2011-11-29

Adagio

Não sei.



Não sei se é possível que eu inscreva no tempo que segue o tempo que precede.
Não é nostalgia, Neves. É por causa da catana, dos teus pedaços, do bisturi que esventrou a Maggie, da bala na nuca que fez montes de ossos pensar "que sorte". Encosto-me à cerca? Electrocuto-me? Volto a dormir no vómito, a nascer da merda, ou compareço na formação das seis e um quarto, aos quinze negativos? Formo. O Ishmael não vem. Deus virá?
São estes violinos que ouço, são eles que tangem, são estes pedaços que gemem, são estas frases partidas

não é poema nenhum

PG-M 2011

Semen suum


Ouviram este discurso um destes dias?
Não, não foi o Steve Jobs, foi o...

[Sobre o facebook:
Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto; porque pregam o alheio, e não o seu: semen suum. (...) Com as armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul, e as de David a David; e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia. (...)

Com redes alheias ou feitas por mãos alheias, podem-se pescar peixes, homens não se podem pescar. A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço. (...)

Sobre a delicadeza:
Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir foraz. E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra e se mete na alma.(...)

Sobre a pulverização de pensamentos, ideias e informação, sobre a demagogia e o que isso traz à mentira, e o que isso não traz à verdade - muito menos à auntenticidade:
Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos! (...) Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. (...) Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas.

Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são subtilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes.

Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareça em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do Mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos.]

...foi proferido (vai para 357 anos - no dia de reis de 1655  e na Capela Real de Lisboa - ), pelo padre António Vieira. Poderia dizê-lo hoje com a mesma propriedade. E agora pergunto: não estarão os homens cansados de incidir nos mesmos equívocos e, pior, de vagar a memória, não estarão os homens cansados de começar sempre do princípio, a bem do sagrado direito ao erro?

PG-M 2011
fonte da foto - Narciso, de Caravaggio

2011-11-28

O drama do coelho de Charles Dodgson



A compulsão da escrita não é falta de humildade ou sentido.
Nem a dor de que sem ela só a morte. Não em mim. 


Em mim é só o combate de um facto e da sua consequência: esperar e ter esperado, o tempo e a falta dele.


PG-M 2011
fonte da foto de Rodney Smith

2011-11-25

O lago



Algo se passa nas camadas inferiores da atmosfera do lago. Estão rarefeitas. Talvez seja o excesso de paz. Talvez o mal. Os extremos a tocar-se. Afogam os olhares, os sorrisos, as lágrimas, e o povo dissimula os corpos quando a água escurece.

PG.M 2011

Na morte nenhum dilema


Na morte nenhum dilema. Morre-se e pronto. O dilema fica atrás, no espaço desocupado, no tempo vago, nos passos dos que viviam para nós e inclinam a cabeça de forma imperceptível e suspiram em silêncio para que ninguém os veja por dentro depois dos gritos e do choro dos dias negros, ou então do sorriso ténue e da cara seca que perturbou os que se alimentaram do nosso fim com medo do seu. E pronto.

PG-M 2011

2011-11-24

Para que mil pessoas voem




Para que mil gaivotas voem, não é preciso pedir. Basta passar. Com as pessoas não.
Estão cada vez mais transparentes e sós, e nem o medo as move. 
Quer dizer, se for na televisão, para que mil pessoas voem, basta passar.
Já gaivotas não.

PG-M 2011

2011-11-23

dois velhos no parque, ela morta


Dele sempre fui amigo. Dela enamorado. Ela nunca soube porque
Dele sempre fui amigo.
Via-os apaixonados no mesmo parque em que hoje desaguo com ele.


Doía-me quando ela armava a mão em concha para cobrir os lábios, que encostava ao ouvido dele. Eu sempre ao largo, à porta do tasco.
Ontem, no parque, cinquenta anos depois, soube que, afinal, ela não lhe dizia nada.
Talvez também me amasse,
porque é isso que fazem as mulheres que amam.


Apoiámo-nos nas bengalas e falámos sobre o tempo. Amanhã vou ao cemitério sorrir-lhe. Depois volto ao parque e ele conta-me tudo outra vez.


PG-M 2011
PS: sou o que estou à esquerda na foto
fonte da foto

Heterógrafo


Senhor figura pública que sempre declarou o seu amor por mim ("o que me importa é o povo", barra, "é bom o contacto directo com o público"), estou  aqui há oito horas com o meu pénis entalado nestas grades que me contêm de si junto à passadeira vermelha, pode dar-me o seu heterógrafo (como poderia ser pedido ao Bernardo Soares)?
A bem dizer, não sei se sabia, eu já passei aí, nesse lugar, há vinte anos, mas quando a minha carreira bifurcou e eu tive de escolher entre a farda do artista magoado ou a do senhor coutinho da rua das pedreiras, ao restelo, escolhi a do senhor coutinho e comecei, como todos os senhores coutinhos ou, por exemplo, jogadores de futebol que estiveram nas cadernetas e agora têm o seu pequeno negócio, ao restelo, ao galvão, à ajuda, sei lá, comecei do zero a admirar os outros artistas. Percebo que queira sossego, bem vejo como está manifestamente ausente do seu facebook, e...ah, já vai? E o heterógrafo? Pronto, está bem, para o ano. Ena. Espera lá! Não é a Vanessa que vem ali atrás, a sobrinha da minha ex-mulher que eu criei? Vanessa! Vanessa! Sim, eu falo baixo, desculpa:

É só para dizer como gostei de estar contigo nos fiéis. Eu digo-te isto todos os anos? Sim, é verdade, disse-te isto no ano passado. E no anterior. E no anterior. É que tenho saudades tuas. Ah, está bem, desculpa, falamos noutro dia.


