2013-11-11

A confissão impertinente de Solomon PaloblyK (I)


Pela tese de um grande amor, já sabemos que ele morrerá com a provecta idade de noventa e um anos no ano da graça de dois mil e cinquenta e nove e que tinha dez anos em mil novecentos e setenta e oito, quando o pai, contra a vontade da mãe, o levou a ver a estreia de Wedding, de Robert Altman, no Festival de Cinema de Nova Iorque.

Sabemos também que morou em Great Neck, um subúrbio rico desta cidade, na Garden Street 1, e que tinha casa nos Hamptons, para onde não foi no dia onze de setembro de dois mil e um, porque morreria nas torres, numa primeira versão d'A manhã do mundo, e - spoiler já de seguida - salvar-se-ia delas numa segunda.

Finalmente, e porque no-lo confessou, sabemos que toda a vida amou Penelope, a empregada de café filha do dono, depois também livreira, da livraria onde ia sempre com a mulher, Ida, mulher que enterrou a dois quarteirões dali, e a quem deixou de ler Life and Fate, de Vassili Grossman, pouco antes de morrer, por ela já não ter fôlego nem ouvido para a beleza concisa do russo.

Neste passo da história, é importante dizer que Solomon foi criado como judeu e que nunca na vida, pelo menos até ao dia do seu trigésimo aniversário, se confessou a um padre católico. Mas fê-lo precisamente no dia dos seus trinta anos. E, porque isso aconteceu, Solomon tem alguma coisa do senhor Palomar de Calvino, do senhor Bartleby de Melville e do senhor K de Kafka. É hoje facilmente inteligível a lógica do seu pai quando lhe escolheu o estranho segundo nome, e cuja decisão foi tomada ao observar o olhar do filho no berço depois do primeiríssimo sono em ambiente não securizante: Paloblyk. Solomon ainda não tinha um dia de vida quando o seu pai decidiu chamá-lo de PaloblyK.

Chamou-lhe Solomon PablobyK qualquer-coisa (não vem à memória o apelido).

Solomon PaloblyK dirigiu-se ao confessionário da Church of The Holy Innocents, na 32nd Street, às dez horas da manhã do dia do seu trigésimo aniversário, depois de um Verão hormonalmente doloroso.

"Perdoe-me, padre, porque faço hoje trinta anos, pequei e nunca me confessei."

"Os meus parabéns, meu filho. Quais são os teus pecados?"

Evitando a pergunta óbvia, a piada fácil, Solomon PaloblyK prosseguiu:

"Aí é que está o problema, senhor padre. Há algo na vida que não estou a conseguir conciliar com o amor e a fidelidade à minha mulher. Faço hoje trinta anos, pareceu-me adequado vir falar com uma padre católico, eu que fui educado como judeu. Aliás, todos os meus problemas têm vindo a confluir na questão do estranho e do conhecido. Porque há uma zona cinzenta das relações humanas que nem a literatura acolhe, descontando, talvez, o conforto da estranheza que as confissões de Santo Agostinho me causaram. Pensei: e eu, que não sei escrever desta forma absolutamente arrebatadora e clara, como vou eu dirigir a luz para mim próprio de modo a descobrir nas minhas profundezas as soluções para as dificuldades respiratórias da vida, principalmente da vida com as mulheres?

Repare, senhor padre: não incluo a apneia nestas dificuldades respiratórias da vida com as mulheres. A apneia pode ser um problema, mas também pode ser uma virtude. Eu, quando era novo, vencia os concursos de apneia, fazia duas piscinas debaixo de água. E se falamos de apneia como arrebatamento, também não venho confessar as mulheres que nos dão apneia num momento fugaz na paragem de autocarro, numa fila de automóveis, num passeio - também excluo as que apenas nos intrigam e que nos fazem pensar, durante alguns segundos, que gostávamos de as possuir ou de lhes perguntar as horas ou de cheirar os seus perfumes.

