2016-04-27

(o apuro das estações) da instalação da primavera


reparei a descer um caminho de barro entre campos que os animais
presos a um ponto fixo para pastar entregam todos
ao fim do dia um círculo perfeito
que subtraem ao campo
e pus-me a pensar que aqueles círculos que se vêem do espaço
podem não ter sido obra de civilizações extra-terrestres,
mas apenas de civilizações atadas a pontos fixos
sem liberdade a entregar círculos perfeitos
depois do almoço
e, para não me parecer tanto com o Eme Tavares,
tenho forçosamente de escrever que não foi só nisto que
reparei durante a instalação tardia
da primavera

embora eu tenha a certeza de que, se estivesse frio e chuva e mar
alteroso, não teria reparado nos animais a pastar,
eram cavalos, póneis, burros, um bode e
eu, sigam em frente, não há metáforas

aqui

eu próprio, com o dano do corpo e da vida na praia,
tinha marcado o início da primavera para domingo,
mas só desci o caminho a pé quando fui trabalhar,
agora eu vou trabalhar a pé todos os dias,
os sapatos ficam cheios de pó, os olhos
não, o povo estranha que o advogado
saia calçado e de pasta e passo,
quando o mundo anda todo descalço e de telefone
móvel nas patas e a correr, mesmo parados
dentro de carros ou de cabines
telefónicas que já não existem

a chorar

buzina-se menos nos invernos modernos
estar parado é bom, podemos ver os mails,
os likes, as declarações
amigáveis, sorrimos ao dia todo
sozinhos, temos saudades
de um olhar, talvez do
nosso próprio olhar, e depois,
nos funerais, fixamos o chão por
respeito, suplicamos o céu por
agonia

e a vida esvazia por
desventura

foi aflitivo descer o caminho de barro sem saber
nem querer saber
o nome das flores

e eu peço desculpa por não ser importante
de facto,
só abri este poema para fixar
os círculos perfeitos dos
seres imperfeitos
e explicar um detalhe da primavera:

à hora do almoço, porque o vento é
liso e o resto do silêncio quente,
já se ouvem os gritos abafados
dos miúdos no recreio da escola,
como os ouço da varanda sobre a praia
antes das sestas de verão

e essa indolência
essa inocência abafada e longínqua

é,
sempre foi,

toda a primavera que há
em mim


PG-M 2016


2016-04-11

este atraso da primavera


não me lembro de uma primavera tão atrasada a norte, já fui a sul
e vi-a lá curvada a pedir alimento, porém nas caixas
torácicas das mulheres e dos homens do norte
não está

não é tanto

o frio ou a chuva ou até
a temperatura, mas o
elemento; eu vivo
junto ao mar e pelo menos esse sinal,
de o mar continuar nervoso e agitado mesmo
em dias exultantes,
basta. o sol
não faz o verão,
a chuva não tem no corpo
o inverno e o corpo
não sobrevive sem
outonos

é uma operação matemática basilar dizer
que a primavera é o outono do inverno
e que o verão é o outono da primavera
e que o outono somos
nós
também já sabemos das nossas aulas de álgebra
que o algoritmo do amor perverte as estações

seria forçar o poema dizer que a primavera está atrasada porque toda a gente
vive com máquinas na mão e sob iluminação artificial entre a casa onde o
medo tem pausas e o carro onde transita entre estados de raiva e o trabalho
onde por vezes mirra, porque isso é assim de norte a sul e a primavera
só se atrasou a norte

é verdade que desligar tudo menos os olhos e os pêlos dos braços e
caminhar na rua faz sempre com que a essência do outono que somos
perverta as mesmas estações que o amor, porque o amor e o elemento
são o chão dos homens e das mulheres todas, mesmo dos frios
como invernos polares ou abrasadores como verões
tropicais

