2013-12-31

Lacerdiana



Lacerdiana: peça de teatro em forma de monólogo em que o dramaturgo se serve de um actor ou actriz como objecto ou tema. Idealmente, o actor ou actriz são o fundamento ou ponto de partida, fundamento esse retomado a cada quinze anos. As mais comuns são as lacerdianas 18 (o actor ou actriz deve ter cerca de 18 anos), lacerdianas 33 (a idade de Cristo), lacerdianas 48 e lacerdianas 63, sendo menos frequentes as restantes. Como é muito difícil que o dramaturgo tenha acesso ao mesmo actor ou actriz de quinze em quinze anos, o objecto muda frequentemente, não se conhecendo uma único caso em que o actor tenha sido o mesmo em todas as lacerdianas, necessariamente o escopo fundador do "inventor" desta formato, Pierre Guillaume. A primeira lacerdiana conhecida teve a sua primeira representação, pensa-se, faz hoje precisamente cem anos, 31 de Dezembro de 1913, no Théâtre Inez de Castro, em Nouvelle Ville du Callem. Foi uma lacerdiana 18, e a actriz que serviu de inspiração foi precisamente a conhecida Mademoiselle Lacerda. O nível de ficção desta entrada de dicionário prende-se apenas com a data da primeira representação, que é imprecisa e carece de provas mais cabais. O restante, contudo, está objectivamente comprovado e é fiel aos seus protagonistas. A lacerdiana é formalmente estimulante para todos os dramaturgos, embora extravase as fronteiras do teatro clássico e a própria posição relativa dos elementos em jogo. Para a celebração dos cem anos, vários dramaturgos - temos nota de pelo menos um - escreveram lacerdianas, sendo a mais conhecida em Portugal "Ekaterina sobre tudo" - uma lacerdiana 18 - elaborada, curiosamente, por um descendente português de Pierre Guillaume e cujo objecto é uma descendente portuguesa da Mademoiselle Lacerda. É inspirado nos clássicos russos. Espera-se encenação e representação nacional nos próximos cinco anos. A expectativa é grande. Não são previsíveis pateadas, como na Soror Mariana, mas Almadas há muitos. Entretanto, em Março de 2014 volta o Turismo Infinito ao Teatro Nacional São João, no Porto, logo seguido, precisamente, de Al mada nada.

PG-M 2013

Tu


só uma coisa me interessa: tu
só uma não-coisa me interessa:
tu
verifico-te desde a lua e o planeta é todo
tu, ou seja,
está cheio de matéria negra e estrelas,
tu,
tu à volta e tu por dentro

um contínuo sempre igual, sempre infinito

ou então estou cego
ou então vejo demais

isto não é um poema, és tu,
é uma maneira de te arrumar
de te sobreviver

de não te ver


PG-M 2013

2013-12-26

Diálogos com o Atlas, PIM! (I)

 Consequências graves da consoada nas ideias e no mundo: o diálogo com GMT e o seu Atlas. Que saudades, meu caro Gil Vicente!

- Novo: o acaso do fio de um metro de Duchamp - se largarmos um fio de um metro ele cairá formando desenhos sempre distintos. Todos eles medem precisamente um metro e afrontam os conceitos preexistentes da ciência e da forma de medir. A medida do meu raciocínio é muito mais parecida com o metro de fio depois de cair.
- Reencontro: descubro que o que sempre pensei, que a cronologia das ideias é hoje irrelevante quando trasnportamos a Bíblia e o Quixote e este Atlas bem juntinhos: séculos de ideias lado a lado e justapostos no espaço e na consciência de quem os lê. Hannah Arendt tratou e desenvolveu esta abordagem de Jaspers. Saudades destes diálogos, que não tinha desde que eu e o Gil Vicente nos separámos no espaço. Não o dramaturgo, o amigo. Que é bem melhor e maior.

Passaram vinte e cinco anos, caro amigo, e nós pensamos que somos os mesmos.

Se nos tivessem falado do conceito-vírus do Wittgenstein teríamos dito "é isso, é isso". Sim, nada de conceitos fechados e duros. O que está resolvido exclui o andamento e, em grande parte, o pensamento. O conceito deve ser aberto, dinâmico, produzir-se enquanto é discutido. É a teoria do jogo dinâmico de Gasset. O investigador está sempre perdido, ainda que se fortaleça pelo caminho. A Llansol escrevia sempre coisas  bonitas: "Dizer o que é, é ver." Não se trata de citações, mas de excitações, anos a pensar selvaticamente que agora se reencontram e nos amparam.