No supermercado onde faço as minhas compras há uma rapariga de olhos amendoados e lábios cheios que me atende sempre de uma forma perturbante. Demora-se no meu olhar mais uns segundos do que o normal, eu demoro-me no dela, ela sorri e eu devolvo, quando eu me apresto para sair ela olha sempre para trás e diz-me adeus e até amanhã, eu respondo. É assim há mais de um ano. É diferente ir ao supermercado quando ela está e quando ela não está. Chego a voltar mais tarde só para poder pagar as compras a esta rapariga. Não posso, honestamente, defender a tese de que ela me tenta seduzir, tampouco eu a ela, mas, lá está: o meu impulso é entremear esta com a história das velhas e hipócritas adversativas, tipo "Mas ela ainda não fez vinte anos e eu estou a bater nos trinta", ou "Mas eu sou casado e ela pode ter namorado". Deus - o nosso deus, senhor padre - sabe quanto tempo trabalhará ela naquele supermercado ou eu morarei naquela zona, mas devo destacar este facto: esta rapariga é mais importante na minha vida do que, por exemplo, muitos enfadonhos e vazios colegas de trabalho. Curioso eu chamar-lhes vazios quanto não troquei mais do que três ou quatro expressões coloquiais com ela. Mas a verdade é que há um ritmo, uma troca, algo que ela me dá e eu lhe devolvo e que, pelo menos para mim, é de grande relevância. Ainda que ambos possamos gerir com alguma maturidade a ausência na vida um do outro, que é muito maior do que a presença (eu vejo-a uma vez por semana, no máximo duas, às vezes nenhuma), há um elemento social tácito que classifica esta relação como inexistente ou irrelevante. Que me retira o direito de saber se ela sente o mesmo, ou algo de parecido mas só dela, saiba ou não porquê. E não é líquido que eu goste de me cruzar com ela porque me sinto atraído fisicamente, ou ela por mim. Aliás, sinto coisas parecidas por mais pessoas, algumas do sexo masculino, e Deus - o nosso deus, senhor padre - também sabe muito bem que eu não pesco - nem peco - desse lado. O que eu sei é que há uma tensão, um finíssimo cordel totalmente esticado, que se libertaria se eu e ela pudéssemos conversar sobre isto, por exemplo, num confessionário como este.

Será que algum dia isso vai ser possível? Nós "adcionarmos" expressamente um desconhecido à nossa vida para não nos perdermos dele, uma espécie de livro das caras com que nos cruzamos ou nos queremos cruzar, e um dia, sem combinar, apenas porque calha estarmos ao mesmo tempo no confessionário, lhe podermos dizer o que nos vai na alma? Isso estraga - ou adensa - o mistério da vida?

E se eu encontrasse esta rapariga nesse confessionário e lhe confiasse estes pensamentos ou sentimentos, quais seriam as consequências? Porque penso que o senhor padre concorda comigo: se eu a convidasse para tomar café numa folga, e ela aceitasse, e mesmo que lhe explicassse tudo muito explicadinho como lhe estou a explicar a si agora, ela ia sempre pensar que as intenções eram outras. E a minha Ida não ia gostar. "Por que raio andas tu a tomar café com a caixa do supermercado?" E o encanto ficaria quebrado para sempre. Está a entender o senhor padre a zona cinzenta e a impossível abordagem? E se existisse um confessionário e o encontro fosse casual e sem contacto visual ou físico? Poderiam nascer outro tipo de pulsões que não estavam na origem do nosso relacionamento, algo erótico, virtual, platónico. Ou nada e o encanto novamente quebrado.

A verdade é que, como dizia o Gabo, as nossas mulheres, as boas, chamam-nos à atenção quando passa outra que nos agrada, ou, como neste caso, sabem de uma com quem mantemos uma dependência química.

Descrevo-lhe as ondas do senhor Palomar.

Relato-lhe, pois, as tentações que o não são.

A minha veradeira tentação é perguntar-lhe. Uma pergunta impossível, porque sugere tudo menos o que eu realmente pretendo dizer.

Será este só um problema da cidade, do homem urbano?

E se eu disser o que não quero? - para induzir um contacto e medir a pulsação, algo tão banal como "A menina é muito bonita." Sugerirá esta pergunta, que não quero realmente fazer, o que quero realmente dizer? Estará a verdade na aparência? E a aparência na verdade?

E se o silêncio for o mais avisado?
Prevalecerá o mais sensato?
Pois se não disser nada, a rapariga de olhos amendoados e lábios cheios, como quase todas as pessoas, vai queixar-se de que a vida dela é desprovida de interesse, os dias iguais entre si, de que as pessoas deviam olhar mais umas para as outras, importar-se mais umas com as outras.