(estar no feminino o plural
de homens e mulheres não foi
lapso, mas porque chove a
intenção não apressa a
primavera)

este atraso da primavera, contudo,
mudar-me-á menos como pessoa
do que continuar a ler Sebald

e caminhar nas ruas com
o telemóvel desligado

é mais estranha a sensação de, trinta anos depois,
ter a mesma música como primeira da playlist,
cuja repetição envolvia, não um toque, mas a operação de
fast rewind e play, fast rewind e play, fast rewind e play,

ou voltar a um jogo oficial de voleibol

antes escrevesse um livro sem ninguém
onde em silêncio a escutasse chegar
e dissesse aos homens e mulheres
todas
que estar encerrado num beijo
é o agasalho certo

os lábios ligeiramente secos a mostrar a solidão
as línguas com o tempero da espera
as salivas mornas do adeus do
ano passado e depois os
círculos e semi-círculos
as elipses e as tangentes
dos beijos bem dados
e o tempo, o tempo longo,
o cheiro como as magnólias
a abdicar das folhas

pode já ser verão quando as bocas
descolarem

há abraços, sim, mas nem todos
com a consistência certa

os beijos não mentem
o mar também não
o vento às vezes
Sebald nunca

e a primavera a norte só se atrasa
de vez em quando


PG-M 2016
fonte da foto

2016-04-10

Frey e a memória daquele verão

Não é que me importe que a morte do Glenn Frey - não apenas o guitarrista dos Eagles, como vi por aí dito e escrito, mas um dos génios de um grupo genial, como são os Eagles - tenha ocorrido quase à sombra do silêncio, até porque não condeno o barulho que hoje se faz quando um grande - como David Bowie - morre. É assim mesmo, estamos no tempo em que todos nos podemos expressar e ser visíveis publicamente e, desde que não pensemos que o que dizemos é mais importante do que diz o vizinho do lado, desde que não disputemos o nosso protagonismo nem sejamos frívolos, acho muito bem que os grande se celebrem, forte e feio, à partida, já que raramente o são à chegada. Mas, dizia, não me importo que a morte do Glenn Frey tenha ocorrido quase em silêncio. Sou egoísta. Parece quase íntimo. Pois se o cultivo assim mesmo há tantos anos, porque haveria de morrer em histeria? Entre as muitas composições brilhantes de que foi autor, instrumentista e vocalista nos Eagles, devem achar estranho que anexe a esta celebração uma música menor, como Sexy Girl. Eu até concordo que é uma música sem uma qualidade supimpa, mas acontece que, se eu tivesse de me despedir do Glenn Frey, esta seria a banda sonora. Lembro-me perfeitamente: Corria o ano de 1985, eu estava na sala grande da casa dos meus pais, onde tínhamos uma aparelhagem de qualidade que eu estava proibido de utilizar, mas que utilizava todos os dias, desde que o meu pai não estivesse em casa. Às 14h, hora em que o Adelino Gonçalves arrancava com o power play da "Discoteca", na Rádio Comercial, eu estava sempre a postos com os dedos no pause do leitor de cassetes. Quando o Adelino se calava, soltava o botão e gravava. Eram cassetes e cassetes assim, com "misturas" quase psicadélicas. Imaginem então um dia de Verão na casa da praia de Francelos, a janela da sala aberta para o ar quente da rua onde, a cerca de cem metros, víamos deliciados passar as raparigas com as saídas de praia e as seiras com tolhas, cremes e lanches. Nesse preciso momento, as primas da Rua da Alegria, três belíssimas mulheres - uma com quase um metro e oitenta, uma com isso, outra com mais do que isso - acenam da rua e o Adelino Gonçalves fala da carreira a solo do Glenn Frey e da grande música do verão que naquele dia tinha a sua estreia na Comercial: e arranca o Sexy Girl. Não sei porque é que sempre a liguei mais à Cristina, que das três primas era a do meio. Talvez porque no meio esteja a virtude. E à notícia da morte do Glenn Frey, foi, claro, o sexy girl que ouvi na minha cabeça. She moved in next door to me, and she showed me the world. Então até já, Glenn. Para nos vingarmos, não está mal cultivar o irmão de Eagles, Don Henley, que lançou em 2015 um grandíssimo álbum: ouçam o "No, Thank You" e digam-me alguma coisa. Até lá, you are all sexy girls.
PG-M 2016