E eu volto ao teu silêncio.


PG-M 2011

2011-11-22

A morte de um amigo virtual

A morte de um amigo virtual não existe. As saudades dos amigos virtuais não existem. A companhia dos amigos virtuais não existe. O casamento dos amigos virtuais não existe. O funeral do amigo virtual não existe. O amigo virtual não existe. O punho existe. O amigo virtual não desaparece, muda de computador ou de sistema operativo, perde a paciência para esse lado social, vira maçã, vira Android, vira qwerty, culpa a virtualidade pelo seu carácter obsessivo, põe na moda o depressivo. Ou não. O amigo virtual despede-se em grande estilo. O amigo virtual partilha músicas que o definem. O amigo virtual diz coisas dramáticas, desapossadas. O amigo virtual não tem carências. O amigo virtual é perfeito visto do lado esquerdo. O amigo virtual não tem acidentes nem nós temos buracos nas nossas vidas. É igual ter quinhentos ou mil amigos virtuais. O amigo virtual promete que aparece. O amigo virtual não aparece. O amigo virtual não morre. A morte de um amigo virtual não existe. O reboot existe. Os dois dedos do meio existem. Os baldes de gelo existem. A pele não existe. O pénis não existe. A vagina não existe. O "vai-te foder" consome apenas dois segundos no teclado e existe. O bloqueio é um botão, consome um e existe. O amigo virtual? Puf. Criaram uma página em homenagem ao amigo virtual mais bloqueado da história social cibernética. Criaram uma página em homenagem ao amigo virtual que morreu este fim-de-semana debaixo de um camião na A25. As duas páginas são iguais. O amigo virtual não existe. A morte do amigo virtual não existe. O difícil não existe. O complexo não existe. Os amigos virtuais conhecidos praticam o desporto da limpeza pessoal. De vez em quando os amigos virtuais fazem explodir nomes que enchem a coluna da esquerda. O amigo virtual é devoto. O amigo virtual está ansioso por nos conhecer. O amigo virtual tem muito que fazer. O amigo virtual é uma lâmpada.  O amigo virtual é um ecrã led. O luto pelo amigo virtual não existe. O ecrã azul existe. Deve ter sido isso. Puf. A morte de um amigo virtual não existe.

PG-M 2011

Dança-me (to the end of love)

Quando vi as tuas malas à porta hoje de manhã, perdi a surdez. Perdi a mudez.
Perdi a frieza, a secura da córnea, a esperança. Quando nos olhámos nos olhos já não vimos a certeza do fim, mesmo que a tivéssemos. E tínhamos. Vimos apenas a certeza do nosso amor, que agora percebemos ser um animal estranho que vive pela eternidade. Mesmo que nos odiemos, mesmo que deixemos de nos suportar, se realmente se amou a marca sobre o corpo nunca desaparece. É por isso que quando tu te voltaste apenas com a candura da primeira hora os teus lábios pediram o beijo e o beijo foi o mesmo com que tudo começou. E depois chorámos, claro, pela primeira vez chorámos pelo outro e não pelo ego de cada um. Arranca com a música e depois lê. Traduzi o Cohen para ti. O título da música era flagrante para oferecer à manhã de hoje. Eu sei. Ele escreveu-a rasgado pela dor da visão dos campos de concentração. O "burning violin" é o violino dos judeus que tocavam de pé durante toda a jornada de trabalho de destruição dos seus irmãos. Mas eu traduzi-a para ti. Arranca.
Por favor arranca a música e lê.


Dança-me a tua beleza como um violino em chamas
Dança-me através do pânico até eu ficar a salvo
Levanta-me como um ramo de oliveira
Leva-me a casa
sobre o teu dorso

Dança-me até ao fim de todo

o amor

Oh, deixa-me ver a tua beleza quando já não houver ninguém
olhar-te no deserto sem testemunhas
sentir-te mover como eles se movem
na Babilónia
Mostra-me lentamente
o lado de lá do fim

Dança-me até ao fim de todo

o amor

E agora

Dança-me para o enlace
Dança-me sem parar
O amor é o corpo e nós
subcutâneos
Estamos por cima de tudo

Dança-me até ao fim de todo

o amor

Dança-me às crianças que imploram
para nascer
Dança-me de volta às cortinas
que os nosso beijos gastaram
e agora
ergue a tenda
ergue o abrigo através
das trincheiras

Dança-me até ao fim de todo

o amor

Dança-me a tua beleza como um violino em chamas
Dança-me através do pânico até eu ficar a salvo

