2013-07-16

A tese de um grande amor


Faço amanhã noventa anos. Hoje enterrei a minha mulher no lugar que ela escolhera, à passagem dos sessenta e cinco e a pretexto de a morte lhe parecer mais distante e a vida mais urgente, naquela alameda do cemitério onde havia um banco debaixo de uma faia e onde eu lhe podia continuar a ler as histórias que nos comoviam. Eu só tinha pedido a deus uma coisa: que a deixasse sobreviver-me, mas não tive essa penúltima vontade cumprida. Foi um enterro bonito, e no fim do funeral libertei-me dos braços da minha filha que me queria conter no mundo dela, estávamos na paragem de autocarro e o carro fúnebre a afastar-se já sem o caixão, eu insistia em ir a pé, são só dois quarteirões até à livraria,
"Mas para onde vai agora, pai? Não é melhor ir descansar? O que é que vai ficar a fazer na city? Eu levo-o a Montauk, vá, pai, pelo menos a Great Neck, ficar na city é uma violência, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai, pai.", dez vezes pai,
e ainda consegui caminhar os dois quarteirões que separavam o cemitério da livraria, o mais violento nem era arrastar as pernas, aprendi cedo a técnica dos passos pequenos que enterneciam as minhas visões dos velhos no central park há mais de oitenta anos, quando o "Wedding" do Altman abriu o festival de cinema de Nova Iorque e o meu pai, desiludido, o censurava à sombra de uma velha magnólia depois de aturar a minha velha mãe toda a manhã porque eu não tinha idade para ir ver estas coisas e afinal cheguei aqui, aos noventa, sem mazelas morais.
O mais violento era ocupar uma mão com a bengala e a outra com o volume da Harper da primeira edição em inglês do "Life and Fate" que a minha Ida e eu lemos toda a vida àquela luz leitosa da janela da frente de Garden Street, 1, que era o único lugar da casa onde conseguíamos suster a respiração a que sempre  nos obrigara o livro, eu já sabia, mais para o fim e porque ela já não falava, que os olhos tristes da Ida só me pediam para não ler o livro porque ela já não tinha fôlego nem ouvido para a beleza concisa do russo.

Este livro estava em nossa casa há exactamente setenta e três anos e nada me faria separar dele, nem o mundo da minha filha, que ela definiu em segredo ao meu genro deste modo,
"Viste como me olhou com aquele ar possesso?"
e o genro "Já não deve durar muito", e não, de facto, mas dito assim, bem explicado e junto a mim, como se o meu entendimento estivesse toldado por vida a mais, era amargo, há anos que eu e a Ida estávamos habituados a ser comentados a menos de um metro e a percepção de uma cabeça jovem é tão má e a urgência de atropelo tanta que se limitavam a perscrutar a nossa capacidade de percepção durante os primeiros cinco segundos, prosseguindo depois a desonra. Apesar disso, eu e a Ida ríamos desalmadamente quando, depois destas recepções familiares, explicávamos um ao outro alto, para que a idade tenra dos nossos agressores ficasse exposta ao nosso próprio ridículo, que enquanto os músculos do pescoço tentavam reagir ao desplante já a família tinha partido aliviada com as mesmas frases de balanço nos SUVs, ouvidas por genros e noras mas ditas por filhos e filhas,
"Lembra-me para nunca mais aturar os velhos."
Os nossos filhos, mesmo a filha que nos tentava esmagar com o mundo dela, amavam-nos certamente, mas eu não podia nem queria dividir a minha culpa ao meio enquanto me arrastava para a livraria, eles teriam a culpa deles inteira para reconfigurar a forma de estar no mundo porque a mãe deixara de estar e há uma inesperada resposta do corpo que inclui o próprio chão que se pisa e deixa de estar porque faz parte dos pés e os filhos, pelo menos pela arte, devem preparar-se para esse momento, não sou eu agora que vou cuidar desse vazio, eu sou o lado mutilado de um par que acaba de alcançar a eternidade, foi ela que lá chegou primeiro, eu só tenho de fazer uma ou duas coisas e já vou.

Eu não divido a minha culpa porque preciso de tê-la toda quando chegar à livraria e, enquanto sondo as novidades, confirmo pelo canto do olho que a empregada, agora também dona, ainda trabalha lá. É que, certamente para vossa surpresa, a tese de um grande amor não é sobre o meu amor, imperturbável e perene, sereno e distendido, tão imenso que provavelmente infinito, pela Ida que hoje perdi de colo, não de lembrança, porque ela, claro, mesmo acamada e limitada por causa da garrafa de oxigénio encostada à mesinha de cabeceira do lado direito da cama, me dava colo a todas as horas do dia, esperava que eu dobrasse o corpo - e agora demorava tanto -, e quando eu abandonava toda a gravidade e me abandonava a mim de alma entre os lençóis ao encontro dos nós dos dedos dela, ela retirava o bocal da máscara para que tudo fosse nosso e sem intrusos, ela formava o colo e acariciava-me o cabelo dizendo sempre, nos últimos vinte anos, és um menino pequeno de cabelo branco, nunca vais crescer.
Hoje, por um minuto, um só minuto, quando as cordas de poente desceram mais depressa do que as de nascente e o caixão ficou inclinado para a cova, senti-me velho e inquieto.