I am not to speak to you

"I am not to speak to you", stranger - Walt
Whitman. E o dia começara
com a Susana a postar que não ia ver o vídeo
de Natal que põe em imagens o síndrome dos
funerais, aquele do termos sempre tempo para
funerais e para dar ao polegar - que agora é
comunicar, não pedir boleia -, mas não para um
"desconfortável" café com aquelas coisas antigas
como olhares, toques, cheiros, até algum tédio e
desconforto, e logo a seguir a Maria João posta
este poema do Whitman que diz ao stranger que
lhe foi íntimo na memória e na solidão toda uma
vida:

I am not to speak to you

Ah, como duas boas amigas descarnam,
sem saber, meridianas,
a minha missão, que me foi íntima
na memória e na solidão toda uma
vida. 

Be afraid. Be very afraid. 


PG-M 2015

2016-04-09

Verdade. Truth. Mary. Cate. Nós.

Verdade.Truth. O que aqui escreverei não é sobre o que aqui escreverei. É mais amplo, mais meu, mais mundo. Talvez uma redenção. Cate Blanchett novamente deslumbrante. Não é só obrigatório para jornalistas. É para todos os que gostam de viver com verdade, mesmo que a verdade comporte riscos de nos pegarem fogo, de a frustração, os complexos, a vista limitada, nos arrastar para o lodo e nos mudar para sempre, não porque duvidemos de nós próprios, mas porque ficamos cansados e não queremos isso. Queremos paz e silêncio. Não seria um spoiler repetir aqui o momento mais marcante do filme, em termos de conteúdo e mensagem, mas prefiro que vejam e sintam directamente. É aquele em que ela fala da verdade e do barulho, dos factos e da aparência. É isso mesmo. Está bem: nunca gostei muito daquele da mulher de César, não basta ser honesto, temos de o parecer. Mas isso não é verdade, é habilidade. Se fores hábil toda a vida, serás canonizado. Se fores apenas tu, se amares e acolheres e seduzires e fores seduzido e te confessares, mesmo que respeites os teus princípios sagrados, não sairás incólume. Portanto, a vida ensina os verdadeiros a serem hábeis. Mas em que parte é que esse investimento na habilidade não vos soa a falso? A mim soa. Mas é assim mesmo. Hoje, para descredibilizarmos algo ou alguém, basta fazermos barulho. Em público ou em privado. Faça-se barulho e tudo e todos se apagam e pagam o preço que tiverem de pagar por serem inábeis. Com a jornalista cujo livro inspira este filme - e nele é retratada pela Cate -, Mary Mapes, conseguiram. Anularam-na para sempre. Verdade. Truth. Ainda assim redime vê-lo dito assim: basta fazer barulho para destruir a verdade e os verdadeiros, a honestidade e os honestos, o colo, o afecto, a luta, o sexo, o cheiro, a pele, o amor, o presente, o futuro. E até o passado, até o tempo.

PG-M 2016

2016-04-06

Granítico-poeto-murconhe


(sou eu)

.apenas.

