2015-12-08

Confissão (III) impertinente de PaloblyK - dos dez aos vinte

Senhor padre, com efeito aflige-me que não esteja cá quando eu voltar para lhe confessar os próximos trinta anos. Terá oitenta anos quando eu tiver sessenta? Não, não creio que seja substituível. Na vida, há coisas que só se fazem com uma pessoa ou jamais. Ficam latentes ou incompletas. Não tem nada que agradecer. É um destino comum. Aconteceu, porque me falaram de alguém que sabia ouvir. Estávamos na casa de chá que virá a ser da Tzufit, ainda não tem o papel de parede dos beija-flor, claro que não tem, e eu perguntei, confesso (já que estamos para isto) que com espanto:

- Como assim? Tens a certeza? Um ser humano? Em Nova Iorque? E sabe mesmo ouvir?

Sabe ouvir. É um padre católico. Pároco na Church of the Holy Innocents, na 32nd.
Ah, é um padre católico.
Passou um thanksgiving. Passaram dois. A ideia evoluiu dentro de mim como um penhasco que se faz ao infinito. O infinito em todas as direcções, percebe, senhor padre? Podia ser só o infinito em frente. O infinito do abismo. O infinito do firmamento. O infinito do passado, o peso da História. Não. Não era "só" nenhum deles, mas todos. Uma aurora boreal dentro da minha boca, porque a cabeça sempre teve algo de confinado, de conformado. Quando tomei a decisão de me confessar, o pior era que o senhor padre me dissesse, Desculpa, meu filho, agora tenho muito que fazer, volta para a semana; eu não voltaria; conheço-me e sei que não voltaria; sei que ficaria profundamente envergonhado com o aspecto do meu das linhas no meu movimento de aproximação à sua igreja, iria rever na cabeça até ali confinada a minha atitude pouco preclara nos quarteirões adjacentes, já sei, já sei, ou é preclaro ou não é, "pouco preclaro" não existe, "pouco preclaro" não é concebível, mas não, não, senhor padre, eu fui até aqui indivíduo cinzento dos meios-termos, envergonhado da paixão mais precoce da humanidade, o indivíduo que é capaz de estragar, com a forma como inclina o pescoço para fazer uma vénia ou retira o chapéu para um cumprimento, a atitude de cavalheiro que se espera de um homem da minha condição.

Por isso lhe confesso.


