-18

O arrebatamento morreu

Tenho de ouvir isto, tenho de ouvir isto, vai falar o ministro, o presidente, o gestor e talvez algum filho da puta, as televisões não podem estar todas enganadas, quando foi em oitenta e tal só havia dois canais e vacas a visitar concursos, não tempo, o país era pobre e analfabeto, estava desligado,  as estações do ano regulares, não havia alertas amarelos para o calor nem vermelhos para a chuva, ainda Reguengo do Alviela submergia, não se sofria por antecipação, nos setenta andava tudo drogado, crescer ou recuar era indiferente, nos sessenta as miúdas quase se masturbavam com o sorriso na cara do Paul McCartney, nos cinquenta era o Elvis, elas gritavam, eles gritavam, havia bailes e nos bailes salões e nos salões danças, havia charme e cigarros, cabelos armados e mini-saias, havia campo e saloios, havia paz no olhar, espaço de brilho, brilhantina, agora eu abro a boca e fala o ministro, é fatal, tem consciência, tu tem consciência, ajuda o teu país, caralho, espera lá, achas-me muito comuna se eu disser que tu ainda gastas trinta litros aos cem no teu audi á oito, coitdadito, com três anos, velho, e que há políticos suecos, os malucos, que andam de autocarro, queres mesmo que eu mirre ou é hora de abrir as goelas e de me masturbar com o teu sorriso? Há um milhão de reis e rainhas no facebook, donos da estética, dos tops musicais, os famosos metem-se pelos olhos dentro e depois chamam-nos stalkers, ninguém se cala a não ser quando tem de falar, ninguém se espanta, ninguém te diz estás bonita ou sempre te achei bonita a não ser no bar de engate das onze da noite, os cafés cheios de desempregados e rendimentos mínimos que continuam a comprar dois maços de tabaco por dia, estão a pensar a reduzir para um, a bola, o jogo e o record, estão a pensar reduzir para dois, e a pagar a sport tv no payshop, não estão a pensar a reduzir que um gajo tem de se alienar. O que é que vais fazer, maluco? Pintar, escrever, compor, na cara do downsizing e do despedimento colectivo? Queres que te compre um livro, um quadro, um mp3? Grande besta! Ai, coitados de nós. O arrebatamento morreu. Mas não eu. E vou foder pelos cantos e fazer filhos arrebatados e antes de me curvar netos arrebatados e antes de cegar bisnetos arrebatados. E depois morro, e o arrebatamento, apesar, ainda me vai ao funeral dançar. O arrebatamento morreu. Mas não eu. Agora tenho um sumário no primeiro criminal. Não mo vão pagar. Vou a sorrir e a ouvir a Lucille. Sabes que quando a Lucille fala o BB King cala? Tenho de ouvir isto, tenho de ouvir isto. E morre tudo menos eu.

PG-M 2011

2011-10-16

Pequena magnitude

Tinha de fixar aqui as palavras do basco Fernando Aramburu, porque as não pretendo esquecer. Já traduzi algumas, mas hoje ficam no original, que a sua música não tolda o nosso entendimento. Fernando Aramburu publica, irregularmente, no El País de Sábado, no suplemento Babélia, pequenas e notáveis reflexões que têm o condão de nos fazer sorrir, reflectir e, muitas vezes, mas mesmo muitas vezes, cair em arrebatamento.
Desfrutem, parágrafo por parágrafo.


Pequenã magnitud


Ningún artista en su sano juicio puede pretender que la realidad siga siendo lo que es en alguna parte que no sea la realidad y, sin embargo, no hay arte que se sostenga sin engaño.

Mi vocación, a la que he dedicado incontables horas de mi vida, consiste en el sostenido y laborioso afán de componer cada día, con el mayor esmero posible, las obras por las que inevitablemente seré olvidado.

Reconozco que cada vez que estoy equivocado opino lo mismo que mis detractores.

Agonizo, pero, aparte de eso, no tengo ninguna razón para quejarme.

¿Qué clase de cebra es un león rayado?

Casi todo lo que escribo nace de mi atracción y curiosidad por la gente. Desde el punto de vista del aprovechamiento literario, puede decirse que he adoptado al género humano como animal de compañía.

Para medir con un margen aceptable de error el tamaño y peso de nuestra paciencia no hay como tratar de asuntos urgentes con personas duras de oído.