toca-me com a mão nua
toca-me com a luva

Dança-me até ao fim

de tudo

Leonard Cohen, sob tradução desavergonhada de
Pedro Guilherme-Moreira 2011

2011-11-21

Deus, ateus e comoção - a marca física das ideias


Pie Jesu?
A fenomenologia:
o ateu torna-se frio quando explica a sua falta de fé.
Mesmo que seja uma pessoa calorosa e sensata, emerge sempre gelado. Empertiga-se. Porquê?
Será verdade que há uma marca física das ideias ou das crenças?
Que o velho homem de esquerda, o velho homem de direita, o jovem de um lado ou do outro, têm atitudes médias? Que antecipam o discurso que se propõem atacar? Que a dialéctica nunca os faz evoluir? A coerência é uma virtude ou um defeito?
Desde pequeno que questiono tudo, como se pretendesse, por exemplo, validar o meu próprio baptismo. Como se tivesse de ratificar toda a minha educação. Lembro-me da dureza que foi para mim ter de dizer ao meu pai que me parecia óbvio que a paternidade era, antes de mais, uma acto de egoísmo. Não naquele sentido parvinho - sinceramente parvinho - de não dever trazer crianças a um mundo que as acolherá mal (esse discurso, quando as pirâmides demográficas dos primeiros mundos caminham para o estrangulamento, já nem sequer faz sentido), mas no da motivação de cada um de nós. Parecia-me evidente, aos doze anos: um homem e uma mulher não têm um filho por altruísmo: têm-no para cumprir um sonho, experimentar o poder do milagre que é fazer uma pessoa do (quase) nada, perceber o que é isso que, quando somos pais, nos muda para sempre.
Para lá de toda a discussão sobre a existência ou não de Deus, há realmente uma manifestação física e outra intelectual de quem se diz ateu que me intriga:
- a física será aquela com que abri este artigo: o ateu diz que não acredita quase zangado;
- a intelectual é o primarismo de argumentos - e falamos de pessoas altamente respeitadas nos círculos intelectuais (v.g., aquele do "provem-me que existe e eu acredito").
Nunca fez para mim qualquer sentido questionar a existência ou não de Deus.
Sempre houve homens brilhantes dentro e fora da igreja. Uns maus, outros bons, não importa. Quem lê Santo Agostinho ou o Padre António Vieira sabe o quão violentos eles são para a própria religião sobre a qual reflectem. Lúcidos. Desarmantes. Como poucos ateus o foram. Este dois homens, estando dentro da igreja, criticaram-na violentamente. Eu nunca li uma reflexão crítica de uma ateu sobre o ateísmo: sei que há, mas não é vulgar nem fez escola.

Cedo também disse à minha avó que não era católico.
Não por ser do contra, mas porque precisava de reflectir no que era isso de ser católico.
Concluí que não valia a pena seccionar a necessidade de fé. Quanto mais pulverizada, mais perigosa é a religião. O contrário também é verdade: a religião de massas, o extremo oposto, não serve.
A mim serve-me ouvir, em cada dia, sem certeza nenhuma, o que as pessoas têm para dizer. Sejam elas o que forem e acreditem no que acreditarem. Em escrita, e com algum risco de ser rotulado, descobri que a fé em situações limite ajuda mais o indivíduo do que a racionalidade, embora não tenha de ser um ou outro e seja sempre melhor propor o tempero de ambos.

É precisamente por isso que - sem que isso queira significar a tentação de querer, literalmente, estar de bem com Deus e com o Diabo - o ateu que está cheio de certeza de que Deus não existe é só mais um fundamentalista

PG-M 2011

2011-11-18

Menu em verso branco

Preciso de um poema para quebrar a infâmia. Toldar a vulgaridade. Pode ser este. Este não é um poema. Preciso de um livro sem advérbios para ganhar um prémio literário. Não pode ser este.
Preciso de um prémio literário para comer. Pode ser qualquer um.
Os mais puros e os mais pérfidos levar-me-ão à letra: aos primeiros dará um sobressalto bondoso, aos segundos dará jeito.
Preciso que os mais importantes saibam de que tamanho são. Que os gelados sejam menos frios. Que a própria morte não seja a única razão para estimar ou ser estimado.
Preciso de não ter a certeza de nada. De ter a certeza de que o arrebatamento não é o oitavo pecado e de que a beleza é mais do que inocência. E perda. E solidão.
Preciso de um bife com ovo a cavalo e batatas fritas. Pode trazer-me uma travessinha de arroz?
E esparregado, tem?
E ouço a Ana María Matute Ausejo dizer, cândida,
"No esta tan mal ser viejo".

PG-M 2011
fonte da foto - retirada do blogue de Christopher Fowler

"Se tu me amas, ama-me baixinho"

"Se tu me amas, ama-me baixinho." Pablo Neruda. Não. Espera. Não foi o Pablo, mas uma "oficiosa" minha, isso sim. Ando há mais de trinta anos em busca de frases assim. Frases a que os importantes nunca chegarão. Ao dizer-lhe como era bonito o que tinha escrito, ela explicou a consequência física do amor na voz. A melhor literatura. E eu, que ando muito mais atento aos outros do que a mim próprio, mas que às vezes me esqueço - como qualquer artífice centrado na sua matéria-prima, aprendi. De uma mulher que aparentemente precisava de mim. A fotografia, claro, não é inocente. É curiosamente revoltante a realidade de que me apercebi por estes dias com base neste caso - pensei que já tínhamos evoluído um bocado: procuradores machistas a destratar mulheres que manifestaram desejo de desistir de uma queixa de agressões físicas, pedindo-lhes aos berros que se decidam porque não têm todo o tempo do mundo e avisando-as - sempre aos berros - de que a justiça será inclemente caso estejam a mentir, sem perceberem porque é que o crime se tornou público, e outras mulheres que, perante uma vítima de violência doméstica ainda conseguem comentar "é porque mereceu". Estão bem arranjados comigo, estão.

