2017-05-21

Leste

 Culpo o vento leste por esta inquietude, por esta sombra putrefacta de desventura, quando a minha única fatalidade é a felicidade.
Quando eu era menino e os dias de leste vinham, eu ajoelhava-me aflito no sofá junto à janela aberta da sala e respirava depressa, para não sufocar.
A minha mãe vinha e dizia Pedrinho como nunca mais ninguém disse e punha-me a mão na testa e dava-me um beijo e dizia
ca
lma.
Perguntava se eu queria uma compressa molhada para a testa e eu abanava a cabeça aflita a dizer que não, mas ela trazia na mesma, como nos trazem sempre as boas mulheres na aflição e na febre.
Estou como nesses dias, aflito, mas o peso do mundo e da minha função nele faz-me parecer calmo. Talvez notem apenas que hoje não falo, logo eu, que falo tanto, que nunca deixei de ser a criança que não se cala com o entusiasmo de estar viva.
Mas estou muito aflito e a culpa é do Leste.
Tenho de ver a minha mãe, porque posso, e continuar a sofrer pelos que não podem. Creio que só hoje entendi as consequências de não ter a mãe no mundo e a sorte de ainda a ter. Sem ela, as aflições tornar-se-iam infinitas. Sou bem capaz de chorar, quando a vir, mas quem observar esse encontro vai dizer
o filho da Mena está sempre a rir-se
e depois fica o mundo a aderir e a regredir, ficam uns a dizer que este sorriso é dor velada ou hipocrisia, outros que não, que sou mesmo um puro, e finalmente outros
simplesmente a amar-me

PG-M 2017

2017-05-13

Já ganhámos

 Nota prévia: este artigo foi escrito na manhã da vitória, mas, sinceramente, não era difícil prevê-la. O mundo inteiro apontava para ela. Junto no final o vídeo da semi-final do Eurofestival, com aquela que, das seis interpretações oficiais (3 domésticas e 3 Eurovisão, incluindo as da vitória) foi a minha preferida;