Tan pronto como se vuelve deleitosa, la estupidez arrastra en línea recta a estados elementales de felicidad.

¿Existe crítica más demoledora que el elogio de un imbécil?

El día de mi fallecimiento no quiero caras largas, lágrimas, discursos fúnebres ni nada por el estilo en torno a mi ataúd. Si tanto me apreciabais buscadme un resucitador.

He decidido apoyar sin restricciones la revolución sexual, pues me han asegurado que, ni triunfando en toda la línea, obliga a nadie a cumplir sus objetivos.

Dios debe de ser un caso extremo de introversión. Hace ya largo tiempo que no se le ve.

Tan pronto como se invente una máquina efectiva de resucitar a los muertos, automáticamente las religiones se convertirán en actividades de ocio.

Un fanático de la tolerancia ¿es fanático o es tolerante?

Que hay formas de vida en otros puntos del Universo, además de en la Tierra, es cosa que no me cuesta admitir. Ahora bien, ¿también hay vino?

A veces me entran deseos de ser Dios para abolir las religiones.

En el curso de una conversación a solas he constatado mi simpatía por el politeísmo. Al negar a cinco, diez, veinte dioses, tiene uno la impresión de que ser ateo cunde más.

A menudo me levanto de la cama persuadido de una certidumbre, a mediodía adopto otra distinta y por la noche pienso exactamente lo contrario que por la mañana.

Definitivamente la belleza física es un truco. Maldita sea, ese truco ¿cómo se aprende?

A los que sienten la necesidad de decir la verdad en todo momento, ¿no debería exigírseles licencia de armas?

Benditos sean los exagerados, ya que son ellos, acaso sin darse cuenta, los que con su fatuidad y su ruido contribuyen a hacernos adorable la sencillez.

Si la mierda oliera bien, ¿con qué nos perfumaríamos?

Hay gente que rara vez se equivoca: los muertos. Es éste, por lo demás, uno de los pocos privilegios que se les conoce.

Una vez creado el primer hombre inmortal, dudo que transcurra mucho tiempo antes que un ciudadano de tantos le descerraje un tiro en la cabeza. ¿Por envidia? ¿Por maldad? Por nada de eso. El simple prurito de verificar accionará el disparador.

Noto en mí de un tiempo a esta parte una desgana creciente por llevar la contraria a los demás, sobre todo cuando me elogian.

Abstente, en nombre de la justicia que defiendes, de dictar normas si luego no sabes hacerlas cumplir.

El hombre y la mujer nacieron para vivir juntos cada uno en su casa.

No hay utopía que resista un dolor de muelas.

¿Cabe mayor optimismo que empeñarse en vivir hasta el final?

Se recomienda colocar el cepo en un sitio destacado de la vía pública. Recuerde que no deberá cebarlo ni con pan ni con queso sino con un billete de banco, el cual necesariamente deberá ser de curso legal. Retírese usted sin tardanza a veinte o treinta pasos del área del experimento. En unos instantes comprobará que los seres humanos tienden, en determinadas circunstancias, a asimilar conductas características del género roedor.

Hombres del futuro que juzgaréis los logros artísticos de mi tiempo, ¡piedad!

No hace falta que me apunte usted con la pistola. En realidad me basta con su sonrisa.

En vista de los pérfidos designios de la naturaleza, que admitió la posibilidad de arrancarme los cabellos uno a uno hasta dejarme calvo, me pregunto: ¿no tengo derecho a desagraviarme yendo, por ejemplo, a un bosque con una motosierra y...?

¿Hará falta insistir en que el destino de mis hijos me preocupa tanto que ni puedo ni quiero separarlo del mío? Me considero capaz de hacer sin gran esfuerzo extensiva dicha preocupación a los nietos que un día acaso tendré. Lamentaría asimismo, si bien de una forma imprecisa e ideal, que mis posibles biznietos hubieran de soportar unas condiciones de vida desfavorables. De ellos en adelante... Chicos, arregláoslas como podáis.

Es previsible que en la eternidad los pelmas ostenten el poder absoluto.

Hay escritores que tienden al exceso de signos de puntuación. ¿Tendrán hipo?

Conociéndome como me conozco, no creo que me alcance la paciencia para quedarme hasta el final de mi agonía.

Cualquier tontería es susceptible de ser expresada en términos filosóficos.