PG-M 2011
fonte da foto

2011-11-17

Problema metafísico de calçado desportivo

Este artigo contém a resposta para a pergunta metafísica composta: qual é o melhor calçado para correr e, além do mais, dar na cabeça a uma certa tribo de afectados sociais?
A resposta abrange três vertentes: a oportunidade de crónica social, a eleição do melhor por ser o melhor mesmo - livre de "lobes" -, e, last but not the least, a hipótese de dar nas vistas sem gastar muito. Agora a parte do gajo bruto e básico que parece não saber de falar de outra coisa:
Eu tive umas Adidas durante dez anos e adorava aquelas sapatilhas. Só as encostei quando a parte da frente do pé fica toda de fora. Antes nem pensar, de tal forma se adaptavam ao dono. Torna-se o perfeito companheiro do dia-a-dia, quase melhor do que um cão. As actuais Nike Air, também já devidamente rebentadas e adequadas ao dono, já passaram o dedão num dos lados - estão quase a meio do pé -. A sola já teve de ser parcialmente arrancada, porque fazia flap-flap no piso duro - a bem dizer, as Adidas nunca perderam sola, mas os tempos são outros. Quando corri a primeira vez com as Nike senti-me um príncipe - shuá, shuá, shuá - quase voava. Mas cedo me apercebi que os benefícios da corrida tinham diminuído. Só quando as Nike se transformaram numas sapatilhas de homem, e não o que eram novas, símbolo de um "coninhas" mal resolvido que alinha com a mão em prancha o cabelo que a mamã ainda penteia com cuspe, voltei realmente a correr. Entre esse Natal (foi o Pai Natal que mas deu) e a Páscoa, engordei. E depois começaram aquilo que eu pensava serem as tretas da tribo Tarahumara e do Cavallo Branco, a propósito do livro do Christopher McDougall, "Nascidos para correr", que advogavam que a única forma de obter benefícios da corrida era correr descalço ou com calçado minimal. Lá se falava de técnicas e eu, que não gosto de deitar fora só por deitar, fui experimentar. Não demorei muito a perceber que eles tinham razão. Aliás, a corrida na areia, mesmo calçado, faz com que os pés se apoiem nas pontas (não se pode correr na areia com os calcanhares apoiados), e que se consiga ir buscar coisas boas muito idênticas às dos Tarahumara. O problema que se me punha, agora, era de índole prática. Correr descalço todos os dias não podia ser opção, porque os pisos são diversos e o nosso civismo deixa nas praias e nos passeios todo o tipo de porcaria. Entretanto apareceram sapatilhas em forma de pé (na foto) - e deu-me, peço desculpa, um ataque de riso. Passar pelas prateleiras de um loja de desporto é confrangedor. Ver os clientes a comprar mais ainda - pagando por umas sapatilhas autênticos ordenados. Eu ainda admito que haja desportos onde o calçado faz toda a diferença (eu também pratico voleibol, e aí a conversa é outra), mas na corrida é, mais um vez, o KISS - Keep It Simple Stupid. O mais aproximado da corrida descalça são as sapatilhas de piso fino, tipo "All Star". A experiência com um par desses deu-me a resposta: é diferente correr com elas e com as Nike Air como do dia para a noite, para melhor. Mas como é também muito duro e exigente em termos musculares, comecei a alternar. Até ontem, e é isso que me traz aqui: ia posto em sossego correndo na areia, o dia estava bom, quando me apeteceu descalçar e correr molhando os pés e mais, manter-me descalço até casa (faltavam uns dois quilómetros, metendo praia, passadiço de madeira, passeio e dois tipos de asfalto). Aqui começou toda uma outra aventura e a primeira experiência efectiva de correr descalço: o pior estava no início, porque se correr na rebentação é muito bom com areia fina, quando ela se transformou em pedregulhos ficou doloroso. Aiiiiii! Aiiiiii! Tive de parar - rais'parta os Tarahumara. A dor era real. Subi para a parte fofinha da areia e prossegui descalço. Cheguei ao passadiço de madeira e, fora o cuidado com as lascas, tudo correu bem, com esta singularidade: o pessoal que passa por mim todos os dias e mal me liga, a mim, que sou enorme e nada elegante a correr, portanto nada aprazível para vista, olhava três vezes para os meus pés (que por acaso até são uns 45 bonitinhos:). A velha jeitosa dos prédios azuis até olhou para trás, ela que segue sempre o seu caminho com pose olímpica e aparentemente desinteressada. Ou seja: o sucesso social é garantido - nenhuma sapatilha state-of-the-art consegue tantos adeptos ou curiosos, mesmo que muitos pensem que vai ali o hippie de Gaia. O passeio suportou-se bem, o asfalto melhor ainda, mas o pior estava para vir: na curva final apareceu a Dona Emília que mora no fim da rua e gritou, como quem dizia "maluquinho", "Descaaaaaaaalço?". Já me tinha feito o mesmo aqui há uns meses, em pleno Verão, quando me viu a saltar bancos de pedra para treinar impulsão, "A saltar os baaaaaaancoooooooos, meniiino?", humilhando-me perante pessoas boas que passavam. Mulheres, isto é. Desta vez agradeci com o habitual "tem de ser" e fiz o sprint final, para descobrir a razão da falta de aderência que tinha notado no piso mais duro, coisa pouco habitual quando se corre descalço: os pedregulhos magoaram-me de tal forma que me deixaram três dedos do pé esquerdo dormentes. Só senti o formigueiro quando parei. E a estupidez, claro. Conclusão: sem dúvida que o melhor calçado para correr é o pé descalço, como aliás para viver em geral, e o que fará mais sucesso entre as tribos não-Tarahumara dominadas por marcas sem o confessar (ficam mais ou menos com uma expressão de espanto surdo): o problema é que dói. Dói de caraças. Principalmente o raio dos pedregulhos na rebentação. Portanto, senhor Cavallo Branco, corra descalço o senhor.