É precisamente a convicção da impossibilidade de fecho, de os escritores, como os filósofos, terem de começar qualquer discussão deixando claro que não têm razão (Adorno). A ração diária de erro do Carlos Drumond de Andrade: neste meu (nosso?) livro novo, o que vai sair em Março, decidi escrever que um guarda-chuva tinha uma haste partida. Não disse "a" haste, mas "uma" haste. Em rigor, haste é apenas o suporte central do guarda-chuva, mas há quem chame hastes às varetas. Eu quis induzir o leitor no dinamismo da dose diária de erro do Drumond e escrevi "uma" haste, remetendo para uma tempestade de ideias, como nos versos. Seria uma vareta? Seria o tronco central? Quer isto dar forma humana à frase, algo que o dono do guarda-chuva, e não o próprio objecto, tinha por resolver? Ou era apenas uma vareta? Eu podia ter escolhido "a" haste ou "uma" vareta. Mas aí estaria fechando a frase. Às vezes é preciso fechar as frases, mas nunca podemos fechá-las a todas, como dizia o Almada do Dantas Pum! Temos de deixar portas para que o leitor entre e saia, janelas para arejar, pontes para saltar.

Os melhores diálogos são aqueles em que nos afastamos do centro e navegamos à vista das margens do outro. Devemos investigar, buscar o que não está dito, mas, se não somos definitivos nem temos conceitos e pensamentos fechados, também não podemos exagerar na proposta alternativa: se perdemos totalmente o outro, o diálogo deixa de ser possível. Quantas vezes encontramos nos encontros colectivos o tipo que está sempre a desconversar? Isso não é suportável, mesmo no cultivo do humor. Essa deriva é fundamental para que possamos evoluir, mas nunca devemos perder o outro de vista, e os egocêntricos já nos perderam de vista antes de se cruzarem connosco. Esses desconversadores são, acima de tudo, egocêntricos. Ora, se para mim me parece discutível que tenha de haver um centro visível em todas as investigações, quando esse centro é um ego está tudo o resto, todos os demais, excluído(s).

É por isso que tendemos a rejeitar os "sentenciadores", e a sentença é o primeiro sintoma da medocridade ou da escalada social ou cultural, mas também o que distingue os sábios dos logros: não deixar abertura, inexactidão, para o interlocutor/ leitor explorar, pondo-se dentro o fora.

Os posts muito fechados, muito perfeitos, colocados nas redes sociais, tendem a não ter comentários, mesmo que sejam muito lidos e "gostados". Pode ser - como pode não ser - um sintoma. Mas para mim a escrita tem de contaminar, incomodar, varar. Bora lá, Adorno. Três passos à frente, dois atrás. É o Adorno que dá esta ideia da máxima distância entre o que se escreve/ lê/ diz e o que ja é conhecido, mas não tão grande que as duas margens deixem de se avistar.

O Deleuze dizia para não interpretar, para experimentar. Bora lá.

Gosto também da ideia do Wittgenstein de que qualquer pensamento nos interrompe a biografia, nos invade e faz mudar de trilhos. Tenho por aí um texto onde tento surpreender os homens que não pensam exaltando-lhes tanto a coragem como a miséria do vazio.


E agora vou ali ser exocêntrico, que me faz um bem do caraças.

(continua)

PG-M 2013



2013-12-24

o natal medido no corpo e no pensamento

"Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo"
 Osvaldo Montenegro ("Metade")
 