Libertad, igualdad, fraternidad... Bien, pero, por favor, con urbanidad, suavidad, tranquilidad.

Por lo visto hay gente que se cree a salvo del provincianismo por el mero hecho de respirar a diario humo de automóviles.

Me pregunto qué clase de delito habríamos cometido en el caso de que tras matar con un cuchillo de cocina a un ciudadano que estuviera provisto de plumas y pico, que cacareara y pusiese de vez en cuando un huevo, lo sirviéramos sobre una bandeja, asado y relleno de ajos y pimientos, a nuestros huéspedes.

¡Maldita modestia! Ni siquiera le deja a uno presumir de defectos.

Los hombres, ¿máquinas? Por supuesto que no. ¡Qué más quisieran!

De nada ni de nadie recelo tanto como de aquellos que se obstinan en negar la perfección. Aun admitiendo que la perfección sea, tal vez, poca cosa, sin ella delante de los ojos sólo le restaría a uno el gris acicate de los trabajos remunerativos.

Tarde o temprano, a toda metáfora le llega el turno de degenerar en una nonada.

Las actividades artísticas cumplen una finalidad piadosa, consistente en engatusar a las personas de buena fe con la idea absurda de que la vida humana puede, por momentos, sustraerse a la vulgaridad.
Me adhiero a las voces, no muchas, partidarias de sustituir la denominación de autor por la de culpable de la obra, culpable de las páginas que siguen o, simplemente, culpable.

Desde los albores de la humanidad, a la mayoría de los que componen versos se les puede clasificar en dos escuelas: la de los que expresan tonterías aliñadas con solemnidad y la de los que las expresan sin tapujos.

A mi edad no es poca cosa haber conservado al menos una fe. Aún creo firmemente en la complejidad del mundo. De otro modo carecería del estímulo sin el cual no pasa de ser una operación de cálculo, interesada y frívola, el ejercicio de la imaginación en público.

Me ha parecido observar que el artista que le ha visto los colmillos a la vida, si atraviesa una puerta se da indefectiblemente de bruces con el realismo. Se dijera que el realismo consiste no tanto en un estilo como en una seriedad.

Los órganos humanos de la percepción no están suficientemente desarrollados para distinguir con nitidez qué cosa es arte y qué impostura. De ahí tal vez la extraordinaria utilidad del subjetivismo. Se mire por donde se mire, la verdad es un parásito de la belleza. 



- El éxito da alas que permiten al afortunado alzar el vuelo, surcar la altura, planear majestuoso a la vista de quienes ya lo están apuntando desde abajo con sus escopetas.
- Dudo que haya un método más rápido y eficaz de adelgazamiento que la muerte.
- Estoy dispuesto a admitir que no se pueden esperar grandes aventuras de un tipo como yo que prefiere las castañas asadas a la cocaína.
- Conviene ir bien vestido al consultorio del médico si no queremos contribuir a que el diagnóstico empeore.
- Aunque, al menos desde un punto de vista práctico, está bien que existan las naciones. ¿Dónde, si no, se iba uno a exiliar llegado el caso?
- De acuerdo, la perfección no equivale al arte, pero es un buen comienzo.
- A lo largo de mi vida he experimentado momentos de intensa humildad, de quietud y desprendimiento que acaso no queden lejos de la plenitud mística. Por ejemplo, cada vez que me dolieron las muelas.
- No hace falta subir al último piso de los rascacielos ni a la cima de las montañas y mirar abajo para adquirir constancia de la pequeñez humana. En realidad basta con contener la respiración durante un minuto, si aguantas.
- ¿Cómo que no hay ningún libro perfecto, limpio de errores, de contradicciones, de partes superfluas? Y el listín de teléfonos, ¿qué?
- Hijo, ten cuidado cuando salgas a la calle. Mira bien dónde pisas, no vayas a tropezar con un himno.
- Adoptes la táctica que adoptes, antes vencerás al tigre que a la calumnia.
- Desearía formular una serie de preguntas a las personas que hablan con sus perros, pero no sé ladrar.
- A los seres humanos con personalidad doble, ¿cómo hay que tratarlos? ¿De túes o de ustedes?
- Lo contrario de una patada en el vientre no es una patada en la cabeza o en la espalda. Lo contrario de una patada es un abrazo.
- Considero una cima biográfica cada hora, cada minuto, cada segundo exento de dolor.
- Ningún egoísmo tan detestable como el de los demás.
- Soy un ferviente defensor de la duda, con excepción de las de mi cirujano.
- Un tipo que se pasa el día diciendo yo, yo, yo, es un ególatra. Otro que hace lo mismo diciendo nosotros, nosotros, nosotros, es un nacionalista. El nacionalismo no es más que la forma plural de la egolatría.
- He preguntado al radiólogo, pero él tampoco ha sabido descubrir dónde tengo la capital.
- Un aparato capaz de medir la belleza de las obras artísticas no nos serviría de nada sin otro aparato capaz de transmitirnos las emociones correspondientes, en cuyo caso podríamos prescindir tranquilamente de las obras de arte.
- La Tierra es la docilidad en persona. A todas horas, en todas partes, sin la menor resistencia abre la boquita y, obediente, se traga otro ataúd.
- Malas noticias para los habitantes del cielo. A pesar de las innegables comodidades, allí tampoco le estará permitido significar.
- Por el momento me inclino a descartar la opción del suicidio dado el alto riesgo de muerte que comporta.
- Desconfío de los espejos. Ni siquiera saben mentir."