PG-M 2011

2011-11-15

A urgência do regresso a casa perante a tempestade

Em dias de temporal, quando descemos do centro da cidade em direcção à praia, onde moramos, vemos sempre erguerem-se do mar os gigantes negros que trazem as chuvas de princípio de noite. A meio do Outono, a noite não cai, já está. De repente. Portanto, fingimos que ela cai. Se não chove, cai pelos vapores do jantar. Se os pingos grossos molham os fumos brancos, cai quando a recolha se torna urgente. Recolher a casa em dia de temporal para não mais sair tem urgências raras. Está aquele negrume, o vento começa a puxar chuva, estaciona-se, tranca-se o carro, pega-se nas malas e nas mochilas, corre-se para o pão, corre-se para o talho, corre-se para o café, e quando se fecha a porta de casa e se pousa o guarda-chuva já se pode morrer. Não, hoje não vou pôr o lixo. Não, hoje não atendo ninguém. Vou já tomar banho e vestir o pijama. Fica-se dolente a arrumar a cozinha e a saltar canais com as pequenas grandes reportagens. E quando amanhã a televisão falar outra vez dos alertas laranja, nascemos para morrer ao fim da tarde, felizes. E chega a noite e tudo é urgente e voltamos a correr para todo o lado e a trancar-nos e a dizer que ninguém nos tira de casa. Excepto à Sexta e ao Sábado, claro. À Sexta e ao Sábado, já se sabe, nunca chove.

PG-M 2011

Stripping


Já passa da meia-noite e ele sobe à pista com Club Thing.
Ela espera.
A nudez é vedada, mas ele desaperta os botões da camisa e começa a mover as omoplatas em elipses concêntricas e as ancas - quase imperceptivelmente - em quartos de círculo. Um pingo de suor escorre-lhe da base do pescoço pelos peitorais e enxagua-se sobre o estômago. Os abdominais brilham azuis e negros, azuis e sombra, há fumo artificial a cercá-lo. A música intensifica.
Ela também sobe. Começa a mover-se como se os punhos agarrassem cordas, primeiro, membros depois. Usa gestos subtis, como devem ser as mulheres, vistosas, indiscretas, mas subtis. Estão de tal forma envolvidos que o cenário se torna um deserto dentro dos olhos. Um Atacama pela noite. A música escala. Ele deixa descair a camisa, ela pousa-lhe as mãos nos ombros crus, alinham os movimentos. Elipses excêntricas. A camisa nos cotovelos, as mãos dela nos quadris dele e ela agora suspensa, as pernas atadas, as alças caídas, o peito resplandecente, as línguas evanescentes. Ao terceiro aviso são separados por dois porteiros e ele arrastado para fora da pista. Sorriem uma ao outro com os dentes cerrados. A noite tinha começado e cobriria o dia e só as cortinas de veludo do hotel velariam os corpos. Agora ouçam a música e leiam tudo outra vez. Ou esperem pela noite no deserto de Atacama.
PG-M 2011

2011-11-14

Break it to me gently

O ar estava quase sólido e nós saímos para as traseiras do bar quando o dj foi tomado pela nostalgia e suspendeu os golpes surdos das batidas electrónicas. A chuva tinha parado e o piso estava seco no resguardo do trinta e três. Dentro do bar arrancou o "Break it to me gently" da Brenda Lee e tu passaste-me o cigarro e armaste os braços para dançar. O cigarro ardeu-me todo entre o indicador e o médio da mão esquerda enquanto te cingia pela cintura e dançávamos a canção. Não sabias a tabaco, talvez porque os lábios grossos, os teus e os meus, nos continham e as línguas. Recomeçou a chuva, que eu vi no teu vestido índigo entre as pausas dos beijos. O teu perfume também. As línguas e o teu perfume. Break it. Break it to me gently.

Reencontraram-se no baile dos que já deviam ter morrido

Na Primavera de 2043, reencontraram-se no baile dos que já deviam ter morrido, juntaram as bochechas como quem se beija e dançaram o "Do you want to know a secret" dos Fairground, embalados na rumba dolente que nunca haviam aprendido, mas que a paixão sobrevinda lhes ensinou a cada passo, e então ele disse, feliz, "Agora já posso morrer", e ela não disse nada e chorou sem lágrimas. Viverão até aos cem, mas nunca se cansarão da rumba dolente e da espécie de beijo que repetirão todos os dias.

2011-11-13

Hoje almoçamos sem ti


Hoje almoçamos sem ti, e eu quero que a manhã
siga lenta, e nunca chegue
a hora de contar
os pratos

Hoje almoçámos sem ti, e eu tentei disfarçar
a tua ausência, mas a mão
ia sempre descansar
no lugar onde comias.
A altura do naperon ao chão
e o fingimento
e a tristeza na boca
e a vida,
tudo parecia
igual


E levantou-se a mesa e o teu lugar
estava limpo, mas eu
vim sacudir as migalhas
que fingi
dentro do punho fechado

Hoje o sol deteve-se nos telhados e o frio veio
das ombreiras, porque almoçámos

sem ti.