Aquela livraria abriu tínhamos nós trinta anos.
A filha do dono, Penelope, tinha quinze e circulava entre os livros afastando-nos a mão das mediocridades. Aquilo impressionava-me tanto, e tanto impressionou a Ida, e tanto impressionava todos os que tinham a sorte de a ter entre as estantes, esperando o que nos trouxesse. Aos vinte anos começou a falar fluentemente de literatura, mas continuou essencialmente um silencioso anjo literário. Aos vinte e cinco fiz os meus quarenta e sabia que uma sexta-feira sem ela me provocava dores torácicas que eu incialmente identifiquei como alguma ansidedade ou problema cardíaco porque estava desabituado de dores torácicas não motivadas, até concluir, intimamente, muito intimamente, que vivia um amor paralelo e impossível.

Sei que a Ida, como todas as grandes mulheres, se tivesse tido outra morte, dessas que permitem a consciência de chamar quem mais amamos para lhes dizer coisas definitivas, me teria dito para não guardar mais nada para mim e que sabia, pois claro que sabia, como eu sabia do Karl, o primeiro amor dela, e sempre o geri com a minha limitada sabedoria, ao ponto de no funeral do Karl ter beijado os lábios da minha mulher sem palavras e nos olhos ter posto a mesma frase, que sei, sempre soube, pois claro, que nada nos pode curar do primeiro amor e que se convive erguido com amores assim, impossíveis para gente séria. Mas a Ida extingiui-se como uma vela no último dia, não foi a tempo de mais nada senão extinguir-se como todos desejam, comigo ao lado a apertar-lhe a mão que finalmente me desenformara do colo.

Penelope tem agora setenta e cinco anos e é dona e empregada de si própria. Ainda tem cabelos compridos impróprios para a idade que pinta de preto, e a frase é mesmo assim. Penelope nunca abandonara a estética azeda do negro para que os homens pudessem suportar mais facilmente os seus olhos verdes.

Chegar sozinho à livraria e Penelope estar entre as estantes foi perfeito. Já posso morrer. Não teria sido preciso explicar à minha Ida, nem a Penelope, que o amor pela livreira não incluía o corpo, era só uma rotina tão impossível de desertar como o próprio amor que se instalara no peito em paralelo com outros maiores. Agora Penelope, depois de modernizar o espaço, também servia cafés e com os cafés trazia os livros, como sempre, até porque a minha idade já não permitia grandes périplos entre estantes. Nesse dia, pela primeira e última vez, sentou-se em frente a mim do outro lado da mesa que era um perfeito círculo branco. Trazia a mesma edição da Harper do "Life and fate" que vira em nós e pousou-o cabeça com cabeça com o meu exemplar, como se encostasse a dela à minha. Pegou-me na mão velha e nada linear com as dela, sempre perfeitas, e eu disse, antecipando-me,
"Havia sextas-feiras em que eu sentia um som sumido na garganta e quando saía daqui sem o dizer ia com uma dor tão difícil de suportar." E depois a Ida dava-me colo, como se quisesse dizer que para o amor dela não havia limites.
"Mas para o nosso sempre houve"
Quando Penelope disse isto, "nosso", eu fixei-a bem nos olhos e a ansidedade, uma ansiedade trazida à superfície do peito por mais de setenta anos, desapareceu, eu não queria beijá-la nem ser beijado, não queria tocar nem ser  tocado, apenas a compreensão de que a amei toda a vida e assim continuaria, no dia da morte da minha mulher tentando gerir o livro e a bengala e os passos pequenos que eu aprendera com os velhos do central park enquanto o meu pai verberava o Altman debaixo de uma magnólia.
E eu, em frente à bela pedra tumular de Ida, no banco debaixo da faia, li assim do Life and Fate:

“There was something terrible, but also something sad and melancholy in this long cry uttered by the Russian infantry as they staged an attack. As it crossed the cold water, it lost its fervour. Instead of valour or gallantry, you could hear the sadness of a soul parting with everything that it loved, calling on its nearest and dearest to wake up, to lift their head from their pillows and hear for the last time the voice of a father, a husband, a son or a brother...”

Quando eu morri de amor um ano depois, Penelope veio despedir-se e ficou para o fim com um ramo de malmequeres, ficou mais de uma hora depois de todos terem saído e eu sei que teria gostado muito de dar o ponto final nas costuras dos nossos destinos, se cá estivesse. Assim, Penelope ficou sujeita ao mundo comprimido da minha filha, que se lhe dirigiu neste termos
"Olá, está boa?Por aqui?"
Mas eu sei que a minha filha, sem engenho para em vida prestar culto aos meus amores, me saberá amar na morte e um dia ouvirá do filho livreiro de Penelope a história que nem eu, nem Ida, nem a própria Penelope, algum dia contaram sobre a terra, a tese de um grande amor dentro da vida de outro. Que é uma tese sobre a eternidade.