¿Cuándo inventarán el primer anciano que comprenda y no repruebe el mundo que abandona?

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No sé qué es peor, que me devoren cinco o seis leones o que, nada más empezar a engullirme, me escupan porque les doy asco.

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Si en vez del espermatozoide del que provengo, otro de los que participaron en aquella frenética carrera hubiese fecundado el óvulo de mi madre, una persona distinta, acaso con el mismo nombre, habría ocupado mi lugar. A veces, por la noche, cuando reina el silencio, me parece escuchar en torno a mí un coro apenas audible de malévolas risitas.

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El Universo debe de ser indestructible puesto que no le causa siquiera un rasguño borrarse enteramente en cada uno de nosotros cuando morimos.

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No tengo las ideas claras, pero tengo un sofá.

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El otro día constaté por casualidad que me conozco personalmente. No podría afirmar lo mismo de mi esqueleto a pesar de que siempre vamos juntos a los mismos sitios.

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Aunque aquejados de escepticismo, no cesan de componer una obra tras otra. Quizá actúen así por precaución. De otro modo, ¿cómo podrían justificar su vida toda si el futuro les deparase de repente algún tipo de esperanza?

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En cuanto a la composición química de mi alma, sinceramente no se me ocurre nada que objetar.

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Sería realmente un problema representar la muerte si la naturaleza nos hubiese hecho invertebrados.

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¡Qué difícil idealizar a una persona cuando mastica!

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El sentido de nuestra vida, ¿es el mismo que el sentido de la vida de cada una de nuestras partes? ¿De nuestras amígdalas o nuestra rodilla izquierda, pongo por caso? Si fuera así, presumo que no estaríamos lejos de alcanzar sin resistencia respuestas definitivas.

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Es concebible pensar que los santos que subieron al cielo antes del siglo XVI habían rebasado Júpiter por los días de Galileo Galilei.

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Desde que ejerzo de novelista estoy incapacitado para la lectura de novelas. En cuanto abro una por la primera página, inevitablemente procedo a practicarle la autopsia.

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¿Has pensado en los problemas prácticos que deberás resolver en el supuesto de que te sea concedida la resurrección de la carne? Por ejemplo, ¿cómo te las apañarás para hacer entrar en razón a tus herederos, no digamos ya a los herederos de tus herederos?

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Deseé ceñir la corona de rey por un motivo. Me habría gustado presenciar mi propia abdicación.

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De acuerdo, practicaré el ascetismo, pero sólo hasta la hora de comer.

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Dedicarse sin descanso a mantener a raya las ambiciones, ¿acaso no es también una ambición?

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Conozco pocos entretenimientos compatibles con la agonía. Quizá la fe.

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Anoche soñé que un tomo de mis obras completas me caía sobre la cabeza desde la balda más alta y me mataba en el acto. La pesadilla no consistió tanto en el golpe como en la sospecha de haberlo merecido.

