2015-12-02

A confissão impertinente de Solomon PaloblyK (II) - os primeiros dez anos


Pela primeira parte desta Confissão, já podíamos adivinhar o que Solomon PaloblyK, educado como judeu, ia realmente confessar a um padre católico. É isso que vamos começar a conhecer nesta segunda parte.

Pela  tese de um grande amor, já sabemos que ele morrerá com a provecta idade de noventa e um anos no ano da graça de dois mil e cinquenta e nove e que tinha dez anos em mil novecentos e setenta e oito, quando o pai, contra a vontade da mãe, o levou a ver a estreia de Wedding, de Robert Altman, no Festival de Cinema de Nova Iorque.

Sabemos também que morou em Great Neck, um subúrbio rico desta cidade, na Garden Street 1, e que tinha casa nos Hamptons, para onde não foi no dia onze de setembro de dois mil e um, porque morreria nas torres, numa primeira versão d'A manhã do mundo, e - spoiler já de seguida - salvar-se-ia delas numa segunda.

Finalmente, e porque no-lo confessou, sabemos que toda a vida amou Penelope, a empregada de café filha do dono, depois também livreira, da livraria onde ia sempre com a mulher, Ida, mulher que enterrou a dois quarteirões dali, e a quem deixou de ler Life and Fate, de Vassili Grossman, pouco antes de morrer, por ela já não ter fôlego nem ouvido para a beleza concisa do russo.

Neste passo da história, é importante dizer que Solomon foi criado como judeu e que nunca na vida, pelo menos até ao dia do seu trigésimo aniversário, se confessou a um padre católico. Mas fê-lo precisamente no dia dos seus trinta anos. E, porque isso aconteceu, Solomon tem alguma coisa do senhor Palomar de Calvino, do senhor Bartleby de Melville e do senhor K de Kafka. É hoje facilmente inteligível a lógica do seu pai quando lhe escolheu o estranho segundo nome, e cuja decisão foi tomada ao observar o olhar do filho no berço depois do primeiríssimo sono em ambiente não securizante: Paloblyk. Solomon ainda não tinha um dia de vida quando o seu pai decidiu chamá-lo de PaloblyK.

Chamou-lhe Solomon PablobyK qualquer-coisa (não vem à memória o apelido).

Solomon PaloblyK dirigiu-se ao confessionário da Church of The Holy Innocents, na 32nd Street, às dez horas da manhã do dia do seu trigésimo aniversário, depois de um Verão hormonalmente doloroso.

"Perdoe-me, padre, porque faço hoje trinta anos, pequei e nunca me confessei."

"Os meus parabéns, meu filho. Quais são os teus pecados?"

E, depois de uma longa alocução que pode ser recordada pela leitura da primeira parte, Solomon PaloblyK, finalmente, deixou a sua impertinente confissão, que o mundo não estará preparado para entender como milagre:

Confesso que pequei, senhor padre.

Confesso que aos quatro anos me apaixonei pela primeira vez no infantário da quinta sobre a colina, e acontece que o senhor padre e o mundo em volta dificilmente poderão crer que isso é possível, contudo sinto o coração partido em dois cada vez que me recordo desse momento, como se o meu corpo caísse para a desventura eterna porque a uma criança de quatro anos não pode acontecer amor para além de seus pais, mas recordo limpidamente o meu sentimento como se fosse hoje, e digo-lhe, senhor padre, que sofri e ainda sofro porque um indivíduo tão tenro não tem em si armas para deslindar um labirinto daqueles, a que deve adicionar uma convicção lúcida de que me ia perder dela para sempre e que nunca, na vida complicada dos adultos, eu conseguiria mantê-la sob escuta, a não ser que fosse minha prima ou morasse lá no bairro e tivesse um registo social, acontece, e passo a explicar, que o refeitório era escuro e os meus olhos também e os olhos dela também, uma espécie de Judy Garland a preto e branco, então tudo o que eu via ao sentar-me na cadeira para comer, e a mim já não era preciso darem-me à boca, eram os flocos dela à contraluz e a impossibilidade de a amar, ela e eu tínhamos, inclusive, capacidade de nos contermos e de nos calarmos e uma largura no olhar que nos dava uma falsa noção de infinito, e então por isso eu e ela, durante os dois anos de infantário, nunca brincámos, ficámos sempre um em cada canto do recreio oblongo da quinta sobre a colina, era um recreio branco e bonito, às vezes sorríamos, mas era certo que tínhamos uma profunda paixão que nos fez adoecer precocemente de um amor incurável, e por isso é que eu, ainda hoje, sinto o coração partido em dois quando me lembro da moreninha dos flocos do infantário. Tenho o sorriso inseguro dela como uma fotografia deante de mim, não me atrevo a dizer que era um ritual de sedução, mas era pelo menos um apelo, que do meu lado eram uns olhos grandes e tristes que queriam precisamente dizer "não sei como isto se faz". Ano e meio depois, senhor padre, ainda não tínhamos seis, éramos finalistas do infantário na quinta sobre a colina, e eu, finalmente, atravessei o recreio e fui ao canto dela, ela ficou nervosa, eu empurrei-a delicadamente para que ficasse encostada à árvore e, como já era mais alto, dobrei os joelhos e inclinei a cabeça para a direita, os lábios dela ainda eram finos, os meus já não, foi um beijo pequeno e seco, seguido de um "gosto de ti" já surdo, porque alguns meninos cercaram-nos a gritar "olha os namorados, primos e casados", ou lá como isso se diz em inglês, antes fôssemos, senhor padre, antes fôssemos primos, mas o que eu tinha realmente para dizer naquele "gosto de ti", era "amo-te, mas não sei como não te perder para sempre". E é assim, senhor padre. That's it. Lembro-me daqueles cabelos negros em flocos e penso que ela andará por aí, eu encontrei amor para a outra metade do coração e vou ocupando esta metade da desventura com outras mulheres que amo temporariamente, e é isso que lhe confesso, senhor padre, tenho metade do coração partido e separado da outra e estou sempre a amar todas as mulheres em vez da morena dos flocos que me apareceu num momento de crisálida e se perdeu para sempre.