A finitude do corpo e a infinitude do pensamento e do sentimento. Ou a rotação e a translação. Sabemos que o nosso corpo acaba. Não sabemos se o pensamento acaba. Sabemos que o sentimento pode acabar ou propagar-se entre corpos e mesmo para lá deles. Sabemos que o pensamento e o sentimento transcendem a morte. O corpo não. É por isso que tentar encolher o pensamento e o sentimento no espaço limitado dos corpos será sempre mal sucedido. O que pensamos e sentimos, parecendo contido nas nossas paredes, vai muito para lá delas. O natal é um esforço de consciência colectiva, todos os corações de um certo mundo centrados no transtorno do egoísmo travestido temporariamente de altruísmo. Um travão na rotação, para que o pai natal cumpra, uma flexão na translação para que o planeta desalije o peso da ilusão. Os corpos, que acabam, não são reais. Voltam os mortos mais queridos e o pensamento vai descendo e subindo montanhas russas. Há abraços em todas as suas formas. Alguns inimigos cessam. Os amigos prosseguem, menos ignorados. Há mais luz, há mais acessórios, são flagradas todas as manifestações do supérfluo. Até chegar um momento em que todos mirram e o mundo dobra reduzindo o espaço entre as casas. Pairará sobre as mesas de natal, sobre o bacalhau, sobre o molho fervido, sobre o vinho quente com canela e açúcar, um só sentimento. Que é um calor raro ao centro de peitos potencialmente infinitos. Diz-se bom natal e a estrada segue, vagarosa, no regresso a cada planeta.

PG-M 2013

2013-12-23

A ampliação das pessoas e a simplificação do mundo



Na última semana - é natal, é o que nasce - tem sido flagrante:

enquanto o facebook se continua a encher de cínicos que nos fazem rir ridicularizando os outros ou expondo a mediocridade como marca - que o é - de um país que tarda em voltar a dominar o mundo pelas vísceras, como fez pelas velas e pela índole desenrascada - chama-se alma -, continuo a descobrir o lastro de pessoas brilhantes que ninguém ouve, e filmes como "Inside Llewyn Davis" dizem-me que sempre foi assim.

Mas não foram só os irmãos Cohen a colocar os actores F. Murray Abraham e Oscar Isaac cara a cara, com este a dedilhar uma guitarra e a cantar "The death of Queen Jane" antes de (ante?) Bob Dylan.
Numa conferência cénica no Teatro Carlos Alberto, no Porto, descubro a actriz Margarida Gonçalves, que em poucos dias olhou um trecho do "Filho de Mil Homens" (Valter Hugo Mãe) e vestiu uma anã, mas não vestiu só uma anã, vestiu o lugar dela, os homens dela, vestiu-nos a nós. E eu pensei, como já tinha pensado sempre que vejo actores vestir textos literários: esta mulher fez-se ampliação de pessoa, por momentos olhei para ela e pareceu-me dotada de uma certa divindade, o corpo tanto era irrelevante como central, a expressão comunicava todos os sentimentos que o mundo pode conter, e isto aconteceu apenas em alguns minutos. E pensei que isto pode ser feito com qualquer texto, e não, não é nosso mérito, dos escritores, porque o teatro toma-nos e espreme-nos o melhor, ninguém lê como um actor, ninguém nos lê como um actor.
O Luís Puto é um actor. Ninguém lê como o Luís Puto.
E todos os que estiveram em palco para nós, dezenas, uns profissionais, outros semi-tudo, outros meros amadores, vazaram ali o sangue a ferver. Como tem de ser.

Entretanto, no facebook, na segunda-feira, descobriram o anúnico sexy de um escritório de advogadas portuguesas. O jovem cínico "A" tocou a sua flauta de bardo e ridicularizou-as e deu uma pândega a "amigos" e "seguidores". A Ordem dos Advogados, com a faltinha de jeito do costume, abre processo disciplinar às colegas sensuais. Na quarta-feira, o mesmo jovem cínico "A" estava a sair em defesa das colegas sensuais que houvera dizimado no seu mural dois dias antes. O jovem cínico "A" fez questão de dizer que, desta vez, estava a falar a sério, que o ouvissem, que o mundo tinha de se levantar em defesa das colegas sensuais. Puta que o pariu. Puta que pariu todos estes cínicos que são incapazes de sentimentos verdadeiros ("sentimentos verdadeiros" é um bom cliché para alimento de cínicos) e se estão literalmente a lixar para todos que não eles.