Confesso que, nos primeiros anos a seguir aos dez, fui como que um ente tácito, omisso, de reprodução assexuada, qual laranja da Baía. Apenas preocupado com a sobrevivência no meio líquido que recusa o peso da História, que é como quem diz no recreio de barro a minha cara de lorpa (“olha para aquela cara de lorpa”) e a minha altura (“tão crescidinho e tão anormal”) de um colégio só de rapazes colocaram no topo das prioridades a mera sobrevivência. Como num fim de mundo, era o fim da infância e o começo de uma pasta lamacenta de ideias, borbulhas e revoluções hormonais – não ideológicas, nunca ideológicas, só hormonais. No colégio, todas as manhãs eram submersas, senhor padre. E eu até acho que tive sorte por nunca ter sido violado pelos internos. Foram mais ou menos quatro anos de tareia dissimulada, e isso foi bom, senhor padre, porque nunca perdi a consciência, e, com o advento do “fight back” (ou será flight back?), eu, que nunca fui corajoso, fiquei dotado de todos os maus e vigorosos sentimentos com tracção às quatro patas, tal qual os meus agressores, só que agora já não era o cara de lorpa e anormal e crescidinho, era um bovídeo precoce que teria sido uma estrela se neozelandês, isso pode escrever, e, nessa altura, quatro anos depois de nunca mais ter pensado em miúdas a não ser nos verões, claro, os verões efémeros e falsos que vendem amor dentro das bisnagas bronzeadoras, quando o bully mais simpático do grupo me desferiu o centésimo pontapé nas canelas - sabendo que estava sob moratória, a saber, se me voltas a dar pontapés por cima destas feridas (quer dizer que, se houvessem sarado, lhos teria consentido outra vez), juro que te parto o focinho – e eu observei a ferida-sobre-ferida a sangrar, e eu vi a reflexão de mim nos vidros da porta de acesso à escadaria central do colégio, possuído e moreno, ao contrário de mole e branco, como soía acusarem-me nos anos precedentes, puxei o gordo do bully para mim e enfiei-lhe um soco, bastou um soco, na boca, que imediatamente rebentou num festival vermelho vivo que eu nunca tivera o privilégio de observar de fora, só de dentro, e o rapaz nem sequer reagiu, só chorou; era, na verdade, um cobarde, mas um cobarde fraco, com a convicção de um falso ascendente que cedia perante qualquer demonstração de força. Não era assim com os líderes dos gangues de bulliers que extorquiam de tudo um pouco à comunidade escolar, sendo que a mim, isso concedo, apenas me extorquiram a dignidade e a infância, nada mais, pelo que, poucos dias depois, quando, ciente dos meus direitos e dessa dignidade, não já da infância, tive de arrumar uma peça de roupa de um dos líderes nos cabides dos balneários de desporto escolar, ele ocupava cinco cabides e ficou a ocupar quatro para eu poder pendurar a minha roupa num, tive uma espera no fim da aula e os asas do Dzhamaldin, assim se chamava o líder, era de origem tchechena, mas de terceira geração, ate porque sempre actuou em todo o esplendor americano, prenderam-me as mãos e as pernas e o Dzhamaldin socou-me os testículos até eu desmaiar. Não houve discussão prévia nem ameaças, graças a deus, foi uma tareia limpa que me marcou para sempre. Quando recobrei os sentidos, senhor padre, estava determinado e sabia que aquele era o último dia em que estaria demasiado ocupado a sobreviver para poder dar atenção a raparigas e ter espaço para me apaixonar e ser humilhado – como eu sonhava ser humilhado por elas, pelas mais belas raparigas, cansado de ser humilhado por eles. Fui ao rabino que tratava da disciplina e fiz queixa formal. Ele não a reduziu a escrito e disse-me para resolver os meus problemas, como eu esperava. Eu assim fiz. Esperei pela hora do lanche, esperei que o Dzhamlaldin e os seus asas saíssem da aula a que não fui, por ter desmaiado, avisei-o antes que nunca mais me faria tal coisa, nem a mim nem a ninguém, e deixei-o estendido no chão. Foram só três murros seguidos. Depois alguns amigos agarraram-me. Foi melhor para o Dzhamaldin, para mim foi indiferente, creio que o teria assassinado ali mesmo, mas agarraram-me. Depois fui lanchar, ele e os asas, quando recuperaram, também, e acabou a minha existência assexuada. Para sempre.

Dizia-lhe ao princípio, senhor padre, que o quero para, pelo menos, mais uma confissão depois destas, aos sessenta, e há que aguentar-se, meu caro padre, pelas boas graças deste infiel. Aos noventa já não será preciso. Quem já leu esta série toda, principalmente "A Tese de um grande amor", sabe que aos noventa me confessarei a um amor de vida, não a um padre. Sendo passado, e estando no terço dessa idade, não tenho isso presente, claro que não tenho, mas desconfio. E confio que, em chegando aos noventa, não precisarei da religião, porque a terei superado ou ela terá acabado comigo ou com o mundo, e, se o mundo pós-existir a essa minha determinação de ter a equação resolvida, o que é muito improvável, eu saberei apresentar-me na forma pós-apocalítpica (o senhor padre sabe, melhor do que eu, que apocalipse é uma palavra grega que significa descoberta e não fim ou existência depois de tudo: kaliptó é coberto, apo é um prefixo de negação) que os homens já não terão presente nessa altura,  o olhos-nos-olhos, perante quem amei ou amarei. (O que é olhos-nos-olhos?, perguntarão as crianças desse tempo, tentando descobrir a cara do pai entre ecrãs)