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Sinceramente, cumplidos setenta y cinco, ochenta, ochenta y cinco años, ¿aceptaría usted que lo bajaran a la calle en su silla de ruedas; que lo colocasen en una parte de las barricadas donde estorbase lo menos posible, donde no estuviera demasiado expuesto a las corrientes de aire; y que, en suma, a punto de comenzar la refriega, le tuviesen que dar las últimas y fundamentales instrucciones a grito limpio porque está usted más sordo que una tapia? A partir de cierta edad convendría ir pensando poco a poco en la jubilación revolucionaria.

Fernando Aramburu (San Sebastián, 1959) ha publicado recientemente la novela Vidas que resisten (Tusquets. Barcelona, 2011. 184 páginas. 16 euros).

2011-10-14

O inventor do submarino


Hoje trago O'Neill para qualquer pai dedicar e ler alto ao seu miúdo pequeno, convencido de que é difícil superar esta forma belíssima de um certo Alexandre agarrar o amor inefável de um pai por um filho. Há um versão magistralmente lida por Jorge Silva Melo e que a MHJ Editores tem à venda online com mais vinte crónicas por uma pechincha. Vale a pena.







O INVENTOR DO SUBMARINO
(publicada originalmente do Diário de Lisboa de 7 de Novembro de 1968)

Pegou-me na mão e, de mansinho, experimentou repetir o convite: «Vá, anda ver!» Eu, que o enxotara já duas vezes, desci do Cáucaso, levantei os olhos do livro (Nouvelles Asiatiques, Gobineau) e, com eles, fui coroar de ternura a cabecita de cabelo «à bestla», que, a meu lado, acenava, a pedir que sim.Na banheira, o H-327 derivava lentamente entre duas águas. Maravilha! Senti – que querem que lhes faça! – um sincero grande orgulho. Eu era o pai do inventor do submarino! Quando pus os olhos nos olhos do Inventor, este semi-sorria, corado de prazer.H-327: um tubo de vidro transparente de quase dois palmos e de diâmetro igual ao de uma cápsula de garrafa de cerveja («carica», no especializado vocábulo dos inventores). Onde desencantara o Inventor o tubo foi coisa que eu nunca quis apurar. De rãs salteadoras a despertadores de caixa de latão desventrados, de frascos de boca larga com cabeçudos nadadores, mais pequenos que fiapos, a escreverem continuamente Zés (zzzzzz) na água suja, em rápidos, eléctricos movimentos de corpo, a um estranho dínamo manual que fazia tfft-tfft-tfft a cada faísca que saltava dentre as escovas, o Inventor habituara-me a todos os aprestos de que o seu génio criador necessitava. Mas o H-327, assim à deriva sob meio palmo de água, era positivamente de tarar!O inventor ajustara-lhe duas rolhas duas rolhas dentro e rolhara-o, nas extremidades, com outras duas. Criara, deste modo, três compartimentos no H-327. O compartimento central abrigava a tripulação: duas moscas desasadas. O comandante-mosca (ou a mosca-comandante) distinguia-se do resto da tripulação (simbolizado, muito inteligentemente, pela outra mosca) porque o Inventor lhe pintara um sim-senhor de vermelho. Os compartimentos das extremidades constituíam os depósitos do lastro: água e, para melhor contrabalanço, algumas tachas.A tripulação parecia atenta (já estaria meio asfixiada?) e o Inventor resolveu experimentar, mais uma vez, a estabilidade em imersão, do H-327. Arregaçou a manga, meteu a mão, em espátula, na água e desencadeou na banheira uma tempestade pior que a que meteu a pique a Invencível Armada. Aí é que o meu entusiasmo abandonou todo e qualquer paternalismo, para se tornar um entusiasmo de igual para igual. O H-327 era simplesmente formidável!A banheira