2013-12-14

o natal de paloblyk


saiu da garden street
no dia de natal
para comprar um livro
e ler o jornal
e ver no bar da livraria
penelope a tirar cafés
e sobre a mesa o disfarce
the ulysses, la recherche,
el quijote

sempre tem o new york times?
ah, veja aí, por favor
falta a revista
alguém deve ter levado
era um café, então
comprido, como o costume?
tremeu, disse que sim,
maria callas no ar
casta diva, che inargenti
ela tem a minha norma
mas vem trazer-me o café
a pensar, sempre enfadada,


lá está o odioso velho
a olhar,

que desgosto, que maçada.

e então,
solomon paloblyk,

enfermo de um destemperado amor
fora do corpo,
no silêncio intransponível,
degolado, exangue,

manteve a cabeça baixa
sobre a coluna literária
de joyce maynard
e de penelope
só sombra
só cheiro ténue
e voz sumida

só um fendente sorriso miúdo de malha
diáfana

a talhar as vidas surdas
e a varar-lhe o peito

o velho, quando foi pagar,
estava a chorar
uma lágrima vermelha
enfiada na pele áspera
e grossa
como um caco de cristal
e o sangue, claro,
à vista,
como as vísceras
numa nota agreste
do sobretudo
de caxemira

penelope sabia
mas nada disse
por mil anos
ou algo assim
agora não sei
podia ser eu

seminal

no dia de natal 

PG-M 2013
fonte da foto 

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