Confesso que, dos catorze em diante, voltei a ver as mulheres como elas são e então, com todas as possibilidades da relação e da masturbação, me esplanei pelos campos primaveris de liberdade. Mas a relação assustava-me e a masturbação era um processo de culpa ainda sem a revelação da maturidade, onde é equilíbrio e relação, ou, dito de forma mais prosaica, equilíbrio de relações sãs, relativizando o sexo como apriorístico - o mundo precisa de um Havelock Ellis, outra vez, senhor padre, e o Woody Allen não conta, ou de rever o mito de Onã, que "desperdiçou o seu esperma na terra", e de perceber que o onanismo é, verdadeiramente, o coito interrompido e não a iluminação da masturbação como processo de contenção superior, sem inteligibilidade para os brutos mas clareza para os sábios. Confesso que me perdi de amores por todas as raparigas da equipa de voleibol do colégio, já de si tardias, porque o colégio só admitiu raparigas quando eu me aproximava dos quinze. E aí foram as sombras e os dias negros. Não das meninas do voleibol, que eram a luz, mas

confesso que tive a ilusão de amar uma mulher que se apresentava nos interstícios de todas as minhas inseguranças, que por ela mudei a minha califragia e nem isso lhe bastou como prova de amor, que por ela voltei a abdicar da minha honra, tal como quando me conformava com as tareias dos bulliers, e durante dois anos deixei de existir, o que perfaz quase seis anos de anulação no centro albar da sexualidade - oh, aquela aurora boreal dentro da minha boca de onze anos estava agora sobre o meu corpo -, e acabei o tirocínio nas formas de anti-amor com a determinação de lhe possuir apenas o corpo, já sem qualquer respeito por ela, e por isso peço que me aplique a mais exemplar penitência, senhor padre.

Não posso, disse o padre, ainda não posso, meu filho. Terá uma só penitência no final da confissão. Uma só ou nenhuma. Prossiga.

Confesso que tive amores de compensação. As gémeas de Venice Beach: resolvi apaixonar-me apenas por uma, e no fim do verão, no momento do beijo que o encerraria, ela teve um assomo de honestidade e confessou-me um compromisso prévio. Que a irmã estava livre, mas ela não. Foi o momento de maior devassa que vivi, senhor padre. Uma gémea oferecer a sua irmã idêntica como substituta e pensar que estava a honrar algum dos homens da equação. Ao menos foi honesta, dirá o senhor padre. Não. Mais honesto teria sido a lhaneza de um beijo que selava um verão e a memória de vida. Fui eu o culpado. Claro que fui eu o culpado. Devia ter desperdiçado o meu esperma na terra, como Onã.

Confesso que, durante uma semana, beijei uma mulher diferente todas as noites. E que cada beijo me soube, crescentemente, mais e mais, a terra, a pó, como se, pelo vazio e antes da morte, regressasse à minha própria fundação, como me estivesse a enterrar vivo, obviamente sozinho, porque elas eram mais e mais bonitas e eu sentia mais e mais pó nos lábios até um último beijo, que foi o deserto.

Confesso que, depois dos rituais de substituição todos, me apaixonei pela mulher com quem ainda hoje estou, conto agora uns treze anos e contarei a vida toda.

Nesse caso, meu filho, vou convidá-lo para um café e deixa a sua Ida, e o que mais houver, para um tomo IV da sua confissão, o que acha?

Toma-se bom café por estes quarteirões?

Não é que não tome, mas eu preferia levá-lo a um boteco numa esquina de Greenwich Village.

Greenwich? Não me diga que me vai levar ao boteco que o Hopper pintou no Nighthawks.

É esse mesmo, é por isso mesmo. E vamos a pé, se não se importar?

Isso não é exagerado, senhor padre?

O boteco ou a caminhada?

A caminhada.

Não. Nunca seria. Sabe como se faz o caminho. E bem precisa. Mas há aqui uma questão relevante que não me passou despercebida, mas passou aos seus leitores.

E qual seria ela, senhor padre?

A minha igreja não fica na 32nd, meu caro. Certamente indicou ao taxista a igreja, não a rua, ou já saberia.

Então? Estamos onde?

Na 37th,  meu caro. Na 37th.

São só cinco de diferença.

São cinco, sim, de número, mas também são cinco de horas e de caminho. Mas para o café é só meia, e dá-me o tomo IV pelo caminho, se não se importar.

Não me importo, mas abomino esta liberdade criativa totalmente em desuso, que anda entre a metaliteratura e o nonsense, senhor padre.

Não, é só café.

Café num lugar mítico. Uma coisa pagã, portanto.

É só café, Solomon, é só café.


PG-M 2015
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