Granítico-poeto-murconhe

(também se pode admitir a forma
 Granítico-poeta-murconhe

mas tem menos individualidade, sendo apenas respeitável como formação gramatical. A areia na barba e no lábio inferior não é relevante, é só verão; eu escolheria esta última forma para escrever na calçada e as pessoas calcarem, porque causaria menos estranheza e mais prazer a um colectivo. Temos de ter esse respeito pela sensibilidade média.
Ao formar a palavra nova - que sou eu, mas podem ser outros, portanto, não sou só eu - ambas são compostos não-sintagmáticos por coordenação, mas aquela primeira deformou-se em prol da própria personalidade do tripeiro apaixonado por livros e por escrever, podendo ser substantivo (se me tratarem um dia, como desejo, como "o" granítico-poeto-murconhe"), ou adjectivo, (se disserem que eu sou isso;), e deformou-se em derivação por sufixo zero do substantivo poeta (que também pode ser adjectivo), para o lado esquerdo e para o lado direito; esta gramática é carnal, feita e sentida em jorros, não tem nada de estruturalismo ou perdas de sangue até o corpo da frase ficar exangue, que é o que querem fazer à minha gramática verde-acinzentada (sou algo daltónico, não liguem) do Lindley Cintra e do Celso Cunha, que é linda e pela qual eu me apaixonei tardiamente; não me vou pronunciar sobre o que aconteceu tecnicamente à palavra "murconhe", porque essa não é nova, é de cá, está cá dentro, e nunca poderia ser murcão; nunca

nunca

Se acharam isto complicado, destrocem (no sentido intransitivo) e fiquem por favor apenas pela parte não-em-itálico.

PG-M 2016

2016-04-02

sinfonia os meus lábios queimados, o meu corpo ultrapassado e o fim da partícula-herberto-funcional


Já há muito tempo que não me fazia isto. Uma amiga um dia numa tarde numa hora
imprópria, quer dizer, essa amiga e eu estávamos na prática a viver as nossas vidas
com os amigos e os filhos e as mulheres e os homens em volta, estávamos na prática
com uma rotina de tédio de fim-de-semana e na verdade a
rede social em que subíamos e descíamos as primeiras escadas sendo
rigorosamente nada um ao outro era em si o núcleo desse tédio, eu disse
visceral, ela disse que era uma palavra odiosa, eu disse que a palavra nada
tinha de odioso, talvez ela quisesse dizer a ideia para que remetia, vísceras,
mas que mesmo assim frequenta a minha própria expressão, não poucas vezes

digo

estou de vísceras

na verdade não fazia isto há muito tempo, escrever para remendar o tempo e o espaço,
foram uns três meses de labaredas e nem por uma vez nesses três meses eu mergulhei em
mim próprio e fiz piscinas rompendo o líquido amniótico, como faço desde a barriga da
mãe, na verdade faço-o desde a barriga da avó, na verdade faço-o desde o princípio dos
tempos, como aliás fazemos todos, era a matéria negra e depois era a lava e depois,
subitamente,
o mar,
é mais ou menos um cliché que o mar tem praticamente a mesma constituição
química do líquido claro que envolve o feto durante a gestação, é uma balada,
toda a gravidez é uma balada com pelo menos uma alma em suspenso,
já ninguém discute, verdadeiramente, a dimensão etiológica dessa alma ou sequer a sua
existência em sangue, voltemos acima ou atrás, estamos de vísceras, somos vísceras desde
fetos, sejamos ou não viáveis, viremos bebés rosados ou abortos, somos isso, não tem mal
nenhum ser sensivelmente-violento num poema, ainda agora o Herberto dizia
coisas maravilhosas numa lira entre dois cornos,
o Herberto, a bem dizer, é uma rima fácil,
provavelmente vou ter de me inibir de usar o nome e alguns versos dele como me inibo
de fumar, embora eu goste muito de fumar e até esteja convicto de que um ou dois cigarros
não fazem mal e não me levariam de volta ao vício, a verdade é que os casos documentados
dos outros dizem que as excepções voltaram a ser regra,
e é por isso que, não havendo nada mais fácil do que impressionar citando Herberto ou mesmo
manietando-o em metaliteratura, vou ter de te dizer, Rocha, que vou deixar de usar Herberto com
esta transparência e, vá, já mencionei que tu, com a tua gargalhada que valia tanto quando
estavas vivo como vale agora que estás morto e me fazes uma falta do caralho, ouve,
não é uma falta do dia a dia, até porque éramos tão diferentes que não queríamos saber dos nossos dias, só de vez em quando soava o alerta e tu vinhas ter comigo ou eu ia ter contigo ou nos encontrávamos no El Corte Inglês de Gaia, onde chorámos de parte a parte,
ou isso ou em frente ao mar, mas aí não vou dizer onde, porque
eu cometi o erro de levar lá um fdp e agora aquilo está inquinado e, embora eu goste do cheiro
dos fdps mais molezinhos e até da textura das suéteres de malha muito grossas, tricotadas pelas avós santas desses diabos, que cheiram a perfume misturado com vida e gás metano, porque raramente são lavadas na máquina e à mão tem de se saber porque só para torcer cada uma é preciso uma tarde, ainda assim eu vou lá de vez em quando, sem que uma rotina me denuncie, mas tu dizias-me versos do Herberto com aquele enlevo de menino tripeiro, talvez porque precisasses que eu te aceitasse e soubesses que eu tinha a mania de que não era um best-seller e tu, coitado, eras