deixou de ser a banheira. Passou a Base Naval Coelho da Rocha (por esta altura nós morávamos em Campo de Ourique, na rua do mesmo nome). Eu corri à colecção do Paris-Match, que tem muito bom papel para aviões, e em três tempos fiz duas esquadrilhas de combate anti-submarino. O Inventor, entretanto, protestava que a banheira não podia ser a Base Naval Coelho da Rocha, que era, evidentemente, o alto mar. Eu não o contrariei, confiado como estava na superioridade da minha aviação.Ao terceiro bombardeamento, com o mar muito agitado pelo Inventor, o H-327 foi atingido por uma bomba das grandes: mola de roupa de arame. O submarino virou-se sobre si mesmo. O comandante sacudiu o sim-senhor vermelho e firmou-se melhor nas patinhas. A mosca-marinhagem não dava sinal de vida.Eu perdera, contudo, um avião de observação, que, numa vrille desastrada, fora cair na base, perdão, no mar. Soraya, cujo retrato, por um feliz acaso, coincidira com o verso de uma das asas desse avião, sorria-me de dentro de água, já muito desbotada.O Inventor rejubilava com a estabilidade do H-327, que atravessara, bravamente, a terrível prova. E os bombardeamentos continuaram pelo que restava da tarde. Eu e o Inventor revezávamo-nos na produção ininterruptas de tempestades e de ataques aéreos. O H-327 sofreu tratos em fim: o tremendo impacto das bombas de profundidade (para o delirante efeito, lindas grageias de sonífero furtadas da farmácia da velha), o tiro de salva de baterias costeiras cujo longo alcance fora engenhosamente garantido por duas ligas de velhota, enfim, um sei-lá de truques bélicos, qual deles o mais arrasador. Nada! O H-327 era um grande vaso de guerra.Já com a batalha a passar-se à luz da electricidade, o Inventor, que estava, nessa altura, «ao submarino», pediu tréguas para trazer o H-327 à superfície. Concedidas por dez minutos.E foi durante esse curto período de tréguas que a gloriosa carreira do H-327 se viu abruptamente cortada pela entrada prosaica da nossa velhota (minha mãe e avó do Inventor). Cansada de dar ao dedo na agá-césar o dia todo, por conta de Matos & Carthó, Lda., Arameiros Reunidos da Pampulha, a Joana não consegui sintonizar o comprimento de onda altamente poético que eu e o Inventor estávamos a emitir.– Tu já prà cama, e sem jantar! E tu (era eu…) devias ter vergonha ! Que linda educação estás a dar ao teu filho!Cabisbaixos, eu e o Inventor separámo-nos com um magoado entreolhar de solidariedade.Por essas onze horas, com a Joana a cabecear sobre mais um capítulo da Vida e Aventuras do Padre Quilhó de Alvarado, levei uma bucha, pé ante pé, ao Inventor.Como se uma mola o mudasse, truca, de posição, o Inventor sentou-se na cama, esfregou energicamente os olhos e fez questão de saber: «Então, gostaste do H-327?» Passei-lhe a côdea. «Muito! Mas já estou a pensar no H-1000…» Trincadela e pergunta: «No H-1000?» Festa na cabeça e resposta: «Sim! No H-1000, com motor atómico!» O Inventor pôs-se de pé na cama. «Motor atómico!» Obriguei-o a deitar-se e não levei muito tempo a satisfazer-lhe a expectativa.«Imagina um submarino como o H-327, mas com um compartimento extra. Nesse compartimento mete-se uma pastilha de Alka-Seltzer. O H-1000 submerge. Tira-se a rolha à sala do reactor, que é a da pastilha, claro… Que achas que acontece?»Não sei se o Inventor conseguiu dormir naquela noite. Eu não. Nem o Gobineau me fez esquecer o longo abraço quente de admiração com que o Inventor saudou, na pessoa do seu pai, o aparecimento no horizonte dos génios, dessa nova maravilha: o H-1000.