Paralelamente, acontece-me ler a prosa e a poesia de uma pessoa que nem vinte anos tem, e achar que nunca vi nada assim, que nunca me aconteceu nada assim, a perceber a merda que sou, a merda que faço. Acontece-me conhecer um grupo de teatro de meninos de catorze a vinte e muito  poucos. Ver o modelo falhado de um Llewyn Davis que é o de todos os escritores, pintores, cantores, de todos os autores por mostrar ou mal mostrados, e perguntar se não vale a pena tomar o tempo que nos sobra, ou fazer com que nos sobre tempo, para olhar para o lado. Fugir cada vez mais da pasta indistinta em que se tornaram, por exemplo, dois terços dos blocos noticiosos, que se mimetizam entre si em nome de um bem maior (o patrocinador) - até porque nunca sabemos quando é que o pivô que os trabalhou se vai erguer acima da mediocridade com a sua marca (e ainda os há muito bons).

Não, não me apanham a criticar uma Casa dos Segredos, por exemplo ,excepto alguma inquietude que me provoca a ausência de limites. Prefiro a Bernardina ao Zé Comentador que vai justificar o seu soldo criando tensão noticiosa. E desconfio de quem não sabe quem é a Bernardina - porque não é preciso sufragar a mediocridade para estar atento ao que nos rodeia. Sei que o tema Bernardina é infinitamente mais intrigante do que os esqueletos noticiosos e anódinos da Bárbara e do Carrilho. Como tudo, e embora eu e tantos não sejamos exemplos para ninguém, o indivíduo medíocre masturba-se com os mesmo exemplos que expõe publicamente, trai os seus pares porque não reconhece as próprias limitações, vive alimentado a umbigo porque não tem capacidade para identificar o cotão que se intromete nas fendas dos próprios dentes e que vem do próprio corpo - do tal umbigo que o alimenta. O próprio medíocre é impróprio. As manifestações de rua - a putativa liberdade - são convocadas precisamente pelos mesmos que na semana anterior estavam a acossar o cão para devorar os restos de um amigo em praça pública.

Os benfeitores que levantam uma voz vinda de dentro são destruídos com as mesmas armas que os malfeitores maiores usam contra os malfeitores menores, e vice-versa.

O cavalo de tróia que vai mudar isto continua vazio.

O que sei, e isso aparece-me com uma transparência aterradora, é que os melhores reconhecem-se entre si facilmente, mas têm medo de sair da caverna onde entraram para não serem incomodados. Vão mudar o mundo lentamente, ao longo de gerações, vão contaminar os medíocres e trazê-los para a caverna - calando-os ou reclicando-os.

Uma menina escreve um poema superior e eu, no centro da felicidade, só tenho medo de que ela não pouse, porque precisamos dela no chão, e, se há grandes artista egocêntricos, não têm uma verdadeira utilidade para o mundo a não ser para as evasões de outros séculos. Mas gosto de me sentir inútil por momentos, gosto de pensar que há tantos melhores do que eu, e principalmente descanso por perceber que há quem possa levar o mundo.

Porque às vezes me sinto tremendamente cansado ao lutar contra os gigantes - dizem que são moinhos.

Sei que o verdadeiro amor não se confunde com o plano da arte, mas também sei que o plano da arte admite a invasão do amor (vejam pf o vídeo com que encerro este post: ela é uma "performer" moderna, uma artista, e esta "instalação" é brutal. Ela está sentada durante três dias no Museu de Arte Moderna de NY (MoMA) e  as pessoas vão-se sentando em frente a ela e ela olha-as em silêncio. Agora vejam o que acontece quando o companheiro de uma vida (mas já separado dela há uns anos) passa por lá. Ela não sabia. Talvez não soubesse. Acho que o amor é isto).

E a Magarida, ali no palco, tem um vestido preto largo que é justo, move o corpo e amplia uma pessoa e o mundo é um sumo de laranja.

PG-M 2013

2013-12-16

A minha amiga de 44 anos



a minha amiga de quarenta e quatro anos tem
vinte e nove anos e meio
o sorriso de um dia e um riso que

dobra como os que o pai lhe oferecia quando a cingia
no colo e a enrolava nos braços pressionando-lhe
as costelas com os dedos grossos e o corpo dela
se curvava para trás e os olhos
fechados e a gargalhada
infinita

e a palhacinha
que cansada aninha


 e dorme

a minha amiga de quarenta e quatro anos não sabe
que está intacta
e pura
e una
no perpétuo nascimento

dos slows de garagem que duram,

num momento,
a eternidade

PG-M 2013

fonte da foto de Cate Blanchett (que tem 44 anos e é a menos bonita de todas, mas nenhuma delas sabe:)