Sabem o que se usa nas redes sociais? Escrever assim amanhã, quando o Salvador encher as capas de todas as revistas e jornais, não por ser um doente cardíaco bissexual*, mas por ter ganho o Festival da Eurovisão 2017, em Kiev, "eu, no dia da semi-final doméstica, disse logo que este rapaz e esta música eram do outro mundo". Ou seja, é por minha causa que ele vai ganhar. Não é. Mas vai ganhar. Na verdade, já ganhou. E é curioso que a minha admiração tenha deixado de se dirigir ao compatriota e à bandeira portuguesa, que certamente serão uma parte do gozo, da emoção e do orgulho. A minha admiração dirige-se à universalidade e beleza da canção e à universalidade e singularidade (parece contradição, mas não é) do próprio Salvador. Creio, como se rezasse uma prece, no que vou dizer: a Luísa Sobral escreveu uma das melhores canções dos últimos séculos, não da década, não deste século, não deste e do anterior, mas de sempre. Tenho dito que é uma espécie de "Yesterday", mas é muito mais bonita. Não está em causa o mérito da Luísa, mas calhou. A conjugação das estrelas, do tempo, do momento, das redes sociais e a singularidade do intérprete fazem o resto. Também não acho que se devam preocupar com o legítimo direito ao cinismo e à fuga à unanimidade. Deixem-nos, coitados, porque já lhes basta sentirem-se sempre infelizes e não serem capazes de tomar o imenso banho de luz que esta canção dá cada vez que é cantada e não só pelo Salvador - eu já vi todas as sensibilidades rendidas, desde o bêbado de tasco até aos domésticos, dos agricultores às sopranos, mesmo os que, a princípio, aderiram a outras músicas e estranhavam o histrionismo ou a expressividade ou a singularidade do Salvador. Na verdade, essa "diferença" é só a marca do inérprete, é um factor mais na parte menor: a liderança de casas de apostas e a vitória num festival. Mas a canção está acima do Salvador e da Luísa, está já pelo mundo inteiro. A letra, em toda a sua simplicidade, agrega milhares de páginas de filósofos. Esta coisa de o amor ser tão elevado e intenso que chega para os dois e dispensar um deles de o sentir é, afinal, a história de séculos de mulheres, principalmente de mulheres, esses seres superiores. Não admira que tenha sido escrito por uma. Depois da semi-final doméstica, a canção já era trauteada nos carros a caminho do trabalho. Depois de ter ganho o Festival da Canção e ser o legítimo representante de Portugal na Eurovisão, começou a ser cantada, imitada, mimetizada, pela Europa toda, com Espanha
como a principal entusiasta, porque, afinal, com a excepção de "devagarinho" e "pelo", as palavras são quase iguais em castelhano. A orquestração é magnífica e fixa logo dois terços dos ouvintes na abertura. Depois de ter actuado na semi-final da Eurovisão, então, não há limites. A canção é pedida na abertura de bailes de casamento em todo o mundo, é cantada pelos ucranianos em
português - sim, pelos vistos quase todos a querem cantar no original, e, aqui sim, é um serviço maior à nossa língua -, há já várias covers de altíssima qualidade, da Austrália ao Japão, do Japão aos EUA, que mostram que o mérito é da própria canção, e eu tenho a certeza de que a Luísa fez um clássico de todas as eras, que será interpretado por todos os estilos musicais. O próprio Salvador se encarregou de gravar para um amigo uma versão em flamenco. Vi a irmã e o Salvador nos ensaios gerais e há duas coisas curiosas: o Salvador é melhor intérprete do que a irmã para esta versão - esta é a primeira. A segunda é que, mesmo que o Salvador nunca se repita, fruto da sua alma jazzística, a canção sai sempre bem. Portanto, a Luísa fez uma canção à prova de bala. Durante anos queixámo-nos de que nunca ganharíamos isto porque o sistema estava "feito" para ganharem os países com maior emigração - a nossa não é baixa, mas não é a maior. Na verdade, se essa perversão tem alguma verdade, é o único factor que nos pode tirar a vitória hoje. Mas eu creio que ganharemos e que já ganhámos.
Na verdade, é todo o mundo que ganha, porque é uma das melhores canções de sempre que ganha. Encerro com um pequeno apontamento: bonitos os portugueses, aí sim. Em quase todos os comentários que li no youtube às várias covers e produções caseiras estrangeiras deste "Amar pelos dois", há sempre palavras de gratidão de portugueses.
É aí que somos grandes: chamamos os outros para a nossa celebração. E muitos vêm. Mas, na verdade, o que Portugal hoje leva ao palco é o universo. Esta canção já é do universo. Era bonito que trouxesse o troféu que já ganhou e que será falado pelos séculos adeante.

* dado o elevado número de leitores deste post, o que eu já previa em caso de vitória, voltei a experimentar daquelas reacções azedas dos que tresleram o que aqui foi escrito. Eu abro este post a apontar o dedo àqueles para quem este nosso músico, que ficará na história por todo o sempre, foi apenas vida privada. A esses e aos tiques das redes sociais. Não estou a expressar uma opinião ou a estipular um facto. É evidente que não a tendência sexual do Salvador e a vida privada são apenas fait-divers para vender.  Não dele. Não da essência deste momento notável. Muito menos meus.