PG-M 2011

fonte da foto

2011-11-11

Aquela cena americana

Passam-se os dias num alpendre lacado a branco a fumar um narguilé enquanto na estrada poeirenta que leva à casa nada se manifesta senão nas margens. Pequenos pássaros que enchem os ciprestes começam às oito da noite e calam-se às onze da manhã. Todas as horas acordado e sozinho sem ti. Já não aguento esta forma de silêncio nem a música que a multidão me traz. É o fim. Começo outro livro.

PG-M 2011

Quase-amante

Adeus minha quase-amante, que a linha da noite não se vê ao pôr-do-sol como a do dia ao nascer.
Nem as estrelas se reúnem pressurosamente.
Nem a noite nasce. Nem evanesce.
Nem tu existes, a não ser na certeza de te termos.
E todos te temos.

PG-M
a glosar os Fine Frenzy (Almost Lover):

2011-11-10

Um ano depois: o anjo que nos leva sempre pela mão*

Passa hoje um ano, pouco depois das cinco da tarde. Ninguém aqui em casa precisa de ouvir que temos de fazer o luto. Aqui não se fez. Recordamos a avó como se estivesse por aí. Claro que as saudades, assim, são ainda mais dolorosas, mas nenhuma tese ou teoria nos ajudaria a suprir a ausência. Quantas vezes acordamos cheios de saudades de um amigo do passado e vamos atrás dele para descobrir que ele, ou não se lembra de nós, ou não nos quer de volta sequer para um breve café. Esse é o luto que se faz na cara das pessoas. Mas nós sabemos que a avó, quando convocada lá onde estiver, nunca nos vai enviar de volta. Entretanto, já depois de morrer, saiu para Lisboa e foi o centro do lançamento do meu livro. Lá contei como ela fazia dezoito quilómetros a pé, todos os dias, para levar um tachinho de comida a um senhor que morava na Praça Marquês de Pombal, no Porto, só para ganhar uns tostões - e nós que pensamos que estamos mal hoje. Lá - na Bulhosa de Entrecampos - contei como ela, com a terceira classe, lia tanto e me serviu como primeira editora, porque só fiquei satisfeito quando ela me pediu para ler mais dos livros que eu escrevia e lhe levava. E acho que não contei que nunca conheci ninguém cujo olhar, perante quem com ela desabafava, não mostrava nada do próprio ego e se centrava totalmente na tarefa de dar colo aos seus interlocutores. Quando queria poupar mulher e filho das dores maiores, as dores da existência, que me davam raramente, mas davam, só ela as curava. Sexta, Sábado e Domingo terei de visitar o poema que começa por "hoje almoçamos sem ti". Hoje republico o texto que escrevi em vez de gritar, horas depois da morte.:


* a expressão que titula o post saiu desta:"os anjos, com o seu sorriso, levam-nos sempre pela mão" e é a que está na sua lápide

"A minha dor é limpa, tão seca, tão funda. As dores dos que amo descomunal. Tenho muito medo. O mar hoje estava assim, alto, cinzento, como se fosse devorar a praia e depois as casas da praia e depois as ruas à volta das casas da praia. Pôs-se sol para ela. Estive todo o dia à volta de frases de morte, mas não era prenúncio nenhum. Eu gosto das frases de morte. Mas não concebo o que está ela agora a fazer ali. Morreu para o lado que gosta mais de dormir, como sonhou, mas, caramba, não se sonha com esta merda. É um mal menor, mas é um mal. E como é que eu a descrevo? Não se faz justiça a ninguém em carne viva. Trouxe-me sempre à roda dos meus escritos com a culpa de nunca lhe ter dedicado nenhum. Acabo de descobrir porquê. Quando alguém consegue ser sempre mais do que os conceitos onde cabe é a falência das palavras. Ela criou o meu filho quase por dentro, deram-se colo um ao outro e ele ainda é pequenino mas está da altura da mãe e o que é que se faz a uma ferida assim no momento de o abraçar e dar a notícia só pelo choro e dizer Vem, vem depressa, quero que a vejas como se ainda estivesse a dormir? E o tormento de ver um filho perante a morte dentro de casa pela primeira vez? E o choro infinito do menino? E a menina, que tem memórias em cima do corpo que nunca mais acabam até ao estertor? Ainda ontem nos rimos com ela. Ainda hoje ela me disse adeus como uma adolescente, com os olhitos pequeninos a assomar do lençol na dignidade das últimas horas. E eu andei pelo dia com a estética da morte e chego e a literatura não serve para nada. Careço do uivo dos lobos. Não é correcto. Não é correcto que o corpo da Vó Ju seja falível e o seu calor nos fuja e que seja preciso vesti-la e que se tenha de falar de tábuas e caixas e capelas e despedidas. As pessoas excepcionais deviam dar outras voltas depois de cruzar a linha. As pessoas excepcionais não se chamam só Avó. Eu sabia que seria incapaz de fazer a dor abrandar porque não é suposto que ela abrande. Quando eu me esquecer de ti, avó, e do que nos rimos com a ideia do dia da tua morte - raio de lucidez que faz doer ainda mais - talvez te consiga escrever uma frase que consiga encher os outros de ti. E se não conseguir chamo-te para ver a última parte do "E tudo o vento levou" em HD, que naquele Domingo ficou incompleto quando te lembraste de ir com a menina vigiar a horta antes que a luz faltasse. Hoje é apenas um grito trapalhão porque tu sabes que eu grito com a ponta dos dedos e que o peito me sufoca até os dedos se deitarem a escrever. E que agora partilho o segredo de quem tu eras com o mundo, que queres que faça? Vinha a pensar que me quero calar, agora e pelos dias vindouros, e deixar-te a canção que há algum tempo temia ser a única saída deste dia da tua morte cá em casa, pelas cinco da tarde de 10 de Novembro de 2010. O Lenon escreveu assim para a mãe como se fosse para ti


Half of what I say is meaningless
But I say it just to reach you, Julia



(...)
Julia, sleeping sand, silent cloud, touch me


So I sing a song of love for Julia, Julia, Julia

E claro que era para ti. Até um destes dias, Vó Ju."