É neste ponto que me sinto o senhor K perante a escadaria infinita do tribunal.


E destes episódios, ao longo da vida, há-os ao dia, à semana, mesmo ao ano, quando voltamos para o lugar onde costumamos passar as férias e reencontramos a mesma empregada de padaria, ano após ano, e nos calamos e nos vamos perdendo dela anos fora. E nos vamos perdendo um dos outros anos fora. Não teria mais sentido - e valor - se eu tivesse dito à rapariga dos olhos amendoados que ela era indispensável às minhas semanas, arriscando quebrar o encanto, mas deixando-lhe essa marca indelével?

Se, quando Saramago escreveu a Pilar dizendo-lhe, "Se as suas circunstâncias o permitirem, gostaria de visitá-la", ela, em vez do sim que despoletou tudo, tivesse respondido "Meu caríssimo Saramago, penso que o terei induzido em erro quanto às minhas intenções", que livros se teriam perdido, que destino teria deixado de ser escrito? E que livros se perderam porque ela teve realmente a circunstância de o receber na sua casa de Sevilha?

Tudo isto me leva , senhor padre, ao que realmente me atormenta:

O companheiro ou a companheira ocasional de um jantar de amigos, uma Lady Chatterley da 82nd Street, de uma saída em conjunto, uma Constance Reid da 31st, de uma férias, uma Connie da Fith, a colega de trabalho que connosco partilha os mais diversos interesses, uma peça de teatro, um jogo qualquer, um longo café com troca de ideias, uma Hilda Reid de Wall Street, aquele ponto em que nos encontramos mais profunda e profusamente com uma pessoa (it's not Mrs Bolton, senhor padre), seja estranha, nova ou pré-existente na nossa vida, em que sentimos empatia ou profunda amizade, leva-nos à velha discussão do "When Harry met Sally" - lembra-se, senhor padre?, passa-se aqui mesmo, em Nova Iorque, quando ela finge o orgasmo em pleno restaurante - ou, pelo contrário, há solução para todas essas tensões de amizade, amor, até sexo, sem que sejam excludentes de um futuro em comum? Qual é o limite? Um abraço? Um beijo sem língua? Um beijo com língua? Um acto sexual? Uma masturbação individual? Uma masturbação conjunta?

Uma conversa, uma longa conversa de mãos dadas, olhos nos olhos, libertará o cordel fino da tensão? Não será  silêncio a mais perigosa e falsa de todas as opções?

E se fosse possível essa coisa mirabolante de que lhe falava há pouco, senhor padre, se as pessoas se pudessem encontrar sem corpo, era pecado? Era pecado o encontro pelo mero pensamento entre Lady Chatterley e o seu amante, Oliver Mellors? Era pecado a troca de imagens eróticas? Era pecado só quando os corpos entrassem uns nos outros? Ou será que a mera vontade de isso acontecer bastava?

E se, no limite dos limites, eu algum dia amar uma pessoa no estrito respeito dos meus deveres matrimoniais, senhor padre? Se me limitar a observá-la dentro dos limites do suportável? Uma rapariga de olhos amendoados e de lábios cheios que, em vez de num supermercado, trabalhasse numa livraria? Penelope? E as consequências são as mesmas quando se ama ou quando não se ama? Devo quebrar o encanto? Ou devo sangrar, libertar todas as tensões através de pequenos actos que satisfaçam a minha curiosidade? E quais são os meus verdadeiros limites, as minhas fronteiras, fronteiras reais, não uma desculpa esfarrapada, uma embriaguez em perfume de romances novecentistas, no regresso da Biblioteca do Congresso?

Consinta-me ao menos um abraço, senhor padre, ao menos um abraço.

E se o senhor padre me disser "Preferia que não o fizesse", está fechado em Bartleby, meu caro padre, cerradíssimo no meu segundo nome e afinal em toda a minha existência.

E na história da minha vida já não caberia a livreira Penelope, para já uma miúda de quinze anos, filha do dono, que eu conhecerei daqui a algumas horas, quando abrir a livraria nova, em busca do "Life and Fate".

E já não a amarei nos sessentas anos que se seguem.

Que é como quem diz, até à morte."

PG-M 2013

1 comentário:

Epifânia disse...

...sim, por favor. Fico à espera :)