2012-11-30

Custa-me



Custa-me não ter sempre Guimarães.
Custa-me não estar sempre Xico e ser d'Holanda.
Custa-me sem a Conceição, a Rosário, a Lena, a Glória, a Manela e os que virão.
Custa-me literatura dentro da voz da cidade estrangulada por descontos, lapidada pelas grelhas e a excelência em directrizes. Custa a escola toda sob as curvas dos quadrados. Custa-me os miúdos e a distância.
Custa-me a pastelaria do senhor Avelino sem o lugar dos dias, dos cafés que não se passam nem se mudam. Custa-me a dona Olívia não descer. Custa-me tudo ao mês, ao ano, se nos distraímos à década ou à vida.
Custa perder-me dos rapazes e raparigas que deram tudo de volta.
Custa-me o peso do coração, a leveza dos pensamentos, custa-me a fotografia que não se detém, o auditório da Xico cheio de luz e nós sem medo de olhar as caras todas uns dos outros, custa-me a brevidade, custa-me não repetir, custa-me o brilho encantado da Cristiana, da Rita, da Rute, da Cláudia, da Bia, do Bruno, do Luís, da Carla, da Bruna, da Ana, da Sandra, de pausas doces sem nome, custa-me não parar o tempo.
Custa-me eu de volta em cada olhar ou em flocos de cabelos ou em sorrisos tímidos, o meu braço há vinte anos no joelho e o que ficou por dizer e nenhum escritor vindo por mim.
Custa-me a morena do fundo da sala a dialogar com o meu silêncio.
Custa-me que esta declaração de amor não caia da rede por uma clarabóia da escola e passe na instalação sonora ou se fixe com fita-cola transparente na porta de cada turma que me enlevou e no casaco de cada aluno
por tão pouco enlevado.

Custa-me aprender o silêncio sem os bombos do Pinheiro.
Custa-me tanto a norte o canto celta que eu usei para chorar.

PG-M 2012

2 comentários:

Sabores Exclusivos disse...

Excelente, caro Pedro Guilherme. Obrigada. Bjos
Ana Campelos

Pedro Guilherme-Moreira disse...

Obrigado, Ana.