PS: Hoje, na missa de aniversário de falecimento, eu, que como tu sabes, avó, decidi cedo que a minha relação com a religião seria sempre crítica, o que não me permitiria nunca ser de uma só, fiquei grato com o que te "calhou" nas leituras. O Livro da sabedoria, imagina. Tu, que te distinguiste precisamente por isso. E o dia 10 de Novembro é dia de um homem relevante, um papa, agora santo, o São Leão Magno, o que teologicamente advogou que Jesus tinha um lado humano e outro divino e afrontou os poderes instalados para moralizar a igreja (e moralizou o que e enquanto pôde). Pois do Livro da Sabedoria recortei estas palavras: "(...) Na sabedoria há um espírito inteligente, (...) único, múltiplo, subtil, móvel, penetrante, imaculado, lúcido, invulnerável, (...) agudo, livre, benéfico, (...) estável, seguro, sereno(...). A sabedoria é mais ágil do que qualquer movimento, atravessando e penetrando tudo por causa da sua pureza.(...)". Até um dia, avó.

O momento: Deutschland über alles: Colette / Karine Vanasse

Desde bem pequenino, e mais ou menos uma a duas vezes por ano, como é normal e bastante saudável, apaixono-me por uma actriz e não faço segredo disso. Pois durante os próximos dias só tenho olhos para a Karine Vanasse, uma canadiana do Quebeque que faz de francesa (Colette) na série americana Pan-Am, sobre a qual já escrevi brevemente aqui. A série, que começou agora, teve uma queda livre nas audiências logo no seu melhor episódio, quando a bitola subiu, e que segue as hospedeiras até Berlim, com a ideia de testemunharem aquele que viria a ser o discurso histórico de Kennedy, o "Ich bin ei Berliner", e que pretendia aproximar os EUA e o ex-inimigo Alemanha - e afrontar o muro da vergonha. Isto é sintomático dos tempos que vivemos - não me espanta que os argumentista tentem agora nivelar por baixo a qualidade para não perder audiências, até porque a série é muito cara. Colette, vamos sabendo, tem um passado ligado à França ocupada por Hitler. Nunca aceitara vôos para a Alemanha, mas decide embarcar neste com a ideia de perdoar. Não consegue. A cena é fortíssima no contexto do episódio. Colette toma espanta toda a gente quando decide cantar o hino alemão que foi forçada a aprender em criança. Estudioso que tenho sido destes tempos obscuros, posso asseverar que me recordarei deste momento como uma abordagem exemplar. E forte. Quanto à actriz, Karine, já mandei nota dizendo "senhorita Karine, devo informá-la de que me apaixonei por si nos últimos trinta dias e me manterei nesse estado durante os próximos trinta. Depois disso, integrá-la-ei, com gosto, no meu modesto panteão privativo e acompanharei a sua carreira de perto. Vossa Excelência substitui, como efectiva, Marion Cotillard, que passa agora à reserva. PS: o seu francês do quebeque é das coisas mais requintadas que ouvi desde o sardo :)." Karine, deve dizer-se, tem vencido numerosos prémios, depois de uma carreira em que começou como "child actress". Sobre este meu encantamento pelos universos femininos, surpreendi recentemente um dos meus articulistas contemporâneos favorito, Antonio Muñoz Molina, a resumi-lo num comovente obituário que dedicou ao seu amigo Thomas Mermall, "Un Adiós desde lejos", e que rezava assim: "Era l'homme qui aimait les femmes, el hombre que amaba a las mujeres, no el cazador o el depredador sexual, sino el que vive encandilado por ellas, el heterosexual devoto de lo femenino, menos frecuente de lo que parece". 
É isto. Agora Colette e o hino "maldito":


PG-M 2011

2011-11-09

Agro Humilitatis


A armadura pesa, o Rocinante precisa de descanso, os olhos do Sancho andam marejados de desencanto, não há vento nos moinhos, afinal já escrevi livros e tive filhos, vou disfarçar-me de humilde plantador de árvores e descansar, porque já não consigo ser melhor do que os melhores.