Ficaram em silêncio. Três tempos. Pelos menos dois tempos, talvez quatro.

Isso, meu bom Solomon, - disse o padre católico da Church of The Holy Innocents, na 32nd Street - é só maravilhoso, não tem penitência. Prossiga.

Continuaram em silêncio. Dois tempos. Pelos menos dois tempos, talvez três.

Confesso que aos seis anos e pouco me deixei trair e traí pela primeira vez o lado partido do coração, ainda que a rapariga que me beijou nele não tenha entrado. Estávamos realmente  a brincar no jardim anexo ao restaurante do pai dela, coisa rara em Manhattan, e ela pediu para me beijar e eu deixei. Senti-me culpado porque, não só não a amava, como não tinha amor para ela, sequer o espaço temporário do lado partido do coração que dei a tantas mulheres daí para a frente. Dela, contudo, sei o nome e até era capaz de a encontrar hoje, se quisesse, mas não quero. Philomena. Como a mãe. A minha mãe. Isso fez-me ter raiva por ela. Raiva por, meio ano depois da quebra do meu grande amor, eu ter astúcia suficiente para saber onde encontrar uma rapariga. Recordo a sensação no infantário da quinta sobre a colina: o meu pensamento estava confinado, a moral não era a minha, mas dos meus pais, o meu cérebro não concebia a independência, a partida, a ideia de um mundo para lá do que estava entre casa e o infantário. Seis meses depois, ganhando autonomia, diversificando os lugares da vida, tudo era diferente. Daí essa raiva por Philomena.

Ficaram em silêncio. Dois tempos. Pelos menos dois tempos, talvez três.

Isso, meu bom Solomon, apesar de algum relativismo moral, - disse o padre católico da Church of The Holy Innocents, na 32nd Street - também não tem penitência. Prossiga.

Continuaram em silêncio. Um tempo. Pelos menos um tempo, talvez dois. 

Confesso que, do lado inteiro do coração, comecei a amar aos sete anos uma rapariga, Sophie Carolyn, que a perfídia do mundo me comunicava ter uma beleza efémera, por observação cuidada da sua progenitora, que, diziam, era pior do que feia, era mesmo abjecta. Mas, ao olhar os olhos verdes de Sophie Carolyn, os lábios rosa-escuro, como um bâton natural, hoje sei que é carmim, ao dar-lhe a mão na praia do último dia de escola, jurei-lhe amor para sempre, e isso durou, efectivamente, um verão, três, se contarmos os verões em que o amor ainda não tinha sido declarado. A verdade é que, no verão entre o fim da Elementary e o começo da Middle, as aventuras da Sophie Carolyn passaram a ser com o meu principal rival, o Joseph, e implicavam sexo precoce, drogas leves e pequenos furtos, algo para o qual eu não estava preparado aos dez anos, nunca estive, aliás. E então comecei, não a odiá-la, mas a desejar que augúrio dos mal-intencionados se cumprisse. Que ela ficasse aquilina e cinzenta como a  mãe. E ela ficou, senhor padre, e ela ficou, e hoje passa por mim tantas vezes nas ruas de nova iorque com sacos de plástico que são a casa dela nas mãos, passa ela, não o meu amor dos flocos negros, mas uma coisa é certa, senhor padre, pelo menos uma coisa é certa: a pobre da Sophie Carolyn nunca concorreu com esse amor incurável, porque ocupou a outra metade do coração. E, depois de o augúrio se cumprir à terceira potência, eu não consigo sentir raiva pela Sophie Carolyn, só pena.

O padre ficou apenas um tempo em silêncio. Era calmo e ponderado.

Havia dito, meu caro, Solomon, que a sua confissão era impertinente. Mas tudo o que me tem dito e confessado parece-me claro e pertinente.

Impertinente pelas razões de que cuidei na longa alocução incial, senhor padre, impertinente no sentido de que o mundo não está preparado para aceitar tudo o que lhe vim dizer como um corpo de bondade, mas como um corpo de delito, o que se agravará à medida que as confissões envelhecerem, como verá. E conto voltar a cada trinta anos.

Não sei se o poderei atender posteriormente, Solomon. Alguém, sabe, não eu. 
Mas hoje estou aqui e ouço-o.

E vou sem penitência na pena de Sophie-Carolyn?

Ainda vai, ainda vai, e, ou se torna rapidamente humano, ou vai dar-me a primeira confissão sem pena.

Isso não, senhor padre, isso não, haja esperança.

Há esperança, isso há. Prossiga.

(continua na parte III, depois dos dez anos)

PG-M 2015

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