2012-05-28

Virgíneo, edulcorado, cálido, loquaz


Que me encanta. Comove.
Já to disse tantas vezes: Aramburu, que é um nome que eu ouço agudo mas os espanhóis dizem grave, reconcilia-me com a vida.
A - ram - bú - ru. Dizem eles.
Na livraria de Vigo perguntei pelo último dele na Tusquets, "Años Lentos", mas sabia o que verdadeiramente lá ia buscar. Aliás, era uma manhã para celebrar Aramburu, porque desde que o conhecera ainda não tinha ido a Espanha com esse propósito: estar na livraria em busca de Aramburu.
Sabes como é. Vamos devagar pelas prateleiras. Não adianta ser sôfrego. Pode não haver. Há que contornar os outros clientes, esperar pacientemente pelo senhor que tapa a letra "A", descobrir outras coisas. A estante dedicada ao galego. A estante dedicada aos livros de bolso, que os espanhóis dizem bolsillo mas os galegos dizem peto. Livros de peito, tão bonito. Lobo Antunes, como serão as apneias antunianas em castelhano? E Mia, quantas palavras dará Mia ao Espanhol, quantos lamentos e exaltações aos seus tradutores? As dedicatórias de Saramago em espanhol. Que já são quase todas a Pilar. E então vem àquele espaço entre os pensamentos e os livros, o primeiro metro entre nós e as estantes das livrarias, aquele odor que nos amolece o  peito que é o calor que nos enfraquece as pernas. Faz olhos brilhantes e gargantas secas.
Comove.
Finalmente vou ter só para mim "Los peces de amargura", o primeiro que devolveu ao Aramburu a ameaça da sua genialidade e o encheu de prémios. Mas vou dar um "vistaço" a todos. É assim que se diz "vista de olhos" em Vigo. "Vistazo". Eu tentei explicar à menina que me acompanhou na recolha de todos os Aramburus da livraria o que era "vistaço" entre os lusos, como eles gostam de dizer nos resumos dos futebóis. Contei-lhe o crime de não traduzirem Aramburu em Portugal, mas depois disse-lhe, falível e incoerente como é próprio dos pequenos, que ainda bem, porque eu queria lê-lo numa das suas línguas, melhor espanhol, que basco não entendo.
Fiquei ali a lê-lo muito tempo. Estremeci com uma dedicatória em particular.
Paguei o "Peces de amargura" e saí para a Calle del Principe e não estava ninguém.
No meu livro Aramburu escreve uma coisa que ainda me faz sentir mais pequeno, a pensar se algum dia lá chego: "Dedico este libro a la impureza".
Mas a dedicatória que me emocionou está agora a desfazer-se.
Sei o seu sentido perfeito, mas já não as palavras exactas.
Não faz mal, porque a disse, tal qual, à minha mulher quando ela chegou. Pus o livro no peito Nunca me ocorrera declarar o amor assim. Sorri. Estava orgulhoso, a ler o meu livro na baixa de Vigo. Começou a chover. Convoquei as palavras, antes que partissem de vez, e a vez era a próxima visita  a uma livraria espanhola. Ela chegou, a mulher minha e eu, com o livro no peito,

"À minha mulher, que me enche de felicidade cada vez que encolhe os ombros."

Ou assim.
Não sei se algum dia cresço para abraçar o Fernando.
Pode ser que ele me diga

"Y es que no conozco a un solo hombre a quien pueda calificar de extranjero"

E eu o tente abraçar.
Fernando,
Ainda ando a deitar Sassetti.
Ainda ando a deitar Sassetti para refrear o arrebatamento.

Pedro Guilherme-Moreira 2012


4 comentários:

Rita Bonet disse...

É por isso que gosto do que escreves, porque nao te devides...ficas, por momentos.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

:) Essa é uma conquista diária. Nada está adquirido. Mas quando vejo Bonet do outro lado sinto outra coisa: que quem ganhou com mais Bonets por perto fui eu, não elas comigo:). Obrigado!

Rita Bonet disse...

: ) Além disso es um doce. Era divides, nao devides : ) Beijos e boas feiras.
Tenho pena de estar tao longe...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

eu percebi, e como sou um ibérico aceitei serenamente. Feiras em Espanha seria uma maravilha. Eu tenho uma certeza muito íntima de que o meu próximo vai ser urgente ao espanhol:). Por isso, nessa altura vou para perto. Aliás, é um privilégio absoluto este momento anual com os leitores em carne e osso. Eu fui só isso, leitor, durante quarenta anos, e sei a festa que era para mim.