PG-M 2011

2011-11-08

o amor é um só vocábulo não dito por toda a gente



Quando me olhas deixo as frases pelo chão e se me chegas a tocar só em silêncio poderei dizer as mesmas coisas, e são as mesmas porque 


 o amor é um só vocábulo não dito por toda a gente


PG-M 2011
fonte da foto

2011-11-07

Blue Veloso

Nunca o blues - como linguagem íntima que se expressa pela voz das cordas - do Rui Veloso me soou tão bem como neste dueto com a Mariza. Porquê? Muitos "tecnicistas" se atirariam imediatamente a Fenders e Waldens e etecétera, mas a resposta é muito mais simples: as frases da guitarra já incorporam uma sabedoria independente de qualquer apuro técnico, e diz quem o venera e segue há muitos anos, como aliás se pode comprovar aqui.
Ele disse que um dia gostava de gravar um disco só de blues. Até hoje.
Devia estar à espera da elevação dos anos.
E mesmo que a voz do homem tenha refinado, as cordas vibram melhor do que nunca.
Blue Veloso chegou de vez.
Para que se comprove, aqui fica o vídeo deste momento único:

portanto, um dia perfeito de outono

portanto,
um dia perfeito de outono

(o arco raso do sol e a inclinação das sombras
os pescadores de contraluz
ao meio-dia
as pessoas com breves agasalhos na areia
paradas
velhos calados nos bancos a olhar o mar sem
vento
sítios sem amantes infelizes e vozes surdas
folhas em árvores quase todas por
cair
a última manga curta
bosque de écharpes
abraços de frio
quente e tempo
plano

um teatro de fantoches com edital afixado na pequena porta de madeira
onde se pode ler:
"pausa no mundo"),

dizia,
um dia perfeito de outono acontece uma vez na vida e sem despacho prévio,
portanto, dizia,

é hoje.

PG-M 2011

2011-11-06

Ainda faltam muito mais do que 39 degraus (mas estes não)

Primeiro as coisas boas: o Rui Melo merecia um Tony. Caramba. Já passou um dia desde que o vi na peça "Os 39 degraus", no mesmo Rivoli do anel de rubi do Tê, e ainda trago as composições do Rui nos músculos da cara. Doridos. Não sou de riso fácil e ia muito desconfiado. Primeiro, para quem diz que o teatro está barato, convém dizer que quinze euros por cabeça não tem nada de barato. A parte boa é ter valido os euros todos. A outra parte má é querer voltar para me divertir ao lado do primogénito e não poder (eu que não gosto de repetir nada para lá do "Era uma vez na América"), a não ser que haja descontos para regressos com as gerações seguintes pela mão (estive deliciado com crianças institucionalizadas que enchiam a fila da frente: elas dão bem a medida, digamos, primordial da peça: ao  encontro da sofisticação do simples). Ao terço da peça já tinha perdido a desconfiança toda, depois de três peças  que nada acrescentaram à minha aventura neste planeta: aquela do Shakespeare em noventa minutos, que vi em Lisboa e achei boçal (peço desculpa, não costumo ser tão severo - e calo-me quando me apetece ser -, mas isto é como os nus nos filmes: neste contexto, tem de despir), uma do La Feria travestida de peça séria de que já nem me lembro o nome (eu sempre me defendi das peças La Feria, mas lá fui apanhado) e - pasme-se - uma entediante do Thomas Bernhard no Porto. Portanto, estava muito desconfiado com certo teatro (não será o caso da do Thomas) que existe para financiar projectos de maior qualidade (não tenho capacidade para financiador), tal como os maus livros existem para financiar os editores que ainda arriscam em literatura. Mas voltando atrás: depois de falar do desempenho do Rui Melo, no almoço de Domingo, a toda a família, gostava de repetir e de os ver rir ao meu lado. Há fundamentalmente uma prodigiosa imaginação na adaptação para comédia do argumento de Hitchcok feita por Patrick Barlow, que nos ensina a nós, portugueses, uma vez mais, que o que nos falta é quem saiba escrever para teatro e para cinema, porque actores temos muitos - e bons. Rui Melo tem um desempenho notável, mesmo imperdível, e importa dizê-lo claramente: a peça é brilhante e marca quem a visita. Mas a maior surpresa é mesmo Vera Kolodzig. Nem me digam que "para quem a conhece não é surpresa nenhuma". Porque já não se fala de potencial, mas de certeza: abre a matar com a melhor personagem da peça, Anabela Schmidt, e é a forma como enche o palco e ocupa o espaço cénico, melhor, é a forma como os domina, que impressiona. E tem piada, a Vera, muita piada. Mantém o nível altíssimo ao longo das quase duas horas de movimento, e tem a particularidade de estar largos minutos imóvel numa posição desconfortável, o que nos dá a medida simbólica do grande teatro: esgota fisicamente o actor maior. Ao longo da vida vi grandes peças de teatro: lembro-me da "Tempestade", de "O que diz Molero" e da melhor de todas, por ter conjugado na perfeição os principais factores de uma peça de teatro, espaço, texto, actores, que foi o "Jardim Zoológico de Cristal", do Tenesse Williams, em que a actriz Maria do Céu Ribeiro impressiona: quando está a agradecer, no final, testemunhamos a violência da personagem sobre o seu corpo, o olhar, aquele olhar. Numa comédia, temos de extrapolar, porque não é transparente nos olhos dos actores, tampouco na sua postura, mas não há dúvida de que a Vera Kolodzig, o Rui Melo, o João Didellet e o Joaquim Horta se arrasam e arrasam - há, inclusive, dias em que fazem duas representações. Pois é verdade que, se não nos pomos a escrever, ainda faltam muito mais do que 39 degraus para que caia a desconfiança de tipos como o subscritor, mas não é por causa desta peça. Parabéns aos actores, aos encenadores e aos produtores. Tony para Rui Melo. "Antónios" para Vera Kolodzig e João Dildelet. O Joaquim Horta cumpre, mas, claro, não arrebata, o que não desmerece o actor: a sua personagem é a única que se mantém do princípio ao fim e é a menos histriónica.
Quanto aos dramaturgos: que afiem os lápis.

PG-M 2011