2013-12-14

o natal de paloblyk


saiu da garden street
no dia de natal
para comprar um livro
e ler o jornal
e ver no bar da livraria
penelope a tirar cafés
e sobre a mesa o disfarce
the ulysses, la recherche,
el quijote

sempre tem o new york times?
ah, veja aí, por favor
falta a revista
alguém deve ter levado
era um café, então
comprido, como o costume?
tremeu, disse que sim,
maria callas no ar
casta diva, che inargenti
ela tem a minha norma
mas vem trazer-me o café
a pensar, sempre enfadada,


lá está o odioso velho
a olhar,

que desgosto, que maçada.

e então,
solomon paloblyk,

enfermo de um destemperado amor
fora do corpo,
no silêncio intransponível,
degolado, exangue,

manteve a cabeça baixa
sobre a coluna literária
de joyce maynard
e de penelope
só sombra
só cheiro ténue
e voz sumida

só um fendente sorriso miúdo de malha
diáfana

a talhar as vidas surdas
e a varar-lhe o peito

o velho, quando foi pagar,
estava a chorar
uma lágrima vermelha
enfiada na pele áspera
e grossa
como um caco de cristal
e o sangue, claro,
à vista,
como as vísceras
numa nota agreste
do sobretudo
de caxemira

penelope sabia
mas nada disse
por mil anos
ou algo assim
agora não sei
podia ser eu

seminal

no dia de natal 

PG-M 2013
fonte da foto 

post relacionados: A tese de um grande amorA confissão impertinente de Solomon PaloblyK, Parte II da confissão, Parte III da confissão, e À(s) mulher(es) desconhecida(s) O Salinger  nunca me deu tesão,

2013-12-09

Jasmim (e o colégio dinis de melo, em Amor)

Há muito, muito tempo, não havia neste reino bomboneiras de vidro em forma de cogumelo. Para que a rainha destes domínios reinasse feliz, houve que partir em comitiva para a marinha grande, onde se erigira em lenda a história de uma plêiade de artistas vidreiros que, quando reunidos, se chamavam indistintamente pelo nome colectivo de jasmim.
Muitos anos depois foi-me depositada nas mãos uma peça de vidro que simbolizava a constelação do colégio dinis de melo e eu, que vivo largamente pelos detalhes, topei pela saca de cartão que a amparava: o mesmo jasmim, as mesmas mãos colectivas haviam feito para as minhas uma peça de um plano acima dos homens, tal como aquela bomboneira de vidro que eu trouxera de volta para a minha rainha há muito, muito tempo.
Nesse fim de noite de sexta-feira, 6 de dezembro, já 7, com temperaturas negativas lá fora, a professora isabel entornou nas minhas mãos a arte jasmim, que, como a foto documenta, trazia a história da noite em cada reflexo - que andou entre o transparente e o azul.
história que começa nos olhos claros da roberta, a italiana que recentrou os meus castanhos escuros num levantamento de escritores no porto e me trouxe a leiria pelas mãos da mãe helena - na entrada do colégio faziam uma família perfeita com o fausto, não por caso treinador de voleibol na sua bela itália, afinal o desporto que é uma parte do que sou.

agora entramos, tenho ao meu lado o gil, o meu amigo de sempre, juiz na cidade, lembras-te de quando éramos os dois únicos confrades da confraria do código civil, gil? a confraria do código civil eram dois estudantes loucos que, por puro gozo, batiam às portas da foz velha, no porto, para ler artigos do código civl - muita gente que ficava a ouvir a leitura empenhada do gil e hoje ainda choramos a rir por todo o bem, toda a legislação, que transmitimos.

compro dois postais ao andré pedro e ao ricardo que eles mais tarde me dedicarão - tenho-os aqui para sempre -, tomo o café, tenho a garrafa de água na mão, os reflexos em transparente e azul vão multiplicar-se.
a professora isabel apresentou-me sem que eu visse ou ouvisse, mas vi-a perfeitamente do princípio ao fim da noite com o mundo às costas até me entregar este cubo de vidro que é jasmim e me pedir desculpa pela falta de atenção que me dedicou.
ela, que fez a noite minha. ela, que foi o nosso atlas.

