2012-05-07

As vísceras simbólicas

Mando. Venham falar-me de crise, de futebol, de economia, de medição de audiências, de política, de escola, depois de vermos este filme ou ouvirmos o Fernando Lopes. Mando-vos decididamente à merda. Depois de uma das mais poderosas cenas iniciais de qualquer filme, a incubadora de pequenos soldadinhos ao som do "You and Whose Army", dos Radiohead (cena de abertura aqui ou no fim do post), e o miúdo que nos peseguirá todo o filme a olhar para nós com um misto ódio e de apelo que dilaceram, caímos de joelhos. Tinha uma dívida para com ele, o filme, mas não a podia pagar enquanto a voz que emudece não resolvesse falar. O que me faz render um tributo tão intenso e emocionado ao filme do canadiano Denis Villeneuve, "Incendies" (A mulher que canta), é o facto de ter reconhecido o processo e o resultado que eu próprio experimentei com o meu "A manhã do mundo". Qualquer pessoa que abrande para pensar, viver, estes momentos, a morte de três mil pessoas em duas torres que colapsam, o ataque de um autocarro em que cristãos fundamentalistas fazem mira a crianças, e, se de mira falamos, a forma como os snipers de qualquer fé abatem qualquer pessoa que lhes passe no centro do alvo, e de repente um nazi a executar uma mãe judaica ou um pai judeu a executar um alemão, um árabe a degolar um israelita ou um israelita a seviciar uma árabe até à morte, soldados americanos a urinar sobre soldados iraquianos mortos em combate, ou todos a gozar com todos, a humilhação dos livres. Está aqui o mundo. Em 2008 e 2009 recuperei o material cuja investigação me tinha deixado obcecado em 2001 e várias opções livres tinham feito desaparecer temporariamente do acesso ao grande público, para não lhe chamar censura. Não por causa de qualquer dor ou dificuldade literária, mas por ser muito difícil deixar entrar sem filtro centenas de histórias de perda nas torres, quase todas com aquele elemento  perturbante do acaso: ele era para não ter ido, ela foi mas nunca ia, eles atrasaram-se e salvaram-se. E eram tantas, tantas histórias para contar que a única opção foi contar todas, e ao contar todas temos o problema do simbolismo. Como é possível alcançar as vísceras simbólicas? Como é que com personagens planos, sem muita carne, sem muita idiossincrasia, se consegue tocar a carne? A solidão desta aventura acabou, no meu caso, duplamente em 2010: por causa do contacto com os familiares das vítimas, que acolheram e sintetizaram para mim esses sentimentos e imagens e empatias em roda livre, os tais que ficaram para cá do filtro que eu quis ser, e por causa de Incendies, que veio ao mundo no final de 2010 e "explodiu" justamente por todo o lado durante todo o ano de 2011. Até o sofrimento da protagonista é deixado por Denis em aparelho, ora omitindo o que podia ser mais gráfico e dando-nos a entender o que ela sofre sem o mostrar. O final do filme, a mensagem expressa, quase despudorada e sem vergonha, é a mais bela e necessária possível: o simbolismo visceral, afinal, é possível e aqui está. E agora Fernando Lopes, aqui e agora, no mesmo lugar que chamei de "As vísceras simbólicas". Porque sempre a paixão lhe subiu na voz e no sentido de cada fotograma. Depois de à morte terem falado os amigos, falam agora os que se sentem roubados pela sua ausência. Aconteceu-me com o Fernando Lopes, algumas (não poucas) vezes, a vontade de o ouvir o dobro do que o deixaram falar, de o ter a voar em torno da consciência cultural portuguesa muito mais tempo, de ver quem podia dar-lhe muito, mas muito mais, tempo de antena. Eu pensava, com o meu fosso geracional por tapar, que ele não era verdadeiramente apreciado e acarinhado. Era essa a ideia que dava. Não ouvi muitas vezes, ainda em vida, subirem-no ao pedestal, como ouvi na morte. Ora, no caso do Fernando Lopes, deviam ter exaurido o tempo, não houve utilidade nenhuma em deixá-lo relativamente discreto no limbo mediático. Ele merecia ter sido o símbolo do que era e perguntado todas as vezes que o cinema soltava um gás, como fazem com tantos medíocres que passam a vida a dizer as mesmas mediocridades só porque aparecem bem e fixam audiências ou pulam nos seus biquinhos de pé curto. Ora, o Fernando Lopes era genial (oh, e como eu recuso o abuso a que a palavra "genial" está sujeita) e é nosso obrigação, como país, deixar de correr atrás dos pacóvios encartados e dar palco aos sábios. Pelas vísceras simbólicas. Caiamos de joelhos.


PG-M 2012
foto é captura e ecrã do cena do video supra, mencionada no texto

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