Alexandre O'Neill

2011-10-11

Menos sentenças, mais querenças

Explicaram-me sábios que hoje já não é a verdade que denomina a demanda pelo melhor, mas a autenticidade. Ao longo da vida tenho visto colegas de todas as profissões que exerço a combaterem encarniçadamente, não por debater pontos de vistas numa dinâmica dialéctica já ensinada pelos antigos, que contudo ouviam mais o outro do que a si mesmos, mas por impor a sua verdade. O problema, e não é de hoje (já o padre António Vieira, citando santos como António, Agostinho, Ambrósio, entre muitos outros, repreendia os peixes por se comerem uns aos outros, como o homem) é a ausência de afecto nesse jogo. Sobra ódio e desprezo onde devia haver afecto e, havendo-o, sobrasse também entendimento. Não devia ser tanta a urgência de apontar o senão da arte como o entorse dos discursos e dos actos na vida.
Na arte, e um dia na vida, menos sentenças, mais querenças.

PG-M 2011

2011-10-10

Atropelamento na ilha deserta (o sexto)


Lancei-me à terra em Setembro, cresci, mirrei, fiz-me ilha com livros em vez de água, podei-me, levo o quinto meio escrito e, para quem nunca vai ler tudo o que quer, as leituras em dia, ouço livros, como bocados de livros, mas em Outubro a pulsão Nobokoviana veio a nado para cá, tomou-me nos braços, deitou-me por terra e deu-me o sexto para escrever. Expliquei-lhe que o quinto é de tal modo tecido que não o posso abandonar um dia que seja, e que o sabia de forma simples: afastei-me dele uma semana e ele fugiu-me. O Vladimir diz que este chegou precisamente por isso. Tens, disse, uma teia disforme para ordenar, falta-te a luz e a pequenez das coisas simples. O sexto alumia. Mas, se não me posso afastar de nenhum, vou ter de escrever os dois ao mesmo tempo, usar metade da velocidade em cada, estar mais ausente no mundo, o meu corpo figurado. E ler mais, sair de mim, venerar outros escritores para não sufocar na minha saliva. Sobre a mesa espalhei os pedaços que parecem manias, intelectualidades bestas, mas para mim são apenas alegrias simples: os dois El País atrasados (o deste Sábado devorei na hora), a Dulce, o padre António Vieira, o O'Neill, o eme Tavares, outros virão, estão sempre a chegar. Mesmo assim, mesmo que me invada um hábito interno fransciscano, uma nudez, ao chegar o sexto torno-me insuportável e megalómano por cinco minutos. Ido o Vladimir, são as duas magnólias à saída da rampa do pátio onde estaciono a carrinha que me dão humanindade: agora que todas se despem, elas trazem-me na expectativa do Inverno, quando me darão flores. Seja então: o quinto e o sexto a par. Haja alegria:).
PG-M 2011
PG-M 2011

2011-10-08

Sleepless to remember les vieux amants et les fous

Quando disseste
- Já falhámos a Primavera.
no topo do Empire State, ainda as pedras eram a preto e branco e Nova Iorque a cinza, e eu te respondi
- É agora ou nunca.,
e tu disseste que sim, e o cenógrafo pintou a película de magenta e as paredes de azul, seríamos loucos, Terry, seríamos loucos se deixássemos isto passar por nós, e imagina que demorava seis meses, e tu
- Seis meses o quê? Sê realista.
mas estavas com o desespero nos olhos e o arrebatamento no corpo,
- Só quero ser merecedor do despojamento do teu corpo,
agora e sempre nesta varanda, enquanto não sobem os muros e a enchem de ferros e nos cercam de jaulas e turistas cegos que vêem através de máquinas, a tua voz quebrou, dizes tu, como se me fosses expulsar da tua pele, e como todos os americanos quando Nova Iorque era cinza e o Empire preto e branco, acendeste um cigarro e debruçaste-te ligeiramente na sacada, já não sei se eras Terry ou Annie, e eu Nickie ou Sam, sei que o pudor desceu com o guarda e ficou o teu sorriso e o fumo do teu cigarro, o sobretudo subiu e começou a canção dos velhos amantes em francês, vinte anos de amor, mil recusas, mil malas feitas, mil saídas e a tempestade sobre o Hudson e eu, como todos os homens, pela milésima primeira vez, a cantar-te ao ouvido
Mais mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore tu sais je t'aime

enquanto as mãos subiam pelas tuas coxas, a boca morna no teu pescoço e tu já devias ter caído, mas fumavas e sorrias, fumavas e sorrias, é isto que que elas dizem?, é isto que acontece quanto elas tomam o domínio e o pobre macho já só consegue tocar em frente, o burro, e mesmo que estas mãos pensassem que te devassavam a milésima primeira foi tua, soube eu mais tarde, quando trouxe a terceira mulher a esta mesma varanda e tu estavas à espera com o meu jogo completo de tacos de golfe e o mesmo sorriso, não sei se o mesmo cigarro, porque só mais tarde percebi que quando te penetrava era penetrado, que quando me vinha vinha sozinho, como vim, completamente sozinho, com um jogo de tacos de golfe e pelas escadas. Anos depois, contava-se no rés do chão da tricentésima quinquagésima avenida que uma mulher de classe fornicava homens no observation deck do Empire Stare building quando as noites tomavam os dias e as cores os tons de cinza com que te conheci fumando e sorrindo, Deborah, Meg?

PG-M 2011

PS: Dedicado ao Warren Beatty

fonte da foto PHOTOFEST