e depois vem a bruna.
oh, a bruna! 


a bruna fez a minha apresentação, e essa eu já ouvi, passei por ela para me sentar ao centro da mesa e disse-lhe "esse sou eu", ela olhou bem cá para cima e disse, algo desconcertada, "eu sei". se foi a bruna que construiu o texto de apresentação, é-lhe devida vénia. fugiu à wikipedia e teve de ler muito para o sintetizar naqueles cinco parágrafos bem escritos. sabe que eu não gosto do cinzento dos tribunais e termina assim: "como se diz obcecado por livros e livrarias, esperamos não ter de aguardar muito mais para lermos outros romances". três meses, no máximo, bruna.
já depois da sessão de perguntas e respostas ter acabado, a bruna fez mais algumas perguntas, ali, perto de mim - a última era tão corpulenta, tão profunda, tão bonita, que eu lhe perguntei de volta se ficava até ao fim, e ela disse que sim. então continuei com as dedicatórias com a minha letra de imprensa, afectada do que sou, mas a bruna desapareceu e eu não pude responder-lhe. mesmo que volte um destes dias, é para mim terrível deixar uma pergunta em suspenso, mesmo que os olhos da Bruna quase a tivessem respondido. e esta noite de dezembro ficou incompleta porque a bruna ficou incompleta.

muito antes, os meus asas, andré pedro e ricardo, tinham-se sentado um de cada lado - gosto de ficar acompanhado nas mesas. o andré é um observador, ar intrigado, inquisitivo. o ricardo foi o meu ponto teatral: grande trabalho, ricardo. como percebeu que era importante para mim saber o nome de toda a gente, foi-me dizendo quem eram e, às vezes, o que faziam.
"eu nunca disse um poema meu" foi lido pela professora rosário como se fosse dela. era efectivamente mais dela do que meu. a rosário deixou na sala as vísceras do poema. o pedro leu o "plátano".
a carolina rosa leu tão bem "poema à mãe e outras vidas", mas também me fugiu. acabou a leitura, recuou na sala para receber os aplausos, o namorado veio resgatá-la, ela deu-lhe a mão e partiram pela noite fria.
ficou também por fazer a minha pergunta a todos: porque é que escolheram este texto, este poema?
porquê, pedro?
porquê, rosário?
porquê, carolina?
RP:
RR:
RC:


o andré pedro falou-me da negação do horror e dos universos paralelos e do fringe
vieram pelo menos mais dois andrés, um deles era também gaspar
veio a catarina rodrigues, outro gaspar (mas luís)
a antónia, que queria saber se a família me aturava como escritor
a rita e os caminhos que me levaram ao direito
a beatriz sobre as teorias da conspiração
o bruno de camisola pull & bear para eu falar da capa e das revisões em edição,

e então a bruna voltou, com olhos brilhantes e complexos, para saber muito mais coisas
e então a bruna partiu

à mesa veio o afonso, com a sua irmã, a pequenita leonor, a pulular em volta, divertida, o casal real - como lhes chamei - levou um livro. a leonor explicou-me que o afonso lia muito, lia na cama, eu quis saber como, que não há gadget mais avançado do que um livro, mas nunca houve posição para lê-lo durante longas horas
à mesa veio a bonita bibliotecária paula, levou dois livros, um era da escola, outro dela
à mesa vieram cremilde - a cremilde levou livro - e cremilda, que, não sendo uma sociedade, nos deixaram entrar no aporte estético dos nomes, falaram francês mas não tocaram piano, são professoras, portanto heroínas, heróinas puras,
não injectáveis

de volta a bellissima roberta dos olhos claros, roberta do sorriso que o fausto e a helena desenharam, mas espelhado em nós faz pensar que é de cada um

e no fim, em letra pequena como toda esta memória, para não distinguir o indistinguível, a professora isabel a entregar-me tudo numa mancha azul ao fundo de um cubo transparente,
que é jasmim e é Amor


e a noite foi tudo mas fica em nada se não os tiver a todos de volta

PG-M 2013

2013-12-04

Eliane, Portugal

Deixa que eu apresento:
Eliane, Portugal.
Portugal, Eliane.
Não é por ela ter um apelido que se ouve na boca de uma criança tripeira quando quer mimetizar um popó: Brrrrrruuuuummm.
Não é sequer por ter uma dicção doce, mesmo para brasileira, que já de si traz um português açucarado e distendido. Nesse sotaque cada ponto final é uma cerca de veludo onde as frases batem sorrindo, cada exclamação um abalo, cada pergunta uma canção.
É apenas porque ela escreve bem p'ra caraças ou, como se diria no meu Porto, este, o atlântico, o europeu, como o carago.

