2012-05-15

Sassetti e Marsé

Porque esta semana ouvi em Sassetti e li em Marsé novas propostas para o lugar da humildade na arte, e andava quase convencido de que era impossível servir-me da humildade antes que algo de redutor se sirva dela como uma peça relevante no nosso edifício.
Fui ouvir o que o Sassetti dizia, porque, erradamente, nunca me tinha passado pela cabeça que merecesse a pena ouvir o que pensava. Mais uma lição aprendida. Não que eu não tome atenção aos outros, mesmo de lugares e áreas diferentes daquelas a que me dedico. Tomo. Ouço estranhos, ouço desconhecidos. Procuro-os. Procuro os que erigem o conhecimento sem escola. Pois ouvi e vi, na entrevista que o Sassetti dera ao Goucha em Dezembro de 2010, uma sabedoria rara, que me fez correr atrás de uma outra, que ele dera ao Carlos Vaz Marques em 2008, e que eu dispensara. Lá estava o que eu procurava. O facto de o Bernardo Sassetti ter entrado muito novo no meio artístico, virtuoso como era, e de o terem "consagrado" demasiado cedo. Dizia ele que não percebia essa fúria de dar como consagrados os artistas. Dizia também que, quando começou a ser alvo de atenção, experimentou uma mudança de certos olhares (os olhares "tem a mania", as opiniões cínicas que tentam ferir a pureza de intenções do artista) que, não só não lhe agradaram, como fizeram com que se afastasse. Experimentou a competição desenfreada de Nova Iorque e também soube, imediatamente, que ele não era aquilo. Em Londres encontrou o estar cultural e o respeito artístico sem umbigo. Andou onze anos em tourné por todo o mundo, voltou cansado e sem vontade de se submeter a novas "consagrações". Estava lentamente a voltar ao centro. O seu movimento ia levá-lo a ser cineasta, tinha pelo menos quarenta anos pela frente para nos deixar o absoluto empenhamento na excelência, por um lado, e a vontade de ser um tipo normal, pelo outro. Essa vontade era activa, ele cultivava-a tão intensamente como punha na ordem presunçosos que lhe pediam músicas com deadlines de duas semanas. Fiquei cheio de vontade de ouvir tudo o que ele foi dizendo. Era visível a pureza, a transparência, de cada palavra. Sei que agora é fácil dizê-lo, mas tê-lo-ia dito se me tivesse apercebido de que aquele homem vinha dizendo o que eu queria que fosse dito, faria dele um porta-voz de luxo. Afinal, as gargalhadas que eu ouvi ali ao lado do espaço Leya no fim do dia 10 de Junho de 2011, um dos mais importantes da minha vida, onde cumpri o sonho de me sentar numa feira do livro a assinar livros meus a pessoas a quem deverei sempre mais do que elas a mim, afinal as gargalhadas do Bernardo Sassetti nesse fim de tarde quente e grato, eram a paixão do génio. Reconheço que há génios nas artes cujos sinais de expressão são geométricos ou confinados, como as artes visuais ou musicais. Sassetti era-o, antes de mais, por ter aprendido a ser um rapaz simples quando tudo o empurrava para o contrário. É inspirador. Ele perturbou-me com a sua genialidade nas frases da "Canção de Alterne", a melhor canção do Rui Veloso, mas tocou-me ao explicar que a estranheza na mudança de certos olhares e as certezas dos que tudo sabem  podem realmente empurrar os que "têm a mania" para a sombra, podem fazê-los querer legitimamente desaparecer, como disse o Vila-Matas ao mesmo Vaz Marques. E, como explicou melhor ainda Juan Marsé, que já li recusando a banalização da literatura, e é homem que não tem cursos superiores, porque teve de ir trabalhar (como o nosso Saramago) - não teve a escola toda, mas tem a escola toda - não importa a língua, mas a linguagem. Podemos deixar entrar o sotaque brasileiro, ibérico, britânico, a música, com e sem silêncio, a pintura, não importa, a arte é linguagem. A arte é linguagem e a linguagem manifesta-se de todas as formas. E eu tenho pena de não o poder dizer ao Bernardo Sassetti. Mas também sempre tive pena de não o dizer ao Cervantes. Que continuarei a partir com rocim e escudeiro por essas colinas acima, que continuarei a decepar as pás aos moinhos que me façam frente, e nem sequer me digam que o elmo de mambrino é uma bacia de barbeiro.

PG-M 2012

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