2013-02-05

À mulher (des)conhecida

Sou incapaz de explicar o que sinto por ti.
És mulher, tens uma beleza que não obedece à convenção, és imperfeita, normalmente mais nova do que eu, e é assim porque parte do meu encantamento reside no infinito da tua possibilidade.
Não quero nada contigo, sequer um abraço, talvez uma conversa (teremos poucas coisas em comum e talvez o silêncio), só sei que me encantas e gosto de te espreitar, de sentir a tua mancha, de prover o teu reflexo, mas é impossível, neste século como no fim do outro, advogar este encantamento sem sexo.
A primeira pergunta que me faço é porque é que isto não me acontece com homens.
Não sei responder.
Sei que provavelmente te faço a corte, sejas empregada de café ou de livraria, recepcionista de hotel ou paquete de pizaria, tens normalmente menos formação académica do que eu - porque anseio intimamente o mínimo de compatibilidade entre nós. És conhecida da minha mulher, de quem nunca escondo as minhas mais profundas empatias - escondê-lo é meio caminho andado para que o sexo seja uma espécie de falso motivo de libertação: não poucas vezes pensamos que temos o direito a não estarmos condicionados, cerceados, limitados à intimidade com uma só pessoa, e como não sabemos esperar pela lógica serena do tempo, cumprimos essa libertação quase irracional pelo sexo com outros, incumprindo a própria fantasia. Nunca fazemos o exercício da ausência - o que serei eu sem eles, se não os ter é condição dessa liberdade aparente?
Normalmente tenho saudades tuas, e se desapareces das rotinas onde te encontro sinto a tua falta. E mesmo que te esqueça, nunca é rapidamente. Às vezes há até um desespero, algo muito parecido com paixão, de não poder saber de ti e de qualquer diligência para te encontrar ser socialmente inaceitável.
Acredito que não sou o único a ter tantas mulheres assim, mulheres que muitas vezes são também mulheres da nossa vida e que tendemos a ignorar por pequenez. Mulheres a quem deixaríamos um recado inebriado de luz, mas de quem não queremos o corpo. Mulheres que completam algumas metades por cumprir: porque nenhuma nunca poderá ter tudo.
As mais das vezes tendemos a esquecer que a nossa própria mulher tem as suas figuras e que, quando  sabemos conter o frívolo, somos ambos maiores do que o espelho ou a consciência devolve.
Eu, mulher, eu sou apenas

todo homem normal


2 comentários:

Isto e aquilo disse...

Muito bonito! Gosto imenso...

Isabel Mouzinho

Pedro Guilherme-Moreira disse...

obrigado, Isabel. Passei pelo teu blogue. Muito bom. Beijos, PG-M