Não, também não é por isso, isso que é só pretexto bairrista.

Eliane é essencialmente jornalista, embora escritora.
Aquele jeito visceral eu conheço em qualquer lado.
Aquela forma de arrastar constantemente as explicações para dentro de abismos e cair por eles abrindo os braços e tomando a existência dos outros como se fosse a própria pele.
E vai-se a ver está amparando os torsos que indaga ou traz para dentro de si própria sem qualquer protecção, aquela protecção soez da mediocridade.
Eliana tem feito chorar vários tipos de granito,
e com isso pessoas mesmo.

Pelo que soube ao ler Eliane, Wanderlei da Pampa morava perto da fronteira do Rio Grande do Sul e levava todos os anos o seu cabo de vassoura a uma feira de cavalos. Para entrar no concurso passava as respectivas inspecções sanitárias, e o pessoal, quando o via chegar, já dizia: lá vem o maluco. Ora, Eliane não arrancou dele uma resposta, mas uma pergunta: "Acha que eu não sei que isto é um cabo de vassoura?" O problema é que nunca na vida Wanderlei ia ter dinheiro para ter o seu cavalo, e assim podia sonhar.

Pelo que soube ao ler a Eliane, Alice estava morrendo. "Comer e se salvar". A merendeira da escola que ressuscitava crianças porque elas lhe chegavam de manhã com uma fome ainda mais preta do que negra e mortas, literalmente mortas. Ela as ressuscitava dando a primeira merenda do dia. Então a Alice insistia em encher o prato da jornalista, acreditando que, alimentando Eliane, se salvaria também.
"Se eu comer, talvez melhore".
Como a minha mãe quando eu era menino, como o meu menino quando eu sou pai.
"Acho que já não tenho a doença", dizia, para quem a quisesse ouvir.
Então a Lourdes dizia à Alice, para a animar: "Eu tinha uma tia que tinha a tua doença e cheirava muito mal, mas tu não cheiras mal". E sorriam, ou eu acho que sorriam, porque foi assim que imaginei quando ouvi a Eliane falar para o auditório.
Em cento e quinze dias à vista de Eliane, os seus últimos cento e quinze dias, Alice nunca pronunciou a palavra "câncer". Eliane também não. Eliane achava que, se algum dia tivesse trazido o câncer para uma pergunta, tinha perdido Alice para sempre. Assim a ganhou para sempre.
A médica dos paliativos, Maria Goretti, tentou puxá-la um pouco à terra, para ela morrer por cá, bem perto, e não no céu, bem longe.
- A senhora esqueceu. Tem uma pedra no seu caminho.
E a Alice perguntou:
- E não dá para fazer viaduto?
E repetia para Eliane:
"Se eu comer, talvez melhore"
"Alice, eu estava lá, a culpa não é tua"
"Eu acho que sabia, mas esqueci"

A Eliane diz que o jornalista muda o mundo porque lhe dá voz.
Que não importa mais o homem que mordeu o cão, mas o cão que morde o homem. Quando não há nada, também não há circo. Só depois, só depois de relatar esse cão e fazer os olhos brilhar porque sim, não porque foge da vida.
A Eliane faz como eu nas páginas: se esvazia para encher do outro, o que está perante si.
Vê que a maioria é minoria na imprensa, e a minoria, a selecta minoria, maioria, e Eliane não quer.
E se o Brasil é um continente e Portugal se equilibra nos cabos de outro, e aqui caiu o assombro dessa voz, essa voz deste lado do mar, trago Eliane e a ergo nas vossas caras ou a intrometo nos vossos corações.

É que Eliane faz nos seus parágrafos o que a parteira índia de mais de noventa anos fazia na sua aldeia:
enche o mundo nas horas vagas da noite.

PG-M 2013