2012-05-17

Vou buscar pão


Eu limpava o pó a uma certeza com um trapo
excisado de glorioso pano
da louça
e veio à estrema
o álbum da prateleira
do meio
que eu abri para aliviar
o mesmo dia de maio
e então vi-o, ao filho que  não via
há precisamente quatro
horas
de beijo a fugir e olhar dentro
do celular
está maior do que a mãe
o corpo aos primeiros meses
a adentrar, primordial,
e tive a saudade que fez do peito
ónus
e enquanto sacudia na ombreira
o pano vi no relógio
ele a voltar
quando voltou
abracei um proto-adolescente com os braços inertes e a mochila nas costas
olá filho, obrigado
pelos dias desiguais
pelo amor sem condição
e a cara dele torcida,
a libertar-se dos beijos,
por me pores no lugar certo
da nossa casa pequena,
que nojo pai,
larga-me,
vi há pouco aquela foto em que a mãe está a ler uma revista no carro
e tu ao vidro com essa cara de malandro
depois vi mais dez, vinte, e sempre tu
como metrónomo
como piano
como sal
e tentando libertar-se o filho perguntou,
percebendo as lágrimas mas velando as emoções,
o que tens tu, pai?
o existencialismo
te pegou?
eu respondi não, rapaz,
foi a celeste do facebook
vou buscar pão
e à noite os Creedence nos bares
da Cândido
dos Reis.


PG-M 2012

5 comentários:

SEVE disse...

Bonito. Obrigado!

E o vício dos livros é comum (de dois)

Um abraço

Naza Bispo disse...

Achei,muito bonito o texto...embora tenha uma,ou outra palavra,um modo de falar diferente do que costumo ouvir,e ler...mesmo assim gostei...

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, SEVE, obrigado, Naza. É muito bonito e curioso que diga isso, Naza. Afinal é suposto que a poesia fala com a linguagem de dentro, que é diferente em cada um de nós:). As palavras "difíceis" são a tesoura e a moldura. Cortam e emolduram o "kitsch". É uma técnica antiga:). Muito prazer.

Unknown disse...

Bastou-me a primeira linha deste poema...Magnifica frase! que merece figurar num Citador devidamente assinada pelo seu Autor.
Pela minha parte não duvido que a repetirei, sempre que possível devidamente referenciada.
MJQ

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Anda a envergonhar-me, MJQ, mas também a aquecer-me o coração, e isso é precioso:). Agradeço-lhe.