2013-04-13

De como grunhos hetero podem superar crises de identidade e limpar o Olimpo

Olá, chamo-me Pedro e sou um grunho hetero. Não, nem tiro a Isabel Silva do canto azul, nem a Patrícia Carvalho do canto vermelho. De resto sim, vou desmontar, fazer implodir, metralhar, os templos de todas as outras divas. O que me trouxe a este grupo de apoio foi o facto de uma amiga relativamente conhecida me ter mostrado, como daí para aqui, as súplicas de amizade no seu facebook. O quadradinho vermelho marcava setenta e nove, setenta e nove só naquele dia. Na coluna dos pedidos, à esquerda, e logo pelas miniaturas das fotografias dos suplicantes, um em cada cinco era um tipo de tronco nu, sendo que, desses, um em cada dois era praticante de culturismo e o outro um decadente maduro com verdadeiros seios a precisar de mecanismo de suporte, não sei, um corpetezito, um estrofião, qualquer coisa menos aquilo e a cerveja à frente deles na mesa de uma esplanada algarvia. Um em cada dez mandava mensagem a instruir o pedido, e foi pelo conteúdo dessas mensagens que percebi o limiar da existência e reconheci o ridículo. Ou sofisticados intelectuais a exibir os seus dotes (mais valia mostrarem os seios, como os outros), ou elementos idosos com testemunhos plangentes de identificação com a dita amiga, ou verdadeiros broeiros cujo discurso equivaleria a uma violenta pancada nas costas à entrada da tasca, ou ainda tipos que se lhe dirigiam como se tivessem tido com ela mesa, copos e cama na véspera. Assustador. Ora, depois disto, e durante uns dois dias, olhava para os meus iguais com verdadeiro nojo. Apercebi-me até que o meu subconsciente procurava os espécimens mais enxutos, mais limpos, mais cuidados, ou seja, mais gays, para salvar a honra do edifício masculino. Alguma coisa está mal quando o consciente e o inconsciente de um grunho hetero procura modelos gays para se limpar. Ora, nesses dois dias pedi a uma outra amiga, esta gordinha e pouco fotogénica, para fazer uma experiência. Muda a foto de perfil, põe uma coisa sexy, uma modelo qualquer. Mas eles vão ver as outras fotos. Não importa. De facto, eu sabia, porque conheço os meus iguais, que "eles" não iam ver as outras fotos. O que define um grunho hetero é a ditadura do pénis, por milissegundos que seja, o suficiente para carregar num botão do facebook. O pénis não pensa, é estúpido, mesmo quando toma comprimidos. E assim foi. A minha amiga gordinha, no dia seguinte, tinha mais de cinquenta pedidos novos de amizade. E ali estavam as fotografias de grunhos a precisar de corpete, as mensagens de sofisticados intelectuais a exibir os seus dotes em vez de seios, os elementos idosos com testemunhos plangentes de identificação, os verdadeiros broeiros da pancada nas costas à entrada da tasca, os tipos com excesso de confiança. Nós somos assim, meus irmãos. Saravá. O efeito em mim foi devastador. Porque não é minha intenção considerar experiências homossexuais antes do apocalipse na tal ilha deserta em que não há mulheres, e mesmo aí sabe deus, percebi que era imperioso fazer uma desintoxicação. Aqui estou. Sim, sinto nojo. Já não consigo olhar para as nossas barrigas de cerveja e para os nossos hábitos grunhos com o mesmo carinho, já não me reconheço (nesse momento comecei a choramingar, e alguns grunhos do círculo levantaram-se para me confortar e eu, de forma tão brusca que a voz se me falhou e deu falsete, gritei: laaaaarguem-me! O caldo estava entornado, a transformação tinha começado;) Não, não peço mais amizade a mulher nenhuma, mas a Isabel Silva e a Patrícia Carvalho ficam no meu olimpo de éter, a primeira como diva-speedy-gonzalez, a segunda como diva-cool, como os dois últimos cigarrinhos no maço de Zeus, até porque se as limpasse era definitivo. Tinha deixado de ser grunho, tinha passado a ser, eu próprio, a diva.

PG-M 2013

3 comentários:

Virginia disse...



delicioso.....

Devia ser partilhado no FB!!! LOL

Pedro Guilherme-Moreira disse...

está partilhado no FB, pois:). E aprovado pelas divas visadas, que eu tenho sempre o cuidado de não mencionar nomes de figuras menos públicas sem aviso às ditas.

Pedro Guilherme-Moreira disse...

ah, e obrigado, Virginia:)