o poema já vai muito comprido
eu quero que o poema se foda
até porque chamar poema a isto
fará voltar nos túmulos os membros
vivos que são mesmo escritores,
e quando digo membros digo os
membros sexuais dos membros,
na verdade, se há algo de vibrante
nesses génios são os membros
sexuais, porque realmente muitos
festivais literários com pernoita e
sem controlo são um desafio à
sanidade e à ordem conjugal,
fazem eles bem, como sempre
fizeram os coelhos, eu também
queria, mas não sou capaz porque
sou um neovirgem imaturo
que se apaixona por tudo
o que mexe e tem forma
humana feminina
e sem querer estou
velho e já não
me enxergo


oh pá, oh páááááááá, na verdade não posso acabar o poema sem
trazer para dentro dele isto da natureza tripeira e da classe pura,
que desconsolado fico quando vejo nos olhos dela o brilho do orgulho
e ao mesmo tempo como ela gostava de me ver refinar como um
cavalheiro distinto que dispensasse absolutamente o calão para
vincar uma certa identidade, mas sempre vos digo que em momento
algum o menino inseguro e trágico que eu sempre fui sentiu que o calão
tripeiro fosse uma forma fácil de se afirmar ou uma bandeira
prostituta de uma certa forma de se ser livre
que virou popular no primeiro vinco do terceiro
milénio, eu acho que, como o Bocage,
devemos e podemos
(falo dos tripeiros)
devemos e podemos
não ter limites entre nós
mas ser distintos perante
mouros ou celtas
e sempre com a devida vénia

quem tem classe tem classe

na verdade, eu não queria escrever um poema,
mas este texto não era este texto sem respiração espacial,
então formo-o na cabeça e deformo-o na tela, como
qualquer pintor incompetente,

o que eu precisava mesmo era de ouvir outra vez os Kitty, Daisy and Lewis e sonhar
que ainda os vejo em Portugal, sendo que pressinto que serei acometido por um ou
dois desmaios e falarei, antes de desfalecer, como um tripeiro,
com os olhos molhados e os lábios mordidos e chupões no pescoço e
hálito a minis dizendo em todos os tons e densidades de todas as fases
de todos os sistemas termodinâmicos em equilíbrio nos sistemas fechados,
ou seja,
dizendo ortobárico e muito baixinho
tão bons!, tão bons!, grandessíssimos filhos
de uma grande puta, tão bons!, na verdade
eu não queria ter escrito nada disto

o leitor saiba que, cada vez que eu, PG-M,
quero voltar ao mundo como autor depois
de uma fase incicatrizável e sem encíclica
para meu governo, ou seja, cada vez que
eu me quero salvar

escrevo assim, com a playlist nos ouvidos
e sem dó
          
             só

de vísceras
e sinfonia

os meus lábios queimados, o meu corpo ultrapassado e o fim da
partícula-Herberto-funcional

PG-M 2999