Nota póstuma: no dia da nossa primeira vitória na Eurovisão o Benfica foi tetracampeão pela primeira vez e o Papa Francisco I visitou Portugal para o centenário das aparições em Fátima. A cobertura televisiva de Fátima foi de grande qualidade. Quanto ao resto, isto foi o que eu escrevi uma hora depois da vitória: "Tenho pena que o Salvador não tenha ganho num ano em que o FCP fosse campeão, para eu mandar à merda certas televisões que anunciam em rodapé, sem tirar as imagens dos Aliados (seriam os Aliados) do ecrã, uma vitória histórica e emocionante de pelo menos três gerações de portugueses que viveram isto ano a ano e fracasso a fracasso, com músicos tão bons ou melhores, e não pensarem que era decesso de poder de encaixe. Não aceito um certo jornalismo e uma certa falta de visão. Eu estava num shopping com as televisões todas a dar a vitória no futebol e nenhuma sintonizada na RTP1, mas quando foi certa a nossa primeira vitória na Eurovisão foi um bruá belíssimo pelos pisos todos. Graças aos telemóveis e às apps que tanto criticamos. Eu sei que este país vai saber celebrar isto, mas tenho pena que não haja coragem nas televisões que não transmitiram o festival para afrontar esta miséria da cultura futebolística por um momento tão belo. Subitamente, como ele próprio disse, ganha o que importa, ganha o que é, não o que parece. Se o FCP tivesse sido campeão, eu queria lá saber. E que diferença faria uma noite de glória da música portuguesa em três semanas de festejos ciclicamente repetidos? Ah, eu sei. É o dinheiro dos anunciantes, os que pagam tudo, mesmo os empregos. Vendamos tudo ao desbarato, pois."

 

PG-M 2017
fontes das fotos 1 2 3

Perfeitos Conhecidos

Quem vê o trailer deste filme italiano de Paolo Genovese - que tem três argumentistas homens e uma mulher, que os deve ter combatido sem quartel -, tem logo duas ou três ideias-tipo: boa ideia, imperdível, dificilmente sairá da mediania. Mas sai, e bem, quase em direcção às estrelas. Quem vai acompanhando os meus escritos amadores sobre cinema, sabe pelo menos duas coisas: que só escrevo sobre filmes urgentes (nem que a urgência seja evitá-lo, o que não o caso deste) e que me assumo como cinféfilo de rua, o tipo que há trinta e tal anos vê pelo menos dois filmes por semana nas salas, em média (às vezes mais, na altura dos óscares, às vezes um). Façam as contas, são muitos milhares. Raramente vejo o pequeno cinema (portanto, em casa), porque prefiro concertos ao vivo, e na verdade o concerto ao vivo que um filme é vale quase sempre a pena e até é um vício barato.
O título português, mais uma vez infeliz, é "Amigos, amigos, telemóveis à parte". Gostava de justificar o "infeliz", porque até tenho respeito pelas pessoas que fazem este difícil trabalho de traduzir títulos (sendo que não lhe podem dar qualquer título, porque alguns já estão tomados por direitos de autor): é infeliz porque induz a leveza, o light, o frívolo, e o filme não é nada disso. O título italiano, traduzido à letra, "Perfeitos Desconhecidos", também é pior do que o deste post, modéstia à parte, porque creio que a abordagem de um parceiro lúcido é a de que já sabe que o seu próximo, o seu cônjuge, o seu amigo, o seu filho, têm os seus próprios segredos e que não saudável viver de esqueleto à mostra. Mas ainda há quem pense e defenda o contrário: este filme está do meu lado, e de forma paradigmática: o mais honesto entre todos é aquele que mais abertamente se declarou contra o tal jogo perigoso de colocar os telemóveis em cima da mesa e deixar que todos os convivas os devassem.

Este filme é urgente porque induz um debate - em princípio saudável, mas pode ser doentio, ficam já avisados. Este filme é urgente porque é sobre nós, hoje. Este filme é urgente porque faz rir de forma não desbragada. Este filme é urgente porque encerra muita beleza, e não, de certeza, o eclipse. Embora eu dispensasse a musiquinha de fundo quando o pai fala com a filha ao telefone, a meio do filme, essa cena é fortíssima e comovente. Este filme é urgente porque pode ser (não é) teatro puro e do melhor em qualquer parte do mundo, assim um bom encenador lhe pegue. Eu adorava vê-lo em palco. Pode mesmo ser de uma violência extrema para as nossas certezas e para as nossas culpas, mas é obrigatório. Claro. E com claridade.

PG-M 2017